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Mostrando postagens de Outubro, 2008

"continue procurando" >> Leonardo Marona

não está nas salas de aula, ou nos bares de arredores. não está no bolso do poeta, ou na outra cor do camaleão. não está nas bochechas vermelhas, ou na vergonha do beijo traído pelas varejeiras da paixão. não está nas luzes do sucesso imediato – inanimado – anonimato, ou na vala do esquecimento saudável por pontos de audiência.
não está em gravatas coloridas sob encomenda, ou em calças milimetricamente rasgadas para quem quiser acreditar em fadas, feitas com trapos do que sobrou da bandeira. não está nos salões lotados de dança e fumaça e morte cronometrada em sorrisos felizes mais fáceis do que admitir, ou na azeitona do copo de martini seco do velho e pobre cantor de tango que esqueceu a dentadura em casa mas continua mais elegante do que você e eu.
não está no mais novo gênio do último momento, que passou e terminou sem que ele mesmo soubesse, porque nunca soube de fato, muito preocupado com o corte de cabelo de sua mais nova criação. não está nos versos sobre ondas preguiçosas, ou n…

O Alfaiate >> Ana Coutinho

Me deparei outro dia com a imagem acima, e tive um instante de susto. Eu sabia da história, mas nunca tinha me dado conta dela. Eu sabia que um homem, um humilde alfaiate austríaco em 1919, achou que seria capaz de voar e criou o seu próprio aparato para isso. Vestiu-se, como quem veste seu melhor terno e foi para o alto da Torre Eiffel. Subiu a torre, cheio de coragem e força, chegou ao topo, olhou para baixo, titubeou, respirou, pensou, andou um pouquinho para o lado, talvez até tenha cogitado desistir, mas, quem sabe pela multidão que o assistia lá de baixo, ou quem sabe pela própria fé, inventou de não desistir e saltou. Saltou do alto da torre Eiffel achando que iria voar. Ele acreditou, piamente, que iria pairar sobre aqueles que o assistiam, deve ter se imaginando voando, batendo os braços tal qual um pássaro, enquanto a platéia o aplaudiria.

Ah, quanta fé... Quanta coragem e — ao mesmo tempo — quanta ingenuidade. É quase uma criança o senhor alfaiate. Só a infância e a paixão n…

UM BEIJO ROUBADO >> Carla Dias >>

Ao contrário do que muitos pensam, a sutileza tem uma força extraordinária. Não é sinônimo de fragilidade, de quebranto; não idolatra medos ou apatias. Valer-se da sutileza requer habilidade para resguardar importâncias, protegê-las da vulgaridade.

A sutileza transgride o imperativo, mas nem por isso deixa de mostrar a que veio. É quase uma forma de arte... De se atrever a experimentá-la.

Gosto de filmes sutis, onde roteirista, diretor e atores conseguem trançar acontecimentos arrebatadores, dolentes, extasiantes, magnânimos, através de um olhar embebido por sutileza. Como se fosse possível observar sentimentos com a proximidade de quem cochicha segredos nos ouvidos dos outros. De quem os escuta, conhece e protege.

Acho que por isso “Um Beijo Roubado” (My Blueberry Nights) é um dos que mais me emocionaram no que se refere ao conjunto da obra: fotografia, interpretação, direção, roteiro e trilha sonora. A princípio, eu quis assisti-lo por ter Norah Jones no papel principal. Adoro a música…

MAIS DOS MESMOS >> Claudia Letti

Há muito que li — ou ouvi — em algum lugar sobre uma pesquisa que apontava a preferência infantil por rever incontáveis vezes os mesmos filmes ou desenhos animados. As novidades nesse mercado, portanto, não são tão importantes assim, se a pesquisa realmente foi fiel ao perfil das crianças mundo afora. Se a mesma pesquisa fosse feita para adultos, talvez nos surpreendêssemos com as poucas variantes de hábitos da infância para a idade adulta. Nós pedimos por novidades, mas gostamos dos repetecos, reinventamos novas maneiras para fazer as mesmas coisas e compramos dvd's de nossos filmes e shows preferidos. Defendemos nossos ídolos musicais, comprando e cantando seus trabalhos, mesmo que sejam apenas mais do mesmo. As mudanças na idade adulta vão se fazendo num crescendo e, mesmo quando é sempre, é sempre devagar. Ansiamos pelo novo mas, nos agarramos no que nos é conhecido, seguro e — por que não dizer? — convencional.

