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Mostrando postagens de Julho, 2008

SOLIDÃO A DOIS >> Carla Dias >>

Aluguei este filme há muitos anos. Depois de assisti-lo, insisti com a atendente da locadora de vídeos, e ela fez o pedido dele pra mim. Naquela época, comprar filmes não era fácil, tampouco barato. Mas eu tinha de ter aquele em casa, porque a música era demais e o filme... Bom, o filme.

No final de semana, assisti ao tal filme na tevê a cabo. Ainda o tenho, mas em VHS, e isso quer dizer que não o assisto há outros bons anos. Havia me esquecido do motivo de tê-lo comprado e assistido tantas vezes que perdi a conta. As madrugadas eram os melhores cenários para embarcar nesta jornada. E o filme me acompanhou em muitas delas.

A música tema é do Terence Tren’t D’Arby (hoje Sananda Maitreya), apesar de um dos personagens se engraçar com o outro cantando uma música tradicional americana, que tem o mesmo título que o filme. Enfim, tornei-me fã do Terence, a partir daí. Comprei vários CDs, conheci a história, e a música dele também me acompanhou por muitas madrugadas... Impressionante como as m…

Dá licença? Posso entrar? >> Claudia Letti

Chego acompanhada da sensação de atraso que tentei deixar ali no hall de entrada. Não é exatamente uma sensação desconfortável mas, de todo modo, sempre fico com a impressão que perdi o melhor da festa, embora minha taça de champagne esteja gelada e borbulhante. Champagne, não mais coca-cola. Em algum momento nesses dez anos, depois de escrever aqui, no Crônica do Dia, categoricamente um "Obrigada, eu não bebo", aprendi a bebericar espumantes. Dez anos é muito tempo pra pretender que a vida permaneça inalterada e muito pouco pra alterar tudo que se gostaria.

Há dez anos me mudei para o Rio, que me acolheu com a calorosidade dos seus 40 graus. Cheguei aqui apaixonada pela cidade e pelo amor chiado e gingado que ela me oferecia. Se não me engano, minha primeira crônica para o Crônica do Dia falava do meu espanto pela cidade grande e pelo fascínio que ela causava no meu, até então, cotidiano provinciano. Uma década parece ser tempo o bastante pra extrair do amor um amigo e amar…

...MAS AGORA VAMOS >> Albir José Inácio da Silva

Lá não deve ser pior que aqui. Ou não sairíamos daqui pra lá. Ou não promoveríamos a mudança. O que incomoda então?

Desde que abandonou o nomadismo, o homem passou a sofrer com os deslocamentos. Conheço pessoas que se emocionam ao falar da casa antiga. Não estou falando dos que foram obrigados a sair. Dos que foram expulsos. Dos exilados. Estes provavelmente nunca conseguiram sair. Ficaram lá sem poder estar, e é por isso que sofrem.

Falo dos que quiseram sair. Foram para lugares onde queriam ficar. Falo dos que ficaram felizes com a casa nova, mas, em algum momento, são alcançados por uma espécie de saudade – uma chuva morna de que não se consegue fugir e que encharca a alma. Não é saudade de um lugar. É saudade de um quando que aconteceu naquele lugar.

E quando ainda se está saindo, o que é que se sente? A saudade pode ser antecipada?

Aqui cheguei no que já não existe e vi crescerem paredes e cômodos.

Aqui às vezes não coube em mim de solidão humana, mesmo cercado de carinho.

Aqui corujam…

DISPOSITOR >> Eduardo Loureiro Jr.

Meu caro amigo Fabiano,

Ela se encostou no dispositor de bandejas do self-service do Ministério do Planejamento, Bloco C, subsolo. Eu mostro a cobra e mato a pau. Não é assim o ditado? Ah, meu amigo, do jeito que ela encostou no dispositor foi mesmo para esquecer o ditado, perder a concentração, tirar um zero, escrever relançe com pendurado Ç, atrassão com sibilante SS, goxto com excitado X. Porque ela não encostou no dispositor como quem se esforça para pegar a colher da bandeja que está do outro lado, que o infeliz da outra fila deixou quase inacessível para quem está do lado de cá. Não, se fosse isso, meu caro amigo, eu não me viraria para nossa querida amiga Célia e diria: "Olha ali uma aeronave no pátio". E Célia continuaria a pensar que aviões só pousam em aeroportos.

