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Mostrando postagens de Agosto, 2013

REFLEXÕES SOBRE A SÉTIMA DÉCADA [Heloisa Reis]

Desceeeendoooo...? Será?

Sensações, constatações, sinais de que a porta de saída está mais próxima e é real, existe mesmo... A trajetória de vida é tão vasta, são tantas as lembranças, que percebemos que as coisas mudam mesmo que pareçam ser as mesmas...

Nossa apreensão da realidade é que muda. Pode ser que os sentidos já não tão aguçados desenvolvam-se mais internamente. As intuições passam a ser muito mais importantes, e as vontades mais controladas. Já não se precisa provar nada a ninguém. Apenas precisa-se viver cada dia com sua qualidade especial , descobrir-se seu sabor de novidade e suas particularidades únicas mesmo que repetidamente.

Recursos criativos são a chave. Mudar hábitos frequentemente, lembrar de coisas, prestar atenção, buscar e re-buscar a vitalidade – são os segredos.

Terceira idade? Quarta? Sem bengalas, ou com elas, o estímulo do encontro com a essência desenvolve ainda mais a intuição, aplica a sabedoria adquirida nos sucessos e nos fracassos, …

PELA ÚLTIMA VEZ >> Zoraya Cesar

Sempre fui apaixonado por ela. Aliás, sempre tive uma queda por femmes fatales, pistoleiras, periguetes, mulheres que levam um homem desavisado à desgraça. Se você reparar bem, todos esses epítetos fazem referência à fatalidade, perigo, morte. Muitas vezes, no sentido literal. 
Karla nunca prestou. Desde pequena usava sua beleza e poder de sedução para manipular os outros e conseguir o que queria. Sua tia-avó dizia que uma morena de olhos verdes nascida em família pobre jamais seria uma mulher direita. Karla cumpriu fielmente o vaticínio da tia-avó, talvez a única coisa à qual tenha sido fiel na vida. Crescemos juntos, eu sempre babando por ela, e, até nos separarmos à época do vestibular, ela fazia de mim o que queria. Cada vez que me traía ou escorraçava eu dizia que era a última vez, mas sempre voltava ao primeiro estalar de dedos. Meu consolo, se é que há consolo na fraqueza, era vê-la fazer isso com todos os homens. 
Karla era linda e gostosa, poderia ser modelo internacional, c…

SABER GANHAR >> Fernanda Pinho

Ganho muito mais presente do que eu espero e do que eu mereço. E isso vem desde sempre. Tenho várias fotos minhas em diferentes aniversários soterrada por uma montanha de presentes. Muitos repetidos. Sempre havia mais de uma pessoa interessada em me dar o brinquedo da moda. Mesmo depois de adulta e já tendo abandonado as festinhas, continuei sendo presenteada no meu aniversário e, principalmente, aleatoriamente. Vira e mexe ganho alguma coisa de alguém.

DESABRACE >> Carla Dias >>

Desabrace.

É o que posso lhe aconselhar no momento, que não fiz faculdade de aconselhadora sobre técnicas para desatar nós, que meu método autodidata pode lhe fazer sofrer desaforos enviuvados da delicadeza. E nem pensar em lhe colocar esse peso na alma.

Só que você precisa compreender que desabraçar é de necessidade urgente. A vida não nos espera para acontecer, e as frases feitas a respeito disso, desse movimento que não se permite influenciar pelos nossos desejos pessoais, elas são mais do que repetições amparadas pelos artifícios dos partidários da – e beneficiados pela - autoajuda. Elas são verdades sem verniz.

