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Mostrando postagens de Setembro, 2019

VENDE-SE >> Fred Fogaça

As mãos se agarram a imediates com a força de evitar precipitações: ora, a velocidade - pouca, confessemos - corta o piche à base de más impressões.
Eu tenho medos palpáveis que não consigo controlar.
Esperei um aniversário de tempo por esse dia em que não fosse intermediar as voltas com o cobrador: mas agora é tudo ansiedade e desconfiança.
Seus ferros se correm de rancor.
A maquina que corta as más impressões cospe suas disfunções na minha cara e eu... bem, eu nunca estive em menos poder. Quando giro o contato que lhe vocifera às entranhas incinerações autoinfligidas, eu já lhe estranho os humores.
Devo desfazer-me dessas ameaças.
Às vezes me estranha a selvageria moderada da vida tradicional, essas afrontas na mão mole.
Quando eu paro, às vezes, por um momento só, e perscruto a natureza irremediável da realidade eu só constato o que já deveria e ainda assim me estranha. Explico: é pessoal, seu problema sempre foi eu.
Por isso devo repassá-lo, é por que me afronta, é porque eu lhe …

NUM SÁBADO DE OUTONO >> Sergio Geia

Ela tinha um trabalho. 
Com a retribuição desse trabalho pagava as contas, jantava fora, de vez em quando viajava, tomava uma taça de vinho em casa assistindo a La la land, ou Nasce uma estrela, ou Woody Allen, que ela adorava, renovava o guarda-roupa, pedia pizza, ou chinês, ou árabe, ou japonês, ou mexicano. 
Ela tinha boa saúde. 
Dormia bem, tinha apetite, não sentia dor. Esses componentes presentes em sua vida atestavam para ela que por dentro tudo ia bem. Além do mais, não tinha nenhum problema, desses graves, diagnosticado, não tinha AIDS, nem câncer, nem cardiopatias. Ia ao médico regularmente (embora os médicos tivessem abandonado o seu plano), fazia exames, musculação, corria, comia salada, frutas, deu até pra meditar. 
Ela tinha amigos. 
De vez em quando nos reuníamos pra beber, comer, jogar conversa fora, tínhamos um grupo no whatsapp pra bate-papo, trocar figurinhas, sempre nos comunicávamos sobre velório do pai de um, da mãe, da amiga de outros tempos, consolávamos, conf…

FRUSTRAÇÃO >> Paulo Meireles Barguil

  Ontem de noite, antes de eu dormir, elas estavam aqui.

Eu fui me deitar tranquilo, pois já sabia sobre o que escreveria hoje.

Ao acordar hoje, contudo, descobri que a minha ideia, dessa vez, não se tornaria realidade.

Os frutos novinhos estavam no chão.

Algumas abelhas ainda se alimentavam do que elas deixaram antes de partir.

Pode ser que eu consiga daqui a alguns dias, quando os próximos saírem.

A frustração só não é maior porque consegui escrever uma crônica.

Vida que segue...


[Eusébio – Ceará]

[Foto de minha autoria. 13 de setembro de 2019]

ESCURECE SOB CINZAS >> Whisner Fraga

como prever um susto a oitocentos por hora?

os aviões esfolam um céu tumultuado de fuligens.

as cinzas aterrissam na varanda dessa cidade inquieta.

as gatas acossam libélulas incendiadas.

a menina recua diante da noite em um meio-dia consumado.

o rio também está morto há décadas, menina.

tudo está morto, falta decretarem.

alguém derrama uma água suja na jabuticabeira. a terra humosa.

pai, como é o nome do cantor que você encontrou no bar? nick.

a oitocentos por hora não há imprevistos.

o avião se afoga na poluição cinza e vermelha. e some.

uma tempestade de vaga-lumes queimados possui a varanda.

tudo está morto.

ESQUECÍVEL >> Carla Dias >>

Das coisas mundanas: pés rastejando em parede. Passos lentos, de levar a lugar nenhum. Pés tateando a pele desbotada da parede que está lá há mais de uma vida de alguém que ela não sabe quem, mas existiu. Pensa até em se dedicar a encontrar o ex-dono dessa parede na qual seus pés dançam, desajeitadamente, enquanto o corpo jaz em um colchão vencido - de prejudicar coluna -, sobre um cobertor herdado de alguém, de quem não se lembra bem.
Pergunta-se, na mudez de um pensamento disperso: qual será a história dele? Do dono das paredes de antes de a casa se tornar seu refúgio.
Cultiva agrado sem fronteiras pelos contadores de histórias, principalmente dos que nunca transformaram tal talento em profissão, porque o pouco de ficção que se envolve com a realidade deles não a muda, apenas a torna mais palatável.
Sente por eles um afeto melancólico, porque lhe faz bem escutá-los a tecer suas tramas, apesar de, quase sem pausa, a dor ser a responsável pelos pontos de virada. Ela sente a dor deles…