Esta semana, devorei "Vale Tudo – O Som e a Fúria de Tim Maia

O DOCE SABOR DA DERROTA >> Albir José Inácio da Silva

Sou um perdedor de eleições. Mesmo sem nunca ter me candidatado, vivo apanhando das urnas. Com raras e importantes exceções, meus candidatos sempre naufragam. Tenho amargado muitos “day after” eleitorais.

Quando não nos era permitido votar, acompanhei muitas vezes as votações do nefando “colégio eleitoral”, sentindo antecipadamente o sabor da derrota, já que sabíamos que o general da vez seria eleito.

Restabelecido o direito ao voto, as forças conservadoras têm imposto, principalmente nas eleições locais, uma política que impede o desenvolvimento, mantendo este país pelo menos 20 anos atrás de nações que, miseráveis até o fim do século passado, deram um alto em direção ao futuro.

Cada derrota das forças progressivas significa 4 anos de manutenção do “status quo”. E quatro anos é muito tempo, se considerarmos que a vida não tem assim tantas vezes quatro.

Mas, passadas a frustração e a ressaca, como canta Milton Nascimento, renova-se a esperança. Esperança de avanço, que nem chega a ser es…

VÁ, DOR! >> Eduardo Loureiro Jr.

Escrever não o que está sendo, mas o que há de vir... Como quem descreve o sonho antes de dormir. Feito quem planeja instantes sem planos de os cumprir.

Pouco tão me falta. Eu padeço é de raros excessos.

O corpo é corda — levemente tensa — de instrumento. Alguém que toca. O corpo que dança não é o que dança, é o que é tocado, e junto toca. Existe o silêncio do antes, o impacto do momento e a vibração do depois. Silêncio novamente.

Diz o sal:
— Vá, dor!
E a dor se vai em salgada obediência.

O bem é tão grande que envolve o mal em suas pequenezas e o faz girar: rodopios de dança.

Este mundo está levitando. A música está tirando nossos pés do chão. A alegria nos assombra feito um fantasminha. Brincadeira de criança: vida, tempo, som.

De vez em quando, levamos a sério. Crises, desastres, assassinatos, violações. A vida é tão amedrontadora quanto um teatro de assombrações.

Eu quero contar uma história, a nossa. Simples e tocante feito a que ouvi ontem...

Um homem pobre em Buenos Aires. O filho bras…

IMAGENS E ELEIÇÃO [Ana Gonzalez]

Quem sabe o que passa na cabeça dos eleitores no dia das eleições? Alguns levam a sério a responsabilidade de votar. Outros pensam mais nos candidatos que vão perder seu voto; outros ainda pensam na proposta útil para o seu bairro. Há aqueles que só vão cumprir a obrigação e os que votam branco ou nulo. Mas, na verdade, tudo isso faz esse evento.

Eleições são assim. Uma diversidade que é a cara da democracia. Bem ou mal é essa que temos no momento. Já vivemos períodos de história em que ela foi menos presente. Os escravos de séculos passados que o digam. Tá bom, mudou pouco. Mas, é assim que funciona. O crescimento de um país e o desenvolvimento de suas instituições andam devagar. Algumas vezes, devagar demais. Seja como for, eleições são sempre uma possibilidade de mudança, apesar de toda a frustração e desânimo com a classe política. E pensar nisso acorda em mim a lembrança de uma foto.

Certa vez, recortei de um jornal uma imagem que trazia uma moça magra, de cabelos escuros,um tan…

“amor é bicho sem teto e dor é única morada, não cabe no coração” >> Leonardo Marona

Talvez que o poeta seja um pedaço em sangue de cada lugar, sempre à deriva a constante separação após o encantamento, o ato que desmembra e que prejulga o cadafalso, e cobre a cabeça com o capuz de prata.

Talvez que ao poeta sejam deixados os restos da carne utilizada, poeira na estrada de quem foi abismo, uma sutil abnegação dos termos como são dados, pela incrível vontade de permanecer em busca do cálice hipotético.

Talvez que ao poeta reste apenas um tanto de pele sob os pés atados, uma delicadeza do rosto retorcido em chamas, algo nos olhos que brilha feio como a última aurora de um condenado à morte, a testa protuberante.

Talvez seja preciso reconhecer sua condição de humilhado da cabeça baixa, anjo libertador pela moral adquirida do não saber julgar, apenas se deixar absorver como plâncton, guelra sem fôlego na fusão do espaço.