Mas para o bem de Célia, para o meu próprio bem naquele instante luminoso, para o seu bem, meu caro amigo, que há tempos não recebia uma descriçãozinha, e para o bem de toda a humanidade - sim, de toda a hu…

MITOS MODERNOS [Sandra Paes]

Anda vagando por aí, em nome do budismo, da Cabala, do apocalipse, da expansão da democracia e sua liberdade de expressão, do uso da internet e tantas outras correntes, uma propaganda sobre o poder do pensamento.

Acabo de ver mais um desses programas de variedades espalhando mais uma vez a mensagem de que o que se pensa, se cria e se materializa - mesmo que não se queira isso.

Me pego no som da dúvida: hummmm... será?

Você vigia sua mente? Tem um instrumento próprio pra fiscalizar aonde vão seus pensamentos diante de tanta pressão de informações e regras circulando? Não creio nisso também, não.

Por exemplo: diante de uma greve dos Correios, quem deixou de se preocupar com a correspondência? Quem de fato ficou totalmente tranqüilo diante das contas que não chegavam, das encomendas presas em algum depósito, ou qualquer outra mensagem engarrafada por conta de mensageiros paralisados?

Quem, diante de um engarrafamento no seu dia-a-dia, não pensa no que vai acontecer com seu atraso no trabalho…

Allegro ma non troppo >> Leonardo Marona

A primeira sensação que tive quando me desgarrei da família foi a de ter o cérebro se desmanchando em pequenas partes, as idéias se perdendo na gosma resultante. Não é uma cena muito bonita, nem tampouco lamentável, mas era poética o suficiente para uma pessoa parcialmente ridícula, como no fim qualquer outra.
E diziam que eu deveria sofrer, se quisesse escrever algo que prestasse. Mas eu só pensava nas glândulas cedendo, na epifania causada pelas letras tornando-se vagas e as células murchando, no desconsolo sem medida que vem da aceitação da verdade: seu cérebro já não mais está.
Pois eu sofro! E me coloco a sofrer. Porque sinto alguma coisa profunda e portanto patológica, que jogo no bolo das vaidades e junto a elas desmereço como algo superficial, mas está lá, me olhando sem olhos, mesmo que burilada ela está lá, ela que é meu berço e minha cruz.
De onde poderei mais esperar por adversidades? Da janela sem cortina apenas uma estudante de flauta transversa sem o menor talento, que che…

CONFISSÕES DAS MULHERES DE 30 >> Carla Dias >>

Na quarta passada, fui ao Teatro Folha, aqui em São Paulo, para assistir à peça Confissões das Mulheres de 30. Fui completamente desinformada, a convite de uma amiga que gosta muito da série da qual três das atrizes do espetáculo fazem parte, a Mothern.

Eu não sabia, por exemplo, que Domingos Oliveira, incentivado por Priscilla Rozembaum e algumas de suas amigas que estavam na faixa dos 30, decidiu escrever este texto inspirado no sucesso de “Confissões de Adolescente”, de Maria Mariana, que transformou seus diários em livro que, posteriormente, foi adaptado para o teatro e se tornou um dos mais queridos seriados brasileiro dos anos 90.

Domingos de Morais deu forma teatral às conversas e às experiências íntimas que as atrizes colocavam no papel. Confissões das Mulheres de 30 é, como ele mesmo define, teatro depoimento. Também é comédia feita para quem sabe rir de si mesmo, quando as coisas andam bagunçadas por dentro.

Se em “Confissões de Adolescente” eram abordados temas que falavam dir…

UM POUQUINHO >> Eduardo Loureiro Jr.

"Qualquer amor é um pouquinho de saúde, um descanso na loucura."
(João, o Rosa)

Quando eu era criança, e meus pais discutiam, eu me fechava no quarto em busca do calado. Na adolescência, tentava abafar os gritos colocando o volume no máximo. Hoje eu busco o silêncio da música que não grita.

Sento sob o sol, na grama, sobre o orvalho da manhã, e deixo a luz lavar meu frio com seu calor. Aviso que estou ali, cheguei, pronto. Já posso ouvir o canto dos passarinhos. Estou no ponto onde a gente se toca. Pele de gente também pode ser aconchego de sol. Voz de gente também pode ser canção de passarinho.

