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Mostrando postagens de Janeiro, 2022

Celestina >> Alfonsina Salomão

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    Embora não o dissesse, Celestina sabia que não se chamava assim à toa. Pertencia às abóbodas celestes e estava na Terra de passagem - só Deus sabia o que se passara na sua cabeça na hora em que aceitou reencarnar. Deveria estar entediada, talvez tenha pensado que seria divertido ter um corpo, experimentar o mundo através dele. Ou talvez, num voluntarismo impulsivo, oferecera-se para dar uma ajudinha à humanidade. Que erro... se soubesse que seria tão complicado teria ficado por lá, servindo de conselheira aos anjos ou algo que o valha.   Às vezes era tomada por uma espécie de nostalgia, uma vontade enorme de não estar mais aqui. Não eram tendências suicidas. Celestina estava longe de ser depressiva, sua mente não abrigava nenhum pensamento mórbido. Era canseira de tudo isto mesmo, somada à crença de que a vida não se resumia ao nosso plano tridimensional. Não precisava de mais nada para sentir um desejo danado de ir para o céu.    Outro dia buscou seu filho na escola e levou-o para

SEM UM PINGO DE SATISFAÇÃO >> Sergio Geia

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  Sim. Sem um pingo de satisfação. Sem um pingo de satisfação eu digo. Hoje me uno a milhões de brasileiros que foram atacados por esta peste. Sim. Estou com Covid.  No ápice da minha autossuficiência e arrogância eu dizia que não pegaria, afinal, continuava a usar máscaras, andava sempre com álcool gel no bolso, evitava sair de casa. Mas não posso controlar tudo, ninguém pode, e um incidente na semana passada trouxe a mim a Ômicron.  Minha mãe, que sofre de demência vascular (segundo os neurologistas; segundo a geriatra ela sofre mesmo de Alzheimer), sexta-feira, 14/01, não passou o dia bem e, à noite, precisei levá-la à emergência de um hospital. Ela não acordava, arfava e não respondia aos nossos chamados. Lá fomos nós, eu agitado, ela desacordada, dentro de um veículo do SAMU. Pronto-socorro lotado, gente chegando por todos os lados, tosses, espirros, papéis, fichas, hospital, elevador, visitas, etcéteras, etcéteras e etcéteras. Ela está bem, depois de uma semana internada, já de v

BOIA >> Paulo Meireles Barguil

O que vem à sua mente quando lê o título desta crônica? As suas memórias estão relacionadas a um objeto utilizado para se flutuar em uma superfície líquida?  Qual é o material, a forma e a cor dela? Banho de piscina, mar, rio, lagoa...? Uma pescaria com linha ou rede?  Ou você se recordou de alguma refeição? Qual era o cardápio: arroz, feijão, bife e ovo? Macarrão com sardinha e tomate? Torta de atum com alface? Feijoada com arroz, couve e laranja? Qual foi o local da degustação: debaixo da árvore, restaurante universitário, bar...? Voltando ao universo aquático, ela também é um objeto que indica um obstáculo à navegação, balizando a passagem para evitar um acidente. Por fim, ela é uma esfera oca que, ao atingir o nível escolhido de um recipiente, ergue totalmente uma peça que impede a entrada nele do líquido. Com alguma frequência, é necessário limpar o local em que passa o líquido, pois aquele pode entupir, vedando este de chegar ao destino. Ao longo da vida, entulhos materiais e emo

EM OUTROS TEMPOS >>> Nádia Coldebella

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Em outros tempos, uma mulher, de roupa cor de vinho, sentada ao sol, dividia sua atenção entre as filhas e algumas anotações. Estavam numa praça cheia de árvores, grama e um parque infantil. De vez em quando, as crianças voltavam para dar um abraço ou pedir alguma coisa à mãe.  Naqueles tempos, outras duas crianças se engalfinhavam por causa de um caminhãozinho. - Devolve, Lucas! - Gritava a mãe de Lucas, temerária do que pensasse a amiga, mãe da outra criança. - O João é pequeno. - Me dá! - Gritava o menininho arrogante para Lucas, ciente do seu poder. Lucas, raivoso, agarrava uma pá da mão dele, que gritava mais alto ainda.  É meu, é meu, choros e rosto vermelho não assustavam Lucas, que, mais forte, conseguiu colocar a pá dentro da caçamba do caminhão.  Ele devolveu tudo para uma criança menor ainda. - É do Diguinho! - Era um Lucas ameaçador que fazia o João se calar, para garantir o direito de uma criaturinha ainda de fraldas. A mãe do Diguinho era toda sorrisos para Lucas e para

