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Mostrando postagens de Janeiro, 2009

“whitman=pessoa+beckett” >> Leo Marona

Quero dizer e repetir e repetir e dizer mais uma vez. Que importam as convenções do tempo, a boca funda da esperança tardia? Quero partir os ossos antes que seja tarde, resgatar o brilho no fundo do que um dia se fez criança e hoje não lembra e se vira do avesso e morre, sente a pele descolar, os olhos repuxados pela goela do absurdo. Mas sinto qualquer coisa por dentro envergonhada do estertor, a caixa que pensa se compele, então uma sensação de algo súbito subindo pela garganta e que não pode sair porque são milênios de mentiras e precisamos das letras. Mas quero dizer e dizer e repetir. Repetir que não quero ter que dizer coisa nenhuma e repito. É necessário mais que uma forma, mais que um conteúdo, benzina, um precipício, é necessário acima de tudo o ímpeto desesperado de repetir e dizer mais uma vez e dizer de novo e mais alto, não gritar, lançar os olhos para fora das órbitas, espremer o mundo sobre a retina, repetir a tauromaquia da visão turva em vermelho, com o espeto no dors…

NÃO, BRIGADA >> Ana Coutinho

Meu marido diz que tenho os olhos maior do que a boca. Discordo solenemente, mas sou abrigada a admitir que tenho alguma dificuldade em dizer uma frase corriqueira, tola, dita por todos ao menos uma vez na vida: “Não, brigada”. Deve ser algum bloqueio, algum trauma de infância, algum carma a ser enfrentado. Chego a invejar aqueles que conseguem, diante de uma bandeja de brigadeiros, dizer, sem nenhum esforço aparente: “Não, brigada”.

Dizem assim, “brigada”, sem o “o”, porque faz parte do seu dia-a-dia negar algo que não lhes interessa. A mim, não.

Sou incapaz de dizer "não, brigada" para um pedaço de frango do prato alheio, para um gole de coca do colega, para um quadradinho do chocolate do outro. Também tenho dificuldade em negar experimentar uma blusinha básica, uma sapatilha nova, ou uma voltinha pra tomar um café. Se me perguntam, talvez por educação, “Ana, vou tomar uma café, quer?”, eu levanto e vou. Não tomo café, mas vou – e, às vezes, chego a depositar o café no copin…

SENTINELA >> Carla Dias >>

Que o mundo me confunde quando cenário das investidas de desnaturadas pessoas e seus sentimentos amontoadinhos, amontoadinhos... Em corações socorridos pelas desilusões e visões distorcidas. E sei que, do lado de lá ou acerca de alguma curva por aí, alguém pensa a mesmíssima coisa e eu estou incluída nessa leva de pessoas. É como olhar/ser o verso ao avesso ou o revés do contrário, mas chegar ao mesmo lugar, enquanto lá já estava, e chegar sem memória e repetir o erro, mas sabe lá se é erro ou acerto; partir sem se despedir do feito.

E veja que também ando sem saber dizer o que deve ser dito; cabisbaixa, sem saber sentir o que deve ser sentido; com vontade visceral de colo, cafuné, proteção, e de gritar borboletas para que elas voem pra bem longe carregando esse grito - que é pedido de encantamento. Desejo lânguido de esse grito se enroscar nos cabelos de quem outro seja lá. Provocar gargalhadas miúdas no som, como se estivessem escondidas da tristeza.

Houvesse manual para desenfiar o p…

QUEM TIVER OLHOS... >> Eduardo Loureiro Jr.

Ah, esse nosso olho que vê o mundo mas não vê a si mesmo. E que ainda pensa que se vê quando se olha no espelho.

"O essencial é invisível aos olhos", escreveu certa vez o Exupéry. Por vezes, fechamos os olhos e enxergamos tudo. O ser é visível ao olhar. Mas o ser não se resume ao corpo, tampouco o olhar aos olhos.

Somos capazes de ver, ao vivo, o que acontece nos lugares mais distantes do mundo. Basta sentar em frente a uma televisão. Mas estamos desprovidos de aparelhos para o caso de querermos ver, também ao vivo, o que acontece no lugar mais íntimo do mundo: nosso próprio ser.

Uma amiga escritora falou que não sabia que profissão atribuir à personagem principal do novo livro que estava escrevendo. Eu brinquei com ela:
— Qual a idade da personagem?
— Cinquenta e poucos anos.
— Com essa idade, acho que ela já é capaz de dizer pra você qual é a profissão dela, caso você pergunte.

