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Mostrando postagens de Abril, 2014

ELÃ >> Carla Dias >>

Eu não sei, meu bem, confessar a dor de reconhecer a dor. Nem jogar videogame, virar cambalhota, dormir sem cobertor. Eu sou assim, assim, e me perdoe se o meu ser não é o melhor ser que eu poderia ser.

Houve dia em que eu sabia mais, era letrada em anúncios promocionais de amores vãos. Assim vivia em companhia de quem nem sempre me queria bem ou aquecia o meu coração. E o meu é dos contraditórios. Bate de um jeito que já tentei identificar, usei até metrônomo, mas não. Esse coração se descompassa à toa, como quando você diz palavras que desejo fisgar da sua boca.

Eu não sei, meu bem, verbalizar o sentimento que me rende. Nem falar outro idioma que o complemente. Sorrir à toa e à toa ceder a vez ao inusitado. Não sei partir para não mais voltar. Por isso aqui permaneço, que até pareço enfeite do tempo.

Eu não sei, meu bem, varrer o chão do cativeiro das lembranças. Nem cozinhar, escolher par, andar pela vizinhança como quem conhece cada um de cada casa. Eu sou uma coletânea de poemas…

PEQUENOS MOMENTOS >> Clara Braga

Uma vez comentei sobre as vantagens de ser míope e poder escolher as coisas que eu queria e não queria ver. Muito fácil, só tirar e colocar os óculos. Ainda continuo acreditando e gostando dessa vantagem, mas agora estou descobrindo uma nova forma de enxergar as coisas. Lentes, sejam muito bem-vindas à minha vida!
Sei que estou usando lentes há menos de uma semana, ou seja, ainda não tive a oportunidade de conhecer o lado negro da força. Elas ainda não caíram na pia enquanto eu tento colocar, não ficaram perdidas dentro do olho nem nada do tipo. Mas só de poder lembrar a sensação de enxergar as coisas sem óculos, já valeu.
Sim, é bem verdade que às vezes ainda tenho aquele impulso que as pessoas que usam óculos têm, e tento dar aquela ajeitadinha nos óculos, como se o estivesse retornando para o lugar certo, mas não encontro nada no rosto. Nessas horas, desvio o caminho e dou aquela leve arrumada no cabelo, tudo bem naturalmente, para ninguém perceber.
Engraçado também é reparar o qu…

ALGODÃO DOCE >> André Ferrer

Sábado, 12 de abril de 2014, aproximadamente 14:30 horas, terminal rodoviário de Assis, interior de São Paulo.
─ Este produto tem um segredo que ninguém revela. Egoísmo pra quê?! Eu mesmo já ensinei a técnica pra muita gente que hoje em dia trabalha no ramo.
De longe, escutei a cantilena pela enésima vez. Eu, aliás, e as três pessoas que, a uma curta distância, cercavam o vendedor de algodão doce. Conforme entendi, alguém no grupo queria saber como ele conseguia que a guloseima permanecesse íntegra desde cedo até aquele horário.
O homem ameaçava contar o segredo ao grupo. Ele tinha chegado bem perto, sempre se justificando com aquela história de ser íntegro e generoso, mas arremetia no último instante. Pela sua idade, entre 45 e 50 anos, logo vi que não tinha saído ileso à cafajestagem atual. E se alguém naquele grupo virasse um concorrente! Era-lhe difícil abrir o jogo naquela tarde.
Houve um tempo em que a gratidão e o respeito das pessoas tornavam essa escolha bem simples. Meu bisavô m…

CACOS PARA UM AUTORRETRATO >> Cristiana Moura

Nem mesmo na minha infância, naquela época em que eu vivia em mim mesmada, passei tanto tempo em frente ao espelho como o faço agora, para pintar autorretratos. Horas a fio, tardes inteiras, madrugadas adentro, meu corpo nu e a incerteza de se era eu que olhava a imagem ou esta que olhava para mim. Quem reflete quem? Sinto-me observada e a minha loucura me seduz.

Na exaustão, entre olhares e pinceladas, a imagem parecia ganhar um desejo próprio, uma luz outra, um movimento além do meu. Entre o olhar e a mão: histórias da minha vida reconstituídas a cada pincelada.

Desde muito pequena mergulho no espelho. Minha grande companhia: a imagem de mim mesma como se pudera transformá-la na irmã que morreu — a fantasia da amiga, tão igual a mim mas sendo outra.