Talvez que justamente na improbabilidade de seus atos, na constante mudança de estação, esteja o toque frágil de uma alma fugidia, que nega o amor e pede per…

DEPOIS DA LIÇÃO >> Ana Coutinho

Nas minhas lembranças mais antigas existe esse período doloroso que as crianças atuais também conhecem: a lição de casa. Ela sempre foi um tormento para mim. Quando eu terminava de almoçar, minha mãe me mandava ir até o quarto, e eu só poderia sair de lá quando completasse a fatídica lição de casa. Era ela contra mim. Papéis e mais papéis cheios de números e perguntas, frente a frente com uma menina que só queria ir brincar no térreo. Mas não podia. Não antes da lição. Essa era a minha multa, o meu pedágio, o preço a pagar por uma alegria tão fugaz e banal quanto um pega-pega...

Por muitos anos, eu sonhava com o dia em que conseguiria terminar a tarefa em 10 minutos. No entanto, isso nunca aconteceu. A minha dura rotina era ficar horas (a mim, sempre pareceram longas horas) sentada à escrivaninha marrom, olhando para aqueles papéis todos, lápis em punho, sem nem saber por onde começar. Às vezes, o tempo passava e só o que eu tinha feito era gastar toda a borracha colorida, só para junt…

CONTEMPLAÇÃO >> Carla Dias >>

Todos construindo realidades...

E ela gosta de pensar que, na sua maioria, e contrariando as manchetes dos jornais, há mais realidades acolhedoras do que trágicas. Por isso a fascinação pelas entrelinhas, os olhos seduzidos por frestas e gestos amiúdes, que se erguem em grandes feitos.

Particularmente hoje, as realidades alheias lhe enchem a alma de inquietações. Observa, detidamente, as pessoas caminharem pelas ruas; as suas pressas e olhadelas no relógio. A consternação diante da mudança de rotina com a greve dos motoristas de ônibus, ou o tráfego atrapalhado por absurdos, atiçado por um acidente em alguma marginal.

Detém o olhar nas duas mulheres que se abraçam; abraço longo, repleto de suspiros, palavras ininteligíveis, falta de fôlego e... Saudade sendo sanada, num desespero cultivado por distâncias diversas. A mais jovem sorri o sorriso do alívio, e como se a dor estancasse ali mesmo, pronuncia o nome da mais velha: mãe.

Também ela confidencia pressas aos ouvidos do dia. Chega mesmo…

ATÉ QUE A MORTE NOS SEPARE >> Albir José inácio da Silva

Fez até trabalho na encruzilhada para se livrar do maldito e da peste do filho dele. Não adiantou. Lá estava aquela coisa com o filho piolhento que lhe chutava as canelas.

Já ia para seis anos agüentando aquela situação e não conseguira nada, além de cabelos brancos e marcas nas pernas. Marcas que carregaria pela vida afora. O diabinho já chegou com ele, e ela, burra, ainda se deixou engravidar e parir. Ah, se arrependimento matasse! Sua filha não nascera grande coisa, sendo filha de quem era, mas não se comparava àquela coisinha pestilenta que ela tinha de aturar.

Pensou em levar o demoninho para uma sessão de exorcismo, mas teve medo. Não queria consertá-lo, queria se livrar dele. Ele agora usava umas botas, segundo o pai por causa das pernas em arco, mas que eram armas. Sempre que ouvia a menina gritando, sabia que ela tinha sido atingida pelo artefato de couro. No início gritava com ele, reclamava com o pai, tentou mesmo lhe dar uns cascudos. Depois desistiu. Trazia pelas pernas m…

Encantado >> Eduardo Loureiro Jr.

Encantar as pessoas desencantadas, eis o meu lema.

Quem não está em seu canto, onde está? Desencantou-se para onde? Em que outro lugar alheio a si mesmo se esconde?

As pessoas desencantadas não têm a cara do lugar em que estão. Algumas reclamam: querem que o lugar em questão seja o canto. Outras desistem: não sabem tomar o rumo de volta e deixam-se ficar por cansaço de perdição. Há uma plaquinha em sua testa: ESTE LUGAR NÃO É O MEU CANTO.

Encantar as pessoas desencantadas, eis o meu leme de barco, e navego.

As pessoas desencantadas estão entre pedras sem serem das pedras. Estão dentro d'água sem serem da água. Estão inflamadas sem serem do fogo. Estão avoadas sem serem do vento.

Têm dor de cabeça, as pessoas desencantadas, pelo peso da placa que carregam na testa. Nem lembram como saíram de seus cantos para os cantos de outros. O canto do outro é o desencanto do próprio canto.

Encantar as pessoas desencantadas, eis meu lembrete — de gente — de barco que passa.

