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Mostrando postagens de 2022

O PAVÃO AZUL >> Sergio Geia

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  Domingo de manhã. Cris, minha cunhada, expunha suas peças de artesanato na praça viva. Após anos sem nos encontrar por conta da pandemia, a conversa rolava solta, era suave e fazia bem. De repente, avistei sobre a bancada de cimento onde ela expunha, o delicado pavão azul, símbolo do artesanato de Taubaté, e símbolo do artesanato paulista, ratificado por um concurso da SUTACO, em 1979.  E foi assim, pela segunda vez, que o pavão azul me chamou.  Explico.  Era um evento que acontecia na Avenida do Povo. A Academia Taubateana de Letras expunha a obra dos acadêmicos, eu trabalhei para o estande da Academia. Ao concluir o meu horário e ser rendido por outro acadêmico, fui dar uma olhada nas exposições da feira, na praça de alimentação, nos food trucks . Na barraquinha das figureiras, avistei dezenas de pavões, e não tive dúvidas: comprei dois.  A arte é delicada e única. O tom de azul utilizado é especial, pintado com pó xadrez azul ultramar. Utilizando-se de técnicas criadas pela figur

MIMETISMO >> Paulo Meireles Barguil

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  Era pouco antes das 08h00.  No caminho da sala de aula, encontrei-a. Estivesse eu mais distraído, teria pisado nela. Permiti-me parar e contemplar a sua beleza. Ela, tímida e prevenida, logo achou um esconderijo. Esperei, pacientemente, que ela saísse e me possibilitasse eternizar o encontro.  Cada animal se protege como sabe e pode dos perigos. Ela usa o mimetismo. Silenciosamente, ela me indagou: "Até quando você se ocultará?".  Alegando que eu estava atrasado para a aula que iria ministrar, saí sem respondê-la, mas, antes, agradeci pelo epifânico encontro. E você, leitor(a), qual é a sua camuflagem preferida? [Fortaleza – Ceará] [Foto de minha autoria. 20 de maio de 2022]

O ABREVIADOR >> Carla Dias

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A idade ele não abreviou, ainda assim, acredita que ela se antecedeu por conta, que pulou etapas, engoliu parte de sua história. Não que seja um reclamador contumaz do caminho natural da vida. Não teme nem se apega ao que a maioria lamenta no envelhecer. Na verdade, sente-se curioso sobre como será a pessoa que se tornará ao ver seu corpo se negar a executar alguma tarefa, inclusive interna. Lerá mais livros de ficção? Finalmente aprenderá a nadar e mergulhará, considerando limites impostos pelo corpo, no rio lá do sítio? Relaxará a ponto de sorrir só porque o pôr do sol lhe parece o mais espetacular que já viu? O Abreviador é um indivíduo indispensável. Não tê-lo à disposição seria o mesmo que condenar as pessoas a uma eterna disputa sobre o que não tem importância, a gastar tempo valioso em conflitos, sem justificativa.  Antes dos Abreviadores surgirem, as intervenções se tornaram donas da rotina do mundo. Não havia juiz, terapeuta, líder religioso ou antidepressivo que amenizasse si

E AGORA? - final >> Albir José Inácio da Silva

  (Continuação de 02/05/2022)   O REVERENDO   Somos ungidos, somos humanos, temos direito de errar. Mas confesso que ando preocupado com o juízo final. Vocês acham que teremos problemas em explicar para Jesus o apoio a defensores e praticantes de tortura?   Não bastassem aquelas preocupações espirituais, fui acometido por uma tosse que me sacudia o corpo e fazia guinchar a respiração. Melhorava com doses duplas de xarope antialérgico, mas recomeçava com a lembrança de que eu havia sabotado orgulhosamente a vacina e me entupido de cloroquina. Às quatro da madrugada apaguei de cansaço e overdose de xarope.     Luzes azuladas agrediram meus olhos vermelhos da tosse. Rolos de nuvens dificultavam a visão, mas eu ouvia hinos de um coral. Estava em choque, mas pelo menos não estava no inferno. Era um julgamento no clima do filme O Auto da Compadecida, com diferenças boas e más.   O acusador era o mesmo, vermelho, com chifres e rabo de seta. O advogado era Jesus, felizmente

