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Mostrando postagens de Setembro, 2019

carpinteiro / apenas um caso de rotina - parte I >>> branco

ato II
alguns anos antes
bem meu pai era um carpinteiro era triste como um revólver teve 7 filhos e eu o único que junta palavras trabalhou durante 23 anos em uma carpintaria até que o homem do escritório o despediu passou um longo tempo para que tudo voltasse ao nomal mas antes disso esposa e filhos o chamaram maldito !
meu pai e eu nos parecemos ele o carpinteiro eu o seu filho que senta-se ao seu lado esquerdo durante as refeições
carpinteiro que caleja as mãos poeta que caleja a mente lembra-se meu pai de quando nós ficávamos na beira da velha estrada?
ele contava histórias eu os carros que passavam agora ele conta os momentos  eu os calos  em sua alma ele acorda cedo e vai para a oficina eu acordo tarde e torno a juntar mais palavras mas o seu - e o meu - trabalho são grãos que escorrem pelos dedos
meu pai e eu nos parecemos ele e seu martelo eu e meus grãos de palavras ele fazendo mesas onde repousam meus papéis até que tudo chegue a um final

ato III
45 anos...depois
de repente vej…

SILÊNCIO DAS COISAS >> Fred Fogaça

Sobretudo em silêncio, sentados à mesa cada um disposto dê um jeito. Compartilhamos essas reticências esperando que cada outro soubesse o que fazer delas. 
Cada cacareco que ocupa canto sim, canto não, agora, perene sob a perspectiva liquida do tempo, se acotovela para estar. 
Num triz se vê como tudo existe. 
Estive me calando. Poupando minha atenção desses ruídos muitos do tempo: por coisa de dias, nada de entretenimentos passivos. 
Não o bastante, ainda são imperceptíveis os instantes do fruir. 
O que sempre me esqueço: das vezes em que estive tentando a meditação: o silêncio de consonância com as coisas – existindo tanto quanto você. Democraticamente. 
Por boa causa largo as entrelinhas: a comunhão quase plena com as coisas desdobra o tempo. Muito a perceber, muito ainda a praticar. 
Os êxitos são instantâneos – as vezes, o dia se arrasta. 
Mas o que se discorre dessa liberdade das coisas, ainda que pouco, é o que se compensa do esforço. 
Pela experiência. 
Sobretudo em silêncio.…

MINHA SALA >> Sergio Geia

Aparelhei minha sala com tudo que me é importante. 
Enchia-a de livros, por exemplo. Não imaginei minha sala ausente deles. Está certo que muitos eu dei. Nascia uma desimportância neles para mim, não me encantavam mais. Mas mantive os preciosos, os que ainda me tocam: Philip Roth, J.M. Coetzee, Gabriel García Márquez, Cristovão Tezza, Milton Hatoum. A eles incorporei novos companheiros: Lygia Fagundes Telles, Caio Fernando Abreu, Cíntia Moscovich. E sim, obviamente que deixei grande espaço na estante para receber mais amigos — do tamanho do oceano. 
Um barzinho aqui também eu tenho. Comprei um simples nessas lojas de departamento, não sou muito dado a luxos. O suficiente para guardar alguns vinhos, um bom uísque, aguardente. Muitos são presentes carinhosos — basta descobrirem que aprecio uma boa cachacinha que logo me enchem delas, as quais acolho com enorme prazer. 
Boas recordações foram perpetuadas em fotografias. Momentos que passaram, que deixaram saudades. Montei um álbum em u…

SURPRESA >> Paulo Meireles Barguil

 Quase tudo relacionado à flora é novidade para mim, seja porque quase sempre morei em cidade grande, seja porque minha formação acadêmica é distante desse assunto. Quando decidi abandonar um estilo de vida, eu sabia que queria plantar, além de fruteiras para atrair os pássaros, um ipê-rosa. Acho o ipê-amarelo muito bonito, mas, além de ele ser comum no Ceará, essa cor é a da casa e a do muro. A muda escolhida, após uma saga em vários fornecedores, veio morar comigo no final de outubro do ano passado e eu achava que iria demorar algumas translações para começar a florar. No começo de agosto, as folhas dele começaram a cair, mas eu nem me animei, pois já tinha aprendido que isso acontece nessa época. Na 6ª feira passada, eu havia pesquisado, mais uma vez, sobre a floração dos ipês –  cada cor tem sua temporada, a qual varia dependendo da região e das condições climatológicas – e fui dormir conformado, falando para mim mesmo: "Próximo ano, acontecerá!". E, então, uma semana …