O QUE É SER VELHO? >> Clara Braga

Quando eu era bem nova, antes de completar meus primeiros 10 anos de vida, achava uma pessoa de 31 anos muito velha!!
Ser velha não era um problema, só significava que a pessoa já tinha chegado em uma fase que já havia realizado boa parte daquilo que queria. Se quisesse casar teria casado, se quisesse ter filhos já os teria, se quisesse viajar já teria conhecido vários lugares e assim por diante.
Hoje, no dia que completo 31 anos, penso nessa menina e tenho vontade de agradecê-la por diversos motivos, mas principalmente por ter se permitido mudar de opinião e ter sido, conforme os anos passam, menos exigente consigo mesma.
Não, nem todo mundo casa antes de ter filhos - ou nem mesmo casa - e isso não faz da minha família menos família, nem todo mundo está no emprego dos sonhos antes dos 30 e não há idade para mudar se isso for o que te faz feliz, e não teria graça nenhuma já ter conhecido todos os lugares do mundo que eu quero conhecer, muito pelo contrário, ter objetivos como viagens…

O MARTELO DO BEM - Segunda Parte >> Albir José Inácio da Silva

(Continuação de 26/08/2019)Amanhã iriam às compras e aos trabalhos. Dia de transformar sonho em realidade depois de tanto sofrimento.Dia de limpar, consertar, cozinhar e enfeitar. Dia de saber como estava o Sabugo.
O dia começou cedo. Havia mais coisas na caminhonete do que parecia. O sol trazia bem-estar e animação, quase saltitavam quando entraram no carro. A imobiliária era a primeira parada.
Ao contrário dos primeiros contatos, em que era toda sorrisos, a atendente portava uma cara desconfiada, uma tensão na sobrancelha. Tinha ficado assim depois que, para o preenchimento do contrato de aluguel, elas informaram que eram só as duas, não tinham maridos ou filhos.
- Quando a cópia de vocês estiver autenticada, eu mando! – disse como se dissesse “não precisam vir aqui”.
Já estavam acostumadas a frieza e hostilidade no Rio de Janeiro. Mas, desse lugar, distante centenas de quilômetros de suas famílias, esperavam alguma tranquilidade e, se não acolhimento, pelo menos respeito. Amizade era q…

A CASA DE DAVI >> Sandra Modesto

Vitória se aproxima do portão pra sentir o sol na pele. 
Um inverno sem chuvas. O verde muito seco. 
Na calada da tarde.
Um diálogo inesperado, um menino chega perto. 
— Oi, você sabe seu cachorro? 
— O Chico? (O vira– latas que de vez em quando fica no jardim) 
O garoto continua: 
— Ele gosta de mim. Ele brinca comigo, me dá as patinhas e eu faço carinho nele. 
— Verdade? Como é seu nome?
— David. Cadê o Chico? Chama ele. 
Meio sem graça Vitória disse: 
— Davi, o Chico está no quintal. Amanhã vocês brincam, tá? 
— Tá. Eu já gosto muito dele. 
Davi saiu correndo feliz com a notícia. 
Vitória, pra fortalecer a memória, pensou: 
“É meu vizinho. Já o vi por aqui”. 
No dia seguinte, Chico voltou ao jardim. Pela janela entreaberta da salinha do computador, o cenário tinha Davi e uma menina parecida com ele. Os dois brincavam com o cão pelas grades do portão. 
Vitória ri da vida. Quanta sutileza naquela cena. 
Decidiu voltar o Chico para o lar do quintal só ao anoitecer. O danado descobr…

O FEITIÇO MAIOR QUE O FEITICEIRO - 2a parte >> Zoraya Cesar

Resumo da 1a parte - Por artes de Magia Negra, Ilana induziu uma mulher ao coma e obsediou-lhe o marido. Não satisfeita, voltou a pedir ajuda à Tia Mormânt*, uma feiticeira de linhagem tão antiga quanto a primeira oferenda feita pelo homem. Ilana ignorava que, em contratos de Magia Negra, o cliente saía perdendo em algum momento. Sempre.
A velha feiticeira analisou a situação. O que Ilana pedia era sórdido. Exatamente o tipo de serviço que Tia Mormânt executava, com prazer e maestria. Para isto estava aqui há incontáveis e inacreditáveis anos: para apodrecer almas, destruir destinos, aprisionar espíritos na Terra e no Além-Vida. Para servir ao Mal. 
Vira um filme em que o Diabo dizia ser a vaidade seu pecado preferido. Não para Tia Mormânt. A inveja, esta sim, um pecado de respeito. Quanta gente ela já não corrompera instilando esse verme verde que se agarra insidiosamente nas entranhas da pessoa, a dominar seus pensamentos, sua consciência, seu ser.
Pedia altas somas por seus encantame…