O ser que sou possivelmente responderia a perguntas também, mas o ser que penso parece não estar muito …

A NADADORA UCRANIANA E AS ESCOLHAS DE NOSSOS FILHOS [Maria Rita Lemos]

A briga ocorrida entre Mikhail Zubkova e sua filha Kateryne, 18 anos, ocorrida há alguns anos no Campeonato Mundial de Natação de Melbourne, na Austrália, acabou em pancadaria e foi globalizada para todo o mundo, via net.

Qualquer pessoa pode ver a surra do pai e técnico na filha, inclusive em vídeos, cabendo todos os tipos de comentários. O xis do problema é que Kateryne, campeã na modalidade costas, já havia ganho várias medalhas em outras competições, mas não foi muito feliz nessa prova de Melbourne, e por isso a jovem ucraniana foi espancada por seu pai, Mikhail, que não se conformou com o desempenho da filha.

Um dos comentários feitos dizia respeito ao fato de que Kateryne revelou que nunca quis ser nadadora, só se conformando aos árduos treinamentos com o próprio pai para agradá-lo. Lembrei-me disso quando estava, nesse fim de festa de ano-novo, conversando com minha neta Paloma (16). No meio de outro assunto, ela me disse que estava em dúvida sobre terminar o curso de técnica em …

É mesmo algo muito raro >> Leonardo Marona

Eu queria ao menos por uma vez ser coerente. Dizer sem pecado as belezas do mundo. Queria ver as cores cada uma no seu lugar. E que o sangue não me assustasse tanto. Queria sentir prazer em acordar dormir acordar levantar deitar segurar a ampulheta virada para baixo. Eu queria que o sol me dissesse qualquer coisa de “continuemos então de mãos dadas”. Que a poesia recolhesse meus órgãos para um local seguro, longe do monstro sem forma que me apedreja. Ah, como eu gostaria, por um dia, uma hora, tratar os seres humanos como iguais e amar a mim mesmo tanto que seria possível gostar de um igual a mim. Mas o mundo exige certa dose de brutalidade. É algo estritamente necessário para a separação dos grãos. Com um metro e setenta de altura, segundo o laudo militar, minhas chances são tão ínfimas quanto as de Napoleão. Mas só de ver e sorrir por simplesmente estar vendo, apenas reagir às manifestações da terra como se tudo fosse importante e estivesse no seu devido lugar, “ver por outro prisma…

A MANADA >> Ana Coutinho

Mulheres são os bichos mais coletivos que existem. Muito mais do que uma manada de búfalos ou do que uma passeata de pingüins, mulheres são ótimas em bandos e nunca consigo entender os que dizem o contrário.

Pensei nisso recentemente, quando eu e uma amiga resolvemos aproveitar uma liquidação. Ouvimos dizer de um bazar, a loja que amamos estava fazendo um megabazar, num megagalpão com tudo por – no máximo – 90 reais. Não precisamos perguntar se uma queria ir, não precisamos falar sobre horários ou logística, e não houve sequer um “se”. Assim que ouvimos a notícia, não precisávamos nos olhar para saber o que fazer. Eu peguei o guia no porta-luvas e comecei a procurar a rua. O lugar era longe e demoramos a chegar. Mas isso não era nada perto do que viria a seguir. Assim que nos aproximamos, percebemos uma fila de mulheres que se amontoavam em linha reta, recostadas em um muro, em pé, na calçada. Só poderia ser ali, claro. Estacionamos, entramos na fila e lá ficamos por um longo tempo. As…

FAZENDO MEU FILME >> Carla Dias >>

Ano passado, assim que a companheira de Crônica do Dia, Paula Pimenta, anunciou o lançamento do seu livro, o “Fazendo Meu Filme”, me bateu de pronto a vontade de lê-lo. Depois de alguns dias, fiz a compra num site e o recebi na mesma semana.

Atrapalhada do jeito que sou, somando a criação de sei-lá-quantos projetos para aproveitar possibilidades, o meu trabalho aqui no IBVF e a correria que o final de ano promove, acabei deixando que essa vontade se atrapalhasse toda nos meus afazeres diários, e a leitura ficou pra mais adiante.

Mais adiante chegou junto com minhas férias e jurei que delas a leitura não passaria. Sendo assim, equipei-me com aquele cafezinho fresco que muito me apetece e fui cuidar de ler o livro.

Eu li, aqui mesmo, a crônica “A História Do Meu Livro”, da própria Paula, falando sobre como nasceu o “Fazendo Meu Filme”. O processo de criação de uma obra é sempre do meu interesse e, quando se trata da literatura, me causa curiosidade saber sobre a relação que o escritor mant…

SINAIS >> Eduardo Loureiro Jr.

