sexta-feira, 4 de julho de 2008

DEZ ANOS ESTA NOITE >> Fernando de Morais


Não tenho memória exata do instante em que, pela primeira vez, suspendi o passo, olhei para baixo (ou para o alto) e pensei: "lá se vão dez anos..."

Suponho que esse pensamento tenha aos poucos dado lugar a este outro: "mas.. como me foi acontecer isso?" A dúvida talvez explique o passo interrompido no susto, como quem disfarça um flagrante ou, pior, descobre uma doença incurável. Na presença do tempo, súbita e ignorada, é impossível não agir como quem desperta ao fim da viagem, o ônibus vazio, e onde estão malas? Onde quer que você esteja, o futuro há sempre de flagrá-lo em desalinho, a baba escorrendo, a braguilha desabotoada.

E é justamente aí que nos socorre a frase: "olha lá, meu camarada, que já se vão dez anos". Mas a verdade, a verdade dura, é que ano algum se foi, pois só então é que terá chegado. Sob efeito dessa presença, talvez lhe ocorra a pergunta: "com quem estava falando, afinal?"

A questão é particularmente difícil para quem os anos não conduziram de volta a Ítaca ou não mostraram lado de lá das muralhas sagradas. Dez anos são uma vida, como dez são os mandamentos, dez as cordas da lira do salmista, dez as cortinas do tarbenáculo. Mas por que dez anos?

O número dez encerra a série infinita dos inteiros. O que vem a seguir você não sabe, mas já sabe do que se trata. O que vem em seguida é você mesmo, em você mesmo transformado. Por isso, para saber com quem se fala, e ter presente a sua figura, é preciso erguer um brinde - "dez anos lá se vão!" - todas as noites.

Pois aquele que suspende o passo, olha para o alto e confessa para si mesmo, enxerga da vida a imagem simultânea, a forma acabada, instante miraculosamente subtraído ao fluxo. E escuta, da carranca que o encara, o diálogo Daquele Que É com aquele que fala:

— Força é mudares!

— "Força é mudares...", ecoa o verso nu de um torso mudo. Fazer de si o que sonhares. Será sempre a oração noturna... da memória, um açoite: dez anos esta noite.

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Um comentário:

Eduardo Loureiro Jr. disse...

É, seu moço...

Acertou na pobre mosca, e com direito a pelo menos duas tiradas geniais:

- "a verdade, a verdade dura, é que ano algum se foi, pois só então é que terá chegado";

- "O que vem a seguir você não sabe, mas já sabe do que se trata."

Volte sempre! :)