domingo, 11 de agosto de 2013

Mudanças

Quando, em meu primeiro dia em Araraquara, dois policiais me pararam, armas à mão, bradando para que eu abaixasse os faróis do carro, pressenti que não teríamos uma boa estadia nesta cidade. E assim foi. Foram sucessões de momentos ruins, que desejamos esquecer. Quis a profissão que eu fosse para a capital e, mesmo tendo construído uma casa nesta pequena cidade do interior de São Paulo, acho que não ficaremos mais por aqui.

Sinto um pouco por Helena, que nasceu num hospital barulhento, que não respeitava ele próprio os inúmeros cartazes pedindo silêncio. Nossa menina sofreu, em seus primeiros dias de vida, com os ruídos frenéticos de furadeiras e martelos. E por isso chorou bastante. Como pode um hospital não respeitar seus pacientes? Aqui pode.

Sinto um pouco por Helena, porque eu sou bobo. Não há mais essa história de raiz. Existia na minha época, porque meus pais viveram trinta, quarenta anos na mesma cidade. Hoje os jovens não fazem mais isso. Trocam de casa como trocam de roupa. Então, tenho certeza que, quando perguntarem a ela sobre sua terra natal, ela dirá que nada sabe sobre ela e virará o rosto, procurando um assunto mais importante.

Mas eu quero criar raízes. Quando viemos para Araraquara pensamos que ficaríamos aqui, mas acho que não vai dar. Chegamos a construir uma casa, mas isso nunca prendeu a gente a lugar nenhum. Então, desta vez, vamos tentar escolher com mais cuidado para onde ir. Sempre disse que queria terminar a carreira em São Paulo, talvez na Vila Mariana ou na Lapa, e parece que abreviaremos nossos planos. Podemos adotar a capital como nosso lugar, quem sabe?

Sempre foi difícil morar em um local que não tem supermercado 24 horas, que não tem zoológico, que não tem pet shops decentes, que não tem teatro (apesar de ser a terra natal de José Celso Martinez). Literatura aqui é coisa de louco, apesar do curso de Letras da Unesp e da fama de Ignácio de Loyola Brandão. O que rola aqui é barzinho, boate e papo-furado sobre futebol. Nesta minha idade, nada disso me interessa muito.

Só que eu quero ensinar a Helena que não devemos nos apegar a nada - e me refiro às coisas - e o que vale a pena nesta vida é o apoio e o amor da família. Mais nada. Temos um amigo e outro, que passam pelas nossas existências, de acordo com a conveniência e com a correria do cotidiano e é o que chega mais perto de podermos contar com alguém. Assim, quero Helena e Ana perto de mim, porque sei que, juntos, nos daremos sempre todo o apoio de que necessitamos para ignorarmos a inveja e a maldade do ser-humano.

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Um comentário:

Universo dos Leitores disse...

Texto lindo e profundo! Com certeza a vida é muito mais que o temos, ela é o que somos, os amigos que cultivamos e a família que amamos! Adorei...

Bjs, Isabela!

www.universodosleitores.blogspot.com.br