Existe o caminho da borda e o caminho do meio. Ao redor, se corre. Dentro, se caminha — se camazinha —, pisando de leve nos lençóis da natureza. O córrego escorre sem ter pressa e vai dar num lago com ritmo de tartarugas. Vai dar. Dá. A gente precisa saber certa coisa antes de dar. Uma coisa certa só: dar é já ter recebido — transbordar pra dentro, onde o outro está, quem recebe.

Gastar o…

PRESENTE! >> Felipe Holder

Passei minha vida chegando atrasado em todo canto. Na minha primeira escola, antes do início das aulas, os alunos formavam fila para cantar o Hino Nacional. Isso por volta das sete da manhã. Eu passei cinco anos nessa escola e não me lembro de ter cantado o Hino mais de três vezes.

Na segunda escola não se cantava o Hino Nacional, mas havia um coordenador pra lá de exigente, que carimbava a caderneta de quem ousasse chegar atrasado. O carimbo era como um cartão amarelo: três carimbos, uma suspensão automática. Não fui suspenso muitas vezes, porque tinha o cuidado de sempre tentar driblar o coordenador. Quando chegava atrasado, eu passava de fininho pelo corredor e sacudia a bolsa pela janela da sala. Sempre tinha um amigo pra segurar a bolsa do outro lado. E um professor desligado que não via nada. Às vezes não dava certo. Como no dia em que dei de cara com o coordenador assim que cheguei ao colégio, com a cara ainda inchada de sono. "Isso é hora, senhor Felipe?" Eu disse a v…

DESORIENTAÇÕES [Sandra Paes]

Ontem acordei com uns números na cabeça. Loto? Nao, eram apenas três e me parecia mais alguma referência de latitude, longitude, algo que apontasse para algum lugar no mundo. Ou eu assim quis interpretar. Aproveito a curiosidade: onde está o Atlas de astrologia? Tempo que não consulto isso... Por onde começar? Talvez a latitude... Abro, viro páginas e aparece no mapa: Iraque! Nãhh, não pode ser... Me recuso a focalizar a mente nesse lugar tão controverso e as letras começaram a embaralhar e a sumir de foco...

Ando desorientada até dentro de casa. Chego na cozinha e não sei o que fui fazer lá. Outro dia, me perdi dentro do supermercado; olhava para os corredores, tentava ler as placas e conferir os produtos pra localizar... o que mesmo? O que fui comprar lá, afinal? O que estou fazendo aqui com esse carrinho na mão?

Houve uma época em que fazia mapas de cabeça; em dois segundos localizava cidades, planetas em suas casas, aspectos e tal. Morava dentro de mim um astrofísico com astrolábio…

Uma cena como outra qualquer >> Leonardo Marona

É só dobrar a Marquês de Olinda com os pêlos do braço eriçados porque você está ouvindo Nick Drake cantando what would happen in the morning when the world it get so crowded that you can’t look at your window in the morning e isso te emociona de uma forma patética então o peito infla, os pés parecem muitos, mas basta dobrar e olhar para debaixo do viaduto que você não verá nada de novo, tudo como uma cena qualquer de cada dia num lugar onde estão todos à espreita, prontos para correr ou te enfiar uma faca pelas costas, e basta olhar, não com muita atenção, para o viaduto em frente à saudosa Rua Marquês de Olinda, provavelmente em homenagem a um saudoso vigarista, e você não verá nada de novo, tudo como uma cena qualquer, roupas gastas balançando ao vento sobre pedaços de coisas ainda misteriosas e cerca de oito meninas de rua, já acima dos seus quinze anos e com corpos fortes como os daquele tipo de cão de corrida, você verá cerca de oito dessas meninas sem moral muito bem definida co…

MEXERICA, AMOR E VESTIDOS >>Carla Dias>>

Minha mãe sempre trabalhou. Ainda criança, foi pra roça ajudar os seus pais, assim como os outros filhos deles.

A primeira lembrança concreta que tenho da minha mãe não remete à época em que ainda era carregada no colo por ela. Na verdade, a lembrança mais antiga é de vê-la sentada na porta de casa, descascando cana para eu, meus irmãos e primos chuparmos; ou fazendo bonecas de sabugo de milho para as meninas brincarem.

