domingo, 27 de julho de 2008

DISPOSITOR >> Eduardo Loureiro Jr.


Meu caro amigo Fabiano,

Ela se encostou no dispositor de bandejas do self-service do Ministério do Planejamento, Bloco C, subsolo. Eu mostro a cobra e mato a pau. Não é assim o ditado? Ah, meu amigo, do jeito que ela encostou no dispositor foi mesmo para esquecer o ditado, perder a concentração, tirar um zero, escrever relançe com pendurado Ç, atrassão com sibilante SS, goxto com excitado X. Porque ela não encostou no dispositor como quem se esforça para pegar a colher da bandeja que está do outro lado, que o infeliz da outra fila deixou quase inacessível para quem está do lado de cá. Não, se fosse isso, meu caro amigo, eu não me viraria para nossa querida amiga Célia e diria: "Olha ali uma aeronave no pátio". E Célia continuaria a pensar que aviões só pousam em aeroportos.

Mas para o bem de Célia, para o meu próprio bem naquele instante luminoso, para o seu bem, meu caro amigo, que há tempos não recebia uma descriçãozinha, e para o bem de toda a humanidade - sim, de toda a humanidade porque o mundo se salva num instante como esse -, para o bem de tantos foi que ela encostou no dispositor não de frente, como às vezes acontece, mas de lado, apoiando no metal prateado aquele delicioso pedaço do corpo da mulher que se encontra entre a coxa e a bunda.

Bastaria isso, meu caro amigo, para eu encerrar com discrição a descrição. Porque você tem imaginação suficiente para preencher os detalhes, para penetrar na pequena brecha umedecida aberta por essa imagem e gozar e fazer gozar. Sua imaginação seria certamente capaz de orgasmos múltiplos. Então não é por você, meu caro, mas por mim. Porque minha memória é fraca. Fraqueza no presente - agora mesmo já me escapam os detalhes da cena que me proponho a descrever - e no passado - se não lhe escrevo, se não a descrevo, corro o risco de um dia nem lembrar que a vi ali, encostada no dispositor de bandejas do self-service. Escrevo, portanto, como quem coloca um lembrete para si mesmo na porta da geladeira.

Você pode pensar que estou inventando, que, depois de tanto tempo sem descrições, isto é um trote, um artifício para dar-lhe um presente, despertar-lhe uma alegria, inspirar-lhe uma transgressão. Afinal, não pode haver verdade em uma mulher se encostar lateralmente no dispositor de bandejas. Isso ficará ainda pior quando eu lhe disser que não havia nenhum motivo aparente para que ela procedesse daquela maneira. Ela não estava atendendo a nenhuma ligação urgente no celular. Ela não estava retirando nenhum objeto indesejado da roupa. Ela não estava aguardando a reposição de alimentos em uma bandeja. Depois de muito pensar, cheguei à conclusão de que só havia um motivo plausível para gesto tão deslocado: ela se encostou no dispositor para posar pra mim, para me fazer especular sobre como uma mulher grande daquelas cabia nos dois milímetros - agora três milímetros - de minha pupila cada vez mais aberta. Sim, ela parou ali para mim. Estranho como se a lua cheia piscasse para um caminhante distraído. Como se o mar bravio se aquietasse porque um banhista ingênuo resolveu boiar.

Summer - Giuseppe ArcimboldoEla, encostada, lembrou-me daquele artista plástico que desenhava rostos compondo-os com frutas. Talvez fosse ele mesmo o responsável: já falecido, resolvera vagar pela Terra, compondo pessoas e alimentos não mais em telas, e sim em self-services. Pois os óculos dela, de aros redondos e vermelhos, lembravam rubras e deliciosas rodelas de tomate. Seu cabelo, entre preto e castanho, eram longas e brilhantes berinjelas. E seu rosto claro era um delicado e rosê purê de batatas. O pescoço, os braços, as curvas, os recheios, eram frutas ainda para mim desconhecidas, talvez do Paquistão, de Bornéu, da Guatemala.

Ela não estava ali para comer - não trazia prato na mão -, mas para ser degustada: com os olhos, como se convencionou provar as obras de arte. Mas juro-lhe, meu caro amigo, que se o segurança do subsolo do ministério se distraísse por um momento, eu estenderia o dedo para tocá-la e saber pela minha pele da textura daquela tela.

E então, da mesma forma que pousou, ela despousou. Como quem desfaz a pose após a fotografia, e já parece ser outra pessoa. Despousado daquela imagem, desposado por ela, meu olhar casou com o olhar da mulher. Casamento de dois segundos. O divórcio mais rápido e definitivo da história da humanidade. Eu pagando a conta do encantamento. Ela fazendo de conta que pagava a conta do self-service.

Eu ainda não sabia que a descreveria. Ela ainda não sabia, e talvez nunca saiba, que você, meu caro amigo, ao encontrar uma aeronave pela Esplanada dos Ministérios, procurará nela, feito uma dona-de-casa exigente que vai à feira, os traços mais perfeitos de tomates, berinjelas e batatas.

O abraço, aquecido por potentes turbinas,

É do ar do
P á t i o




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7 comentários:

Marisa Nascimento disse...

Eduardo, minha memória recente lembra de um comentário seu a uma crônica confessando sua dificuldade em ler e visualizar descrições. Percebo que a mesma dificuldade não existe para escrevê-las. :)

Eduardo Loureiro Jr. disse...

É só ilusionismo, Marisa. Se você reparar bem, eu quase que nem descrevi a moça. :) Mas talvez eu tenha o dom de fazer os outros enxergarem o que eu não consigo mostrar direito. :)

Anônimo disse...

ai, ai, nada como uma tara bem descrita... visualizei perfeitamente a moça e até senti o friozinho do metal na pele

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Anônimo... Sentiu o friozinho do metal na pele? Não me diga que você é uma anônima! Não me diga que é (um)a aeronave! :)

Anônimo disse...

Sou uma anônima... aeronave? um 14 BIS, talvez!!!

Carla Dias disse...

Ah, Eduardo... Há quem não aceite que bastam segundos, pequenos gestos, sussurros ou assobios para que algum observador agarre a imagem e a transforme em algo.

Ótimo esse algo mais!

ines disse...

:)Quando o self-service vira aeroporto dispostitores de bandejas se transformam em pistas de pousos e decolagens e as mulheres são aeronaves que provocam vôos inimagináveis...

De suas pupilas discretas, aparentemente tímidas, não escapa um único movimento sequer...E de repente, não mais que de repente, o movimento vira poesia, retrato, crônica, memória, encontro...

Lê-lo é sempre uma gostosura.