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SE ARVORANDO >> Eduardo Loureiro Jr.

Imagem: André Neves
Desde que comecei a morar em apartamento, há 25 anos, passei a me sentir mais seguro. Morar em casa tem suas vantagens, claro, mas eu, sinceramente, não sei quais são. Ou não sabia.

Ano passado, retornei para o Ceará e resolvi morar numa casa, a casa de praia de meus pais, que só era usada em feriados e férias. O leitor não se empolgue demais com a minha nova residência, porque a praia fica a três quarteirões, só dá praia mesmo na maré baixa durante um período de apenas duas horas que muda todo dia e que, metade das vezes, acontece à noite. Feita essa ressalva, tenho que admitir que estou gostando de morar numa casa novamente, ainda mais perto do mar.

Uma coisa boa de morar aqui é que vivo não só no mesmo nível do mar, mas também no mesmo nível das árvores. Desci do meu salto alto de 13, 8, 3 andares para pisar no chão. Só agora percebi que eu me sentia superior a muita gente simplesmente porque eu morava pendurado em um apartamento.

As árvores, como se sabe, dão frutos, coisa de que às vezes a gente esquece quando vive num apartamento de uma grande cidade e só consegue fruta no supermercado. Aqui ao redor de casa, já deu caju, sapoti, manga, seriguela... e agora está dando acerola. É isso mesmo, as árvores dão, não precisa passar no caixa, basta pegar no galho. Mas a árvore não dá o tempo todo, o ano inteiro, ela tem época para isso. Depois de um tempo dando, ela fica quieta, na dela, matutando, pensando, refletindo, tomando banho de sol, pegando chuva, criando coragem para dar de novo ano que vem.

Agora, se a árvore dá, a gente precisa receber. E receber nem sempre é tão simples como parece. Receber requer exercício. Não é ficar sentado numa poltrona dizendo, “mãe, traz um copo de leite”, “pai, faz um sanduíche”. Para receber da árvore, é preciso se aproximar do pé de planta e apurar o olhar para descobrir a fruta boa, a mais bonita, a mais madura. Fruta verde não presta, não chegou seu tempo. E fruta que passou do tempo está podre. Avistada a fruta madura, há que se pegá-la. Pode ser que ela esteja pertinho do chão e só exija um pequeno esticamento de braço. Pode ser que ela esteja um pouco mais alta e peça um estiramento de corpo. Pode ser que ela esteja ainda um pouco mais acima e você precise puxar o galho pra baixo, estirar o corpo, esticar o braço. E pode ser que ela esteja no alto bem alto, e você tenha que subir na árvore. Tem fruta que só dá o seu sabor se você der a sua meninice para ela. Se você se descalçar e trepar no galho. Se você des-pensar o supostamente seguro pensamento de que “pode cair e quebrar um braço ou uma perna, menino!”.

Se você já estiver trepado no galho, é provável que apareça mais alguém para ficar lá embaixo do pé, indicando: “Ali. Na ponta. Mais pra frente um pouquinho. Aquela bem vermelha.” Aí quem está em cima tem que afinar o olho com quem está embaixo para chegar direitinho na fruta que é tirada do pé e jogada lá do alto.

Algumas frutas são comidas ali mesmo, pelos passarinhos e pelos meninos. Outras são tiradas e guardadas e levadas para casa. Menino que é menino, quando acha uma árvore dando fruta, pega tudo o que tiver. E é para pegar mesmo. Se é época de dar, árvore já apronta mais fruta para o dia seguinte. Mas para pegar esse tudo de frutas é preciso, além de ter olho bom, girar ao redor da árvore. A fruta que se vê do chão, quando se vai pegar, às vezes parece que muda de lugar. Tem que ficar arrodeando a árvore para achar as frutas que ficam escondidas atrás de galhos e folhas. É a árvore brincando de esconde-esconde com a nossa meninice. Tudo que dá na vida, assim de graça, assim ao natural, é desse jeito. Depois de ver e antes de pegar, muitas vezes é necessário arrodear. É esforço, mas é também brincadeira. Mais do que a fruta, é um jeito de ver melhor a árvore, seu tronco, seus galhos, suas folhas, suas flores.

Árvore fica sempre parada. Plantou, tá plantada. Menino, não. Acorda plantado na cama ou na rede, depois se levanta, se planta à mesa, se levanta, se planta no chão, se levanta, se planta no assento do ônibus, se levanta, se planta na carteira da sala de aula, se levanta, se planta na árvore do pátio da escola, se levanta, se planta no sofá de casa, se levanta, se planta no selim da bicicleta, se levanta... Gente se planta e se desplanta muitas vezes durante a vida. Às vezes tão rápido que se esquece de dar. Porque quem se planta se cresce, quem se cresce se fortalece, quem se fortalece se frutifica e quem se frutifica se dá. Quem se planta e se dá atrai os olhares de novos meninos curiosos e famintos, e sente cócegas quando as mãos e os pés da meninada percorrem seu corpo fibroso, seus galhos tortos. Porque se a gente é o que come, e gosta de comer o que dá em árvore, nós também vamos nos transformar em árvores, e, sendo árvores, alimentaremos novos meninos, futuras árvores, que por sua vez se plantarão perto de casas em que habitarão velhos meninos como eu.

Comentários

Martha Hormann disse…
Lindo texto! Parabéns.

Martha Hormann
Kenia Silva disse…
Deu saudades de tudo isso, Eduardo. A tempos que não subo em um pé de árvore, a tempos que não me divirto com a bela natureza. Seu texto me fez voltar no tempo- e no espaço da felicidade.
parabéns!
KLAUS POEMAS disse…
Nada como um bom passeio
No bosque na meninice.

Parabéns. Um grande abraço.
Voltemos no tempo e passeemos, Kenia e Klaus. :)
Georgia Macedo disse…
Uma delícia de texto! Gostei muito! Parabéns!
Zoraya disse…
Que lindo, Eduardo, que lindo!
Grato, Georgia e Zoraya. :)
albir disse…
Seus meninos-árvores nos enchem de nostalgia, Edu.
Kanokosou disse…
Redação plausivel, abordou um tema e personificou a arvore ao ser humano,, indescritivel tal modo de analisar tanto a natureza quanto os seres que ali vivenciam ..(Kanokosou)

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