À medida que pinto, vejo a transmutação da imagem do corpo da menina acuada, acanhada, na imagem do corpo da mulher nua, sentada no chão. O espelho me fez companhia a vida inteira. Ocupou o lugar da irmã, numa tentativa vã de remontar no…

TRATO FEITO - PARTE I >> Zoraya Cesar

Sem família ou amigos na cidade, Heloísa não tinha com quem dividir aquele sentimento indefinível de que algo estava errado. Tentou conversar, mas o marido negou com tanta veemência que ela até acreditaria, não fossem os pequenos sinais. Antes tão apaixonado e carinhoso, ele era agora um relapso distraído e um tanto rude, sempre criticando tudo, nunca satisfeito com nada. Sexo? Só o formal, sem preliminares ou pós-liminares — termo usado por Heloísa, não por mim; respeitemos, pois.
Ele tem uma amante, concluiu Heloísa, desesperada, mas acertadamente. E agora ficamos, nós e ela, a matutar o motivo de tal desfeita. Sofria, tanto mais por causa do amor que ainda sentia, e não conseguia atinar quem seria a causa de sua desdita. Não precisamos, porém, fazer o leitor sofrer junto com Heloísa, e vamos logo chegar à descoberta do mistério.
Jorge, o vizinho do 6º andar, encontrou-a no mercado, olhou-a bem nos olhos e cantou a bola de maneira rápida e objetiva:
— O calhorda do seu marido está …

ESPREME QUE DÁ TEMPO >> Fernanda Pinho

Minha vida está dividida entre durante e depois do expediente. Não se trata de uma relação ambivalente, como eu sei que é para algumas pessoas (aquelas que não toleram seu trabalho e aquelas que usam o trabalho como uma fuga de tudo). Eu diria que é mais uma relação de mutualismo. Eu gosto do meu trabalho e preciso dele para levar a vida que eu levo depois das 18 horas. E quando não estou trabalhando eu faço coisas que, ainda que indiretamente, me ajudam no meu trabalho me inspirando, agregando novos conhecimentos ou simplesmente oxigenando minhas ideias.
O problema é que a cada dia eu gosto mais de mais um monte de coisa, o que me leva a calcular meticulosamente cada minuto do meu tempo, digamos, livre. Primeiro de tudo é preciso considerar que sou uma pessoa casada e nos recusamos a ser um casal que só interage 20 minutos por dia. Meu marido não é meu roommate. Gosto de ter um tempo de qualidade com ele, o que significa dedicar um pouco das minhas horas fazendo coisas que ele gost…

CARTA-RENÚNCIA >> Carla Dias >>

O universo transpira ao seu favor, fazendo a vez de fada madrinha emburrada, e ocupadíssima, toda vez que você, desapegado da justiça coletiva, pisa no pé da verdade, jurando que a dor que ela sente é, de fato, afeto desmedido.

O desmedido, e lhe digo isso por experiência na aplicação, nunca faz serviço decente. Não adianta cometê-lo usando a máscara da gentileza, valendo-se dos trejeitos da felicidade. O desmedido é, por definição, desproporcional à empatia.

Mas quem sou eu para alertá-lo sobre os sentidos, não? Alguém que observa a sua rotina de desmazelos, de desculpas impregnadas de suspiros que acabam por enfeitiçar aos que tiraram o dia para se tornarem vítimas da sedução barata da palavra dita em versos, chamada poesia por pura falta de fineza seria gritá-la pelo nome apropriado: repetições.

Sobre as repetições, devo lhe dizer que elas sim têm valor. Repetições são inevitáveis, e podem ser certeiras se às voltas com a sinceridade. Não fosse assim, dizer “eu te amo” a alguém, me…

ESSA TAL VIDA >> Clara Braga

A vida é assim, gosta mesmo de nos pregar peças e nos colocar em situações nas quais não sabemos exatamente que rumo tomar. Na verdade, não sei até que ponto não sabemos qual o rumo, acho que temos mesmo é receio dos desafios que vamos encarar, então acabamos tendo a tendência de optar pelos caminhos mais fáceis. O problema é que nem sempre esses caminhos nos levam para o nosso real objetivo.
A verdade é que não adianta, chega um ponto em que temos que dar um passo para trás para podermos dar vários para frente, por mais difícil que isso seja. Temos que olhar a situação pelo lado de fora para podermos melhor analisar. Temos que dizer não, mesmo querendo dizer sim. Temos que fazer escolhas que nem sempre os outros vão entender. Temos que voltar e refazer nosso caminho. Temos que omitir algumas verdades. Temos que questionar aqueles em quem acreditamos. Temos que abaixar nossa cabeça e admitir alguns erros, mas temos que saber manter a cabeça erguida quando sabemos que estamos fazendo …

