sexta-feira, 30 de agosto de 2013

PELA ÚLTIMA VEZ >> Zoraya Cesar

Sempre fui apaixonado por ela. Aliás, sempre tive uma queda por femmes fatales, pistoleiras, periguetes, mulheres que levam um homem desavisado à desgraça. Se você reparar bem, todos esses epítetos fazem referência à fatalidade, perigo, morte. Muitas vezes, no sentido literal. 

Karla nunca prestou. Desde pequena usava sua beleza e poder de sedução para manipular os outros e conseguir o que queria. Sua tia-avó dizia que uma morena de olhos verdes nascida em família pobre jamais seria uma mulher direita. Karla cumpriu fielmente o vaticínio da tia-avó, talvez a única coisa à qual tenha sido fiel na vida. Crescemos juntos, eu sempre babando por ela, e, até nos separarmos à época do vestibular, ela fazia de mim o que queria. Cada vez que me traía ou escorraçava eu dizia que era a última vez, mas sempre voltava ao primeiro estalar de dedos. Meu consolo, se é que há consolo na fraqueza, era vê-la fazer isso com todos os homens. 

Karla era linda e gostosa, poderia ser modelo internacional, capa de revista, qualquer coisa. Inteligente, também, tirava boas notas sem estudar, podia ser engenheira, advogada, o que quisesse. Mas não quis.

Já no colégio se envolveu com o traficantezinho local. Cada um escolhe o seu destino, acredito. Mas sabe Deus se o ódio que eu sentia por aquele delinqüente que a beijava não despertou meu desejo de ser policial - para desespero da minha família, batistas pacatos que acreditavam ser a justiça dos homens obra do diabo. Tornei-me um bom investigador; melhor, aliás, do que minhas notas no colégio faziam antever, e gostava do meu trabalho. Estava quase achando que era feliz, quando Karla cruzou o meu caminho de novo, depois de anos afastados. 

Também ela escolhera seu destino. 

Irresistível e astuciosa, Karla seduziu o contador de uma importante firma de exportações, convencendo-o a lavar dinheiro para um amigo. O sujeito era um burguesinho barrigudo e feio, não teve chance com ela. Apaixonado por aquela deusa, o contador não só lavou o dinheiro como ainda desviou algum para sustentar os luxos de sua adorada. Homens são bichos tolos. E esse contador era um espécime perfeito. E porque não tinha muito jeito para bandido, acabou sendo descoberto e preso.

Karla armou tudo tão bem, que saiu da situação com um bom dinheiro e não foi sequer chamuscada pelo incêndio que destruiu a vida do desinfeliz, o primeiro de uma extensa lista de homens que caíram na ignomínia por sua causa. Foi também o primeiro de seus crimes de grande porte. Karla alçou vôos maiores e, quando tive notícias dela, estava sendo procurada por tráfico internacional de obras de arte. Fez todo o sentido para mim. Uma obra de arte cuidando de outras, mesmo que de maneira tortuosa, como sempre fora seu jeito.

Os caminhos se cruzaram nessa fase. Karla, uma marchand do crime; eu, um delegado da Polícia Civil, de plantão naquela segunda-feira chuvosa, na qual ela fora presa por dirigir alcoolizada – mesmo os mais inteligentes fazem bobagem de vez em quando. Mal acreditei quando a vi entrando na minha delegacia. Nos reconhecemos imediatamente; meus joelhos viraram gelatina, minhas mãos tremeram. Dispensei a equipe, tinha que ficar sozinho com ela alguns momentos, antes de o agente da Polícia Federal chegar.

A carceragem estava vazia. Abri a porta. Entrei. Mantive, no entanto, alguma distância entre nós, não estava muito seguro das minhas reações. Ela estava ainda mais linda que minhas memórias.

- Então – sorriu Karla, fazendo minhas entranhas darem um nó – parabéns, virou pessoa importante, delegado...

- Não mais importante que você, procurada até pela Interpol – disse eu, a boca seca.

Ela gargalhou, e a risada dela agiu como um ímã sobre mim. Cheguei mais perto.

- Eficiente e certinho como você sempre foi, já deve ter chamado a Polícia Federal, não é?

- Sim. 

