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ADVENTO [Maria Rita Lemos]

Já é dezembro. De repente, a gente se dá conta de como o tempo está passando depressa! Seja como for, dezembro sempre traz aquele toque mágico, com o Natal se fazendo anunciar em todas as esquinas, nas lojas, nos olhares. Tudo nos chama à bondade, a trocar cartões desejando boa sorte, boas festas, isso tudo apesar de sabermos que os votos não valem muito além da intenção de quem os envia, do desejo de que todo mundo seja feliz e se dê bem, o que nem sempre acontece, infelizmente. Também enviamos votos pensando em ser politicamente corretos; seja como for, a vontade é grande de nos fazer presente aos ausentes, apartados que estão de nós pelo tempo ou espaço, ou ambos. Queremos dizer aos que amamos, ou aos somente conhecidos, que outro Natal está chegando e que vale a pena compartilhar esse momento outra vez.

Já podemos ver os papais noéis de sempre, nos shoppings, nas portas das lojas, na maioria das vezes cansados, suados, com suas roupas feitas para o inverno, algumas até bem surradas, mas ganhando seu valioso biquinho, complementando a aposentadoria. Acho interessante a variedade de papais noéis que são vistos, nessa época, por toda a cidade. Alguns são sorridentes, bem de acordo com seu personagem, parecem estar gostando muito de seu papel. Outros, no entanto, parecem querer apenas que o Natal chegue bem depressa, para eles tirarem aquela roupa quente e com o dinheirinho extra ainda terem tempo para ver um presente para os netos e um assado para a família almoçar no dia maior da cristandade.

Nas lojas, cheias de gente apressada e mistura de sons, felizmente parece que aposentaram aquelas harpas paraguaias; árvores enfeitadas e luzes, tudo para vender presentes para todos os bolsos, que não se pode esquecer de ninguém, mesmo que estourando o cartão de crédito... Quem há de resistir à tentação daquele celular em oferta, ou do mais moderno celular ou tablet, tentador como uma maçã proibida?

Quando a noite chega, tardia nesse horário de verão, as pessoas saem do trabalho e as ruas parecem explodir de gente carregando pacotes, dos sons das músicas, das cores e cheiros. No formigueiro humano, a cada noite mais compacto e apressado, as pessoas algumas vezes se encontram e seguem em frente, em meio a crianças cansadas, atônitas diante de tantos apelos ao consumo, de tantas possibilidades, a maioria delas impossíveis.

Como todo mundo, eu também tenho gente para presentear, cartões a mandar e receber, compras a fazer, afinal o Natal vem chegando em minha vida, como na de todo mundo. Mas o tempo vai passando, onde poderei estacionar, com esse trânsito tão maluco? Os semáforos parecem enlouquecidos, em meio à chuva fina de verão, amarelo, vermelho, verde, atravessa depressa, menina, senão o sinal abre de novo, não chora porque não adianta, aquele brinquedo é muito caro, se quiser presente escolhe um mais barato... Ah, celular? Ta pensando o que? Você é muito pequena para ganhar celular, bem que o padre falou na missa de domingo, para a gente pensar mais no Menino Jesus e menos no Papai Noel, mas como fazer isso, com a TV berrando que Natal é presente? Quando a noite já vai dando sinais de cansaço, as ruas começam a ficar desertas, e pouco a pouco as lojas vão fechando, com os trabalhadores do comércio partindo para o descanso merecido. As pombas de sempre voltam à gruta, e outro povo começa a aparecer na noite. É a vez das (dos) profissionais do sexo, dos moradores de rua, é o momento deles chegarem e ocuparem os espaços, que o Natal também deveria existir para eles...

Saudade de minha infância, quando papai nos levava à missa do galo, e só depois a gente vinha cear e abrir os pacotes. Meu pai, enquanto viveu nessa terra e em lucidez, sempre foi nosso eterno Noel. . Ele distribuía os pacotes, tudo personalizado carinhosamente, nada muito caro. O melhor é que ele anunciava cada nome, esperando abrir para ouvir as vozes de admiração... e como o admiramos, a vida toda, esse nosso inesquecível pai! Também não faltavam as preces, feitas antes da troca dos presentes, diante do presépio.

Papai fazia a oração e nós cantávamos “Noite Feliz”, rindo sem saber que um dia choraríamos de saudade, enquanto mamãe entrava na sala trazendo solenemente nas mãos o Menino Jesus, que deitava na palha até então vazia, coberta com os papeizinhos onde escrevíamos os sacrifícios feitos no período do advento.

Enfim, o Natal sempre foi, em minha infância e adolescência, um ritual mágico e renovado a cada ano com muitas luzes, cores, muita gente. Com a partida de nossos pais para o andar de cima, cada descendente passou a comemorar com suas respectivas famílias, tentando reproduzir o melhor possível os nossos Natais da infância, trazendo agora, para filhos e netos, aquele espírito de bondade e paz que marcava nossa noite de luz. Apesar da nostalgia, entretanto, a vida continua. O vento do final de noite anuncia a madrugada. Há algo de mágico no ar, algo indefinido, e que só existe nos finais de ano... . A cidade é a nossa, é a mesma, mas ao mesmo tempo é diferente, modificada pela cara e pelo jeito do Natal que vem chegando.

Comentários

Paulo Caires disse…
Muito belo o retrato do natal que você desenhou com sensibilidade. Poucos tem o dom de transportar o leitor como você Maria Rita, tão bem conseguiu fazer, sem esquecer todo o clima que envolve esta época: as pessoas, os valores e as coisas que representam o Natal. Beijos

Excelente texto! Com tanto significado do Natal e final de ano, às vezes nos perdemos na tão aclamada correria do dia-a-dia. O tempo pode estar passando rápido demais, mas nós que escolhemos que tom dar a ele, né?! http://aquioualgumlugar.com/2013/12/02/o-tempo-que-esta-mesmo-passando-rapido-demais/
silvia tibo disse…
Belíssimas palavras! Lindo presente de Natal pra todos nós, seus leitores...
Abraço.
Zoraya disse…
Que lindo, Maria Rita, fiquei muito emocioanda mesmo, obrigada por partilhar, gostei imenso!

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