No terreno, nessa época, havia somente três casas. A dos meus avós na frente, a minha no meio e da minha tia nos fundos. Tínhamos plantados, no quintal, pés de cana, milho, mexerica, chuchu. Minha mãe sempre adorou cultivar... Ela sempre teve proximidade com a terra. E cuidava muito bem das plantas e das flores.

Minha mãe foi costureira. Varou noites trabalhando para cumprir prazos. Lembro-me que nossa sala se transformava em oficina de costura. Mas isso continuou, mesmo depois de ela mudar de emprego. Minha mãe gostava de criar coisas... Gostava de costurar.

Crianças, eu …

O LUGAR DO CORAÇÃO >> Eduardo Loureiro Jr.

Para meu amigo do peito, aniversariante do dia, Fabiano dos Santos

Ocorreu de eu saber que não tenho coração. O doutor pediu uns exames. No raio X, havia algo estranho. O estranho é que não havia algo: o coração. Mais estranho ainda — segundo o doutor — é que eu continuava vivo.

Como eu estivesse desempregado à época, aceitei o que o doutor ofereceu:

— Hotel, restaurante e lavanderia. Vamos viajar pelo Brasil apresentando o seu caso.

Eu fui. Com todos dizendo que eu deveria ser mesmo sem coração para abandonar assim a família.

E eu virei atração nacional, fiquei bem de vida, embora nem todo hotel fosse cinco estrelas, nem toda comida fosse caseira e nem toda roupa fosse bem passada.

Único no Brasil, a inveja espreitava. E de vez em quando aparecia um engraçadinho:

— Dizem que eu também sou sem coração. Seu doutor, faça o favor de bater meu raio X.

O doutor, um homem bom, a princípio fazia o exame. Depois o doutor, um homem prático, começou a desafiar:

— Faço de graça, mas só se você não tiver …

FUTURO [Ana Coutinho]

Não sei se é um sinal, a idade, ou se sou algum tipo de profetiza moderna, uma escolhida, como Buda ou algo assim, fato é que me vejo o tempo todo pensando – e adivinhando - o futuro da humanidade, nossos ganhos e, principalmente, nossas perdas. É, de certo não sou nenhum Buda, talvez uma balzaquiana nostálgica e romântica, no máximo.

Adivinho, minuto a minuto, as frases que serão ditas no futuro. De repente, no meio de um dia comum a imagem me vem à mente: nós, no futuro, num tempo com menos paredes e mais medos, explicando para os nossos descendentes coisas tontas como: “Meu filho, antigamente, láááá pelos idos de 2008, existia nas ruas, telefones públicos aos quais chamávamos orelhão.” O neto olhará aterrorizado: “Como assim, vó? Era uma grande orelha?” “De certa forma”, eu responderei, velhinha: “Era um telefone que ficava no meio da rua, nas calçadas, em esquinas. Primeiro, meu bem, usávamos uma ficha telefônica, era como uma moeda que depositávamos no telefone e, assim, fa…

Vitângela >> Leonardo Marona

"Pobre Boris Vian, considerado extremamente contemporâneo". Foi o que ela disse e eu não sabia ainda quem era Vian, mas anotei num papel. Eu era um romântico à carteirinha. Primeiro a negação, depois a precipitação, o sonho com a morte e, por fim, o refúgio, o esquecimento ponderado da existência, o largar-a-deus, o morrer-aos-poucos infalível.

Andávamos e colhíamos cacau numa planície. "Isso não é cacau, isso é comida de hospício", ela dizia, abrindo um casco cheio de cabelos ao meio e enfiando o sumo branco na boca. Escorria pelo queixo. A provocação exata para um desconhecido, em meio a uma tensão sexual inevitável, é deixar algo escorrer pelo queixo. Assim inventamos a paixão – e não era lua cheia. Pobre Boris Vian.

Existe um prazer mórbido na boa vontade. A gente dá o que não tem e recebe o que não pode receber. A verdade é que meu negócio principal eram frases de efeito. "Respostinha", era como ela me chamava.

Andávamos de mãos dadas, entrelaçando os d…

ANJOS POR ACASO >> Carla Dias >>

Quando se nasce e de nascido experimenta-se a gana por vida. E a curva indica perigo ou já aponta o acidente. Quando se nasce assim, desse jeito um tanto quanto desmedido, vem logo o rótulo e gruda na cara da gente. Mas quem disse que queremos abrandar a dor e costurar as feridas?

