sábado, 5 de julho de 2008

ASSIM SE PASSARAM DEZ ANOS [Sandra Paes]


Muito bom acordar com o som do bolero na cabeça. O ritmo envolvente me deixa na preguiça e na onda suave e quente de hormônios que falam por mim:- “sem eu ver teu rosto, sem olhar seus olhos, sem beijar teus lábios... (...) foi tão grande a pena que sentiu minh'alma...”

Pulo na cama tentando reter a última imagem do sonho que escapa furtivamente como o tempo e esse tiquetaque silencioso de meu coração desesperado. Quero o resto da letra, quero recordar o que foi isso, quero rever esses dez anos...

Dez anos?! Sério?

Não sou boa em contabilidade de tempo, nem de contas, é claro. Aliás, nos últimos dez anos fiquei farta de tantos números, de toda essa forçada onda “modernosa” de nos pôr a aprender economês. Detesto essa língua, detesto essa quase obrigatoriedade de vigiar em nome do social, em nome da cristandade, em nome da cidadania, em nome do que julgam ser democracia e seus derivados intoxicantes, porque nada fica claro, nada é de fato transparente.

Dez anos de jogo que não escolhi, dez anos de roleta em torno do progresso que não me comove nem me move. Dez anos de tentativa de acerto em nome do povo que continua a se multiplicar sem eira nem beira, apostando no futuro e nada vendo das dez horas da manhã ou da noite.

Minha alma ainda sente pena - pena de ter perdido o primeiro amor, pena de ver a Terra revirada e os homens perdidos por aí tentando se encontrar, nas curvas de cimento e fumaças várias. Minha alma nada sabe de dessincronia e nem quer aprender...

Vou ao bolero. Melhor buscar o velho disco na voz de Gal - assim, quem sabe, esses dez anos passam com melhores memórias. Afinal, a poesia traz o que há de melhor do primeiro amor: a tonteira do novo que tira o chão, o ar, a identidade, o rumo e deixa um vazio danado de bom pra ser preenchido. E a gente não se queixa, nem sabe disso. Também não sabe mais nada...

E aí a alma fica marcada pra sempre. O grau de tonteira fica lá, registrado que nem um vírus tipo H, e mais: essa primeira marca deixa a gente com duas reações: buscar de novo a mesma emoção - quase sempre em vão -, ou fugir dela na tentativa de preservar a primeira memória. Será?

É preciso passar dez anos pra se rever nossas marcas indeléveis? Ou simplesmente nossas memórias deles? Penso que os sinais estão codificados em nós por emoções, sentidos físicos e sentimentos, e qualquer combinação de dois ou mais aciona uma vivência ou uma memória.

Agora, quanto à vida que se passou ao nosso redor, na história da comunidade, no registro feito pelos jornais, nos assuntos ditos os da “moda”, sei não... Eu não me lembro o nome do deputado que elegi há dez anos, nem o vereador, muito menos o síndico do meu prédio, e não tenho a menor idéia de quanto paguei de imposto. Sei que reclamei na época, sei que não fizeram o que era certo com meu dinheiro, e sei que os EUA continuavam ditando as regras do jogo econômico, moral, político e bélico, e que o Brasil sonhava com autonomia, mais distribuição de renda, mais valor da moeda, mais construção de estradas e melhores casas pra todos.

O sonho continua, o concretizar do sonho anda tão próximo de se materializar quanto o bolero que me acordou e me fez sair da cama rumo à cozinha, à cata de um café pra ouvir uma música, que me fala de coisas que só minha alma conhece o código, e tão bem, que guarda em segredo até de mim mesma.

Era o que me faltava: ”descobrir” que não tenho acesso também ao que se passou em dez anos. A seletividade da memória fica sujeita apenas a essa melodia que não pára de tocar na minha cabeça. Você tem isso também?

"(...) Ao recordar que tu foste meu primeiro amor... Recordo junto a uma fonte nos encontramos..."

Ceús, fonte hoje em dia virou sinônimo de renda ou falta de... Que pobreza! As pessoas passaram a ver as outras em função de sua fonte de renda, de seus dotes apostos - siliconados -, de seus lábios feitos com botox, e todo um glamour comprado na estética. O lugar de posso, devo ou quero, base de toda ética, foi substituído por “flats” e imagens virtuais, e lembranças de “o resto desse romance só sabe Deus” ficou apenas na canção que danço porque gosto muito desses "Assim se passaram dez anos..."

Imagens: George Raft Dancing, Bettmann (Detalhe da Foto); Eye with Clocks, Corbis; Roses Floating on Water Fountain, Hugh Sitton


Nakedness
Sandra Paes vive nos EUA.

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2 comentários:

Eduardo Loureiro Jr. disse...

É, Sandra, às vezes uma canção vale por dez anos de coisas que a gente nem lembra mais. :)

Carla Dias disse...

Sandra,

Espero que mais pessoas alcancem a magia de um bolero ao contar histórias.