NÃO ESTÁ DE PASSAGEM, MAS SEMPRE PARTE >> Carla Dias

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Ressurge para me desviar da calma, um aviso de vencimento da paz que parcelei em sete cadências de sofreguidão desenganada por cautela. Para entregar em mãos o que a pele nunca sentiu em presença. Nesse dia em que me levantar se trata de um levante, uma rebelião de libertações que mantenho prisioneiras no ser alguém que lida com tormentos, uma renúncia por vez. Regressa para desterrar os meus dilemas, desacreditar os meus enredos de estimação. Retratar minhas faltas, dizer em voz alta as palavras que jurei que nunca diria em troca de um afago da felicidade. Fazer-me jurar falso, e em vão, que o isolamento é uma segurança de sabores tantos, de deleites diversos. Para me ver mentir como mentem os acostumados a evitar auditorias emocionais. Nesse barulhoso dia, vem para janelar verdades, furtar desculpas dos armários do convencimento de que normalizar sofrimento é trabalho para os escolados em esquecer começos. Para eles, tudo deve morrer antes do daqui a pouco. Recomeços são prospecções

TAMBÉM QUERO FALAR SOBRE A FILHA PERDIDA >> Clara Braga

Uma filha. Uma mulher. Uma mãe. Quando uma mulher torna-se mãe, consciente ou inconscientemente, assumimos que a vida apenas seguiu seu curso. Mas, quando uma mãe assume abertamente e, ainda mais que isso, reivindica seu espaço no mundo enquanto mulher que tem carreira, sonhos e desejos, e nem sempre esses desejos envolvem os filhos, isso gera em nós certo estranhamento e uma vontade quase incontrolável de perguntar: mas e seus filhos? Perdi as contas de quantos textos sobre maternidade eu já escrevi, e todos falando sobre a necessidade de pararmos de romantizar a maternidade. Aí vem o filme A Filha Perdida, zero romântico, e tira o meu chão. Você já deve estar cansado de ouvir falar desse filme, mas preciso compartilhar minhas impressões. Ah, vale avisar que o resto do texto contém spoiler. O filme é sobre maternidade? Essa foi a minha primeira dificuldade, assumir que o filme é sim sobre maternidade. Como pode um filme sobre abandono e egoísmo ser também sobre maternidade se essas co

ANJO SE NÃO VINGA >> Albir José Inácio da Silva

  Quando precisava, minha mãe costurava mortalhas. Eram camisolas brancas fechadas no pescoço. A morte de uma criança enchia a casa de silêncios. Foi assim com Miguelinho.   Na sala da vizinha, as mães sussurravam a eficiência dos seus cuidados para evitar a morte e eventual descuido no acontecido.   —  Sarampo não recolhe à toa. É desmazelo!  —  disparava a mais exaltada, mas logo fazia cara compungida.   Todas as crianças adoeciam ao mesmo tempo. As mães as juntavam para que pegassem de uma vez a doença que acometesse algum menino da vizinhança. Assim ficavam livres.   O restabelecimento ficava por conta da dedicação e habilidade de cada mãe. Às vezes não dava certo. Ou, suspeitava eu, o pequeno recalcitrava no desmerecimento.   Uma olhada rápida no caixãozinho era todo o permitido, depois, para o quintal, sem gritos nem risadas.   Minha pouca teologia não respondia por que o anjo da guarda abandonou Miguelinho. Que será que ele fez? Malcriação?   —  Foi d

RESTOS DE MIM >> Sandra Modesto

O que restou de mim   Senão o sol tardio da manhã namorando meu corpo nu exposto no meu colchão   descobrindo minhas costas largas entre a cama e a janela queimando minhas pernas   quando eu viro de lado O que restou de mim   Senão um banho ardente no curto espaço do lavabo e o escovar dos dentes ainda meus E o hidratante espalhado na minha pele molhada. O que restou de mim   Além do café descendo a garganta e o sabor da erva doce do bolo de fubá ciumento pelo meu degustar frenético do pão de queijo corriqueiro da vida O que restou de mim Senão a estranheza dessa vida nova e velha. Vela e sopro   Diante da minha imagem no espelho pequeno que mal cabe algumas estranhezas   Recordo-me. Eu roqueira eu a moça que um dia gozou. O que restou de mim senão o amor à dor o marasmo o silêncio as lágrimas invisíveis   No imenso circuito depois do nada Para emoldurar meu resto ( Não é crônica. Mas é o que resta).

NÃO SAIA DAÍ >> Carla Dias

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Ela não entende o que acontece. Sentada na cadeira, onde ordenaram: quietinha, não saia daí , usa o artifício de sempre para situações que exigem paciência. Na sua mente, naquele salão de festas que é sua cabeça, repete a tabuada do Um como o avô ensinou e ela jamais esqueceu. Um vezes um = quem sai desacompanhado. Duas vezes um = casal da casa ao lado. Três vezes um = trio afinando seus instrumentos antes do ensaio. Quatro vezes um =  as paredes do quarto. Cinco vezes um = os dedos da mão direita do vizinho. Seis vezes um = meia dúzia de dentes na boca do freguês. Sete vezes um =  cada dia de uma semana que faz parte de qualquer mês. Oito vezes um: os olhos do quarteto de filhos do francês. Nove vezes um =  semestre e meio à janela. Dez vezes um = a nota máxima que se espera. É criança que obedece aos adultos, mas isso não significa que concorda com todas as suas ordens. Não concorda com essa, que deixa suas costas ansiosas, desejosas de tocar a maciez do sofá do qual não desgruda os

FÉRIAS

 O cronista Sergio Geia está de férias.