Não buscamos cicatrizes, veja bem... Queremos mais é que não haja corte. Então, que tal fazer a corte a essa paz que não tem rótulo como este que foi grudado na cara da gente?

Porque quando se nasce cuspido, sabe? Caindo em qualquer canto da vida e lambuzando-se de abandonos. Quando se nasce assim, logo nos cravam as tachas nas mãos e crucificam nosso futuro. Não que queiramos pular nossa infância, caindo logo de cara no futuro das responsabilidades e ilusões adultas... Queremos sim celebrá-la até que, na idade adulta, nesse futuro mais catártico do que brincante, nós possamos sorrir sem as fendas que nos causaram as tristezas pirracentas.

Entende o que digo?

Espalharam por aí e por milênios, que é preciso doer …

JULHO DE 2018 >> Albir José Inácio da Silva

A página principal do site Crônica do Dia apresenta menus, banners, ícones e pop-ups que se misturam, aparecem e desaparecem, facilitando o acesso dos leitores. Os antigos diriam que a diagramação é um tanto caótica, mas olhos acostumados à revolução da informática transitam sem dificuldade pelas chamadas para dezenas de textos, notícias e outras informações.

Suspensas as negociações após novo bombardeio israelense. Crônica do Dia comemora vinte anos. Sonda espacial envia novas imagens de Plutão. Paula Pimenta emociona com carta à Paula de 2008. Metrô para Niterói tem inauguração prevista para dezembro. Carla Dias conduz o leitor num passeio musical pelos ritmos da alma. Candidato republicano obtém maioria com suspeita de fraude em Arkansas e Minnesota. Eduardo Loureiro fala sobre o lançamento do livro Crônica do Dia, uma coletânea representativa dos vinte anos do site. Trânsito no Rio: rodízio de placas não produz o resultado esperado. Marisa Nascimento fala de sua ligação com o Crôni…

MEUS FILHOS >> Eduardo Loureiro Jr.

Não tenho filhos.

Ainda.

Perdi a única chance que tive de tê-los até agora. E aguardo uma nova oportunidade.

Mas tudo que queremos muito se realiza quase que automaticamente, embora não da maneira como pensamos. O que me leva a admitir que a vida, o destino, o tempo... essa coisa que vai nos acontecendo sem prestarmos muita atenção, me trouxe dois filhos.


O primeiro é uma menina, que eu chamo de Linda Julia, sobrinha de minha querida, ex, falecida e saudosa Déa. Para Linda Julia compus uma canção que diz assim:

Quem me traz uma menina linda?
Se for canhota, melhor ainda.
Sapeca e sorridente,
amiga da fada do dente.
Quem me traz uma menina chique
— mesmo que pegue uma bronquite —,
que adormeça ouvindo histórias
e me vença com sua memória?
Alguém com quem ninguém possa:
me dê um susto com um beijo nas costas;
que tenha idéias mas com trabalho.
Ticha, Ticho, tichu, baralho.

Esta é a Julia, Linda Julia.

Quem me traz uma menina esperta
que já acorde tirando meleca,
que se esconda sob o lençol
e com cheirinho d…

ASSIM SE PASSARAM DEZ ANOS [Sandra Paes]

Muito bom acordar com o som do bolero na cabeça. O ritmo envolvente me deixa na preguiça e na onda suave e quente de hormônios que falam por mim:- “sem eu ver teu rosto, sem olhar seus olhos, sem beijar teus lábios... (...) foi tão grande a pena que sentiu minh'alma...”

Pulo na cama tentando reter a última imagem do sonho que escapa furtivamente como o tempo e esse tiquetaque silencioso de meu coração desesperado. Quero o resto da letra, quero recordar o que foi isso, quero rever esses dez anos...

Dez anos?! Sério?

Não sou boa em contabilidade de tempo, nem de contas, é claro. Aliás, nos últimos dez anos fiquei farta de tantos números, de toda essa forçada onda “modernosa” de nos pôr a aprender economês. Detesto essa língua, detesto essa quase obrigatoriedade de vigiar em nome do social, em nome da cristandade, em nome da cidadania, em nome do que julgam ser democracia e seus derivados intoxicantes, porque nada fica claro, nada é de fato transparente.

