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O DEPOIS >> Ana Coutinho >>

Ele foi logo falando que era um assalto. Disse que queria o dinheiro ou o celular e eu, pasma, tive todas as palavras e idéias apagadas da minha mente por um instante. Minha cabeça era puro pânico e desespero, mas, não sei como, consegui não dar nenhum real para o menino e acelerei meu carro rumo à avenida, longe dali.

Em casa, refeita, eu pensava em tudo o que poderia ter feito ou dito. E as opções eram tantas! Como não fiz nada? Por que eu não disse a ele que meu dinheiro era fruto de trabalho duro? Por que eu não lhe dei uma guardachuvada ou chamei a polícia antes de alcançar o próximo farol? Depois, as idéias me vinham aos montes, uma atrás da outra, todas excelentes, mas eu as desperdiçara.

Perdera o momento em nome de uma insanidade, de uma ausência, de uma coisa meio bicho que tomou conta de mim e me fez perder o sentido básico de raciocinar apenas.

Aconteceu numa reunião também. Alguém me fez uma pergunta inesperada. Titubeei, rateei e respondi de forma meio tonta, meio tosca, uma resposta que nem eu entendi bem. Em seguida, já dentro do meu carro, rumo à minha casa, a resposta me vinha fácil, desenrolada, tão clara, tão bem formulada. Por que eu não disse isso, por que eu não disse aquilo, por que não dei cambalhota, por que não gritei, por que não pulei, por que não cuspi na cara dele? Eu não sabia. Mais uma vez eu perdera sentidos básicos e – de novo – desperdiçara o tempo, as palavras, o momento, por causa de qualquer coisa sem explicação. E aí o depois tornou-se meu inferno. No depois eu penso tudo, eu falo tudo, eu faço e aconteço. Depois eu sei o que deveria ter dito, o que deveria ter feito, e as respostas são todas claras e simples.

Acontece com todo mundo. Teu marido te diz um desaforo e você fica sem reação. Briga com ele, vai pro trabalho e uma amiga sensata lhe pergunta por que você simplesmente não falou aquilo. Pronto, é o depois clareando as idéias. Mas já era tarde. Você já tinha se magoado, gritado e chorado. Só depois é que viu. Puxa, por que mesmo eu não falei isso, mas que droga, deveria ter dito isso, claro, claro, por que não fiz, ai, por que, por quê?

O depois ataca a todos. Filhos e pais, inclusive. Todos os pais ficam sem ação diante de seus filhos ao menos uma vez na vida e, depois, talvez apenas um dia depois, percebem que não precisariam. Que poderiam ter agido de outra forma: Meu Deus, por que não fiz assim ou assado? E desejam agarrar o instante, trazê-lo de volta ao momento, refazer o tempo que passou só para responder certo, agir certo, fazer o que é o correto e tão, tão absolutamente claro.
Sartre estava errado. O inferno não está nos outros. O inferno está no depois.

Vivemos de momentos, dizem, e é verdade. Mas vivemos principalmente do que não fazemos naqueles momentos. Vivemos, depois, de arrependimento dos momentos. Vivemos formulando o que deveria ter sido dito, a cara que deveríamos ter feito, o beijo ou o abraço que deveria ter sido dado. E a resposta disso é simples. Fazemos tantas bobagens, erramos tanto, nos bloqueamos tantas vezes por uma única razão, e essa razão é o medo. Tememos a palavra fora da boca, o carinho em ação, tememos a exposição, tememos a covardia e tememos – talvez ainda mais – a coragem. Talvez se fôssemos mais verdadeiros e naturais, conseguíssemos pensar menos (e melhor) e agir mais (e melhor), enxergar as coisas com mais clareza, sem o véu nublado do nervosismo, do pavor, do temor alheio. Somos todos da mesma espécie afinal, por que nos aterrorizamos tanto uns com os outros?

Eu não sei. Mas tenho feito uma força danada para antecipar o meu depois para o meu agora. Quero a clareza das janelas abertas da minha casa ainda na tensão obscura do escritório. Quero a certeza que tenho numa madrugada insone durante um dia assustador com quem quer que seja. Quero inverter a ordem das coisas. Quero ser um hero, uma x-woman, e paralisar o tempo por 5 minutos ou, então, me serviria também retornar ao passado por - quem sabe - 2 minutos.

Basicamente, ter superpoderes é a solução mais simples que consigo encontrar: agora e, certamente, depois também.


Comentários

Hum... Acho que tenho uma má notícia para lhe dar, Ana. :(

Os super-heróis normalmente têm apenas um superpoder, e você já possui o superpoder da escrita. :)

Ah, uma possível saída: diante da próxima situação desagradável, escrever um bilhetinho ao invés de falar. :)
albir disse…
Também não tenho boa notícia, mas tenho uma notícia solidária: eu também... depois fico regurgitando desaforos.

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