segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

OS AMORES DA PREPOSIÇÃO >> Albir José Inácio da Silva

Quem vê assim tranquilamente fundidos os “as”, não imagina quanta polêmica essa união já provocou. A preposição sofreu humilhações e vitupérios quando se apaixonou pelo artigo.

O preconceito dizia que era inaceitável esse tipo de relação entre palavras do mesmo gênero. De nada adiantaram os argumentos de que “a” era comum de dois gêneros, assim como Itamar ou Alcione.

O preconceito é cego. Já não viam com bons olhos a fusão entre classes diferentes, mas isso - mesmo sexo - era abominação. Aceitavam que a preposição encontrasse outros termos, mas fundir-se não.

Determinada, a preposição “a” não abriu mão do artigo de mesmo nome e, contra todas as dificuldades, vencendo, inclusive, a timidez do artigo, que não resistiu aos seus encantos, fundiu-se com o amado. Contaram com a conivência de alguém muito sério, e por isso respeitado, o acento grave, que legitimou o “ crasamento”, para desespero dos moralistas.

Resolvida essa questão burocrática, gostaríamos de terminar dizendo que foram felizes para sempre, o que não deixa de ser verdade, mas não de forma tão simples.

Quando tudo parecia apaziguado, a insaciável preposição - desavergonhada, diriam as más e quiçá invejosas línguas - aprontou mais uma, um verdadeiro atentado.

Três pronomes demonstrativos que ela sempre encontrava pelo texto chamaram a atenção da moça: aquele, aquilo e aquela. Além de belíssimos, a inicial “a” dos trigêmeos sugeria-lhe novas e emocionantes fusões.

E confusões. Claro que os guardiães da libido alheia não podiam se conformar. Engoliram o artigo ‘A’, mesmo desconfiados de homoafetividade. Mas poligamia era demais.

A preposição argumentou razões de estética e o desconforto em se dizer, por exemplo, “ele se referiu a aquilo”. Defendeu com unhas e dentes seu novo amor, ou melhor, amores.

Acontece com bigamia e poligamia um fato social muito interessante. Todos se sentem no dever de condenar alto e bom som, em conversas, discursos e leis, o caráter deletério desse comportamento. Mas na surdina, por trás das portas, a meia-boca, sem cartórios e sem proclamas, essa variedade amorosa é até bem tolerada. Diria até bem frequentada.

Ofensas foram atiradas contra a messalina, indignações proclamadas, mas, aos poucos, reconheceu-se, aqui e ali, a irreversibilidade do fenômeno. Mesmo sob protestos, e por influência da fala, que acabava fundindo as palavras, a crase virou regra, que a lei tornou obrigatória.

E todo mundo já sabe e usa corretamente a crase de preposição mais artigo “a” e preposição com pronome demonstrativo, e seus plurais. Ou quase todo mundo. Alguns ainda têm dificuldades.

Não se desesperem, mas fiquem atentos porque, como diz Ferreira Gular, a crase não foi feita para humilhar ninguém.

Talvez escandalizar.


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2 comentários:

Zoraya disse...

Inspiradíssimo, hein Albir?

André Luiz Ferrer Domenciano disse...

Parabéns pelo texto Albir.