QUANTOS ESTAVAM LÁ? >> Whisner Fraga

ele me perguntou o que eu tinha escutado.

eu tive medo quando ele me perguntou, porque pareceu que ele queria que eu respondesse:

"nada".

eu estava com medo porque as coisas podiam ser mal interpretadas e, se essa nova interpretação dos fatos chegasse ao conhecimento de meus pais, não seria bom.

o menino ao meu lado tremia um medo maior do que o meu.

eu devia a verdade a ele. "carvãozinho."

o diretor: "repete."

"carvãozinho."

depois ele falou "quem chamou o menino de carvãozinho?"

entreguei um nome. o de quem gritou carvãozinho primeiro.

o diretor suspirou e eu achei que era porque estava com uma decisão difícil para tomar. não devia ser difícil, mas era.

"tem certeza que foi o jonas? ele não é disso."

o jonas era de uma família tradicional. "tradicional". foi o termo que o diretor usou.

o diretor mandou:

"saiam."

e não se falou mais nisso.

PERDEU-SE? >> Carla Dias >>

Ele perdeu o trem e seu dia ficou desarranjado. Alguns palavrões depois, distraiu-se com a figura lúdica daquela senhora, a catadora de latinhas e afins, que desfilava pela plataforma, enfiada em trajes atassalhados. Como o difícil pode ser aprazível ao espírito que ainda visita memórias infantes? É que ela lembra a avó dele, geograficamente distante, mas sempre presente.
Ela perdeu a carteira e ganhou uma dor de cabeça oriunda da burocracia. A própria é uma burocrata de profissão, por isso evita ter de encarar o emaranhado disso e daquilo que a coisa provoca. Contudo, aconteceu. Ela esperava até pelo fim do mundo, mas não que tivesse de se submeter às filas e aos formulários destinados aos cidadãos comuns que se emaranham em burocracia de jeito tal que fica impossível desatar o nó.
Ela é cidadã comum, apenas se esqueceu disso. 
O menino perdeu o dente da frente e recebeu de volta as chacotas dos coleguinhas da escola. Também perdeu o desejo de ir para a escola e ganhou um dia de fol…

NOVOS SIGNIFICADOS >> Clara Braga

Por muito tempo confesso que não entendia muito as mães que faziam questão de comemorar os primeiros aniversários dos filhos com uma festa muito cheia de detalhes, já que eles nem se lembrarão desses dias.
Por muito tempo me perguntei: para que escolher um tema, correr atrás de decoração, gastar uma grana enorme para fazer algo que o bebê não vai lembrar e, muito provavelmente, não vai nem aproveitar!? 
Mas, o mundo dá voltas, e essa semana estava eu finalizando todos os mínimos detalhes da festa de 2 anos do meu filho! Mínimos detalhes mesmo, pois é o segundo ano que faço questão de me encarregar de toda a decoração.
Realmente, meu filho só vai ver registros do que foram as duas primeiras festas de aniversário da sua vida, mas sejamos sinceros, esses primeiros anos não são realmente só aniversário da criança, de uma certa forma é aniversário dos pais também! 
Quando meu filho nasceu, eu e meu marido tivemos que nascer de novo! Nunca tinha pensado em como ensinar alguém a dormir ou a…

O MARTELO DO BEM - Terceira parte >> Albir José Inácio da Silva

(Continuação de 09/09/2019)
Depois subiu três lances de escada e ultrapassou a porta em que se lia “Proibido a pessoas estranhas”. Saiu no terraço e foi até a grade. Ouvia o próprio coração batucando, mas não sentia as pernas. Flutuava.
Arriou a bolsa, subiu no banco de cimento e escutou o silêncio. Até que foi despertada:
- Não sei o que você está pensando mocinha, mas preciso te avisar de uma coisa: – a voz de Déti era firme e pausada – você está apenas no quarto andar e as chances de não morrer e ficar tetraplégica são muito grandes. E pode ter certeza, a dor física não vai aliviar a dor da alma. Margô ficou imóvel por alguns instantes e sentiu a mão da enfermeira na cintura.
***
A frieza da atendente na imobiliária não arrefeceu o ânimo das duas mulheres. Quase dançavam ao atravessar a praça com o sol se infiltrando pelos galhos das árvores, os passarinhos cantando e ovento levantando redemoinhos de poeira. Ao lado do coreto, alguns cães comiam e bebiam o que ali foi deixado pra e…

