segunda-feira, 28 de abril de 2014

ALGODÃO DOCE >> André Ferrer

Sábado, 12 de abril de 2014, aproximadamente 14:30 horas, terminal rodoviário de Assis, interior de São Paulo.

─ Este produto tem um segredo que ninguém revela. Egoísmo pra quê?! Eu mesmo já ensinei a técnica pra muita gente que hoje em dia trabalha no ramo.

De longe, escutei a cantilena pela enésima vez. Eu, aliás, e as três pessoas que, a uma curta distância, cercavam o vendedor de algodão doce. Conforme entendi, alguém no grupo queria saber como ele conseguia que a guloseima permanecesse íntegra desde cedo até aquele horário.

O homem ameaçava contar o segredo ao grupo. Ele tinha chegado bem perto, sempre se justificando com aquela história de ser íntegro e generoso, mas arremetia no último instante. Pela sua idade, entre 45 e 50 anos, logo vi que não tinha saído ileso à cafajestagem atual. E se alguém naquele grupo virasse um concorrente! Era-lhe difícil abrir o jogo naquela tarde.

Houve um tempo em que a gratidão e o respeito das pessoas tornavam essa escolha bem simples. Meu bisavô materno, por exemplo, foi pioneiro da serralheria em Bandeirantes  município norte-paranaense de 32.182 habitantes (Censo IBGE/2010), justamente onde eu nasci. Com meu avô Antônio Ferrer Palomares e tios-avôs, ele ensinou a arte dos rufos e grades numa época em que a madeira era substituída por ferro e latão. Inúmeros jovens aprendizes passaram pelas oficinas dos espanhóis entre os anos de 1960 e 1970.

Panificadora, restaurante, bar, sorveteria e mercearia constituíram a vida profissional do meu avô paterno. José Domiciano, que hoje empresta o nome a uma das ruas de Bandeirantes era um bom mineiro. Quietinho, ele guardava os seus segredos, mas também era generoso e ensinou muita gente que trabalhou com ele em Minas e no Paraná. Meu pai, então, nem se fala! O Sr. Paulo empregou e formou vários profissionais da reparação automotiva e do comércio de autopeças.

De volta à rodoviária de Assis, o homem ainda hesitava no momento em que o meu ônibus encostou. Ele não conseguia contar o segredo. Não conseguia negar. E os seus avanços e recuos beiravam a comicidade. Principalmente quando enfiava coisas quase esotéricas na sua explicação: amor à profissão, mão boa, alto astral, enfim, clima, temperatura, umidade relativa do ar. Naquela alma generosa, porém distorcida pelo mau-caratismo dos novos tempos, travava-se uma luta inglória. Ele não queria ser traído nem passar por egoísta.

Já embarcado, espiando através da janela do ônibus, eu constatei que ele ainda não queria essas duas coisas.

Algumas linhas acima, devo ter exagerado. Inevitável quando escrevemos sobre o nosso clã. Desculpe, leitor, mas foi necessário. Tais apelos à história familiar nada têm de gratuito nesta crônica. Foi a única maneira que encontrei para expressar a minha empatia pelo indeciso vendedor de algodão doce. Dividido entre a obrigação de ser generoso (isso faz parte da minha formação) e a necessidade de ser cauteloso (litros e litros de água quente têm escaldado a minha pele de gato perdido), compreendi a profundidade escondida no comportamento contraditório daquele homem.


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2 comentários:

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Somos nós. Sempre procurando o equilíbrio na corda bamba. :)

Zoraya disse...

Amei a frase "... escaldado a minha pele de gato perdido". Bonito texto, delicado com nossas contradições. Bjs.