Não vou embelezar um discurso disfarçado de sábio, meteórico, profundamente correto. A verdade, tão sem verniz quanto as tais frases feitas, é que meu coração, o músculo, o dono do batuque que me coloca de pé a cada dia, e seu véu de sensibilidade, que preenche de nuances o repertório das emoções, detectaram em mim uma cobiça indiscreta em lhe desejar o melhor. E quer sab…

VOCÊ TEM DIREITO A TRÊS PEDIDOS >> Clara Braga

Saber pedir é uma arte. Me lembro de quando era menor e assisti a um episódio de um desses seriados que tinham na época, acho que era Blossom ou Clarissa ou algo do tipo, não me lembro bem. Em um dos episódios, uma fada madrinha aparecia e dizia para a protagonista que ela tinha direito a fazer os famosos três pedidos. A menina ficava confusa e pedia algumas coisas que a fada não considerava muito importantes, então, a criticava e dizia que sentia falta das pessoas que sabiam pedir, como uma menina que seu primeiro pedido foi poder fazer mais mil pedidos.
Eu não acredito em fadas madrinhas nem em gênios da lâmpada, mas atire a primeira pedra quem nunca quis poder fazer os tais três pedidos. Apesar de não acreditar nessas coisas, eu acredito que quando a gente quer algo de verdade e realmente pede que esse algo aconteça, a gente manda algum tipo de energia pro universo e de alguma forma existe chance daquele algo acontecer, desde que a gente acredite que pode acontecer. Deu para enten…

A DEDICATÓRIA >> Whisner Fraga

O livro estava em destaque na estante e minha mãe ficava radiante quando alguém o via e perguntava qual assunto ele abordava. Ela aproveitava para mostrar a dedicatória na folha de rosto: "A queridíssima Izolina, com profunda admiração e carinho, de sua amiga, Fulana de Tal". Não me lembro o nome da autora e tampouco o título da obra. Em duas ou três vezes em que estive em Uberlândia, ela me perguntou se eu sabia algo sobre o autógrafo. Não, eu não fazia ideia.

Então ela relia o pequeno texto e tentava decifrar a idade daquelas frases. O livro fora lançado em 1973, disso eu me recordo bem, mas a bonita inscrição datava de 1998 ou algo do tipo. Questionava-me se era coisa minha, se eu solicitara à autora que assinasse. Não, não mesmo. Então ela pedia para que eu examinasse outra vez a letra, que era até familiar para mim, mas nada além disso. Daí, ela franzia as sobrancelhas, tentava recuperar algo perdido na memória e, com um suspiro doído, recolocava o exemplar em seu lugar …

A ATMOSFERA LOUCA DE UM BANHEIRO DE ACADEMIA >> Mariana Scherma

Reza a lenda de que os homens sentem uma curiosidade monstra de saber o que as mulheres tanto conversam no banheiro. Confere? Bom, eu só frequento banheiros femininos desde que nasci por razões óbvias e, confesso, ando meio cansada desse bate-papo, principalmente no banheiro da academia, onde a gente toma banho – fator que prolonga um pouco mais as discussões de mulherzinha. Admito que nunca aprendi nada nesses momentos entre uma passada de xampu e outra de condicionador. Só desenvolvi a curiosidade de saber o que os homens conversam no banheiro masculino, na esperança de ser um papo mais divertido. Porque você sabe, a grama é sempre mais verde do outro lado...
Alguma coisa na atmosfera do banheiro da academia deve forçar as mulheres a falar de dieta, comida e quem pode ou não usar calça legging. Acho que não é culpa nossa essa paranoia, deve ser o vapor dos chuveiros pós-ginástica, só pode. Dia desses, quando entrei esbaforida para o meu banho, a cena foi impagável. Uma mulher no cent…

VOCÊ DUVIDA? MAS FATO É: EU SEI CAMINHAR
>> Carla Dias >>

Eu gosto de caminhar. Falta-me, confesso, o tempo dos calibrados pela disposição. Morro de inveja de quem não usa a frase “trabalho demais, então, não dá”, porque ainda não encontrei esse botãozinho que se aperta para que dê. Minha amiga diz que tudo gira em torno de um botãozinho sapiente que nos desperta para capacidades que julgávamos impossíveis: o início da dieta, a visita aos pais, a confissão de amor secreto, a caminhada, a primeira de.

Eu já caminhei muito nessa vida, pode acreditar, porque não tenho motivo para mentir. Caminhei por prazer, mas também por necessidade, usando aqueles passos que nos cansam, antes mesmo de acontecerem, como se fossem inapropriados para a jornada.