SUSTO >> Paulo Meireles Barguil

"Por dentro Com a alma atarantada Sou uma criança Não entendo nada..." (Erasmo Carlos, Sou uma criança, não entendo nada ) E, então, algo inesperado, agradável ou não, acontece... – "Será que estou grávida?". Uma mesma situação é sentida de modo peculiar por cada pessoa, variando a intensidade e o tipo (agradável ou não). O surgimento (ou o desaparecimento), com distintas gradações temporárias, de uma pessoa, um animal, um fenômeno da natureza, um sintoma... – "Será que estou doente?". A ocorrência pode ser temida, querida ou desconhecida. Ah, este tempero agridoce da vida...

UM HUMANO-PARADOXO >>> Nádia Coldebella

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Um humano acordou certa manhã meditando sobre os paradoxos. ( Vou contar a história de um humano, talvez um homem, talvez uma mulher, não sei. De qualquer forma, vou chamá-lo de humano. Não quero me comprometer). Achou um absurdo, mas lembrou-se do sonho daquela noite, em que abandonava a cidade e ia para o campo.  Deixava de lado a roupa apertada, elegante, sufocante e calorenta que usava todo dia e passava a vestir roupas de algodão. Também andava descalço e passava seus dias cuidando de uma estufa.  - Um disparate! - o humano pensou ainda deitado, lembrando-se que o sonho lhe trouxera uma quase inebriante sensação de luz do dia sobre a pele do seu rosto. As cortinas do quarto ainda estavam fechadas e era muito cedo, mas mesmo que tarde fosse, o sol não passaria por ali, porque o apartamento ficava do lado do prédio em que o sol não chegava. No sonho ele morava em uma casa muito ampla e com muita luz. A luz entrava feliz toda manhã. E era ela quem o acordava e não o som estrepitoso d

VOCÊ MESMO >> Carla Dias

 Qualquer coisa que me leve a pensar melhor sobre o que desconheço é bem-vinda. Nos últimos dois anos, tenho encarado muitas mudanças e sei que isso não vem acontecendo somente comigo. O mundo sacudiu a todos nós nesse período. Aprendi muitas coisas, descartei outras, repensei até aquilo que nunca havia despertado dúvida em mim. Mas aí é que está... Não se trata exclusivamente de mim. Durante essa jornada de desapego, aprendizagem, revisão de sentimentos e conceitos, reflexão sobre o tempo a ser preenchido com a novidade de ter mil perguntas para fazer a si mesmo, observei também a minha ignorância a respeito do outro, de mim e do que não desejo para mim e nem para você.  Você mesmo. Eu não desejo continuar a ignorar como valsamos entre a nossa importância e a falta dela. No meu processo de reaprendizagem de mim, pouca coisa ficou no lugar e eu prefiro assim. Fazer de conta que o universo não pode virar tudo ao avesso a qualquer momento é construir nas nuvens o que só é possível alicer

A VIDA COMEÇA AOS... >> Clara Braga

Sempre tive agonia daquelas pessoas que definem data para a vida começar. Principalmente quando a pessoa define data para a vida dos outros começar, pois a dela vai de vento em popa! Acho que minha agonia, para não dizer irritação, acontece porque normalmente essa data para a vida começar nunca chega, é tipo esperar o capítulo final de A Caverna do Dragão! Quando se tem 18, sempre tem uma tia para dizer: sua vida nem começou, a vida vai começar lá pelos 20, 25 anos! Aí você faz 25 e a vida passa a começar só aos 30. Depois só começa aos 40, aos 50 e assim sucessivamente! Não sei o que essas pessoas tem na cabeça, daqui a pouco a vida vai acabar antes de começar! A vida começa quando começa, é isso! Chegou no mundo, respirou, está valendo! É bem verdade que tem horas que mais parece que a vida parou, ou até está andando de ré. Muitas vezes queremos apertar o reset, mas não tem jeito, chegou no mundo, seja lá como foi a sua chegada, é 1, 2, 3, valendo! Fico pensando de onde vem a necessi

ESTRELAS E TROVOADAS NO MONTE - final >> Albir José Inácio da Silva

  (Continuação de 27/12/2021)   Pessoalmente Moisés não tinha nada contra Emanuel, mas precisava dar uma resposta à comunidade. Os anciãos tinham razão, aquela subversão podia se espalhar. O moleque não era um baderneiro qualquer, em quem ele mandasse aplicar uns bolos e devolver pra mãe. A transgressão agora tinha outra natureza. Mandou trazer o herege.   O “Estado” de Israel estava organizado. Havia divisão de tarefas, de lucros e de jurisdição. O morro, pacificado, não sofria mais invasões da polícia ou de outros grupos. O arrego * era pago em dia e, depois da conversão de Moisés, ele e o comandante viraram amigos de infância.   Emanuel não era um trombadinha que precisasse de castigo.   Era coisa séria, de rebelião, de subversão. Por isso Moisés entendeu que era competência do DPO. Mandou levar o herege.   O JULGAMENTO   A jurisdição penal estava dividida: o movimento punia xis-noves, pequenos furtos, dívidas de drogas e macumbaria - esta já proscrita no morro