domingo, 8 de dezembro de 2013

GENOCÍDIO >> Whisner Fraga

Naquela época morávamos, eu e meus dois irmãos, em Uberlândia. Muito tijucano debandava para aquela cidade, fosse para cursar uma universidade, fosse para trabalhar. Hoje não há necessidade dessa emigração, uma vez que Ituiutaba possui excelentes faculdades, particulares e públicas, e até mesmo um instituto federal. Acredito também que as oportunidades de emprego aumentaram com a chegada de novas empresas, o que garante ao cidadão a permanência em sua cidade.

Dividíamos uma casa no bairro Nossa Senhora Aparecida, perto do câmpus da Educação Física, da Universidade Federal de Uberlândia. Tínhamos um amigo, cujo nome não revelarei, mas que atende pelo apelido de "Peixinho", que tinha um Pet Shop na minha querida cidade natal. Penso que seja dono de tal estabelecimento até hoje, pois é um excelente negociante e gosta de bichos. Pois bem, este nosso amigo fazia compras em alguma cidade do estado de São Paulo e passava sempre em Uberlândia para nos visitar. Passava também porque os animais que trazia consigo precisavam descansar do estresse de uma longa viagem.

Ele costumava levar peixes artesanais para vender em sua loja, mas naquele dia aterrissou com um bando de hamsters. O bichinho estava na moda naquele tempo e não havia criança que não queria ter um em casa. Peixinho deixou as três gaiolas na sala e foi jantar com meu irmão mais velho. Meu irmão mais novo, o Weslei, trabalhava no setor de compensação de um banco, de modo que só voltava no final da noite, por volta das cinco da madrugada, de modo que nem desconfiava da presença do nosso amigo em casa.

Como é de hábito para pessoas normais, fomos dormir, eu, meu irmão mais velho e nosso amigo, antes da chegada do meu irmão mais novo. Nesse meio tempo, os hamsters que estavam em uma das três jaulas armaram uma rebelião e conseguiram abrir a porta da cadeia em que se encontravam. Mas ficaram ali em volta, não se deram ao trabalho de uma fuga maior: talvez sentissem medo desse mundo novo e preferissem a segurança do que já conheciam, mesmo que o que conhecessem não lhes agradasse muito.

Imaginem como chega em casa uma criatura após seis horas de trabalho noturno compensando cheques, um trabalho extremamente maçante. Imaginaram? Meu irmão mais novo, zumbi, abre o portão da garagem por volta das cinco e pouco da manhã, com seu fusca amarelo possante acordando toda a vizinhança e, quinze minutos mais tarde, já pode se dar ao luxo de estar na sala de nossa república.

O negócio é que a sala de nossa república estava tomada por um enxame de ramsters e nenhum de nós se deu ao trabalho de avisar o meu irmão mais novo da presença desses visitantes. Ou seja: o zumbi não entende nada do que está acontecendo e se desespera, achando que nosso habitat está sendo invadido por ratos. Ele se arma com uma vassoura e inicia a matança. Peixinho acorda do seu justo sono, talvez intuindo um enorme prejuízo para sua pequena receita, e sai gritando "pelamordedeus não faça isso com meus bichinhos, eu preciso deles, são meu ganha-pão". Mas àquela altura já era tarde.

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Um comentário:

albir disse...

Whisner,
muito bom ler suas memórias.