Antes que reverberem advertências: não tenho preguiça de caminhar. Na verdade, é algo que me dá muito prazer, principalmente porque tenho gosto pela observação da arquitetura das casas, dos prédios, do residencial e do comercial. Gosto de observá-los, enquanto passo por eles, música se engraçando comigo…

É TUDO QUESTÃO DE ACREDITAR >> Clara Braga

Há um bom tempo escrevi uma crônica sobre uma amiga que havia perdido o irmão inesperadamente em um acidente de carro e como eu fiquei impressionada com a forma positiva como ela soube lidar com a situação, por mais dolorosa que pudesse ser.
Há uns dias essa mesma amiga veio pedir para que eu compartilhasse no facebook e ajudasse a divulgar a situação de um amigo de infância desse irmão dela. O rapaz já havia se recuperado de um câncer, mas ficou doente de novo e estava precisando urgente de um transplante de medula. Ele havia conseguido uma doadora 100% compatível, o que é raro, mas de última hora a mulher desistiu e parou de atender aos chamados do hospital.
Minha amiga estava impressionada com a forma forte e até alegre como o amigo dela estava lidando com a situação, justo ela, que nem percebeu o quão forte também foi em uma situação difícil. Mas claro, estavam todos preocupados, afinal, a chance de encontrar outra doadora podia não ser tão grande. Então começamos a divulgar e co…

COMO UMA LUVA >> Sílvia Tibo

Num dia desses, enquanto passeava pela página do facebook, me deparei com a seguinte frase, compartilhada por uma amiga: “Tem coisa que só sai da gente por escrito”. 
Não faço a menor ideia de quem seja o autor da mensagem, mas, ainda assim, tomei a liberdade de reproduzi-la aqui, entre aspas, porque seu conteúdo me caiu como uma luva. 
Nunca fui de falar muito. Na escola, era das mais quietinhas da turma. Escolhia sempre um lugarzinho mais ao fundo da sala, a fim de me concentrar sem ser vista. Quanto às dúvidas, tratava de ir anotando uma a uma ao longo das aulas e de encontrar resposta pra elas sozinha, pesquisando por aí, ou, em último caso, numa conversa reservada com o professor, quando a isso ele se dispunha. 
Nem mesmo o curso de Direito foi capaz de desenvolver em mim o dom da oratória. Ao longo dos cinco anos de faculdade, precisei passar por cima da timidez e me virar pra falar em público por inúmeras vezes. Mas, a despeito disso, jamais me considerei (nem me considero) boa ne…

LAURA, ISSO PASSA [Ana González]

Ela tem vinte e cinco anos. Clara e cabelos escuros na altura do pescoço. Maquiada, brincos e uma roupa alinhada. Era um almoço de aniversário, um churrasco no alto do prédio, com ampla visão do bairro e da cidade, o Museu do Ipiranga ao longe, com farta vegetação à volta, o céu azul e um calor convidativo à cerveja e à celebração.

Mas, ela era só tristeza. Dos lábios vermelhos de batom, saíram palavras de mágoa. O namoro tinha acabado havia quinze dias. E o que doía mesmo era a maneira como ele terminara o relacionamento. Foi se afastando, devagarzinho e depois, pelo telefone, rápido e sem muito tempo para conversa. Na verdade, isso era o grande desconsolo. Frustrante. Como? Sem explicação?

Durara por longos cinco anos e meio. Onde empacotar e guardar tanta memória? Em que desvão da vida enterrar um amor desastrado? Chegara a hora de revisão dos comportamentos: aquele dia, aquela conversa, aquele telefonema. Agora talvez tudo fizesse mais sentido.