SODAMA II >> Albir José Inácio da Silva

Empresário, cuidando sozinho dos negócios, do pessoal, das finanças, do marketing, Ernesto se considerava merecedor do sucesso. E o sucesso veio rápido. Os clientes foram chegando, timidamente a princípio, mas logo em bandos ruidosos. Os bares da cidade começaram a ficar vazios e a madrugada mudou de endereço.

As moças, proscritas da cidade, nem consideravam gostar ou não dali. Sem ter aonde ir, restava-lhes o Sodama como casa, Seu Ernesto como dono e umas às outras como família.

Seu Ernesto supria-lhes as necessidades da melhor maneira possível. Patrão generoso, ficava com apenas setenta por cento de cada atendimento, para as despesas da casa e outras providências, em benefício das próprias meninas. Não lhes cobrava pela moradia, em que se revezavam para limpeza e manutenção, nem pela comida, que elas também preparavam, mas era ele quem comprava.

Na verdade, como ele dizia, não precisavam de nada. O dinheiro lhes sobrava para pequenos luxos como maquiagem, lingerie, bolsas e sapatos.…

QUAL NOSSO PRÓXIMO PLANO >> Eduardo Loureiro Jr.

O leitor fique avisado que eu não tenho moral para falar a respeito do que falarei. Em termos de amor, que é o assunto desta crônica, sou tão fracassado quanto uma pessoa pode ser. Para você ter uma ideia, já fui casado duas vezes e meia. Era pra ser três, mas uma de minhas ex não inclui o nosso casamento na lista de casamentos dela. Então o leitor considere o que vem a seguir como o conselho de um amador vacilante cuja única virtude é ser persistente...

Os românticos que me perdoem, mas “eu te amo” não é suficiente. O repertório de frases de um amor precisa ser maior que esse, e não estou falando aqui de variações envolvendo “eu te adoro”, “meu amor por você é maior que a soma das estrelas do céu e dos grãos de areia na praia”, “você é o amor da minha vida”, “minha alma gêmea”, “meu amor, meu bem, ma femme”...

Pra começo de conversa, o amor não nos exime de frases aplicáveis a outros contextos como “por favor”, “obrigado”, “eu gostaria”, “com licença”... Não é porque “eu te amo e tu …

6ª FEIRA DO AMOR >> Paulo Meireles Barguil

Por que é mesmo que se chama Santa uma 6ª feira em que são lembrados o julgamento, a humilhação, a crucificação, a morte e a sepultura de Jesus Cristo?

Nomear de 6ª feira da Paixão é uma alternativa, mas não expressa adequadamente o que nela ocorreu.

O mais sensato seria adotar uma nomenclatura que manifesta o ocorrido: 6ª feira do Amor.

Cá para nós: a linguagem, muitas vezes, é utilizada para negar a realidade, ao invés de favorecer o seu entendimento pela Humanidade.

De falseados em falseados, a pessoa, quando menos espera, descobre que está perdida, pois está longe demais da verdade.

Há quem acredite que Jesus era filho de Deus. Há quem defenda que ele era um homem, que alcançou a iluminação, tal como outros líderes espirituais: Buda, Maomé... Há, ainda, quem negue que ele viveu na Terra.

Sua mensagem foi resumida por ele mesmo em dois mandamentos: "Ame a Deus sobre todas as coisas." e "Ame o seu próximo como a si mesmo." (Mt 22:37-40).

Desde os primórdios, qua…

ESTREIAS E DESPEDIDA >> Carla Dias >>

Quem me conhece sabe que adoro uma série de televisão, e que o assunto me empolga de um jeito que pedir uma indicaçãozinha pode acabar em uma lista generosa de preferidos. Também sou das que se apegam aos personagens, e sei que faço parte de um grupo bem grande que morre de saudade deles quando a série acaba.