Encanto meu não traz ao meu…

TRÊS TRILHÕES [Sandra Paes]

A notícia tinha sido dada na hora do jornal, mais cedo: Europa injeta três trilhões de euros nos bancos na tentativa de salvar a economia.

O pensamento focado nos zeros, virou carneirinhos. Quero dormir e lá vem mais uns zerinhos...

Pensar na economia como uma doente precisando de transfusão, já é uma coisa complexa e difícil de imaginar, por mais que tentem explicar toda essa onda de efeito dominó começada, dizem nos USA. Agora, ficar imaginando uma enorme quantidade de zerinhos pra resgatar a doente, fica ainda mais difícil. Mais zerinhos...

Três trilhões de euros na Europa, não sei quantos bilhões de libras na Inglaterra, mais alguns bilhões na Rússia, mais oitocentos bilhões de dólares nos USA. Com todos esses zerinhos dava pra fazer uma transfusão em toda a população do planeta. Só a classe média do mundo, por exemplo, que é quem se mata, se esfola, pra sustentar todos esses cifrões acumulados, se beneficiaria diretamente se tivessem intenção de salvar mesmo alguém. E se pegam todo…

Do lado de fora do umbigo do mundo >> Leonardo Marona

Do lado de fora do umbigo do mundo, nas ruas, havia carros virados tomados pelo fogo com pessoas dentro se contorcendo sobre tripas expostas como rosas urbanas.
Lá dentro, Jaime Bortoloni contava caroços de feijão por cima de um pano de prato pouco limpo, ouvindo a rádio MEC e querendo desmaiar sem sentir nenhuma dor. Não existem movimentos sem dor, ele sabia. E separava os bons caroços dos maus caroços, sem saber o que se passava lá fora e que, em algum lugar, em alguns muitos lugares, estavam também separando os bons dos maus, como sempre fizeram – a partir de quais critérios?
Jaime estava pensando. Isso era um mau sinal. Sinal de que, se não cuidasse o rumo pelo qual as idéias sujas tentariam arrastar sua idiotice tremenda, estaria muito em breve dentro da banheira novamente, ouvindo Tom Waits cantar everybody goes to heeeeeeeeeeeeell, mergulhando a cabeça e fazendo bolhas com o nariz até os dedos do pé murcharem.
Mas era divertido imaginar a tristeza alheia. Por isso ele separava os …

O DEPOIS >> Ana Coutinho >>

Ele foi logo falando que era um assalto. Disse que queria o dinheiro ou o celular e eu, pasma, tive todas as palavras e idéias apagadas da minha mente por um instante. Minha cabeça era puro pânico e desespero, mas, não sei como, consegui não dar nenhum real para o menino e acelerei meu carro rumo à avenida, longe dali.

Em casa, refeita, eu pensava em tudo o que poderia ter feito ou dito. E as opções eram tantas! Como não fiz nada? Por que eu não disse a ele que meu dinheiro era fruto de trabalho duro? Por que eu não lhe dei uma guardachuvada ou chamei a polícia antes de alcançar o próximo farol? Depois, as idéias me vinham aos montes, uma atrás da outra, todas excelentes, mas eu as desperdiçara.

Perdera o momento em nome de uma insanidade, de uma ausência, de uma coisa meio bicho que tomou conta de mim e me fez perder o sentido básico de raciocinar apenas.

Aconteceu numa reunião também. Alguém me fez uma pergunta inesperada. Titubeei, rateei e respondi de forma meio tonta, meio tosca, um…

O QUE NOS CABE? >> Carla Dias >>

- E se for hoje?
- Então, viveremos o dia com o desespero em êxtase.
- Será hoje...
- Pode ser...
- Será que será?
- Vai saber...
- O tempo tem dentes... Vai nos mascar feito chiclete.
- E de qual velocidade seríamos partidários?
- Nesse dia? Do desejo desmedido; daquele quê oferecendo prazer insustentável.
- Comeríamos?
- Frutas desmascaradas de estação. E engoliríamos o ócio... Só haveria espaço sem tempo para ações... Desmascararíamos teorias.
- Teorias podem ser construtivas, fortalecer realizações...
- Ações dão na poesia que me ganha e disso não consigo me desfazer, e nem quero. Afinal, as teorias que ficam na teoria acabam por desbotar sonhos.
- Arrepios provocados por beijo na nuca...
- O quê?
- Pedirei uma porção deles... Se for hoje...
- Pra quem?
- Sei lá!
- Sabe lá?
- “O que é morrer de sede em frente ao mar?”
- “Sabe lá?”
- Sei... E você?
- Talvez...
- E?
- Surrupiarei trocados de amigos tacanhos para comprar balas de hortelã.
- Por que balas?
- Balas de hortelã me lembr…

Da arte de desaniversariar >> Maria Rachel Oliveira

Aniversários são, teoricamente, momentos de reflexão e de aprendizagem. São? Bem, para mim, não este – ao menos não exatamente. Como o aniversário foi meu, e com ele faço o que quiser, decidi que este ano e em alguns outros, oportunamente, não quero saber de aniversário. Só de desaniversário – modalidade na qual estreei anteontem, dia 11, sábado. Sábado, que pra me contrariar, não me deu um arco-íris de presente, embora houvesse sol e nuvens muito, muito cinzas.

