Pular para o conteúdo principal

DESABRACE >> Carla Dias >>


Desabrace.

É o que posso lhe aconselhar no momento, que não fiz faculdade de aconselhadora sobre técnicas para desatar nós, que meu método autodidata pode lhe fazer sofrer desaforos enviuvados da delicadeza. E nem pensar em lhe colocar esse peso na alma.

Só que você precisa compreender que desabraçar é de necessidade urgente. A vida não nos espera para acontecer, e as frases feitas a respeito disso, desse movimento que não se permite influenciar pelos nossos desejos pessoais, elas são mais do que repetições amparadas pelos artifícios dos partidários da – e beneficiados pela - autoajuda. Elas são verdades sem verniz.

Não vou embelezar um discurso disfarçado de sábio, meteórico, profundamente correto. A verdade, tão sem verniz quanto as tais frases feitas, é que meu coração, o músculo, o dono do batuque que me coloca de pé a cada dia, e seu véu de sensibilidade, que preenche de nuances o repertório das emoções, detectaram em mim uma cobiça indiscreta em lhe desejar o melhor. E quer saber? Nem sempre do melhor vêm os melhores desfechos. O considerado melhor pode ser - em um nível mais pessoal impossível - cavoucado do umbigo das nossas expectativas, tão frágil, parido aos trancos e barrancos, trincado de nascença.

Bom seria se você desabraçasse, feito bailarino concluindo coreografia requintada, que assim esse pouco de leveza poderia adornar as cruezas, amansar infortúnios, quem sabe lhe salvar o gosto na boca. Que ele viesse agridoce, sem pender para lado que fosse. Que viesse acalentador, sem limite de duração. Fosse anfitrião para os acenos da tranquilidade.

Como observadora das suas querenças, e acolhedora dos seus sonhos, partidária das suas vontades, eu lhe informo, com o pesar próprio de mensageiro de notícias indigestas, que o mundo jamais chegará à perfeição de caber nas suas expectativas. E amém por isso, meu caro, que a linearidade é uma dona paparicada pelos bons modos, que não se exalta mediante problemas ou felicidade. E o que seriam dos rompantes se ela reinasse soberana? O que seriam dos beijos apaixonados, das decisões desafiadoras, dos mergulhos interiores?

Não seriam.

Por isso lhe digo, vestida com a minha condição de itinerante do seu afeto, que desabraçar é de necessidade real. Apesar de parecer adequado e confortável, de soar bom, acalentador. Sem qualquer habilidade em sucumbir ao desejo intermitente de fazer de tudo para não lhe ferir - ainda que me ignore por um tempo ou dois, que não me enxergue por três décadas ou quatro -, eu sei que tenho de lhe abrir os olhos. Tenho de ensiná-lo a compreender que, vez ou outra, é preciso desabraçar, espreguiçar-se demoradamente. Olhar para o céu, banhar-se no mar e abrir os braços para que sejam bem-vindos os novos acontecimentos. E ainda que haja repetição, a hora é outro, o motivo: outro.

Que ao se desabraçar das desculpas para manter a si intacto à vida, você também se permita buscar outras palavras, as fisgadas por beijos roubados, confissões espontâneas, declarações de afeto. As desinibidas, que ate então se mantiveram silenciosas, ainda que barulhentas na sua cabeça.

Desabrace para abraçar, meu caro.


Imagem: sxc.hu


Comentários

Zoraya disse…
Carla, você, em grande forma no lirismo. Quando sai o livro, hein, hein?
Carla Dias disse…
Zoraya... Vai sair, eu prometo. Mas é fato que você, com sua gentileza, me faz pensar nisso com o maior carinho. Beijo!

Postagens mais visitadas deste blog

MÃE – A MINHA, A SUA, TODAS
[Debora Bottcher]

Pessoalmente, não gosto de escrever sobre ‘datas especiais’ porque sempre me pergunto quem foi que inventou esses ‘dias de’ e baseado em que. É que apesar de eventuais evidências, eu me recuso a crer que essa ‘mágica’ idéia resiste ao tempo, à modernidade, às novas gerações, fincada apenas no foco de atiçar as vendas do quase-sempre-em-crise mercado comercial – digo ‘quase’ porque todas as vezes que vou ao shopping, em qualquer dia da semana, assombro-me com o movimento constante. Daí não tenho certeza de entender bem a base dos números e imagino sempre que é porque as estimativas são ousadas e otimistas demais, muito acima do poder aquisitivo da população média.
Seja como for, se me proponho a abordar o tema do momento – o ‘Dia das Mães’ - prefiro direcioná-lo à figura materna diretamente, para quem, certamente, tal dia é apenas uma vírgula no traçado de sua (árdua) trajetória. Não sou Mãe – que fique claro; portanto, para dedilhar (vagamente) sobre elas, vou me basear na minha, nas m…

EU ESTOU BEM >> Sergio Geia

Digamos que foi um susto. No último dia 11, eu voltava de Jacareí sentido Taubaté, seguia o fluxo normalmente quando no km 156 da Via Dutra, bem em frente ao posto de guarda, em São José dos Campos, os carros à minha frente — como em Blecaute, de Marcelo Rubens Paiva —, simplesmente congelaram. De 80 km, naquele trecho, para zero, em fração de segundo. Não tive tempo de rezar (ah, como eu queria!), nem sequer olhar pelo retrovisor, descobrir se havia ou não uma carreta atrás de mim. Quando a ficha caiu, pisei fundo no freio, consegui não atingir o veículo à minha frente, mas, também, só por outra fração de segundo. De repente, uma sensação esquisita: eu senti a estocada, os objetos que estavam em cima do banco do carona voaram, logo meu veículo era arrastado até atingir o da frente.

Desci. Os motoristas dos outros quatro carros desceram, todos confusos, querendo entender. Os três primeiros carros, incluindo o meu, pequenos danos materiais, levíssimos diante do susto. O penúltimo e o …

À DISTÂNCIA (Paula Pimenta)

E se quiser recordar daquele nosso namoro
Quando eu ia viajar você caía no choro Eu chorando pela estrada Mas o que eu posso fazer Trabalhar é minha sina Eu gosto mesmo é d'ocê...
(Vital Farias)

Quem nunca namorou de longe, não vai conseguir entender metade do que eu vou escrever nessa crônica, porque só quem já passou por essa experiência sabe o quanto ela é difícil. Mesmo assim vou tentar explicar, para todas as vezes que vocês se depararem com alguém reclamando da ausência do namorado, não começarem com as manjadas frases que não fazem nada pela pessoa solitária: “Ah, mas pelo menos quando vocês se encontram tudo é festa, nem tem tempo pra brigar.” Ou: “O tempo está passando rapidinho, logo o próximo feriado chega.” Ou ainda: “É bom que no período que ele está longe você pode curtir com os amigos.”

Só quem namora à distância sabe o quanto essas frases são mentirosas. O tempo não está passando rapidinho, pode até passar pra quem está com o namorado do lado, podendo ir com ele ao cinema …