Atualmente, nem sei quantas séries eu acompanho. São muitas, ainda não contei, não fiz lista, e tive até de colocar algumas no modo de espera, que não estava dando conta. Mas isso não significa que, aparecendo uma nova série, eu não vá conferi-la.

Algumas estreias entraram rapidinho para a minha lista de preferidas. Dracula, por exemplo, foi uma das que me deixaram ansiosa pela estreia, por ser baseada no livro de Bram Stocker e por ter o irlandês Jonathan Rys Meyers no papel principal. Eu já gostava de Meyers pelos seus trabalhos no cinema, mas me dei conta do quanto ele é talentoso ao assistir outra série, The Tudors.

Criação de Cole Haddon, os primeiros episódios de Dracula me…

TRAZ A PESSOA AMADA >> Cristiana Moura

Depois de alguns minutos quebrei o silêncio.

— Vou trocar você pela Sarah. Instantes de mais silêncio. — Já viu os cartazes pelos postes?

— Traz a pessoa amada!

— Isso!

E do lado de trás do divã, onde não o vejo, ele riu. Venho deixando no divã linhas e entrelinhas da vida. E as desventuras do amor. Talvez por permitir que a ilusão se faça em véus sobre a minha face. Talvez por amar secretamente, sem confessar ao outro meus sentimentos. Ou por tantas outras nuances que nem sei.

Mas neste dia, levantei-me do divã pensando na Sarah, na Estrela Guia, mãe Jurema, pai Arnaldo. Pensando em buscar algo, fora de mim mesma, capaz de trazer a tal pessoa amada. Não contei isto para o Walmy, psicanalistas não costumam ser afeitos `as buscas místicas.

Saí da terapia disposta a marcar uma consulta no primeiro sinal fechado onde eu encontrasse um desses cartazes. Só então, dei-me conta que tenho medo da Sarah e de seus colegas de profissão. E se me mandar fazer algum ritual macabro? A pessoa amada …

O GATO - PARTE II >> Zoraya Cesar

clique aqui para ler O Gato - Parte I
Exatamente naquele momento crucial, um fortíssimo trovão ressoou e um raio caiu perto de onde estavam, cindindo uma árvore ao meio e trazendo consigo uma noite escura de temporal. Silvia, a mulher, gritou e fugiu, sem terminar o serviço. Ele tremia, paralisado, malditos nervos, de repente estava mesmo na hora de trocar de profissão. Vou morrer eletrocutado, pensou. Respirou fundo, tentando recuperar o controle e a experiência que os anos de treinamento lhe ensinaram. Um passo de cada vez, seguiu, sem se perder, até chegar à hospedaria. 
Entrou resolutamente na recepção, procurando por Silvia, mas encontrou apenas a velha que fazia as vezes de recepcionista, cozinheira, porteira e fofoqueira de plantão. 
A velha olhou para ele com olhos remelentos e sagazes, como os de uma ave que olha para um barbante no jardim e não sabe decidir se aquela estranha minhoca era comestível.
— D. Silvia não gosta de chuva nem de gatos, moço. O marido dela fugiu com a…

QUE PARA SER, MELHOR QUE SEJA SEM ENSAIO
>> Carla Dias >>

Antes de sair de casa, de rezar as rezas que o seu coração acabou de decorar. De arrastar os pensamentos de acordo com as tarefas pré-estabelecidas e verbalizar desejos dos quais você não sabe se é autor ou simpatizante.

Antes de entrar na roda, nessa ciranda aprisionadora de pensamentos, vestindo a melhor roupa do momento. De redecorar a alma com o condicionamento exato para a necessidade vigente.

Antes de sussurrar banalidades nos ouvidos do outro, a fim de provocar o sorriso automático, inventando uma alegria que padece de descontentamento, mas cai bem no cenário. De interpretar mágoas porque elas parecem devidas, de atiçar a sanha, porque pode, por que não?

Antes de nascer o dia em que o sentido não faça sentido, que a importância seja outorgada ao primeiro que chegar. De a felicidade parecer tão distante, que colecionar lonjuras se torne um hábito. De faltar o ar por pânico, em vez de pelas gargalhadas nascidas à toa.

