quarta-feira, 19 de agosto de 2015

AOS QUE PERGUNTAM >> Carla Dias >>


Vento me leva, inquietude me engoda a alma, e se às vezes tenho vontade lancinante de sumir, assim, sumida, de desejo de colocar pés em Marte — ou no Suriname — é porque me falta repertório para estrear shows particulares aos órgãos competentes.

Não sei sambar obediência cega. Desapegar do respeito — o recebido e o concedido. Às vezes, parto de mim, porque preciso de trégua. Quando volto, inteira, com direito a todos os ângulos da minha benfazeja rotina de acolher silêncios... Antes de dizer o que — respiro fundo, depois vem o dito. Daí que abraço canções e preces. Deito-me com amores vãos e me enrosco em ciladas emocionais.

Às vezes, falta-me delicadeza ao engolir sapo. Descabelo-me, então vou ao cabeleireiro. Ele reclama que quase nunca apareço, enquanto sorri ao contar dinheiros; eu pronta para enfiar meus cabelos cuidadosamente ajeitadinhos debaixo do chuveiro, assim que pisar em casa. Então, chorar fascínios.

Às vezes, falta-me traquejo.

Como naqueles minutos — quase vinte e sete — que gastei anotando informações importantíssimas, definitivamente necessárias, completamente descartáveis logo que se desliga o telefone. Não adianta ligar novamente e exigir do atendente o seu tempo de volta, fornecendo-lhe o número pra lá de correto daquele protocolo pra lá de necessário. Perdeu-se... Nem mesmo foi em Málaga.

É bom saber que protocolos não funcionam debaixo d’água. Também não funcionam quando você necessita de amparo. Protocolos são pílulas para se domar quem anseia por resposta e reparos. É uma versão do unilateral.

Para falta de amparo: espargir-se. Para o excesso de zelo: rio Amazonas.

Há tempos em que desejo destrinchar cordilheiras, assim como beber de fontes, emocionar-me de campos e desertos. Preencher-me com esperas. Em outros, basta-me o quarto de dormir... O debaixo dos cobertores... Os sonhos inventados... Os livros de cabeceira.

Não raramente, coleciono pequenas loucuras, como aquela, a mais doce e menos dócil de todas. A que me leva pela mão por esse caminho acidentado das apostas. Quanto? Dez mil carinhos, duas mil mágoas, uma centelha de amor genuíno. E a brutalidade de tantos mil desapontamentos. Essa pequena loucura que se faz autora de grandes mudanças. Um dia ela ainda me levará para Calcutá, quiçá Vila Velha.

A senhora e seu sorriso contido pendurado em lábios secos e pálidos. Ela passa a mão pelos cabelos, tenta ajeitá-los, como se houvesse maneira de torná-los menos selvagens. “Só lhe fiz uma pergunta para saber mais a seu respeito, para analisar se você está apta à vaga oferecida”.

Ela repete a pergunta da qual dependerá se sim ou se não, se eu sirvo ou não para o trabalho oferecido.

Quem é você?

Perdoe-me, mas nunca lhe disseram? Andar por aí a fazer tal pergunta é como se colocar à disposição para receber resposta que nem sempre cabe em relatórios. Respostas que podem ser muito mais longas e complexas, porque não há quem consiga respondê-la sem enveredar por todos os cantos de si.

Conto a ela porque estou aqui, ofereço-lhe informações que constam na minha ficha. Falo sobre a importância de conseguir um emprego, da funcionária dedicada que sempre fui e as experiências que acumulei, sobre as buscas que pontuam minha existência profissional. Enquanto isso, dentro de mim eu ainda discorro sobre a resposta a tal pergunta.

Quem eu sou?

Sou das que, se pudesse, iria com o vento até chegar ao Saara. No deserto, plantaria meus medos e os deixaria por lá, até se tornarem cactos. Até darem flores. Até se tornarem oásis.


Imagem © Richard Diebenkorn

carladias.com



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10 comentários:

Zoraya disse...

Carla, na boa. Essa foi uma das MELHORES crônicas q vc já escreveu. E se considerarmos q vc escreve sempre bem, isso não é de pouca monta não. Obrigada pelo derramar-se para nós.

Carla Dias disse...

Zoraya... Que bom que você gostou. Confesso que foi uma das que mais gostei de escrever. Beijos.

Eduardo Loureiro Jr. disse...

É, Carla...
Perguntinha que faz a gente viajar...

Carla Dias disse...

Pois é, Eduardo...

Analu Faria disse...

Que lindeza!!!

Analu Faria disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Carla Dias disse...

Analu... Que bom que gostou :)

michelle araujo disse...

Fui longe....
Um presente para quem lê.

michelle araujo disse...

Fui longe....
Um presente para quem lê.

Carla Dias disse...

Michelle... Um presente para mim é você dedicar um pouco do seu tempo as minhas palavras. Obrigada!