POEMA A QUATRO MÃOS >> Sandra Modesto

O livro aberto
Por perto há olhares
Sons sensatos
Notas procuram algum tom

Algo de Carlos derramado 
Doces cafés 
Talvez amargos...
Os dias com Clarice

Goles
Porres
Gulas.

Calmo amor espichado
Um verso escorregue pela mão
Mais um verso.

Apaga
Recomeça
Vai seguindo
Olhos arregalados

Medonhos e imprecisos caprichos
Sonetos contando sacanagem
Pira respira inspira e prossegue

Ele chega com flores. Ela só quer preguiça
Ele pede um canto
Ela prefere um conto
De repente um pensamento

Quem sabe amenizar a dor do tempo

Só um gesto ela já sabia
Sempre à luz do dia
Ao sair pra o trabalho
Carlos pega o controle remoto e sintoniza no canal de áudio
Só para Clarice ouvir:
“Todo o sentimento”
“O meu amor”
"Se eu soubesse"
"Dueto"

Por isso havia roçar de corpos
Mentiras interessantes
Libidos sinceras.
Laços
Feitiços
Toques carinhosos ali.

Gostava dela porque ela escrevia poemas
Gostava dele porque ele desenhou pra ela.

INCÊNDIO À DEZESSETE MÃOS >> Cristiana Moura e Outros

Quando eu era menina, em infância remota lá em São Paulo, quase pus fogo no prédio. Queria mesmo, e nem sabia, era queimar a vida, um punhado de emoções e transmutar — fazer uma novinha em folha. Nem sabia... 
E mesmo com a vida nova e muitas mudanças, uma dor acompanha e sufoca, no entanto, ao redor, há o cuidado, há o afeto daqueles que realmente se importam. Então não pus fogo no prédio porque tem quem se importa, quem me ama. Todavia havia o que queimar e incendiei aqueles sentimentos ruins que moravam dentro de mim e me tiravam o ar e como uma fênix eu ressurgi das cinzas.
Vida é coisa cíclica e disforme, coisa que faz e desfaz a cada passo. Passado e futuro não definem nem delimitam essa vida sendo vivida. Só o caminho pode configurar, passo a passo, um de cada vez, as nossas idas e vindas.E vou encontrando e reencontrando os traços dessa caminhada a medida que vou apreendendo a amar.
Com a natureza venho aprendendo a ser semente. Semente que brota, vive e chega ao fim. Talvez …

O ELETRICISTA - 1a PARTE >> Zoraya Cesar

Nasceu Paulinho, cresceu Paulinho e só não morreu Paulinho porque nossa narrativa termina antes desse inescapável evento. Também porque, tão logo começou a trabalhar, todo mundo passou a chamá-lo de Seu Paulinho. E, para não contrariar a maioria – uma atitude sempre perigosa -, vamos, doravante, também assim chamá-lo.
Contextualizemos os fatos. Prometo que não me demoro. Ou antes, nada prometo, porque histórias e promessas têm o estranho costume de seguirem seus próprios rumos. Mesmo as que têm início, meio e fim. 
INÍCIO O pai de Seu Paulinho era famoso por seu trabalho de pedreiro, irretocável; e por seu caráter, irreprochável:  homem das antigas, às direitas, cuja palavra valia ouro. Quietão, na dele, só conversava com os poucos amigos de confiança – aí rolava uma cervejinha, um carteado, um desanuviar das agruras da vida. Seu Paulinho cresceu à sombra desse homem e, dizia minha avó, quem puxa aos seus não degenera. Não sendo, no entanto, filho de chocadeira, o menino tinha uma mãe. A…

