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O TIOZINHO DE MARVELS >> André Ferrer

Uma das forças dos Evangelhos é o foco narrativo. Quem contou a vida de Cristo não era apenas contemporâneo do herói, testemunha dos acontecimentos, mas cúmplice. Afirma-se, ainda, que os evangelistas eram homens de posse e cultura limitadas. Com exceção de Lucas, médico, os apóstolos eram gente simples, o que fortalece as narrativas produzidas por alguns deles a respeito do nazareno.

Há infinitas maneiras de contar a mesma história. Por mais fantástica e inacreditável ela seja, sempre haverá um jeito capaz de torná-la convincente e, neste aspecto, o ponto de vista é mesmo decisivo.

Na Literatura e no Cinema, as histórias fantásticas ganham mais força quando contadas a partir de gente honesta e comum. Trata-se de uma velha estratégia. Sua eficiência nunca é menosprezada pelos melhores contadores de história - seja nas páginas dos livros ou nas telas dos Multiplexes. Também nos quadrinhos, a chamada Arte Sequencial, o ponto de vista é imprescindível.


Imagine, então, as aventuras do Tocha Humana e do Capitão América contadas por um homem comum, um fotógrafo caolho, magrinho, pai de família, calvo, chamado Phil Sheldon!

Em Marvels, graphic novel publicada em 1994, o grande barato é seguir este cidadão Manhattan adentro. Vê-lo desviar-se dos destroços, entre arranha-céus, indefeso, simplesmente não tem preço. Sheldon, por sua vez, o tiozinho de Marvels, corre o tempo todo atrás dos heróis ou “maravilhas”, como ele diz, e também dos supervilões. Nem sempre, é claro, o leitor pode assistir aos embates entre o Homem-Aranha e o Duende Verde. Fica-se, então, com os fragmentos e uma estranha noção de inacreditável realidade! Enfim, não é possível enxergar as batalhas como acontece nos outros quadrinhos. Afinal, o leitor se move no tempo e nas limitações humanas de Phil Sheldon. Evidentemente, ambos chegam atrasados. Com muita sorte, avistam a sombra de Namor, o Príncipe Submarino, contra as vidraças do Empire State Building.

Se o roteiro de Kurt Busiek traz toda essa força, o desenho de Alex Ross não deixa por menos. Como a ambientação dos quatro volumes abrange o período de 1939 a 1974, Ross tem um material dos mais interessantes a ser explorado e, sem dúvida alguma, consegue explorar e com muito bom gosto. Para quem é apaixonado por aquele pedaço do século XX, o deleite está garantido enquanto lê e aprecia Marvels.

Quando abri o volume e comecei a ler tive uma grata surpresa. Um dos quadrinhos, logo no início da primeira parte, homenageia o pintor estadunidense Edward Hooper.

Na cena (imagem acima), Sheldon e alguns dos seus colegas jornalistas conversam, à noite, num típico diner. A pintura é Nighthawks (“Falcões da Noite” – assista ao vídeo abaixo), considerada uma das principais obras do artista que viveu entre 1882 e 1967. Mal bati os olhos no quadrinho, reconheci a homenagem. Um livro de contos de Norman Mailer, publicado no Brasil, traz Nighthawks como estampa de capa.


Em 1994, ano de lançamento da graphic novel, li algumas resenhas a respeito, mas não adquiri um só exemplar, importado ou editado no Brasil. Naquele tempo, apesar de me interessar bastante pelo mundo das narrativas e não estar nem aí para o Tetracampeonato, passou batido. Recentemente, adquiri um volume da Editora Salvat (Coleção Marvel Graphic Novels), que traz as quatro partes de Marvels, e pude conhecer essa verdadeira obra-prima dos quadrinhos.

Há muita cultura e História ao redor de Phil Sheldon. Ele é um jornalista à moda antiga, um intelectual comprometido com a qualidade da informação a ser transmitida para a sociedade, um filtro dos movimentos e contrapartidas. Vejo-o na posição de alguém que luta para ser justo em um mundo em transformação. Um planeta em vias de se transformar numa massa de cinzas embaixo dos pés de Galactus ou, pior, prestes a se transformar em um lugar sem heróis, com raros jornalistas que não dão a mínima para celebridades, enfim, a Terra prestes a se tornar o mundo que nós conhecemos.

Comentários

Zoraya disse…
Ah, eu gosto muito dos Marvels, que encantaram minha infância e me fizeram acreditar em heróis possíveis. Adorei a crônica, beijos heróicos e divagadores
albir disse…
André,
conheço ótimos leitores, críticos e vorazes, que não teriam começado a ler se não fossem os quadrinhos. Parabéns pelo tema.

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