Pular para o conteúdo principal

SOLIDÃO A DOIS >> Carla Dias >>

Aluguei este filme há muitos anos. Depois de assisti-lo, insisti com a atendente da locadora de vídeos, e ela fez o pedido dele pra mim. Naquela época, comprar filmes não era fácil, tampouco barato. Mas eu tinha de ter aquele em casa, porque a música era demais e o filme... Bom, o filme.

No final de semana, assisti ao tal filme na tevê a cabo. Ainda o tenho, mas em VHS, e isso quer dizer que não o assisto há outros bons anos. Havia me esquecido do motivo de tê-lo comprado e assistido tantas vezes que perdi a conta. As madrugadas eram os melhores cenários para embarcar nesta jornada. E o filme me acompanhou em muitas delas.

A música tema é do Terence Tren’t D’Arby (hoje Sananda Maitreya), apesar de um dos personagens se engraçar com o outro cantando uma música tradicional americana, que tem o mesmo título que o filme. Enfim, tornei-me fã do Terence, a partir daí. Comprei vários CDs, conheci a história, e a música dele também me acompanhou por muitas madrugadas... Impressionante como as madrugadas me inspiram às descobertas.

Aí vai uma das minhas preferidas... Não é a música tema do filme, mas é uma das que venho cantarolando (desafinadamente) há muitos anos.





Confesso que, mais do que a sinopse, o que me atraiu no filme Frankie & Johnny, a ponto de levá-lo para casa e assisti-lo pela primeira vez, foram os atores: Al Pacino e Michelle Pfeiffer. São eles os protagonistas dessa história que trata, com sutileza, da condição dos solitários... De como é difícil sair dessa condição e atrever-se a deixar que outra pessoa entre e nos faça companhia.

Muito do roteiro é tão próximo à realidade comum aos solitários que a graça do filme, definido como comédia, drama e romance - que também fazem parte do roteiro das nossas vidas -, está nos detalhes: a moça que compra um vídeo-cassete para espantar as noites que passa sozinha, que tem um amigo gay que a ajuda com os problemas de casa e também os emocionais. A senhora que morre e quase ninguém vai ao funeral; o homem que é preso e tem de recomeçar a vida, restabelecer o contato com os seus. A mulher que espera pelo homem ideal, e aquela da qual cobram casamento e filhos.

Frankie (Michelle Pfeiffer) e Johnny (Al Pacino) são pessoas sem qualquer glamour. Ele consegue um emprego de cozinheiro na lanchonete onde ela é garçonete, e o interesse é mútuo e imediato, mas há um caminho árduo a ser trilhado. Os companheiros da lanchonete e os acontecimentos cotidianos creditam ao filme uma veracidade quase palpável. Neste filme, os solitários se reconhecessem, assim como os amigos.

Frankie & Johnny é um filme honesto, que fala de maneira simples sobre sentimentos complexos; analisa com suavidade a condição daqueles que vivem em grandes cidades; que mesmo caminhando entre a multidão, voltam para casa sozinhos.

Este é um daqueles filmes que devem ficar por perto, feito livro de cabeceira. É bom revê-lo, saboreá-lo, interpretá-lo ao tom do momento.

Frank & Johnny foi dirigo por Garry Marshall, também diretor de outros filmes dos quais gosto muito, entre eles Um presente para Helen (Raising Helen) e Simples como amar (The Other Sister). Para situar os mais curiosos, ele também foi diretor de Uma Linda Mulher (Pretty Woman). Terrence McNally é autor da peça que inspirou o filme, Frankie and Johnny In The Clair De Lune, e também o roteirista do filme.

www.carladias.com


Comentários

Carla, você e essa sua capacidade de me fazer ter vontade de ir imediatamente a uma locadora... :)
Marisa Nascimento disse…
Carla, serei repetitiva se disser que você é uma enciclopédia ambulante de cultura e arte? :)
Com certeza um filme intrigantemente belo...

Postagens mais visitadas deste blog

MÃE – A MINHA, A SUA, TODAS
[Debora Bottcher]

Pessoalmente, não gosto de escrever sobre ‘datas especiais’ porque sempre me pergunto quem foi que inventou esses ‘dias de’ e baseado em que. É que apesar de eventuais evidências, eu me recuso a crer que essa ‘mágica’ idéia resiste ao tempo, à modernidade, às novas gerações, fincada apenas no foco de atiçar as vendas do quase-sempre-em-crise mercado comercial – digo ‘quase’ porque todas as vezes que vou ao shopping, em qualquer dia da semana, assombro-me com o movimento constante. Daí não tenho certeza de entender bem a base dos números e imagino sempre que é porque as estimativas são ousadas e otimistas demais, muito acima do poder aquisitivo da população média.
Seja como for, se me proponho a abordar o tema do momento – o ‘Dia das Mães’ - prefiro direcioná-lo à figura materna diretamente, para quem, certamente, tal dia é apenas uma vírgula no traçado de sua (árdua) trajetória. Não sou Mãe – que fique claro; portanto, para dedilhar (vagamente) sobre elas, vou me basear na minha, nas m…

À DISTÂNCIA (Paula Pimenta)

E se quiser recordar daquele nosso namoro
Quando eu ia viajar você caía no choro Eu chorando pela estrada Mas o que eu posso fazer Trabalhar é minha sina Eu gosto mesmo é d'ocê...
(Vital Farias)

Quem nunca namorou de longe, não vai conseguir entender metade do que eu vou escrever nessa crônica, porque só quem já passou por essa experiência sabe o quanto ela é difícil. Mesmo assim vou tentar explicar, para todas as vezes que vocês se depararem com alguém reclamando da ausência do namorado, não começarem com as manjadas frases que não fazem nada pela pessoa solitária: “Ah, mas pelo menos quando vocês se encontram tudo é festa, nem tem tempo pra brigar.” Ou: “O tempo está passando rapidinho, logo o próximo feriado chega.” Ou ainda: “É bom que no período que ele está longe você pode curtir com os amigos.”

Só quem namora à distância sabe o quanto essas frases são mentirosas. O tempo não está passando rapidinho, pode até passar pra quem está com o namorado do lado, podendo ir com ele ao cinema …

EU ESTOU BEM >> Sergio Geia

Digamos que foi um susto. No último dia 11, eu voltava de Jacareí sentido Taubaté, seguia o fluxo normalmente quando no km 156 da Via Dutra, bem em frente ao posto de guarda, em São José dos Campos, os carros à minha frente — como em Blecaute, de Marcelo Rubens Paiva —, simplesmente congelaram. De 80 km, naquele trecho, para zero, em fração de segundo. Não tive tempo de rezar (ah, como eu queria!), nem sequer olhar pelo retrovisor, descobrir se havia ou não uma carreta atrás de mim. Quando a ficha caiu, pisei fundo no freio, consegui não atingir o veículo à minha frente, mas, também, só por outra fração de segundo. De repente, uma sensação esquisita: eu senti a estocada, os objetos que estavam em cima do banco do carona voaram, logo meu veículo era arrastado até atingir o da frente.

Desci. Os motoristas dos outros quatro carros desceram, todos confusos, querendo entender. Os três primeiros carros, incluindo o meu, pequenos danos materiais, levíssimos diante do susto. O penúltimo e o …