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PRESENTE! >> Felipe Holder

Passei minha vida chegando atrasado em todo canto. Na minha primeira escola, antes do início das aulas, os alunos formavam fila para cantar o Hino Nacional. Isso por volta das sete da manhã. Eu passei cinco anos nessa escola e não me lembro de ter cantado o Hino mais de três vezes.

Na segunda escola não se cantava o Hino Nacional, mas havia um coordenador pra lá de exigente, que carimbava a caderneta de quem ousasse chegar atrasado. O carimbo era como um cartão amarelo: três carimbos, uma suspensão automática. Não fui suspenso muitas vezes, porque tinha o cuidado de sempre tentar driblar o coordenador. Quando chegava atrasado, eu passava de fininho pelo corredor e sacudia a bolsa pela janela da sala. Sempre tinha um amigo pra segurar a bolsa do outro lado. E um professor desligado que não via nada. Às vezes não dava certo. Como no dia em que dei de cara com o coordenador assim que cheguei ao colégio, com a cara ainda inchada de sono. "Isso é hora, senhor Felipe?" Eu disse a verdade: dormi no ônibus e perdi a parada. "Não é desculpa. Me dê sua caderneta pra carimbar o atraso". Aí eu menti: disse que tinha esquecido a caderneta em casa, pois tinha trocado de bolsa por causa da aula de Educação Física. "Esqueceu? E o que é isso no seu bolso?" Era a caderneta. Terceiro carimbo, suspensão automática. Sem direito a recurso nem julgamento.

No trabalho, difícil chegar na hora. Por isso saio tarde sempre que é necessário. Mas nem sempre isso resolve. Atrasos são atrasos, às vezes não dá pra compensar. Já cheguei atrasado em jogo do Náutico, imagine você. O resultado? 1x0, gol marcado aos 5 minutos de jogo, claro. Gol que eu não vi. Nem no dia seguinte, pois quando liguei a TV o programa de esportes já tinha acabado. Antigamente, quando a gente podia ficar no cinema depois que a sessão acabava, eu tinha o hábito de chegar atrasado e ver o início do filme na sessão seguinte. Sem brincadeira. Ainda hoje vivo me atrasando até na hora de dormir. Ela chega, eu não. Às vezes o sono não vem, às vezes faço de conta que ele não veio, mas o fato é que nunca durmo na hora. Estou sempre atrasado.

O Crônica do Dia fez dez anos e eu, como sempre, cheguei atrasado para a festa. Não havia mais ninguém, nem um colega de turma, nem bolo, nem velas. Ainda bem que aqui não tem carimbo na caderneta, senão eu viveria eternamente suspenso.

Cheguei atrasado mais uma vez, justamente no dia do aniversário de dez anos. Mas cheguei. Não estava aqui no começo da festa, mas pelo menos cheguei antes do final. A tempo de responder bem alto à chamada do professor Eduardo:

— Felipe?

— Chegueeei! PRESENTE!

Comentários

Marisa Nascimento disse…
Felipe, chegar atrasado, desta vez, faz com que a gente comemore mais um bocadinho o aiversário do Crônica! :)
Meu querido amigo, você não chegou atrasado: chegou prolongado. Prolongando o prazer de conviver com essa turma boa e de ler os seus textos cheios de graça e graciosidade. :)
Carol Barcellos disse…
Leonardo, o bom é que aqui no Crônicas qualquer hora é hora!!! Comemoramos a toda hora mais um dia de poesia!!!
Ótimo texto!
Beijinhos doces cristalizados!!! ;o*
Carla Dias disse…
Ah, que bom que existe aqueles que, ditos atrasados, fazem é puxar o laço do presente num ritmo mais lento,fazendo com que nossos corações batam mais rápido.

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