Antes que o rumo mude, de um jeito sem volta, desbotando as a…

E ISSO SERVE PARA O QUÊ? >> Clara Braga

— Bom dia, tudo bem? Pode se sentar, vou te fazer algumas perguntas, ok? Você toma algum remédio controlado?
— Não.
— Já precisou passar por algum procedimento cirúrgico?
— Não.
— É alérgica a algum medicamento?
— Não que eu saiba até o momento.
— Sente alguma dor crônica em alguma parte do corpo?
— Não.
— Tem diabetes?
— Não.
— Alguém na família tem?
— Sim, avó e tia.
— Pressão baixa ou alta?
— Não.
— E na família?
— Pai e mãe com pressão alta.
— Casos de câncer na família?
— Alguns…
— Ok, qual o cargo você está assumindo?
— Professora.
— Então, Clara, as principais doenças que os professores podem desenvolver ao longo da carreira são...

Nesse momento, no meu diálogo ideológico imaginário, o médico iria me explicar sobre as possíveis doenças que um professor pode desenvolver. Depois, pediria para que eu sentasse na maca e respirasse fundo enquanto ele ouviria meus batimentos cardíacos. Logo em seguida, tiraria minha pressão, me pesaria, mediria minha altura, conversaria mais um pou…

SODAMA >> Albir José Inácio da Silva

Da varanda da casa nova, ainda nos acabamentos, Ernesto observa o Sodama. Que destino dar ao sobrado depois das eleições?

Quanto a estas, as eleições, fez o que tinha de fazer e devia estar tranqüilo, mas não está. Alguma coisa impede a sua paz. Não consegue confiar nos eleitores, mesmo quando lhe fazem festa. Ernesto acha que merece respeito e gratidão daquela gente e espera que o reconhecimento venha através do voto.

Mas sua mente retorna ao Sodama. Há muitos anos o lugar estava em ruínas e muito trabalhou ali, quando não tinha dinheiro, para que ficasse habitável. Fugira de Minas numa carroça, com meia dúzia de tralhas que juntou às pressas depois de um crime de sangue. Muitos dias no mato, atravessou morros e rios, e chegou àquele lugar.

Lembra que olhava desanimado e faminto para o sobrado, o capim entrando pelas janelas, quando viu, saindo da estrada, um bando de mulheres. Estavam péssimas: roupas rasgadas, mancando umas, outras feridas, duas com sangue já seco no lado do rosto.…

SE ARVORANDO >> Eduardo Loureiro Jr.

Desde que comecei a morar em apartamento, há 25 anos, passei a me sentir mais seguro. Morar em casa tem suas vantagens, claro, mas eu, sinceramente, não sei quais são. Ou não sabia.

Ano passado, retornei para o Ceará e resolvi morar numa casa, a casa de praia de meus pais, que só era usada em feriados e férias. O leitor não se empolgue demais com a minha nova residência, porque a praia fica a três quarteirões, só dá praia mesmo na maré baixa durante um período de apenas duas horas que muda todo dia e que, metade das vezes, acontece à noite. Feita essa ressalva, tenho que admitir que estou gostando de morar numa casa novamente, ainda mais perto do mar.

Uma coisa boa de morar aqui é que vivo não só no mesmo nível do mar, mas também no mesmo nível das árvores. Desci do meu salto alto de 13, 8, 3 andares para pisar no chão. Só agora percebi que eu me sentia superior a muita gente simplesmente porque eu morava pendurado em um apartamento.

As árvores, como se sabe, dão frutos, coisa de que…

CONVERSA ENTRE FILHA E PAI >> Paulo Meireles Barguil

Cuidar da prole: missão de todos os seres do reino Animalia de modo a garantir a continuidade da respectiva espécie. Em outras crônicas, falarei sobre as duas etapas anteriores ao nascimento, pois agora quero inverter a ordem da vida, tendo em vista que somente aqui posso fazê-lo.

A subespécie Homo sapiens sapiens, duplamente sábia, pelo menos no seu nome, teve que enfrentar, assim como os animais que a antecederam e os que habitam o Universo, vários perigos da natureza. A morte sempre está à espreita, escondida de várias formas: doenças, predadores, fome, sede, frio, calor...

Há quem diga, bem como quem acredite, que o amor – ou a falta dele – é capaz de matar. Talvez seja, minhas tênues aventuras não me permitem afirmar ou negar esse axioma. Concordo, sem oferecer qualquer resistência, que ele é capaz de torturar.

Na epopeia humana, os múltiplos espaços-tempos nos têm permitido elaborar dinâmicas diferentes na criação das novas gerações. Em cada século, a Humanidade se reinventa. A …