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Mostrando postagens de 2013

OS AMORES DA PREPOSIÇÃO >> Albir José Inácio da Silva

Quem vê assim tranquilamente fundidos os “as”, não imagina quanta polêmica essa união já provocou. A preposição sofreu humilhações e vitupérios quando se apaixonou pelo artigo.

O preconceito dizia que era inaceitável esse tipo de relação entre palavras do mesmo gênero. De nada adiantaram os argumentos de que “a” era comum de dois gêneros, assim como Itamar ou Alcione.

O preconceito é cego. Já não viam com bons olhos a fusão entre classes diferentes, mas isso - mesmo sexo - era abominação. Aceitavam que a preposição encontrasse outros termos, mas fundir-se não.

Determinada, a preposição “a” não abriu mão do artigo de mesmo nome e, contra todas as dificuldades, vencendo, inclusive, a timidez do artigo, que não resistiu aos seus encantos, fundiu-se com o amado. Contaram com a conivência de alguém muito sério, e por isso respeitado, o acento grave, que legitimou o “ crasamento”, para desespero dos moralistas.

Resolvida essa questão burocrática, gostaríamos de terminar dizendo que foram fe…

AMIGOS COM BLUETOOTH >> Mariana Scherma

Eu nunca sei quando me tornei amiga dos meus amigos. Quando digo amiga, estou me referindo àquela relação de poder ligar a qualquer hora, de pedir um conselho sabendo que você vai ouvir a verdade (goste ou não do que vier) e, principalmente, de sacar o que ele está pensando só no olhar. Aliás, acho esse último item o mais importante numa amizade. É a intimidade que você não consegue forçar, precisa de um tempo de amizade pra existir. Amigos com Bluetooth, sabe?
Fico encanada de não saber quando meus amigos viraram tão essenciais na minha vida porque, oras, tenho bem poucos. Os “amigos” são vários, mas os amigos sem aspas que decifram meus pensamentos só pela covinha ou pelo olhar torto cabem na palma da mão, talvez uma mão especial com mais do que cinco dedos. E eu faço a eles a mesma pergunta sempre: você se lembra de quando a gente virou amigo pra valer? Nunca chegamos a nenhuma conclusão. A gente se lembra de quando se conheceu, de quando achou que seria amigo, mas não aquele moment…

PARA COMPARTILHAR >> Carla Dias >>

Um verbo que anda fazendo um sucesso estrondoso é o compartilhar.

Quando pequena, era de praxe ter de compartilhar uma série de coisinhas com as minhas irmãs e irmão, com minhas primas e primos. Aprendemos, assim, que basicamente nada nos pertence, mesmo quando temos certeza da posse. Aliás, certeza é das coisas mais flexíveis que conheço.

Com o passar do tempo, esse compartilhamento se estendeu a outros departamentos: lanche da amiga na hora do recreio, sonhos, roupas da mãe, fofocas da escola, maquiagem da tia, corações partidos, sapatos das irmãs, a vida se tornou praticamente um brechó familiar com direito a sacolé + bate-papo.

Até aí, compartilhar tem a ver com a forma como somos criados, as condições às quais somos submetidos e a pais que compreendem a importância de ensinar aos filhos como se colocar o verbo em prática. A partir do momento em que nos tornamos autossuficientes para assumir a autoria das nossas escolhas, compartilhar se torna bem mais complexo.

Por exemplo, tem …

FELIZ NATAL! >> Clara Braga

Mal piscamos e chegamos na véspera de natal! Hoje é dia de recebermos e enviarmos diversas mensagens desejando felicidade, prosperidade, alegria e paz à diversas pessoas. Amigos, familiares, namorado, colegas de trabalho, todos recebem nossas mensagens de carinho.
Percebi que em todo esse tempo que escrevo no crônica do dia, dividindo esse espaço com diversas outras pessoas que de alguma forma fazem parte da minha vida, apesar de muitas delas eu nunca ter tido a oportunidade de colocar um rosto nas suas palavras, nunca lhes desejei um feliz natal!
É engraçado, pois quando não conhecemos alguém pessoalmente é difícil dizer que conhecemos essa pessoa de fato. Mas como negar que nos conhecemos através das histórias que compartilhamos aqui semanalmente?
Então hoje, dedico essa crônica para todos os escritores do crônica do dia, que podem não ter um rosto para mim, mas tem alma, palavras doces, pensamentos, questionamentos, histórias, alegrias e tristezas que fazem questão de compartilhar…

