segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

CALEM-ME, POR FAVOR! >> Albir José Inácio da Silva

- Sai daqui! O senhor sai daqui, agora! Tira esse homem daqui!


Foram esses gritos que nos deixaram paralisados, e levaram nosso chefe correndo à sala do diretor. O chefe voltou trazendo pelo braço um Domício em estado de choque. Ainda pudemos ver, na porta, o diretor vermelho, agitando os braços e dizendo coisas que não entendíamos – o gringo esquecia completamente a língua portuguesa quando nervoso.


Depois de água com açúcar, Domício foi melhorando numa cadeira e explicou como pôde o acontecido. O chefe complementou porque sabia dos antecedentes ao gabinete. Mais ou menos assim: por umas questões urgentes envolvendo família, cartórios e advogados, Domício precisava ir a Minas Gerais. Seria uma coisa rápida, viajaria naquela mesma noite e estaria de volta na noite seguinte. O chefe disse que não tinha poderes pra dispensá-lo, mas que ele falasse com o diretor, marcasse com a secretária, que o gringo era gente boa.


E lá foi Domício confiante e relaxado pra diretoria. A secretária o anunciou, e ele respondeu ao sorriso da autoridade com um boa tarde, emendando numa fala sem respiração. Enquanto falava o sorriso do outro se fechava, o semblante ia se avermelhando e as sobrancelhas ruivas se juntando:


- É o seguinte “Mister”, eu vim aqui dizer pro senhor que eu tenho um problema urgente pra resolver em Minas e por causa disso eu não posso vir amanhã. Se o senhor quiser pagar o dia, paga, se não quiser, não paga, que eu não vou nem ligar.


Seguiram-se os gritos que deram início a essa história.


Talvez por ser mais amigo de Domício, compreendi logo o significado de seu discurso suicida. A viagem era tão importante pra ele, envolvia tantas pessoas e dinheiro, que o salário de um dia de trabalho era irrelevante, não lhe faria falta. O que ele precisava era da dispensa, da concordância, para ficar bem com os chefes e com a empresa. Queria fazer tudo certinho, o coitado.


Levou muito tempo até que o chefe convencesse o diretor de que Domício era um bom homem, ótimo funcionário, embora pouco hábil com as palavras. Mas logrou êxito, como dizem os policiais, e o diretor voltou a sorrir, inclusive para Domício.


Numa reunião meio técnica, meio motivacional, o diretor falava da importância de se dizer a verdade, de se assumir as responsabilidades no momento mesmo em que as coisas acontecem porque mais cedo ou mais tarde os fatos se revelam. Quando menos se espera, as nuvens se desfazem e trombamos com a realidade. E para provar que falava muito bom português e conhecia as coisas do Brasil, o ianque citou uma notícia do dia anterior em que o jornal revelava a convicção de que Juscelino foi assassinado. “A morte aconteceu em mil novecentos e setenta e seis, há quase quarenta anos”, repetia, corado e espumante, “nada fica encoberto para sempre”.


- E digo mais: qualquer dia saberemos quem foi o assassino do ex-presidente. Portanto, repito, vamos assumir a responsabilidade por nossos atos. É melhor que ser descoberto depois como covarde.


Para encerrar, o diretor pergunta se alguém gostaria de dizer alguma coisa. Domício levanta-se, brandindo a cédula de identidade, olha para o diretor e para os colegas.


- Pois não, Sr. Domício, pode falar.


- Eu só queria dizer que em mil novecentos e setenta e seis eu nem era nascido.


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Um comentário:

Zoraya disse...

Pobre chefe... meu lado sádico riu demais com a história