domingo, 5 de outubro de 2008

A VELHA INFÂNCIA >> Eduardo Loureiro Jr.

Mª Eugênia M. Guimarães / Flickr.comAcordei com as vozes de minha mãe e de minha avó. É muito diferente de acordar com despertador ou com sons cotidianos, mesmo naturais, como o vento na janela ou passarinhos no telhado. Acordar com vozes familiares, ancestrais, é como acordar com o próprio Tempo: acorda-se no passado da mãe que é a avó, no presente da mãe que é o filho e, com um pouco de imaginação — que no meu caso é muito — acorda-se no futuro do filho que é a filha.

Então acordei com a voz de minha avó antes mesmo de minha mãe nascer, com a voz de minha mãe quando eu era criança e com a voz de minha filha quando eu for pai. Quando se acorda assim, não se pensa no dia, no mês ou no ano. É-se um com o Tempo passadopresentefuturo. É preciso acordar assim pra confortar novamente a desconfortável sensação de que, quanto mais o tempo parece passar, mais eu me sinto menino.

Eu sempre fiz pouco dos que idolatram a infância sem retorno. E eu pensava que era só porque eu não tinha tido uma infância à qual quisesse retornar. A impressão agora é de que envelhecer é caminhar para a própria infância. A infância é retornável. O que não se pode é voltar para aquela velhice menina.

Sinto minha infância tão iminentemente próxima que qualquer dia desses começarei a andar em muros, trepar em árvores, quebrar braços e pernas, beijar estranhos e fazer outras coisas que nunca fiz quando criança. A vida, para mim, está passando de trás para adiante. Posso, a qualquer momento, perder a maioridade que já tinha aos 7 anos. Estou pronto para reganhar a virgindade, dar e receber o primeiro beijo.

Só não me queiram de volta à escola. Minha bunda já cumpriu a sua cota em carteiras de madeira. Quero os pés descalços na grama e na areia. Quero a coragem de querer o que eu quero e não o que eu acho que deveria querer. Quero a vida mesmo, ao vivo, sem protelação. Ser o que sou hoje, e o que fui sempre e o que serei quando. Provocar a adultice para além do "porque não": por que "porque não"? Por que não "pode, sim"?

Mãe e Vó falam despreocupadamente, às 8 da manhã, sem saber que este será o primeiro som que um de seus descendentes malucos ouvirá, e que isso o fará querer viver uma vida de sonhos, sem limites, sem concessões à tristeza, sem meios-termos.

Sim, a vida pode ter tapioca sabor beijo-na-boca no café da manhã, o banho de mar pode ser banho de amar, o baião-de-dois com paçoca, carne de sol, macaxeira e ovo mexido pode ser comido com o baião-de-muitos da família reunida, o cochilo da tarde pode ser com rede armada no caramanchão, o pôr-do-sol pode vir com Lua Cheia, o céu pode ser estrelado e a boa noite pode terminar com um boa-noite cochichado ao ouvido.

À medida que essa infância se aproxima, meus cabelos vão gestando cachos, minha cabeça vai formando raios, meus pensamentos vão ganhando ondas, minhas idéias vão criando mares e eu quero mais é navegar — em barquinho de papel, de preferência.

Até o dia em que eu desmorrer, entrar por um buraco parecido com o que eu nasci e descobrir que do lado de lá da vida existe uma vida do tamanho da vida que a gente sonhou aqui.





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12 comentários:

Marisa Nascimento disse...

Eduardo, ler você faz com que a vida ganhe tonalidades diferentes:)

C Letti disse...

As crianças, meninas e meninos, que vivem cá dentro da gente, estão comemorando essa celebração escrita.
Sou somente mensageira pra vir aqui e agradecer -- quisera que tivesse como mandar virtualmente o "muito obrigada por nos comover" num aviãzinho de papel. :)
beijo!

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Oi, Marisa! Que bom que consigo expressar tonalidades com a escrita. Ameniza um pouco a frustração de não ter dom para o desenho e a pintura. :)

Claudia, seu aviãozinho de papel chegou carregado de meninos e meninas agradecidos. Estamos todos aqui brincando na maior farra. :)

Anônimo disse...

Oi Edu!
Belas imagens,lindo encontro! Emocionada, espero vê-lo com a filhota... Bjim, Dri

Carla Dias disse...

Eduardo... Que jeito bonito de dizer as pessoas e a influência que elas têm sobre você e seu ser quem é. Que ao desmorrer a sala de estar seja tão arejada quanto esta a qual você nos levou, de mãos dadas com essa crônica.

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Brigadim, Dri.

Carla, o ar do pátio arejará todos os cantos de mundo. :)

ana disse...

nossa eduardo,
porque eu demorei tanto a elr a sua crônica, essa semana.
está linda, linda.
tem um espaço na sua árvore, pra outr criança?
:)
bjs!
ana

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Suba logo, Ana, a vista daqui de cima da árvore é qualquer coisa de vertiginosa. :)

clarisse disse...

eduardo, li, curti, me diverti, reli, aprendi... e ainda nao cresci! oba! muitíssimo obrigadinha!

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Vixe, Clarisse... então eu não fiz uma crônica, fiz um playground. :) Que maravilha!

Ângela disse...

Viajei em sua crônica e me perdi no tempo... Maravilhoso ler você, abraços.

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Que bom que gostou da viagem, Ângela. :)