O TIOZINHO DE MARVELS >> André Ferrer

Uma das forças dos Evangelhos é o foco narrativo. Quem contou a vida de Cristo não era apenas contemporâneo do herói, testemunha dos acontecimentos, mas cúmplice. Afirma-se, ainda, que os evangelistas eram homens de posse e cultura limitadas. Com exceção de Lucas, médico, os apóstolos eram gente simples, o que fortalece as narrativas produzidas por alguns deles a respeito do nazareno.
Há infinitas maneiras de contar a mesma história. Por mais fantástica e inacreditável ela seja, sempre haverá um jeito capaz de torná-la convincente e, neste aspecto, o ponto de vista é mesmo decisivo.
Na Literatura e no Cinema, as histórias fantásticas ganham mais força quando contadas a partir de gente honesta e comum. Trata-se de uma velha estratégia. Sua eficiência nunca é menosprezada pelos melhores contadores de história - seja nas páginas dos livros ou nas telas dos Multiplexes. Também nos quadrinhos, a chamada Arte Sequencial, o ponto de vista é imprescindível.

Imagine, então, as aventuras do Tocha …

DE MÃOS DADAS COM BATMAN [Ana González]

Ele ia seguro de si. Uma de suas mãos segurava a da mãe. A outra mão colocada na imagem de um morcego, na altura do peito, talvez se certificasse de que ela estava lá porque era parte importante de sua vestimenta especial. Ela parecia estar com pressa e ele, em seus quatro ou cinco anos, a seguia com dificuldade.

Talvez sua mãezinha estivesse com o pensamento em diferentes questões que as dele, que vivia um momento quase solene. Era a primeira vez que colocava a roupa. Seus olhos não enxergavam a realidade, a rua e os passantes apressados, as vitrines cheias de bolas de Natal e enfeites coloridos. Nem percebia os buracos pela calçada e as buzinadas desnecessárias do congestionamento. Nem a poluição ou corrupção se misturando à luz do sol e às nuvens macias. Talvez vissem apenas o que só ele poderia descrever. Ninguém mais. Seria impossível perceber o quê. Naquele momento, ele incorporava seu herói. Batman, sem a máscara. Era o espírito que interessava. E talvez ele não tivesse os deta…

ESTRANHAS CENAS DE NATAL >> Zoraya Cesar

CENA UM - Estava muito bem vestido, o senhor que entrou na Igreja logo cedo da manhã. A postura ereta, o andar ritmado e o modo de colocar as mãos poderiam levar a pensar que se tratava de um militar, e não estariam errados os que assim concluíssem. 
Aproveito o momento para avisar que este é um caso real, mas, como tudo na vida, acredite apenas se quiser. Não forçamos a nada, você sabe.
Pois bem, entrou, e a primeira impressão nem foi das melhores, a Igreja estava meio escura - ou ele, mais acostumado à luz natural, não estivesse enxergando direito; ou talvez a revolta pelo afastamento, depois de 30 anos como combatente de montanha do Exército também estivesse colaborando para a sua má vontade. Pode parecer bobagem, pois a aposentadoria é o destino dos que estão vivos –mas cada um sabe onde lhe aperta o sapato e não estamos aqui para julgar o nosso amigo, e sim contar o que lhe aconteceu.
Virou-se para ir embora e, nesse movimento, vislumbrou a delicada luz azul que brilhava no fund…

OS EGOCÊNTRICOS >> Fernanda Pinho

Semana passada virou notícia a história de um mestre de obras que lascou cimento nas rodas de um carro que havia sido estacionado em local proibido. Talvez o cara tenha sido um pouco radical, realmente, mas eu achei bem feito. Em uma conversa sobre o assunto defendi com veemência o pedreiro explicando que não suporto gente egocêntrica. E para mim, esse folgado que estacionou o carro na calçada é isso: um egocêntrico que acha que o mundo inteiro precisa se adequar a necessidade dele, e não o contrário.
Depois, numa análise mais racional da minha própria fala, percebi certa leviandade da minha parte ao afirmar que não suporto gente egocêntrica. Se assim fosse, eu estaria isolada numa bolha, com ódio de todas as pessoas (inclusive de mim mesma). Somos todos egocêntricos em diferentes níveis (e aqui preciso deixar claro que estou usando o termo “egocêntrico” sem nenhum compromisso com a psicologia, apenas por falta de termo melhor para definir “pessoa que se acha o centro do universo”).…

