segunda-feira, 20 de outubro de 2008

ATÉ QUE A MORTE NOS SEPARE >> Albir José inácio da Silva

Fez até trabalho na encruzilhada para se livrar do maldito e da peste do filho dele. Não adiantou. Lá estava aquela coisa com o filho piolhento que lhe chutava as canelas.

Já ia para seis anos agüentando aquela situação e não conseguira nada, além de cabelos brancos e marcas nas pernas. Marcas que carregaria pela vida afora. O diabinho já chegou com ele, e ela, burra, ainda se deixou engravidar e parir. Ah, se arrependimento matasse! Sua filha não nascera grande coisa, sendo filha de quem era, mas não se comparava àquela coisinha pestilenta que ela tinha de aturar.

Pensou em levar o demoninho para uma sessão de exorcismo, mas teve medo. Não queria consertá-lo, queria se livrar dele. Ele agora usava umas botas, segundo o pai por causa das pernas em arco, mas que eram armas. Sempre que ouvia a menina gritando, sabia que ela tinha sido atingida pelo artefato de couro. No início gritava com ele, reclamava com o pai, tentou mesmo lhe dar uns cascudos. Depois desistiu. Trazia pelas pernas marcas roxas, vermelhas, negras e feridas que nem deixavam mais saber a cor original. Empenhou-se na tarefa de livrar-se dele. Deles.

Não adiantou dizer ao marido que não o queria mais, que não agüentava mais seu filho remelento. Que lhe desse uma pensãozinha por todos esses anos e ela iria embora. O miserável ainda sorrira: - Deixa de conversa fiada, mulher, anda logo com essa comida.

Fez corrente de oração e chegou à sexta semana. Às vésperas de conseguir a bênção, alguma fofoqueira contou ao pastor que o motivo de tanta devoção era afastar o marido. Sem devolver as contribuições, sua esperança foi desautorizada: - Ainda se fosse para trazer o marido de volta, gritou o reverendo.

Só lhe restava a justiça. Não queria. Não gostava desse negócio. E tinha medo de não receber seu direito. Que não podia ser pouco, não. Agüentar o que ela agüentava não era coisa pra pouco dinheiro, não. Conhecia gente que vivia de pensão. E muito bem. Tinha até empregada. Mas, nesse mundo de injustiças, nunca se sabe.

E foram esses os argumentos que ela repetiu ao juiz na esperança de ficar livre do marido, do enteado e ainda conseguir um dinheirinho para ir cuidando da filha, que não era grande coisa, filha de quem era, mas era sua. O diabinho, que vivia infernizando a menina, deu-lhe alguns beijos e passou a audiência alisando seus cabelos.

- Considerando a vontade firme e inabalável da autora, mesmo contrariando o desejo do marido que é a manutenção do vínculo, decreto a separação do casal – começou o juiz. E olhando para as crianças, o irmãozinho alisando o cabelo da irmãzinha, continuou: - No interesse dos filhos, que muito se ressentiriam com a separação, deixo-os sob a guarda do pai.

O coração disparou. Ela esperava livrar-se dos dois... mas dos três?! Seria efeito retardado? Do trabalho ou da corrente?

Mas o juiz continuou:
- A mãe visitará livremente os infantes e pensionará sua filha com vinte e cinco por cento do salário-mínimo.
- Quer dizer o quê, seu juiz? - perguntou assustada.
- Quer dizer que a senhora vai pagar pensão para sua filha.
- Ele não vai me dar nada e eu ainda vou ter que dar dinheiro pra ele?
- Pra ele não. Pra sua filha. Ele recebe, mas é pra ela.
- Seu juiz... vamos esquecer tudo isso... me devolve o traste, o trastinho e a minha filha que não é grande coisa filha de quem é, que eles não vão conseguir se cuidar sozinhos não.

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2 comentários:

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Salve, Albir! O cotidiano e o bom humor estão de volta ao Crônica do Dia. :) Que você continue nos salvando das segundas-feiras. :)

Cristiane disse...

rs. Ótima!! Muito boa, parabéns.