sexta-feira, 11 de julho de 2008

Vitângela >> Leonardo Marona

"Pobre Boris Vian, considerado extremamente contemporâneo". Foi o que ela disse e eu não sabia ainda quem era Vian, mas anotei num papel. Eu era um romântico à carteirinha. Primeiro a negação, depois a precipitação, o sonho com a morte e, por fim, o refúgio, o esquecimento ponderado da existência, o largar-a-deus, o morrer-aos-poucos infalível.

Andávamos e colhíamos cacau numa planície. "Isso não é cacau, isso é comida de hospício", ela dizia, abrindo um casco cheio de cabelos ao meio e enfiando o sumo branco na boca. Escorria pelo queixo. A provocação exata para um desconhecido, em meio a uma tensão sexual inevitável, é deixar algo escorrer pelo queixo. Assim inventamos a paixão – e não era lua cheia. Pobre Boris Vian.

Existe um prazer mórbido na boa vontade. A gente dá o que não tem e recebe o que não pode receber. A verdade é que meu negócio principal eram frases de efeito. "Respostinha", era como ela me chamava.

Andávamos de mãos dadas, entrelaçando os dedos. Engraçado que, andando assim, ela parecia mais nova, e eu via manchas na minha pele um dia curtida de enganos bons.

Eu tinha na época uma fala empolada e, obviamente, ambições poéticas, o que já era ridículo por si só, fora o cacau no Aterro do Flamengo em pleno meio-dia, lendo tal personagem ultra-humano de Tchekhov – ela uma atriz em progresso – o que não era só um absurdo geográfico, mas entre nós ainda havia uma toalha de mesa estampada e, com esforço, colibris se desmanchando em preces orientais, manchas de vinho, poemas sobre ópio.

Ela era o meu messias. Faltava a barba e a tendência a túnica. Tomava remédios potentes e aparecia com as gengivas em sangue às quatro horas da madrugada. Isso era literário.

"Você vive uma vida literária", dizia meu pai, um jornalista. Eu pensava: "E se eu dissesse a ele: você vive uma vida jornalística, o que seria?" De fato não era nada. Ele não entenderia e mudaria de assunto, ou esperaria um minuto, para dizer: "Tem coisas que você não precisa de um psicólogo para saber que são ruins".

Eu era um escritor e não estamos falando aqui de qualidade literária, mas que diabo de vida meu pai queria que eu tivesse, não fosse uma vida literária, eu sendo um escritor, semente do meu fruto podre e único?

Era a vida que eu tinha e muitas vezes ela se desvencilhava de mim de modo que eu ficava solto numa rinha de galo, com os olhos vendados. Quando acontecia dela se desvencilhar eu começava a complicar as coisas, intelectualizar tudo para não ter que lidar com nenhuma novidade.

A perversão era um crime. Me lembro que por anos meu pai, figura importante para um filho sem mãe, dizia: "A culpa é uma coisa fundamental". E ele falava calmamente, ele era extremamente sólido e consistente, profundamente arraigado, mas sabia rir de si próprio. Um sujeito emotivo que, de alguma forma, teve a delicadeza abusada e preferiu apenas me deixar passar, vendo à distância. E eu também não tentei muito, apenas disse muitas vezes "te amo". Mas dizemos isso apenas quando não temos o que dizer.

Mas por que falei do meu pai? É preciso ter um fio. Diz a escola e, afinal, precisamos das regras para quem sabe publicar. Rasgar a pele falsa é muito mais difícil. Tento fazer isso e sinto fome. Lembro que o nome dela era mistura do nome do pai com o nome da mãe. Vitângela.

Cacau, pois então. Quem conhece o cacau sabe do que estou falando. Só há uma pessoa que conhece o cacau – é aquela que o esmaga. Hoje ela se chama Vitângela. Dorme pouco, engloba tudo, tem o pé grande – Boris Vian, uma fraude – e, mesmo que eu queira, não cabe numa página, mas é tarde, e meu nome é mais difícil.


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2 comentários:

Marisa Nascimento disse...

Leonardo, linda lembrança de Boris Vian. Lembro quando o conheci por "Quero uma vida em forma de ti.
E tenho-a, mas ainda não é bastante.Eu nunca estou contente"
Você é Arte Literária ambulante! :)

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Simples, belo e inspirador feito um passeio no Aterro do Flamengo.