Infelizmente, uma história pouco o…

O INQUILINO >> Zoraya Cesar

D. Otília morava há muitos anos naquele apartamento.  Saía de casa pouquíssimas vezes, apenas para tomar chá com Padre Tércio, mas, em compensação, recebia muitas visitas, todas com hora marcada. Uma vez, o porteiro, Seu Eli, comentou que era bom ter tantos amigos, e a velhinha riu:
- Eles não vêm me visitar, Seu Eli, mas o inquilino que mora comigo.
Ele não discutiu, sabia que D. Otilia morava sozinha, devia estar meio matusquela, coitada. Seu Eli gostava de ver a diversidade de pessoas que visitavam D. Otília: senhoras elegantes, trazidas por motorista particular; moças tímidas, que entravam de olhos baixos; homens, também, geralmente com ar desconfiado; até uma atriz famosa da novela das oito aparecia de vez em quando. Jamais perguntara coisa alguma, Seu Eli não era bisbilhoteiro, era trabalhador. Conformava-se em observar o vai-e-vem dos visitantes.  
E assim passava a vida, seguida, inescapavelmente, pela morte. Sim, porque, um dia, D. Otília morreu. Seu Eli ficou profundamente …

FORA DE ÓRBITA >> Fernanda Pinho

E aí que está rolando uma seleção para formar um grupo de pessoas que deverá iniciar o processo de colonização de Marte. Pois é, Marte, o planeta. O mais bizarro é que mais de 100 mil pessoas já se candidataram para participar do processo seletivo para a viagem SÓ DE IDA que deverá acontecer em 2022. Eu li a matéria perplexa, imaginando o quão infelizes, tristes, solitários e sem perspectivas deviam ser esses candidatos (afinal, quem quer viver pra sempre numa redoma controlada?). Mas, para minha total surpresa, eu estava equivocada. O que passou pela minha cabeça parece estar longe de ser o perfil de pelo menos uma das candidatas. Brasileira, de 21 anos, estudante de Ciências Sociais pela UFRJ, a moça mostrava riso fácil nas fotos que ilustravam sua entrevista e dizia estar feliz por estar entre os candidatos mais cotados.
Olha, moça, desculpa. Eu sei que você não me conhece e que eu não tenho o menor embasamento para discutir os pormenores científicos da empreitada, mas vou falar a…

SE GOSTAR: CURTA. SE AMAR: COMPARTILHE. SE GOSTAR AMANDO: SEJA. >> Carla Dias >>

Acredite, sou das que sabem que toda teoria, quando tem a ver com o aspecto pessoal, raramente combina com a prática. Disso eu sei pela minha mania de inventar personagens e depois transformar a história deles em livro. É muito fácil e agradável criar alguém que seria você, não fosse o que ele é e você jamais seria.  O que ele faz e não combina com a sua realidade.

Inventar-se é divertido, acabamos até adotando algumas dessas invenções, transformando-as em tempero para a nossa realidade, e assim, reinventamo-nos. O que não é divertido é a falta de noção de que há um espaço bem grande entre a pessoa que muitos dizem ser, por meio de uma longa descrição, um “monologum vitae”, e aquela que realmente são.

Até aí, eu sei, nenhuma novidade.

Só que não me importa a falta de novidade. Meu apego é com a falta de noção mesmo. Desde que a internet passou a reinar soberana no território da comunicação, as pessoas realmente acreditam que podem dizer o que lhes der na telha e ser seja quem for. E …

Mudanças

Quando, em meu primeiro dia em Araraquara, dois policiais me pararam, armas à mão, bradando para que eu abaixasse os faróis do carro, pressenti que não teríamos uma boa estadia nesta cidade. E assim foi. Foram sucessões de momentos ruins, que desejamos esquecer. Quis a profissão que eu fosse para a capital e, mesmo tendo construído uma casa nesta pequena cidade do interior de São Paulo, acho que não ficaremos mais por aqui.

Sinto um pouco por Helena, que nasceu num hospital barulhento, que não respeitava ele próprio os inúmeros cartazes pedindo silêncio. Nossa menina sofreu, em seus primeiros dias de vida, com os ruídos frenéticos de furadeiras e martelos. E por isso chorou bastante. Como pode um hospital não respeitar seus pacientes? Aqui pode.

Sinto um pouco por Helena, porque eu sou bobo. Não há mais essa história de raiz. Existia na minha época, porque meus pais viveram trinta, quarenta anos na mesma cidade. Hoje os jovens não fazem mais isso. Trocam de casa como trocam de roupa. En…