quinta-feira, 9 de outubro de 2008

O DESENLACE >> Ana Coutinho >>

Não há forma fácil de encerrar uma conta em banco. Não há forma fácil de emagrecer, não há forma fácil de enriquecer. Definitivamente existem coisas que serão sempre difíceis. Nunca será fácil tomar chá verde, por exemplo.

Mas, do que é difícil na vida, talvez despedir-se seja o que há de pior.

Assistir a partida de quem se ama é o mais doloroso espetáculo da terra. Mesmo que saibamos. Mesmo que a partida seja boa, mesmo que seja de comum acordo, mesmo que precisemos, mesmo que esteja sol, mesmo que estejamos inteiros, firmes e convictos; uma separação, uma despedida, um rompimento, um desenlace, seja ele qual for, é um transtorno cuja dor e tristeza não podem nunca ser medidas.

Todos odeiam despedidas. Todas odeiam dizer adeus. Mas sempre, todos os dias dizemos. Ou quando não dizemos a dor é igualmente imensa.

O desenlace é a prova cabal de que somos animais, embora humanos. Somos tolos e sentimentais, tolos e apaixonados, tolos e incoerentes, embora humanos.

Há casais que suportam-se mutuamente, vivendo com pequenas doses de dores e tristezas rotineiramente. Cansando-se e praguejando a vida todos os dias, apenas porque não suportariam a única dor maior do que a de viverem juntos: separarem-se.

Depois, depois eles sabem que seria bom. Depois eles sabem que se acostumariam e se apegariam à independência e as delícias de uma vida de solteiro. Mas para chegar aos depois têm de passar pelo desenlace. Tem de passar pelo adeus. Tem de arrumar a mala, tem de separar os CDs, tem de rever os livros, tem de fazer as contas e ela nunca será justa. Nunca haverá equilíbrio. Sempre a conta será maior para um dos lados. Sempre haverá quem pague mais, quem sofra mais, que perca mais e quem ganhe mais. Embora ambos percam e ganhem em grandes medidas nessa situação. Mas não a escolhem sempre. Não conseguem optar pelo desenlace.

Eu não os condeno. Nossa decisão — idiota — diante da possibilidade de tamanha dor e devassidão, não pode ser julgada com olhos sãos. Porque quem as toma são os doentes. Os fracos doentes. Ou os fortes doentes. Quem suporta a morte em pequenas fatias, porque não a agüentaria em uma única parcela, são bravos guerreiros fracos, ainda que não pareçam. Eu os compreendo.

Talvez até mais do que compreenda os outros. Os loucos doentes que aceitam a dor e a angústia de uma separação, porque crêem que há vida após a morte.

Esses, os fracos guerreiros bravos que se jogam na arena da frustração e do ódio, são os que enxergam além do possível. Como o paciente que opta por uma cirurgia plástica, ainda assistindo ao Dr. Hollywood. Ele vê ali como se corta a pele, como sangra o rosto, como se raspa o nariz, como se martela os ossos e, ainda assim, com uma força a mim desconhecida, segue para o hospital, paga (!) e entrega-se para o médico, como que aceitando a sua pena. Como um prisioneiro entregando-se ao seu algoz. Ele acredita num outro caminho e escolhe percorrê-lo, ainda que tenha grandes hematomas.

Não há forma certa. Não há forma fácil. Soltar as amarras pelas quais demos a nossa vida, despedir-se do que acalentamos por tantos anos, assumirmo-nos fracos e impotentes diante de uma situação e deixarmos partir ali, a olhos vistos, aquilo que gostaríamos de agarrar com o fiapo de força que nos resta, é a dor que não tem nome. Aquela que nos faz burros, tristes e incapazes, é a mesma dor que nos torna esperançosos, racionais e humanos.



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5 comentários:

Marisa Nascimento disse...

Ana, em muito do que já li, nunca tinha visto definições tão claras e coerentes para a dor da separação e a justificativa para não fazê-la. Parabéns pelo texto!

Eduardo Loureiro Jr. disse...

É, Ana... feliz é "quem não teme o corte das novas feridas pois tem a saúde que aprendeu com a vida". :)

Cristiane disse...

Ana,

Sempre que vejo situações como esta descrita, em ir ou ficar, separar ou suportar, lembro-me de uma frase que li na agenda de um rapaz no dia em que ele tomou coragem e terminou um relacionamento de 8 anos (houve muito sofrimento para ambas as partes depois):

"A vida não deve ser um hábito do qual a gente não pode se livrar". Acho que esta frase é atribuída a Che Guevara.

Dói mais a indecisão, dói mais o "não ser" pelo preço que se paga, a conta pesa mais para quem fica sabendo que o tempo esgotou... é preciso entender e ter coragem para aceitar o tempo da relação.

Mas quem sou eu para dizer o certo ou errado? A mim que também falta tanta coragem.

"viver é muito perigoso (...) o que a vida quer da gente é coragem!" Guimarães Rosa

Carol Barcellos disse...

Aninha, eu não vejo com muito bons olhos esse tema da separação, porque sou quem foi deixada pra trás por causa da falta de coragem de enfrentar desafios. Muitas vezes, não temos coragem de deixar um coisa ruim, mas outras vezes, não temos coragem de enfrentar uma coisa ruim para conseguir a boa.
Por isso, penso que nem sempre a separação significa coragem, mas em algumas situações, a falta de coragem.

Debora Bottcher disse...

É sempre uma decisão complicada e difícil a de separar-se... Tem uma metade nós que quer ficar e outra libertar-se... Seguir o coração, dizem, é sempre a alternativa, mas para tanto é preciso uma coragem que nem sempre temos...
Bela reflexão, como sempre.
Beijo e saudade.