EU QUERIA DIZER NADA, MAS JÁ QUE A VIDA INSISTE... >> Carla Dias >>

Furar pé com prego enferrujado faz chover no fim da tarde de sol. Dizem que sol e chuva é indício de casamento de viúva, mas tenho certeza de que eles se combinam somente quando menino levado da breca fura o pé com prego enferrujado, e mãe coloca pó de café lá, porque crê, assim como costumavam crer os seus pais, que é o melhor jeito de curar ferida do tipo.

Para mim, que sempre fui desconfiada das crendices, pé furado com prego enferrujado pode – e deve! – ser curado somente com sol e chuva. E abraço de pai e mãe.

Um dia, eu furei o joelho com prego enferrujado. Minha mãe até tentou, mas não fui tomar injeção, porque apesar de ela ser adepta das crendices e da alopatia, com a teimosia que me acompanharia pela vida afora, consegui que ela se apegasse mais às benzeduras e ao Merthiolate.

Saí dançando pelas ruas uma canção que acabara de aprender e soava de uma lindeza de aprumar felicidade. Era sexta-feira de manhãzinha, e na noite anterior, eu havia também aprendido a perder pessoa a…

O QUE VOCÊ FARIA? >> Clara Braga

Se você pudesse encontrar um ente querido que faleceu, o que você diria a ele? Já pensou nisso? Eu sempre achei que não conseguiria falar nada, morro de medo dessas coisas de ver gente que já morreu, isso não é comigo. Minha família provavelmente acha isso vergonhoso, já que eu sou espirita, mas todos os espíritos que já tiveram a oportunidade de ouvir uma oração minha sabem muito bem: aparecer para mim jamais!
Outro dia eu sonhei com o meu falecido avô. Um sonho muito bonito, ele estava entre todas as pessoas da minha família, observando a gente conversar. Posso dizer que o sonho trouxe um certo conforto, uma vez que meu avô estava muito bem e muito feliz. É sempre bom quando as pessoas do nosso sonho passam essa tranquilidade de quem está feliz, principalmente quando a pessoa é alguém que a gente ama. Parece até que a pessoa aparece no nosso sonho de forma proposital para avisar que está bem.
Porém, como nem tudo são rosas, no sonho eu era a única da família que via meu avô, justo …

CALEM-ME, POR FAVOR! >> Albir José Inácio da Silva

- Sai daqui! O senhor sai daqui, agora! Tira esse homem daqui!


Foram esses gritos que nos deixaram paralisados, e levaram nosso chefe correndo à sala do diretor. O chefe voltou trazendo pelo braço um Domício em estado de choque. Ainda pudemos ver, na porta, o diretor vermelho, agitando os braços e dizendo coisas que não entendíamos – o gringo esquecia completamente a língua portuguesa quando nervoso.


Depois de água com açúcar, Domício foi melhorando numa cadeira e explicou como pôde o acontecido. O chefe complementou porque sabia dos antecedentes ao gabinete. Mais ou menos assim: por umas questões urgentes envolvendo família, cartórios e advogados, Domício precisava ir a Minas Gerais. Seria uma coisa rápida, viajaria naquela mesma noite e estaria de volta na noite seguinte. O chefe disse que não tinha poderes pra dispensá-lo, mas que ele falasse com o diretor, marcasse com a secretária, que o gringo era gente boa.


E lá foi Domício confiante e relaxado pra diretoria. A secretária o anu…

QUE PERDURE! >> Sílvia Tibo

Na semana em que o mundo parou para se despedir de Nelson Mandela, a crônica deste domingo não poderia deixar de fazer referência à causa por que ele lutou, tamanha a sua beleza e relevância.