ANGÚSTIA >> Sandra Modesto

  Gostava da calmaria antes de tudo se perder Do gesto suave ás vezes sem hora marcada Sem medo Mesmo olhando o luar sobre nossas cabeças encostadas e ofegantes de amor Gostava quando o silêncio não era o fim E nessa vida repentina, choro, velas, insônias. Nem o café é doce Nem o cheiro é vivo A gente cruza o passado e o agora Entende que o coração abandona o barco Sem leme, sem poemas bonitos. O peito abafado A brutalidade dos dias O ano catando a cantoria perdida, naquela emoção de que tudo vai diminuir. Afinal, são mais de três anos tramados pra o país acabar. Desde o fatídico janeiro de dois mil e dezenove. Houve momentos de desespero, choros, exaustão. Onde foi que nos perdemos e porque perdemos tanto? A angústia de cada dia A angústia virando a doença emocional nessa dança brasileira de lutar contra o tempo Nos arranjos e perrengues, lágrimas melando o rosto enrugado ainda que essa ruga não seja protagonista. Mas é uma ruga, é uma coluna em desvio no meio do cais sem rumo. É uma

O CÃO E O ESPANTALHO 2ª parte >> Zoraya Cesar

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Eu não sabia o que estava acontecendo, mas sabia uma coisa: não podia permitir que aquele cachorro dos infernos cavasse debaixo do espantalho.  (Estão ouvindo? Olha ele ganindo de novo, o desinfeliz)   ------------------------------ Tomei uma decisão que alguns podem achar radical, mas, para mim, perfeitamente normal. Coloquei veneno em alguns bolos de carne e espalhei em volta do espantalho. O cheiro estava tão bom que eu mesmo quase comi um. Agora aquele cachorro infeliz ia aprender a não mexer nos meus segredos. Nessa noite nem o cachorro nem a velha bruxa desdentada deram o ar de sua desgraça – nada de uivos ou incensos fedorentos. Mas a filha, aquela desgrenhada, montou uma fogueira no quintal delas, e pendurou um caldeirão velho e descascado. Na certa, mais uma das quinquilharias que o marido comerciava. Dormi bem pela primeira vez desde que eles chegaram. Sonhei que o cachorro estertorava em agonia depois de ter comido as bolas de carne. Foi um sonho bom. Até a hora em qu

DIAS MELHORES >> whisner fraga

 sou um paranoico irremediável e nem desejo tratamento aos trinta e cinco, talvez um pouco mais, do segundo tempo e a pandemia aguçou isso, uma pandemia que eu acabei achando infinita e ainda não tenho certeza se estava certo ou não: é duro retornar, duríssimo e, quando uso o termo “retornar” é algo mais ou menos como ir ao supermercado, farmácia, pet shop, correios, rotineiramente e, pior: sem máscara, melhor: os outros sem máscara, porque ainda não me atrevi a compartilhar qualquer recinto fechado ou aberto com qualquer pessoa se eu não estiver usando o equipamento, mas não é só isso me incomodando não, é mais: é quando percebo uma certa prudência para falar do ocorrido, das quase setecentas mil mortes, das sequelas conhecidas e ignoradas, é como se o trauma fosse tal que o melhor fosse empurrar tudo pra debaixo do tapete, essa capacidade de cavalo de pau da vida, de dar a volta (não digo por cima) completamente, de ignorar uma doença pelo bem-estar mental (longe de minimizar a impor

PERFORMANCE >> Carla Dias

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A roupa sob medida não atende à medida de seu corpo, aperta-lhe e sufoca os movimentos. O chapéu, para finalizar, é detalhe importante , o assistente designado comunica, hábil em evitar que olhares se encontrem. Não sabe quando foi a última vez que alguém olhou para ele. Na verdade, durações chegam nubladas à sua percepção. O barulho da máquina avisa que é hora de adequar a aparência. O assistente pede ao seu assistente que ajude com o corte. Ele acredita que precisa de ajuda, não importa quão simples seja tarefa a ser executada. Vê seus cabelos caídos no chão e se emociona. Não sabe dizer quando foi a última vez que olhou para eles. O assistente do assistente chacoalha a máquina, ele sabe porque reconhece o barulho. Já o escutou quando não era ele sentado naquela cadeira. Acata à ordem não verbalizada para que pare de mexer a cabeça. Pensa em quando eram três dividindo um cômodo. Cabia tanta vida naquele lugar, apesar de viverem em um espaço limitador de caminhadas. Então, o mais velh