GOTINHAS DE CHUVA >> Nádia Coldebella

O barulhão das nuvens agitadas fez Aninha olhar para cima. Plim! Uma gotinha caiu suavemente no seu nariz. Era uma coisa pequena. Bem pequena. Praticamente imperceptível. E bem sem importância. Então ela resolveu esquecer e voltou a brincar na areia do parquinho. 
 Cavou um buraco com as mãos e colocou a Barbie deitada dentro. 
 - Fica aí, Flor. Tem gente na porta - Ela havia feito um quadrado no chão e entrara dentro. Brincava de casinha. - A mamãe não está. Dá licença que a Flor tá me esperando.- disse de cara fechada, fazendo de conta que estava brava pelo incômodo. 
 Aninha alisou primeiro seus cabelos há dias sem pentear. Depois, fez o mesmo com os cabelinhos de plástico da boneca, ajeitando sua roupinha. O vento havia trazido algumas folhas que a criança depositou, sistematicamente, sobre ela. 
 - Vamos cobrir você. - e colocou a última folha sobre o rosto da Barbie. 
 Tirou de uma caixinha de plástico o seu achado da tarde: uma colher minúscula, dessas que se usa para mexer ca…

IGNORE O VAZIO >> Carla Dias >>

Que hoje não é dia de aceitar o vazio.
Comprometeu-se a executar tarefas simples, a fim de manter a mente pronta para a próxima ideia, para a possibilidade seguinte, o porvir. Um empresário de silêncios dramáticos – os filmes estão repletos deles – até se propôs a arquitetar um plano mirabolante para enganar o incômodo e conceder a ela um pouco do conforto da ignorância.
Não aceitou, porque a ignorância lhe parece de um desconforto infinito e ela aprecia desfechos.
Que hoje não vai dar oportunidade para que o vazio a domine e a transforme em um pedaço de carne a se arrastar pelas calçadas da cidade. Vazio faz isso de reduzir a pessoa ao menos que ainda a permita respirar. 
Não é morte, mas abandono nevrálgico.
Porém, ela tem um plano. Acredita que alegria, horror e dor duram um dia. Depois do sono, apaga-se a urgência, desmistifica-se a importância do abatido e a existência volta ao ponto em que não faz diferença. 
Nada pulsa, apenas está ali.
Deita-se no saguão. Lá fora, o sol disfa…

PRECISO DE UM BANHO >>Clara Braga

Tempo é sem dúvida um dos bens mais valiosos e escassos dos últimos tempos! Quem nunca disse a frase: adoraria, mas estou sem tempo, precisa ganhar o Nobel da Paz!
Entre as pessoas que melhor sabem organizar e aproveitar seu tempo estão as mães. Não é que quando o filho nasce a mãe automaticamente se torna uma mágica e dobra o tempo, mas a situação a obrigada a se virar nos 30.
Justamente por isso, quando mães conversam e trocam ideias sobre como otimizar seu tempo, eu sempre paro e escuto atenciosamente, pois a chance da dica ser extremamente valiosa é grande!
Outro dia ouvi uma dica tão sensacional que não poderia deixar de compartilhar. Duas amigas mães conversavam e uma delas disse que tinham algumas comidas que ela ainda não achava adequadas para oferecer para o filho, mas que ainda assim ela comprava e aproveitava para comer quando ele estava dormindo, mesmo que para isso ela precisasse deixar de usar o cochilo do filho para descansar também!
Foi então que a outra mãe disse: nã…

olhos azuis >>> branco

poemas em 6 atos*
ato I
às vezes sentado na poltrona da varanda com meus amigos inseparáveis - a cerveja os cds e o cigarro - ouço vozes que me chamam são vozes que se misturam voz com olhos azuis a voz do raro sorriso ainda outras - amigas -  também me chama a voz do assassinado concentro-me no que dizem percebo que não existem imprecações nelas apenas inúteis lamentos ouço-as enquanto olho para a parede que está em minha frente

uma breve e agradável interrupção me afasta do meu mundo dois seres vivos - a quem também chamo de amigos - chegam trazendo vinho e mais cervejas ajeitam-se em outras poltronas em frente à parede conversamos muito - rimos muito -  com as coisas mais rotineiras mas a noite começa a cair lentamente e o silêncio aumenta agora apenas bebemos

ilustração de Ana Betsa publicado originalmente no livro 7
*seis poemas independentes nos quais personagens e situações se entrelaçam formando o quadro de um desastre