Por diversas vezes já me peguei imaginando a razão pela qual, num dado momento da História, pessoas de pele branca passaram a se considerar superiores às de pele negra e, sob tal convicção, atribuíram-se o direito de instituir normas destinadas a restringir seus direitos, privando-lhes do acesso a serviços públicos como saúde e educação em condições idênticas às oferecidas à população branca.

Há pouco tempo, li a obra de Kathryn Stockett, que, em Português, recebeu o título de “A Resposta”. Meses depois, assisti ao filme “Histórias Cruzadas”, que teve origem no livro.

Para aqueles que, como eu, fazem parte de uma geração de adultos que não assistiu a grandes episódios de segregação racial, como os que se deram durante o regime do Apartheid, entre os anos de 1948 e 1994, a história narrada em “A …

ADVENTO [Maria Rita Lemos]

Já é dezembro. De repente, a gente se dá conta de como o tempo está passando depressa! Seja como for, dezembro sempre traz aquele toque mágico, com o Natal se fazendo anunciar em todas as esquinas, nas lojas, nos olhares. Tudo nos chama à bondade, a trocar cartões desejando boa sorte, boas festas, isso tudo apesar de sabermos que os votos não valem muito além da intenção de quem os envia, do desejo de que todo mundo seja feliz e se dê bem, o que nem sempre acontece, infelizmente. Também enviamos votos pensando em ser politicamente corretos; seja como for, a vontade é grande de nos fazer presente aos ausentes, apartados que estão de nós pelo tempo ou espaço, ou ambos. Queremos dizer aos que amamos, ou aos somente conhecidos, que outro Natal está chegando e que vale a pena compartilhar esse momento outra vez.
Já podemos ver os papais noéis de sempre, nos shoppings, nas portas das lojas, na maioria das vezes cansados, suados, com suas roupas feitas para o inverno, algumas até bem sur…

O SISTEMA NÃO PERMITE >> Carla Dias >>

Ando apoquentada com tudo o que acaba em desculpas que descambam no sistema. Primeiro, porque me preocupa quando pergunto a alguém sobre algo que requer reflexão, e esse alguém me responde, sem esclarecer, que “o sistema não permite”.

O sistema se tornou um sujeito oculto com poder imensurável. Não assumimos a própria incapacidade de encontrar soluções para questões mais complicadas. Pior, quase sempre não nos damos nem mesmo ao trabalho de tentar encontrá-las. Vamos logo sacando da nova moda, afinal, a culpa é do sistema.

O sistema, que já é sujeito oculto com poder imensurável, também se tornou a desculpa esfarrapada perfeita para pegar consumidor de jeito. Na hora de angariar clientes, as empresas lidam com o ser humano. É um vendedor, sorridente e atencioso, quem o convence que tal produto é perfeito para ele. Na hora dos problemas, o cliente lida com o SAC (Serviço de Atendimento ao Consumidor), e a resposta, em qualquer negociação, esbarra quase o tempo todo em “o sistema não pe…

WELCOME TO THE JUNGLE >> Clara Braga

Outro dia assisti a um vídeo no qual canadenses falavam a respeito do que eles sabiam sobre o Brasil. Claro que samba, futebol e mulheres bonitas estavam entre as respostas de uma grande maioria. Quando foram questionados sobre a capital, muitos diziam Rio de Janeiro, outros poucos sabia que era Brasília.
Mas o mais engraçado não eram as respostas dos canadenses, mas sim os comentários dos brasileiros revoltados, dizendo que era muita ignorância deles só falar de samba, futebol e mulher bonita. Mas convenhamos, o que você sabe sobre outros países? Eu confesso que pouco sei, inclusive, espero que canadenses não decidam perguntar o que nós brasileiros sabemos sobre o Canadá, pois eu mesma não sei quase nada.
Sinceramente, acho que o Brasil tem sim muito mais coisas para serem lembradas do que carnaval, mulher bonita e futebol, mas estamos precisando aprender a mostrar essas qualidades. Prefiro mil vezes que os estrangeiros olhem para a gente e lembrem de nós como um país feliz, de pess…