O MENINO DA MEIA PRETA >> Sergio Geia

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  Ganhei uma meia preta. Uma não. Na verdade, três, três pares de meias, para a minha alegria, todas pretas. É que eu só tinha meias azuis. Sonhava com meias pretas.  Meia comum. Segundo os especialistas, meia social masculina, de modelagem clássica com cano longo, confeccionada em algodão, poliamida, elastano e elastodieno. Segundo o povo, meia fininha que homem, principalmente os antigos, usa quando veste roupa social e sapatos clássicos, como um Oxford, por exemplo.  A alegria foi tanta, mas tanta, que logo tratei de entrar em meu calção de nylon branco, de vestir a minha camisa do Palmeiras com o número 7 nas costas, pegar o meu kichute, tudo para estrear a beleza da minha meia preta que acabara de ganhar.  Saí à rua com a bola na mão, e logo vi Sandrão, Banana, Cabeção, Bertinho e Veludo sentados na calçada batendo figurinha. Assim que me viram paramentado e com a bola na mão, já começaram a se levantar, sabedores do que estava para acontecer.  — Timinho? — alguém perguntou.  E l

SAGRADO INFINITO >> Paulo Meireles Barguil

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  Palavras são inúteis para descrevê-lo. Feliz é quem o contempla e nele mergulha, sem pressa de emergir. Seja no céu estrelado, no mar ondulado, no voo do pássaro, no sono de um bebê ou diante do espelho. [Sala Infinito da Biodiversidade,  Museu da Natureza , Coronel José Dias – Piauí] [Foto de minha autoria. 12 de março de 2022]

SOL SOMBRIO: OS MORTOS NÃO MORDEM - PARTE V >>>>Nádia Coldebella

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A noite já guardava seu manto de estrelas, subjugada pelos primeiros raios de sol, que, em laranja e vermelho, faziam do céu uma gigantesca aquarela que logo estaria manchada de uma infindável paleta de tons, que pouco a pouco, transmutar-se-ia em azul índigo profundo para aquele amanhecer.  No pico da montanha onde sentara-se, Morus poderia ter uma visão privilegiada da pintura que manchava a grande tela celeste se não estivesse alheio a qualquer coisa que não fosse a própria dor.  Estava de pernas encolhidas e as abraçava fortemente.  Abaixara a cabeça, apoiando-a sobre os joelhos.  Sua mente contemplava o desfile dos mortos e era por cada um que lamentava: o irmão ajoelhado, que cortou a própria  garganta, não se sabe se por horror, desespero ou fagulha de esperança; a mulher cinzenta, elegante, audaz e cortada ao meio... Tantos, homens e mulheres, de lugares e épocas, todos haviam juntado-se ao exército daqueles que emudecem no túmulo. No entanto, para nenhum dos mortos eram aquela

NESSA EU NÃO CAÍ >> Clara Braga

Acreditar em boatos ou lendas urbanas faz parte da vida. Eu sempre fui mais de acreditar nas coisas do que de duvidar delas. Já achei que pasta de dente era boa para queimadura. Fiquei um tanto intrigada quando soube que um raio cai sim duas vezes no mesmo lugar, até porque, parando para pensar bem, por que não cairia? Achei estranho, mas acreditei na grávida de Taubaté. Achei que o Bolsonaro nas eleições de 2018 era apenas uma piada. Já fui da turma que achou que a Courtney Love tinha matado o Kurt Coubain e a Yoko Ono tinha acabado com os Beatles, até entender a complexidade de tudo que está por trás disso. Eu realmente achava que dava para ver a muralha da China do espaço. Já engoli chiclete e fiquei super preocupada, pois acreditei quando me disseram que nosso organismo não digeria chiclete, e agora ia ficar com aquele grude dentro do meu corpo. Já tive receio de comer manga com leite e, por via das dúvidas, melhor não se aventurar no mentos com coca-cola. Tenho medo de mariposas a

E AGORA? - quinta parte >> Albir José Inácio da Silva

  (Continuação de 18/04/2022)   O REVERENDO   E para maior regozijo temos nesta jornada a parceria infalível dos militares. A cruz e a espada juntas sempre fizeram sucesso. Basta lembrar os valentes cruzados, levando a verdade, a salvação e o amor cristão pelo mundo afora.   Nossos irmãos das armas são exemplos de honestidade. Vejam o general na saúde, mais que um ministro, a competência de farda! Pois bem, caminhamos juntos, assumindo os postos chaves da administração. Uma revolução silenciosa rumo à ordem, ao progresso e à fé!   É claro que isso incomodava Satanás. Havia resistências, interpretações românticas dos textos sagrados que impediam as pessoas de prosperar.   Distorções que chegavam até a apontar tendências comunistas em Jesus Cristo.   Mas o povo estava conosco. O paraíso era para depois, agora todos queriam riqueza e ostentação e era pra isso investiam na obra, mesmo com sacrifício. A prosperidade é pessoal e depende do esforço de cada um, é a meritocr