Dez anos de jogo que não escolhi,…

RESUMO DOURADO [Debora Bottcher]

Não pretendo que esse seja um texto triste, mas quando falo de dez anos, não posso omitir que exatamente na manhã de 05 de Julho de 1998 eu enterrava meu pai depois de dois anos de batalha contra um câncer. Foi a maior dor que já senti...

Mas foi também há dez anos - em Maio - que conheci meu segundo marido e aprendi de amor, cumplicidade e plenitude, numa relação que perdura com as mesmas bases, renovando-se a cada dia, a cada ano.

Nos últimos dez anos me reinventei: mudei de profissão e me instalei naquele canto de mim que sempre quis ser dona do próprio negócio. Foi preciso quebrar minhas barreiras de acomodação e a eterna inclinação ao pessimismo, para ousar num território desconhecido. A aventura tem rendido realização e prazer, e ainda me permite conciliar a metade de mim que pertence ao mundo das Letras para continuar escrevendo - não tanto, vocês sabem, mas ainda assim com a honra de integrar esse
espaço, onde primeiramente cheguei como leitora voraz.

Também arquivei o projeto de…

DEZ ANOS ESTA NOITE >> Fernando de Morais

Não tenho memória exata do instante em que, pela primeira vez, suspendi o passo, olhei para baixo (ou para o alto) e pensei: "lá se vão dez anos..."

Suponho que esse pensamento tenha aos poucos dado lugar a este outro: "mas.. como me foi acontecer isso?" A dúvida talvez explique o passo interrompido no susto, como quem disfarça um flagrante ou, pior, descobre uma doença incurável. Na presença do tempo, súbita e ignorada, é impossível não agir como quem desperta ao fim da viagem, o ônibus vazio, e onde estão malas? Onde quer que você esteja, o futuro há sempre de flagrá-lo em desalinho, a baba escorrendo, a braguilha desabotoada.

E é justamente aí que nos socorre a frase: "olha lá, meu camarada, que já se vão dez anos". Mas a verdade, a verdade dura, é que ano algum se foi, pois só então é que terá chegado. Sob efeito dessa presença, talvez lhe ocorra a pergunta: "com quem estava falando, afinal?"

A questão é particularmente difícil para quem os ano…

Dez Anos (bebe da água) >> Leonardo Marona

Dez Anos é um senhor de chapéu de feltro, com tempo de pensar. Por quanto tempo passamos Dez Anos? Por quanto tempo dissemos “é tempo de pensar?” E depois pensamos. E passamos despercebidos pelas lesmas e serafins. Há quantos anos o último tombo intencionado? Lembrar da velha agulha, que aponta as idéias e também não perdoa, que assassina os próprios filhos em nome da compaixão.

Intelectualizar o que não se pode saber, saber o que não se pode intelectualizar. Quem tiver essa dicotomia presente no sangue e corrente nos erros terá o mundo sempre aberto e perigoso, mesmo escondido em casa, com chapéu de feltro, como Dez Anos. Dez Anos passou dez anos à janela. Ser a própria janela dos anos, moldura fictícia. Voltar a falar e, então, voltar a falar. Mas qual será o momento em que os nervos darão respaldo à prece?

O quase tombo dessa espécie de filho, é disso que Dez Anos fala à janela. A falta de conclusão sobre antigas lapidações, as córneas muitas vezes latejando em desespero burro, o lad…

PRESTÍGIO [Anna Christina Saeta de Aguiar]

No dicionário, o verbo prestigiar é definido, quando transitivo direto e pronominal, como "conferir prestígio a algo ou alguém". Já quando como transitivo direto, prestigiar é entendido como valorizar alguém ou algum evento, com sua presença.
Depois de tantos meses sem escrever, uma amiga perguntou se eu não sairia do meu recolhimento para prestigiar os dez anos do Crônica do Dia. Eu respondi que, infelizmente, não seria possível.
Porque não teria lógica eu vir aqui "prestigiar" o Crônica do Dia, quando na verdade eu é que sou prestigiada por ter o privilégio de participar deste que - falo sem medo, sem timidez, sem qualquer hesitação - é o mais agradável, o mais organizado, o mais honesto e bem freqüentado veículo para novos autores na internet.
Conheci o Crônica do Dia há coisa de sete, oito anos. Nessa época eu estava me embrenhando no mundo, até então desconhecido para mim, da literatura virtual. E ler gente como a gente escrevendo é uma coisa louca. Sei lá. Parec…