PONTO DE VISTA >> André Ferrer

Nas redes sociais há muitas postagens sobre a nova queda de audiência da poderosa Rede Globo. Acontece todos os anos. É sazonal. Os heróis da resistência e toda sorte de revolucionários fazem a festa porque a emissora é um dos símbolos da dominação. Sendo boato ou verdade, qualquer pista de que as estruturas do império balançam torna-se um grande acontecimento para trotskistas e macrobióticos.
A última onda de êxtase originou-se da queda de audiência no período vespertino. A emissora teria planos de extinguir a clássica Sessão da Tarde.
Tudo isso, no entanto, é impreciso. Alguém já te visitou em casa e instalou um daqueles aparelhos de medição atrás da TV? Cabeça de bacalhau. Quem acredita naqueles números? Anunciante? Publicitário? O IBOPE ainda não se adequou à Era Digital. Outras modalidades de pesquisa praticadas pelo próprio instituto são exemplos de precisão e utilidade pública. No caso da audiência, parece-me que o instituto ainda usa a mesma tecnologia da época das válvulas e d…

GENOCÍDIO >> Whisner Fraga

Naquela época morávamos, eu e meus dois irmãos, em Uberlândia. Muito tijucano debandava para aquela cidade, fosse para cursar uma universidade, fosse para trabalhar. Hoje não há necessidade dessa emigração, uma vez que Ituiutaba possui excelentes faculdades, particulares e públicas, e até mesmo um instituto federal. Acredito também que as oportunidades de emprego aumentaram com a chegada de novas empresas, o que garante ao cidadão a permanência em sua cidade.

Dividíamos uma casa no bairro Nossa Senhora Aparecida, perto do câmpus da Educação Física, da Universidade Federal de Uberlândia. Tínhamos um amigo, cujo nome não revelarei, mas que atende pelo apelido de "Peixinho", que tinha um Pet Shop na minha querida cidade natal. Penso que seja dono de tal estabelecimento até hoje, pois é um excelente negociante e gosta de bichos. Pois bem, este nosso amigo fazia compras em alguma cidade do estado de São Paulo e passava sempre em Uberlândia para nos visitar. Passava também porque …

MORRO DO FERRO: a cidade (das memórias) do meu pai [Ana Claudia Vargas]

Porque temos a tendência de olhar para baixo quando estamos no topo? Porque geralmente fazemos isso quando subimos até o último andar de um prédio ou quando alcançamos o topo de uma montanha? Será que olhamos lá para baixo para que confirmemos a nós mesmos que sim, conseguimos? Sim: fomos capazes e por aí afora?
Será?
Pois o meu pai que fará 92 anos em Dezembro tem andado assim: ele fica quase sempre olhando lá para trás ou para baixo - será que o passado seria isso? Algo ‘abaixo’ do presente? - lá para o passado mais distante, aquele que é quase invisível de tão longínquo... E então ele vai contando seus causos: de quando tinha sete anos e gostava de ouvir a avó contando... causos (e a vida não é mesmo um ciclo retorcido, deslumbrante e sempre surpreendente?), de quando o padre da cidade em que nasceu fez com que uma árvore centenária se partisse ao meio porque ficava em frente da igreja e ocultava o esplendor da dita cuja, de quando ele caçava passarinhos pelos campos, despreocupado …

BIOGRAFIA NÃO AUTORIZADA >> Zoraya Cesar

Você passa por dezenas, talvez centenas de pessoas diariamente, e tão absorto está com seus próprios pensamentos, seu celular, seu tablet, seu qualquer coisa, que, mesmo que sua vida dependesse disso, você seria incapaz de descrever qualquer uma delas. 
Mas tem uma hora, e sempre tem uma hora, que você relaxa e olha em volta. Nem sempre nota algo que se destaque em meio à infinidade de informações que chegam sem pedir licença. É a televisão no restaurante, barulho de pratos, gente falando alto; são as mensagens que não param de chegar ao telefone; é a agenda eletrônica que não para de piscar avisando compromissos que você sabe que não cumprirá a metade; é o vai-e-vem no ponto de ônibus, onde as pessoas se atropelam umas às outras, tentando entrar antes de todo mundo e ver se pegam um lugar para sentar. 
Ponto de ônibus. Final do expediente. Só agora você, já cansado de processar tanta informação e de receber tanto estímulo sonoro e visual durante o dia, se dá ao luxo de passear os ol…