sexta-feira, 11 de abril de 2014

O GATO - PARTE II >> Zoraya Cesar


Exatamente naquele momento crucial, um fortíssimo trovão ressoou e um raio caiu perto de onde estavam, cindindo uma árvore ao meio e trazendo consigo uma noite escura de temporal. Silvia, a mulher, gritou e fugiu, sem terminar o serviço. Ele tremia, paralisado, malditos nervos, de repente estava mesmo na hora de trocar de profissão. Vou morrer eletrocutado, pensou. Respirou fundo, tentando recuperar o controle e a experiência que os anos de treinamento lhe ensinaram. Um passo de cada vez, seguiu, sem se perder, até chegar à hospedaria. 

Entrou resolutamente na recepção, procurando por Silvia, mas encontrou apenas a velha que fazia as vezes de recepcionista, cozinheira, porteira e fofoqueira de plantão. 

A velha olhou para ele com olhos remelentos e sagazes, como os de uma ave que olha para um barbante no jardim e não sabe decidir se aquela estranha minhoca era comestível.

— D. Silvia não gosta de chuva nem de gatos, moço. O marido dela fugiu com a amante, uma jovem recepcionista que tinha um gato detestável. Sumiram os três numa noite de chuva como essa. 

Atônito, ele subiu para o quarto e se preparou para pensar e agir. Tomou banho, praticou tai chi chuan e, ao terminar, começou a entoar estranhos mantras enquanto tirava da mala alguns de seus apetrechos de trabalho: Bíblia, cristais, velas, guias, búzios... Depositou um copo com água no chão, onde traçou o mais poderoso símbolo de proteção da linha Nagô, acendeu velas e colocou-as junto com cristais nos pontos cardeais; posicionando-se no centro do desenho, movimentou o atame no ar, invocou as Forças da Luz, ajoelhou-se defronte à Bíblia, leu alguns trechos de São Paulo, pegou o Rosário e começou a rezar, concentradamente, todas as 220 contas. 

Entrou em meditação profunda, as respostas vindo naturalmente. Começou reconhecendo a canção que ouvira Silvia entoar ao cavar no pé da árvore, uma invocação egípcia aos Espíritos dos Mortos; intuiu o segredo do poço aterrado; o significado de um gato que só ele conseguia ver; a razão de estar ali naquele momento; e o que deveria fazer. 

Chovia torrencialmente. De repente, para além do ruído dos relâmpagos, dos trovões e da água pesada da chuva, algo parecido com os miados selvagens de uma sussuarana romperam o som da noite, seguidos por um gorgolejar pavoroso, temperado de pavor e morte, que só ele ouviu. Continuou imóvel em sua posição de lótus, projetando escudos de proteção para os outros hóspedes, pois, quanto a Silvia, só restava aguardar o curso dos acontecimentos

Veio a madrugada, trazendo, paulatinamente, o silêncio. Cessaram os miados ameaçadores, os trovões e relâmpagos, e, por fim, a chuva. Quando a primeira estrela da manhã brilhou, ele se levantou, desfez o círculo mágico, agradeceu a todos os Espíritos que o ajudaram e guardou tudo. Vestiu-se, apanhou uma lanterna, o celular e foi até o carro, pegar uma pá.

Não esperou o gato mostrar-lhe o caminho, pois agora não existiam mais cansaço ou nervos em frangalhos, nada; só a determinação de cumprir a missão para a qual fora convocado. Chegou ao poço com os primeiros raios de Sol, mas nem precisou da pá. 

O temporal fizera a maior parte do trabalho, espalhando as pedras, abrindo o poço, lavando a terra e expondo os corpos já meio decompostos, mas identificáveis, de um homem de meia-idade e de uma mulher jovem. 

Sem mexer na cena do crime, ligou para a polícia e deu as coordenadas, contando, por alto, a história de uma mulher que, não suportando ser abandonada pelo marido, matou-o e à jovem amante com quem ele fugiria. Nada falou do gato nem das práticas de Magia Negra que prenderam as almas de todas as vítimas à Terra, impedindo-as de descansar em paz. 

Voltou à hospedaria, perfeitamente senhor de si, como se nunca tivesse estado doente,  para encontrar um verdadeiro pandemônio. Todos do lado de fora, uma ambulância, a velha dos olhos de ave perscrutadora enrodilhada numa manta preta, como uma dona Carochinha de cemitério. Assim que o viu, correu ao seu encontro, para contar a novidade:

— O senhor nem sabe, a patroa enlouqueceu, rasgou a garganta toda com as próprias unhas, morreu ontem à noite, eu nunca tinha reparado que as unhas dela mais pareciam garras... — e ficou a falar sozinha, pois ele continuou andando, sem lhe dar atenção. 

Precisava telefonar para um contato na polícia e sumir de cena sem ser interrogado. E precisava, urgentemente, ligar para o Padre Tércio, pois, embora a Deusa Sekhmet, encarnada no gato, tenha feito justiça, todas aquelas almas precisavam de perdão e de um enterro cristão.

Seu nome era Lucrécio Lucas, caçador implacável do Mal que os olhos não veem, que chegara fraco, assustado e cansado, de tanto ver e lutar contra forças que nos fariam enlouquecer de medo. Mas que nunca deixara de entrar em ação e cumprir sua Missão quando chamado.

Ele ainda cogitou em ver se o gato estava enterrado ou não, mas desistiu. Não faria diferença. Que os gatos também descansassem em paz.

Outras aventuras de Lucrécio Lucas



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7 comentários:

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Taí um legítimo herói brasileiro ao qual não faltará trabalho. :)

Anônimo disse...

Miauuuu!!!!!!! O fiel escudeiro de Lucrécio Lucas agora é o melhor guia que ele poderia ter: um gato. Nem Bastet em milênios iria supor que seus devotos bigodudos iriam parar no Brasil. Parabéns! Sucesso. Beiijso. Aglae

Anônimo disse...

Faço côro ao comentário da Aglae -gatos são sem dúvida fiéis escudeiros!
Fiquei fã do nosso (já é meu também) herói Lucrécio.
E concordo com o Eduardo - como tem trabalho pra ele! E que ele sempre nos proteja como protejeu os hóspedes do local...
Parabéns!

Cecilia

Anônimo disse...

Olha!!!
Vc está cada vez mais interessante!
Claro que fui reler como começava a história do gato.
Já podemos esperar pelo livro de uma história arrepiante, grande suspense, cheia de informações de todo tipo etc etc , que as vezes me prendem mais que a propria crônia. Vamos investir um pouco na formação espiritual do povo????
JC agradeceria...,rs. Sonia

Anônimo disse...

uau, zo! um thriller brasileiro, adorei este detetive- parapsicólogo- macumbeiro. salve lucrécio lucas, é a cara da miscigenação brasileira! parabéns, amiga! que lucrécio lucas tenha novas missões brevemente! Ju França

albir disse...

Que os gatos descansem em paz, mas não os malfeitores. Lucrécio Lucas chegou para fazer tremer corruptos e corruptores.

Anônimo disse...

Essa, amiga, tirou o fôlego. Eis que nasce nosso herói bem ao gosto brasileiro!
Já estou me viciando, fico aguardando as aventuras que vc tece para nós ...
Bjsss
Yasmin