A propósito, podem dar os parabéns atrasados que eu os aceito todos. Desaniversários merecem também.

Não vou dar pra mentir idade, nem tentar me fazer passar por tchutchuca universitária. Desaniversariar também não significa começar algum projeto esdrúxulo para virar uma velha ridícula de cabelos longos, loiros e com peitos siliconados.

Trata-se de desaprender.

Eu, astróloga iniciante, posso tentar interpretar sabidamente alguns aspectos desta Revolução Solar; talvez até achar alguma justificativa para essa sandice; mas não quero.…

A CRIAÇÃO DO CORPO >> Eduardo Loureiro Jr.

Para Liliana e Tia Liginha

Se no princípio era o verbo, e o verbo se fez carne... então o corpo começou pela boca. No princípio era a voz, e a voz se fez língua, dentes e lábios.

A boca fala do que o coração está cheio, logo falo para tomar conhecimento de meu próprio peito.

*

Quando eu era bebê, e minha mãe uma estudante de Odontologia, as colegas dela se reuniam lá em casa para estudar. Meus olhos não distinguiam rostos, meu pensamento não adivinhava palavras. Eu só escutava o som das vozes e, quando tinha fome, minha mãe me dava de mamar no peito. As vozes das colegas de minha mãe se faziam carne no quente de seu seio.

*

Os lugares de minha vida são muitos, e especiais. Mas o mais constante é o menos notável: o posto odontológico onde minha mãe trabalha desde que eu era criança. De lá, lembro a aplicação de flúor numa espécie de dentadura sem dentes cheia de um líquido gelatinoso que não podia ser cuspido nem engolido durante cinco infindáveis minutos: minha primeira lição de eternidade …

BR 3 >> Leonardo Marona

Algum escritor uma vez disse que as boas famílias são iguais, mas cada família ruim tem sua particularidade fundamental, que permanece. Não me lembro quem disse isso, era um início de romance, talvez um russo. Os russos podem não saber mais, mas sabem melhor.
Mas isso não importa, não vou procurar saber. Pobres das famílias ricas de afeto, que são iguais entre si. Prefiro as famílias turvas, cada uma com um abismo próprio e infinito, porque não-diagnosticado. Elas são a negação da natureza - e esse é o papel fundamental do ser humano: sabendo de antemão que sairá derrotado, negar com todas as forças aquilo que o limita, que oprime sua contradição, que fornece tudo e não explica nada. As famílias ruins duram mais. Elas mantêm o mundo girando, torto mas próprio, perfurando conveniências.
Exige-se uma especialidade para que se atinja a normalidade - e ainda não se sabe que tipo de cérebro pode se satisfazer com esse tipo de metodologia. Mas não me especializarei, de minha conta, porque iss…

O DESENLACE >> Ana Coutinho >>

Não há forma fácil de encerrar uma conta em banco. Não há forma fácil de emagrecer, não há forma fácil de enriquecer. Definitivamente existem coisas que serão sempre difíceis. Nunca será fácil tomar chá verde, por exemplo.

Mas, do que é difícil na vida, talvez despedir-se seja o que há de pior.

Assistir a partida de quem se ama é o mais doloroso espetáculo da terra. Mesmo que saibamos. Mesmo que a partida seja boa, mesmo que seja de comum acordo, mesmo que precisemos, mesmo que esteja sol, mesmo que estejamos inteiros, firmes e convictos; uma separação, uma despedida, um rompimento, um desenlace, seja ele qual for, é um transtorno cuja dor e tristeza não podem nunca ser medidas.

Todos odeiam despedidas. Todas odeiam dizer adeus. Mas sempre, todos os dias dizemos. Ou quando não dizemos a dor é igualmente imensa.

O desenlace é a prova cabal de que somos animais, embora humanos. Somos tolos e sentimentais, tolos e apaixonados, tolos e incoerentes, embora humanos.

Há casais que suportam-se mut…