VENDE-SE >> Fred Fogaça

As mãos se agarram a imediates com a força de evitar precipitações: ora, a velocidade - pouca, confessemos - corta o piche à base de más impressões.
Eu tenho medos palpáveis que não consigo controlar.
Esperei um aniversário de tempo por esse dia em que não fosse intermediar as voltas com o cobrador: mas agora é tudo ansiedade e desconfiança.
Seus ferros se correm de rancor.
A maquina que corta as más impressões cospe suas disfunções na minha cara e eu... bem, eu nunca estive em menos poder. Quando giro o contato que lhe vocifera às entranhas incinerações autoinfligidas, eu já lhe estranho os humores.
Devo desfazer-me dessas ameaças.
Às vezes me estranha a selvageria moderada da vida tradicional, essas afrontas na mão mole.
Quando eu paro, às vezes, por um momento só, e perscruto a natureza irremediável da realidade eu só constato o que já deveria e ainda assim me estranha. Explico: é pessoal, seu problema sempre foi eu.
Por isso devo repassá-lo, é por que me afronta, é porque eu lhe …

NUM SÁBADO DE OUTONO >> Sergio Geia

Ela tinha um trabalho. 
Com a retribuição desse trabalho pagava as contas, jantava fora, de vez em quando viajava, tomava uma taça de vinho em casa assistindo a La la land, ou Nasce uma estrela, ou Woody Allen, que ela adorava, renovava o guarda-roupa, pedia pizza, ou chinês, ou árabe, ou japonês, ou mexicano. 
Ela tinha boa saúde. 
Dormia bem, tinha apetite, não sentia dor. Esses componentes presentes em sua vida atestavam para ela que por dentro tudo ia bem. Além do mais, não tinha nenhum problema, desses graves, diagnosticado, não tinha AIDS, nem câncer, nem cardiopatias. Ia ao médico regularmente (embora os médicos tivessem abandonado o seu plano), fazia exames, musculação, corria, comia salada, frutas, deu até pra meditar. 
Ela tinha amigos. 
De vez em quando nos reuníamos pra beber, comer, jogar conversa fora, tínhamos um grupo no whatsapp pra bate-papo, trocar figurinhas, sempre nos comunicávamos sobre velório do pai de um, da mãe, da amiga de outros tempos, consolávamos, conf…

FRUSTRAÇÃO >> Paulo Meireles Barguil

  Ontem de noite, antes de eu dormir, elas estavam aqui.

Eu fui me deitar tranquilo, pois já sabia sobre o que escreveria hoje.

Ao acordar hoje, contudo, descobri que a minha ideia, dessa vez, não se tornaria realidade.

As frutas novinhas estavam no chão.

Algumas abelhas ainda se alimentavam do que aquelas deixaram antes de caírem.

Pode ser que eu consiga a fotografia desejada daqui a alguns dias, quando as próximas saírem.

A frustração só não é maior porque consegui redigir uma crônica.

Vida que segue...


[Eusébio – Ceará]

[Foto de minha autoria. 13 de setembro de 2019]

ESCURECE SOB CINZAS >> Whisner Fraga

como prever um susto a oitocentos por hora?

os aviões esfolam um céu tumultuado de fuligens.

as cinzas aterrissam na varanda dessa cidade inquieta.

as gatas acossam libélulas incendiadas.

a menina recua diante da noite em um meio-dia consumado.

o rio também está morto há décadas, menina.

tudo está morto, falta decretarem.

alguém derrama uma água suja na jabuticabeira. a terra humosa.

pai, como é o nome do cantor que você encontrou no bar? nick.

a oitocentos por hora não há imprevistos.

o avião se afoga na poluição cinza e vermelha. e some.

uma tempestade de vaga-lumes queimados possui a varanda.

tudo está morto.

