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SE NÃO TIVER JEITO, DANCE.
DE QUALQUER JEITO, DANCE.
>> Carla Dias >>


Para Adriana, Kátia, Elaine e Eliane.

Lembro-me de quando, ainda meninas, minhas irmãs, primas e eu nos trancávamos no quarto para dançar. E dançávamos de tudo, não havia objeção ao estilo, apesar de, obviamente, termos as nossas preferências. Era divertido, o tempo do domingo passava menos melancólico, ficávamos felizes e ofegantes.

Mais tarde, começamos a frequentar um clube da minha cidade. Aos domingos, era o ponto de encontro dos jovens que queriam dançar, flertar, fazer de conta de que a vida era uma pista de dança e um bar.

O que se tornou hábito há tantos anos, hoje é uma lembrança-contraste da minha rotina. Naquela época, quando sem dinheiro aos domingos para ônibus e entrada do clube, emburrávamos com a vida e ficávamos em casa, o domingo dando uma surra na nossa vontade de sair para dançar. Aquela vontade pungente de me vestir e ir para a pista, dançar três horas seguidas e voltar para casa batendo papo no ônibus, bom, nem consigo mais imaginá-la decentemente.

Mas essa lembrança não me veio a troco de nada. Domingo passado, durante um show que eu assistia em pé, no fundo do teatro, vi uma coisinha saltitante lá na frente, no pé da escada. As pessoas prestavam atenção ao show, mas eu não conseguia desgrudar os olhos da coisinha saltitante, cabelos longos e esvoaçantes, que era, na verdade, uma menininha de uns três, quatro anos que, completamente envolvida pela música, não parava de dançar. E assim foi, durante quase uma hora e meia.

Criança dançando é uma diversão para o olhar. Não há coreografia, pretensão de agradar a quem as observa, nem medo de fazer errado. Por isso elas se soltam e apenas sentem a música, divertindo-se com ela.

No dia seguinte ao show, eu tinha hora com o dentista, então, lá fui eu andar de ônibus, metrô, ônibus. Na volta, a fila para comprar o bilhete de metrô estava longa. Durante essa espera, vi aquela menininha pilhada, andando pra lá e pra cá, balbuciando, sorrindo, talvez, para alguma amiguinha imaginária. Ela devia ter seis, sete anos de idade. Seu corpinho era miúdo, miúdo, de indicar saúde frágil. A cabecinha sem um fio de cabelo. Mas antes que eu pudesse me lamentar por ela, a menina começou a sacudir o corpinho, dançando do jeitinho dela, ao som de uma música que, posso apostar, era inventada. A mãe estava bem abatida, e parecia mais doente que a filha. Ainda assim, não tirava os olhos daquela figurinha que não parava quieta. Quando chegou a vez delas de comprar o bilhete, a menina se adiantou, ficou na ponta dos pés, os braços apoiados na bancada, e, sério, eu adoraria saber o que ela disse ao atendente do guichê, porque ele sorriu o sorriso mais bonito que já vi atendente de guichê de venda de bilhete de metrô sorrir. Então, elas se foram, a mãe melancólica e a filha dançarina.

Foi assim que me lembrei de que, como essas meninas, nós dançávamos quando estávamos felizes e também quando precisávamos de um pouco de euforia para espantar tristeza. Posso não dançar em pistas de clubes, bater cartão em baladas, mas ainda danço na sala, às vezes porque a música é boa, em outras porque desejo que a vida melhore logo, recupere-se. E até confesso que minha dança continua bem parecida com a das meninas, o que, em adultos, é sinônimo de desengonço. Bom, aceito o meu numa boa.

Sendo assim, se não tiver jeito, dance. De qualquer jeito, dance.

Desengonçadamente, na sala de estar, no corredor do consultório do dentista, no pé da escada do teatro, na fila para comprar bilhete de metrô, sozinho ou acompanhado.

Imagem: sxc.hu

carladias.com

Comentários

Crazy Mas Feliz disse…
Lembranças boas você me traz irmãzinha...
albir disse…
Tem razão, Carla. Esconda-se se for preciso, mas dance. Acho que vale também pra cantar.
Carla Dias disse…
Albir... Sim! Dançar e cantar :)

Eduardo... "Desprecise". É só começar a dançar :)
Zoraya disse…
Carla, você nem sabe, essa é uma das alegrias singelas da minha vida, a casa vazia, eu coloco uma música e me acabo de dançar, como se nao houvesse amanha. E, antes que eu esqueça, linda linda crònica.
Carla Dias disse…
Zoraya... Agora eu sei, apesar de, na minha cabeça, essa mania ser necessária para todos nós. Já imaginou se, dia desses, sem querer mesmo, todos nós dançássemos nas nossas salas de estar ao mesmo tempo? O planeta iria vibrar.

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