500 TONS DE CINZA >> Nádia Coldebella

- Ana, acorda. 
Ana, que dormira toda encolhida, esticou-se. Olhou em volta e percebeu que a voz que a chamara não vinha de lugar nenhum. Vinha da cabeça dela. Sinto-me bem, pensou, e no segundo seguinte, a cabeça pesou. Uma nuvem trevosa tomou conta dos seus sentidos. Ela ignorou e considerou se deveria levantar-se da cama. 
- Será que é hoje o dia em que vou morrer?
Queria ficar ali deitada. Escondida embaixo das cobertas. Não podia, tinha que trabalhar. Com muito custo, levantou-se e sentou-se na beirada da cama. Permaneceu assim por alguns minutos, mente confusa tentando refletir qual seria o próximo passo. Assim como ignorou a névoa sobre seus sentidos, tentou ignorar as dores nas articulações que suplicavam para que voltasse para cama. 
O cheiro do café, vindo de algum apartamento próximo ao seu, infestou seu quarto, mas já estava longe o tempo em que aquele cheiro deixava sua boca cheia de água. Agora ela nem mesmo entendia como algum dia gostou de café. Mas é assim mesmo, pen…

PERSEVERANTE >> Carla Dias >>

Há sentido nenhum em se expandir. Está proibido se pavonear em desejo de melhorar o que deve ser piorado, antes de atingir seu requinte de caos, estarrecendo a todos nesse aprendizado reverberante em dolências insofismáveis. 
Depois, sim... só depois do inferno, alívio. A questão é: onde fica o depois? Em qual quando?
Servido: tranco a ser aguentado. Amargura a ser consumida. Dor a ser experimentada por meio de fisgadas de pânico e desespero. Que o fundo do poço funciona como propulsor para se alcançar o auge da alegria, isso é apenas alegoria. A dor que valsa nessa realidade de aprendizado torturante, ela jamais partirá de nós. Não haverá espaço para espasmos de prazer e conforto. Não haverá vazio capaz de ser preenchido com um pouco que seja de contentamento.
Corremos o risco de não ter volta se permitirmos que nos subjuguem em nome de tragédias que não deveríamos mais enfrentar com tal intimidade. Não deveria haver aprendizado a embalar essas afrontas da vida? De quando ela permit…

BELAS HISTÓRIAS, FALHAS MEMÓRIAS >> Clara Braga

Formei na faculdade no ano de 2012, ou seja, tem um tempinho.
Lá no meio do curso tive uma professora daquelas que marcam a gente! Ela sempre tinha uma referência para dar, um livro para indicar, uma ajuda para oferecer! Me encantei pela forma como ela ministrava as aulas e me encantei inclusive pela sua ementa, pois ela não indicava só livros técnicos da área de artes, mas também livros de literatura pois a literatura ensina tanto quanto ou até mais que um livro técnico!
Suas aulas aconteciam duas vezes por semana, mas um dia ela avisou que não poderia estar presente em um dos dias, então deixaria um filme para que a gente assistisse, pois filmes podem ensinar tanto quanto ou até mais que um livro de literatura ou um livro técnico.
Eu adorava aulas com filmes, e essa então foi especial! Ela passou um filme super poético, belíssimo, daqueles que merecem ser assistidos várias e várias vezes! Mas eu cometi um erro que, vergonhosamente, cometo até hoje: não anotei o nome do filme confia…

realidade / enfim só >>> branco

realidade
eu insisto !
insisto em meu ponto de vista
a realidade é essa merda que insiste em me atrapalhar nas minhas lutas contra moinhos de vento  e murros em ponta de faca

enfim só
acordar e esquecer quem fui - essa é a ideia -  tirar esta barba que por longos anos foi minha identidade roupas novas sapatos novos sorriso novo e ter um novo jeito de enfrentar  os mesmos velhos problemas
sair pelas ruas e não notar coisas que sempre foram tão importantes cumprimentar pessoas - dizer bom dia - chegar ao trabalho - mais bons dias a serem ditos - sentar-me à mesa escrever em papéis e assinar papéis rasgar papéis e não precisar correr para o almoço
voltar ao trabalho atender ao telefone e sorrir ao telefone conversas profissionais - outras amenas -  o sagrado cafézinho e um cigarro dois cigarros três cigarros quatro cigarros e às cinco terminar a jornada ir sem pressa para a casa abraços beijos e carinhos não me esperam
sou um novo homem agora barbeado com roupas novas postura nova absolut…

O PÚBLICO >> Fred Fogaça

Frente a frentes, o homem como que vocifera a ingratidão de outrem na sutileza do olhar: ninguém diz palavra, mas riem e riem e riem e do que?, do que não se sabe, do que não se vê - é provável: o homem intranquilo recalcitra contra os aguilhões de que lhe acusam o que não se ouve a ouvido nu, ali, frontes a frente é o que lhe resta, ele combate o bom combate, ele faz o que pode: o discurso é reconfortante mas distante por minutos que não se esgotam e o silêncio, bem, o silêncio, há de se entendê-lo para domesticá-lo mas o tempo se desdobra ao vil prazer do sofrimento, como pra evitar, claro, a segurança das palavras que acalenta a moral pesada de memórias: reconsidera uns confortos que não justificam aquelas frontes que riem e riem e riem e no triz do instante, no ápice da cruzada o homem se empertiga e cresce: ele olha só mais um pouco, sorri e desce.