ESQUECÍVEL >> Carla Dias >>

Das coisas mundanas: pés rastejando em parede. Passos lentos, de levar a lugar nenhum. Pés tateando a pele desbotada da parede que está lá há mais de uma vida de alguém que ela não sabe quem, mas existiu. Pensa até em se dedicar a encontrar o ex-dono dessa parede na qual seus pés dançam, desajeitadamente, enquanto o corpo jaz em um colchão vencido - de prejudicar coluna -, sobre um cobertor herdado de alguém, de quem não se lembra bem.
Pergunta-se, na mudez de um pensamento disperso: qual será a história dele? Do dono das paredes de antes de a casa se tornar seu refúgio.
Cultiva agrado sem fronteiras pelos contadores de histórias, principalmente dos que nunca transformaram tal talento em profissão, porque o pouco de ficção que se envolve com a realidade deles não a muda, apenas a torna mais palatável.
Sente por eles um afeto melancólico, porque lhe faz bem escutá-los a tecer suas tramas, apesar de, quase sem pausa, a dor ser a responsável pelos pontos de virada. Ela sente a dor deles…

O QUE É SER VELHO? >> Clara Braga

Quando eu era bem nova, antes de completar meus primeiros 10 anos de vida, achava uma pessoa de 31 anos muito velha!!
Ser velha não era um problema, só significava que a pessoa já tinha chegado em uma fase que já havia realizado boa parte daquilo que queria. Se quisesse casar teria casado, se quisesse ter filhos já os teria, se quisesse viajar já teria conhecido vários lugares e assim por diante.
Hoje, no dia que completo 31 anos, penso nessa menina e tenho vontade de agradecê-la por diversos motivos, mas principalmente por ter se permitido mudar de opinião e ter sido, conforme os anos passam, menos exigente consigo mesma.
Não, nem todo mundo casa antes de ter filhos - ou nem mesmo casa - e isso não faz da minha família menos família, nem todo mundo está no emprego dos sonhos antes dos 30 e não há idade para mudar se isso for o que te faz feliz, e não teria graça nenhuma já ter conhecido todos os lugares do mundo que eu quero conhecer, muito pelo contrário, ter objetivos como viagens…

O MARTELO DO BEM - Segunda Parte >> Albir José Inácio da Silva

(Continuação de 26/08/2019)Amanhã iriam às compras e aos trabalhos. Dia de transformar sonho em realidade depois de tanto sofrimento.Dia de limpar, consertar, cozinhar e enfeitar. Dia de saber como estava o Sabugo.
O dia começou cedo. Havia mais coisas na caminhonete do que parecia. O sol trazia bem-estar e animação, quase saltitavam quando entraram no carro. A imobiliária era a primeira parada.
Ao contrário dos primeiros contatos, em que era toda sorrisos, a atendente portava uma cara desconfiada, uma tensão na sobrancelha. Tinha ficado assim depois que, para o preenchimento do contrato de aluguel, elas informaram que eram só as duas, não tinham maridos ou filhos.
- Quando a cópia de vocês estiver autenticada, eu mando! – disse como se dissesse “não precisam vir aqui”.
Já estavam acostumadas a frieza e hostilidade no Rio de Janeiro. Mas, desse lugar, distante centenas de quilômetros de suas famílias, esperavam alguma tranquilidade e, se não acolhimento, pelo menos respeito. Amizade era q…

A CASA DE DAVI >> Sandra Modesto

Vitória se aproxima do portão pra sentir o sol na pele. 
Um inverno sem chuvas. O verde muito seco. 
Na calada da tarde.
Um diálogo inesperado, um menino chega perto. 
— Oi, você sabe seu cachorro? 
— O Chico? (O vira– latas que de vez em quando fica no jardim) 
O garoto continua: 
— Ele gosta de mim. Ele brinca comigo, me dá as patinhas e eu faço carinho nele. 
— Verdade? Como é seu nome?
— David. Cadê o Chico? Chama ele. 
Meio sem graça Vitória disse: 
— Davi, o Chico está no quintal. Amanhã vocês brincam, tá? 
— Tá. Eu já gosto muito dele. 
Davi saiu correndo feliz com a notícia. 
Vitória, pra fortalecer a memória, pensou: 
“É meu vizinho. Já o vi por aqui”. 
No dia seguinte, Chico voltou ao jardim. Pela janela entreaberta da salinha do computador, o cenário tinha Davi e uma menina parecida com ele. Os dois brincavam com o cão pelas grades do portão. 
Vitória ri da vida. Quanta sutileza naquela cena. 
Decidiu voltar o Chico para o lar do quintal só ao anoitecer. O danado descobr…