CHEIRO DE MÃE >> Sandra Modesto

  Dizem que mãe tem cheiro. De macarronada, de feijoada, de galinhada, de avental sujo de ovo, e por aí vai. Eu não sei de nada. Minha mãe não gostava de cozinhar, mas cozinhava. Que chá de canela era aquele, mãe? Quente pela manhã. Gelado ao entardecer. A arte culinária dominada por minha mãe. Eu não domino. Tentativas desistentes. Esse cheiro de chá de canela está histórico na minha memória. E o perfume da minha mãe? De alfazema. Sim. Jamais vou esquecer. Um frasco grande com estampas da planta, que era só abrir. Passar nas mãos, e dá licença, que eu passava a minha lavanda no corpo inteiro, até abaixo do meu umbigo, espalhando entre minhas coxas grossas. Perto do meu ponto de prazer. Atualmente, há no mercado, diversos tipos de perfumes com um monte de aromas. .  Mas eu só gostaria de sentir hoje , o cheiro de alfazema que minha mãe comprava, colocava o frasco na penteadeira. A vida era tocada. Havia algum som. Havia... Tanta dor espalhada no meio do caminho.  Eu querendo minha Alfa

O CÃO E O ESPANTALHO 1ª parte >> Zoraya Cesar

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Sei que estou sendo seguido. Sei que algo está perto de mim. Não vejo nada, mas eu simplesmente sei.   Tudo começou com aquele abominável cachorro pulguento. Ou melhor, antes. Começou antes, quando aquela gente estranha se mudou para a vizinhança. Não tenho nada contra gente estranha que não tenha também contra gente comum. Os vizinhos não gostam de passar na frente da minha casa, meus colegas de trabalho me olham ressabiados e não me chamam para as festas. Mantenho a casa sempre fechada, me visto de preto e ando pelo quintal jogando sal, para afastar os curiosos. Funciona. Todos, de certa maneira, acham que lido com magia negra. Claro que não tenho essas crendices, mas gosto que pensem assim. Mantenho um espantalho horrendo no quintal, mais assustador que a face de Belzebu. (Vocês estão ouvindo isso? Esse som, como se alguém estivesse batendo na janela?).  Mas deixem-me contar do início. Eles chegaram num automóvel que era uma verdadeira carroça, todo esbodegado, parecia que tinha sid

NA SALA DE ESTAR >> Carla Dias

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O movimento silencia em seu corpo. Desliga-se com as vozes que desaparecem no corredor, entre declarações de afeto e revelação de insatisfações. Seus dedos se agarram ao carpete mais antigo que ele. Lembra-se que ali se deitou muitas vezes para dormir, ainda menino, assistindo desenhos para entretenimento de quem tem de crescer para deixar a sala de estar. Nasceu com a seriedade que os desenhos não conseguem minar. Permitiu que tentassem. Insistiu que o fizessem. Dele nunca levaram um sorriso ou conquistaram seu apreço por personagem favorito. Queria experimentar a coragem dos que se movimentam em direção ao imprevisível. Eles têm o olhar desafiador que antecede à largada. Pena que ele se modifica durante o caminho. Já viu o de alguns embaçarem. Aprecia quando aquele olhar insiste em mostrar aos seus que ainda há chance de avistar a linha de chegada. Olhar também comete enganos, insiste no erro, desvia dos fatos. É apenas um covarde, enfiado em seu pijama, ancorando sua tristeza na sal

Alfonsina Salomão está de férias

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BOLERO >> Sergio Geia

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  Já contei para vocês. Não. Minto. Eu não contei. Mas vocês já perceberam, claro que perceberam, esses momentos estão presentes em muitas de minhas crônicas, difícil não notar. E mais uma vez volto a eles.  Prazer superlativo, taí a lógica do hábito. Logo pela manhã, abrir a sacada, sentar no sofá da sala, respirar, sem pressa, sem compromissos, ligar o som, ouvir Night And Day com Diana Krall, sentir o vento fino a entrar pela sacada, pegar um Rubem Braga na estante, ou um Caio Fernando Abreu, ler uma crônica, talvez duas.  Faço isso aos sábados e domingos, dias em que tenho tempo. Já li umas quatro vezes as 200 crônicas escolhidas do Rubem. Já li todas as crônicas publicadas em livro do Caio, outras tantas em jornais, e é sempre bom encontrar textos novos. Viver um pouco a intimidade do cronista, a sua varanda, a areia da praia, aquele almoço mineiro, ou mesmo a noite iluminada de Paris ou Londres, a lua quadrada, o fim de noite em um boteco do Rio.  Ultimamente, além do Rubem, do C