Ela suspirou, e seus seios, livres sob o vestido vermelho, balançaram, sacudindo também minhas estruturas.

-– E por que você está tão longe, querido, tá com medo de quê?

De mim, pensei, me aproximando mais e abraçando-a pela cintura. Apertei-a contra meu corpo, mordi seu pescoço, e seu cheiro me deixou tão inebriado que custei a conectar o barulho surdo que ouvira com a dor aguda que senti logo em seguida.  

Pelos breves instantes em que me perdi em sonhos, como um calouro qualquer, a sempre prática Karla pegou minha arma e atirou em mim. Ela atirou em mim! Meus joelhos se dobraram lentamente e eu caí no chão. A arma era uma Taurus .38SPL que me atingiu à queima-roupa, traçando meu destino. Mesmo os mais inteligentes...

- Me desculpe querido, mas agora que estou rica não poderia envelhecer na cadeia. Você vai ficar bem. Acho – e saiu rindo, passando por cima de mim com seus saltos altos de bico fino. 

Ouvi o clapt-clapt dos sapatos se afastando, junto com o perfume, tão doce que me senti enjoado. Ou talvez fosse o cheiro do meu sangue se esvaindo caudalosamente que me deixava assim. Ainda vi Karla se virar para trás, me atirar um beijo e, sorrindo, ir embora, pela última vez.




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9 comentários:

André disse...

Acho que não vai ser novidade pra vc que eu gostei especialmente do final, né? Por um momento, achei que o cara era o Felipe Espada, é esse o nome?bjs.

Mauro disse...

Felipe Espada nunca daria um mole desses... esse cara tá mais pra Lestrade que pra Sherlock Holmes. Gostei da dinâmica do casal, meio Mulher-gato/Batman! Foi inspirado?

Anônimo disse...

OI Zô, adorei! Também fiquei na dúvida se é o Felipe Espada...
Afinal todos tem um ponto fraco...

Cecilia

Anônimo disse...

A Karla bem que podia ter armado um esquema com o delegado, tipo o que o Pierce Brosnan fez com a Rene Russo, fugindo com as obras de arte e o dinheiro e vivendo felizes para sempre, não precisava fazer isso com o coitado.

Anônimo disse...

Final inesperado, pensei que ele ia deixar ela ir embora, mas assim foi mais legal, quem manda ser otário?

Anônimo disse...

Continua ótima na percepção e criação de personagens, mas esse final... gostei não. Presume-se que ela saiu ilesa (mas, da delegacia, após dar um TIRO no delegado?)
Você podia ter terminado melhor. batom sonífero, agulha paralisante, mata leão, chave de pernas, kkkkkkk sei la.(obs mas adoro seus textos)

aretuza disse...

não, o Espada não seria tão banalmente seduzido como este policial pouco espada....
ótimo!!!!

Zoraya disse...

Oi Pessoal! Realmente, nosso heroi não é o Felipe Espada, definitivamente. Fiquem tranquilos os fãs do modesto policial que ele continua vivo e atuante.
André, que bom que gostou do final, meio malvado, né?
Mauro, não me inspirei no Batman/Mulher Gato não, mas é uma ideia...
Cecília, pois é, todos temos um ponto fraco, e a sabedoria da vida é saber onde ele está e cuidar direitinho pra ninguém chegar perto.
Anônimo 1, o delegado era honesto, jamais armaria um esquema com a Karla, e tanto ela sabia disso que o matou.
Anônimo 2, coitado do delegado, não era otário, era um apaixonado mal resolvido
Anônimo 3, hahah, puxa, mas aí ia virar uma história de 007, batons soníferos? Bom, a delegacia estava praticamente vazia, ele mandou a equipe embora, e ao entrar deixou a cela aberta. Ela deu um tiro à queima-roupa, o corpo dele amorteceu o barulho, e, por fim, só em delegacia de filme as coisas funcionam direitinho. Mas vou ficar esperta para as verossimilhanças
Aretuza, você tem toda a razão!
Valeu a leitura!

Erica disse...

Demorei a ler, mas antes tarde do que nunca... rs Zô, você anda muito mazinha com seus personagens masculinos... Todos os românticos e apaixonados são sinônimos de otários nessas histórias! Trate de criar uma com um finalzinho mais feliz rs