Veja você que coisa mais estranha...

Primeiro foi uma mensagem no celular. Uma mensagem antiga que reli ao apagar uma mensagem nova. Eu guardo algumas mensagens antigas de celular porque aprendi a namorar com bilhetinhos — numa época em que não havia celular. Minha primeira namorada pra valer sempre me escrevia bilhetinhos de amor, e eu também passei a escrever bilhetes de amor, e depois poemas, para ela. Essa minha namorada me deu certa vez um marcador de livros — talvez venha daí meu gosto por marcadores de livros — que ela mesmo fez com um pedaço de cartolina amarela. O marcador, retangular, tinha as bordas aredondadas, suaves ao toque, e um laço de fita rosa, preso em um orifício feito com aquelas maquininhas de perfurar papel. E, como se não bastasse tanta delicadeza, minha namorada ainda escreveu, com sua letra também arrendondada, um trecho de um poema daquele que se tornaria meu poeta preferido — Fernando Pessoa — sob heterônimo de Ricardo Reis:

Colhamos flores.
Molhemos leves
A…

PELA CASA, PELA MEMÓRIA [Ana M. M. González]

Ele entrava pelos cantos todos e hoje viaja pelos túneis de minha memória. Era um cheiro, um aroma forte e bom. Quente. Saía dos muitos pães doces que se inventavam todos os finais de ano. Para mim, ele começava antes, quando minha avó se punha a amassar a farinha com a receita tradicional da família. Eu já adivinhava que ele estaria a dançar junto com a música e todo o movimento que se daria pela casa. Era um cenário completo, com sonoplastia e personagens. Castanholas e solados de vozes nas canções típicas e populares, selecionadas pela tia de cabelos alourados. Os elementos dessa narrativa não precisavam mudar.

Depois dessa faina de organizar as mesas e amassar os ingredientes, os pães iam para o forno. Alguns para o forno da cozinha. A maioria para a padaria do bairro, cujo dono emprestava grandes assadeiras, onde eram arrumados os pães por assar. Quantas? Não sei, não saberia dizer, porque meus olhos de criança se distraíam em meio à multiplicação dos pães, enfileirados pouco a po…

OUTRAS BIOGRAFIAS >> Leonardo Marona

“walt whitman”

permita-nos mergulhar de cabeça
na fonte e nos arbustos densos
de uma nova delicadeza revoltada
– nós também precisamos passar.

fomos por muito tempo presas
assustadas, engolindo os erros
acumulados pela fé decapitada.
e por muito tempo ficamos fora
dessa tal “Grande Equalização”.

por favor, deixe-nos passar agora.
falo por nós e não só por mim,
pois, como eu, são, foram muitos.

não nos deixe, delicadeza, voltar
à casa, infestados e desprovidos
desse líquido seminal que, cegos,
chamamos de amor entre os seres.

você, velho libidinoso, que vê
bondade em tudo – mas a visão
será somente do poeta – você
nos abriu os corpos paralisados
diante de um precipício lento.

nós somos os das entranhas malogradas,
aglomerados em redomas achatados por
grandes perdas – enormes corporações.

muitos falaram, inclusive você, por nós,
não duvidamos de suas boas intenções.
mas nunca um de nós falou por nós e já
não podemos mais esperar, abre já a porta
portanto sem demorar mais e nos arranque
de todo esse equivocado, antig…

O BOLO >> Ana Coutinho

Ela era uma tia-avó de quem eu gostava muito. Era uma velhinha e eu, uma criança. Lembro-me dessa senhora, sempre magrinha, sempre com vestidos de flores miúdas, sempre com as costas um pouco curvadas. Para mim, ela tinha nascido daquele jeito. Nunca tinha sido criança, nunca tinha sido jovem, nunca, nunquinha tinha tido 13 anos como eu. Até os velhos a chamavam de tia. Ela era a Tia Biela e, se todos a chamavam assim, decerto esse era o seu nome completo.

Tia Biela era sozinha. O marido morreu muito jovem e o único filho também, pouco tempo depois. Eu mesma duvidava que essas pessoas tivessem existido. Via os álbuns cinzas, tão desbotados. Sempre uma foto dela com as irmãs em uma cachoeira. Dizia que aquela foto era da juventude dela. Mas, com aquele desbotamento todo, eu ficava intrigada que, na foto, ela estivesse igual a hoje, ao vivo, ali na minha frente. Mais uma confirmação: Tia Biela nascera assim...

E as nossas visitas semanais a ela tornaram-se tão habituais que eu nem questio…

JORNADA DA ALMA >> Carla Dias >>

me percorro em vielas
as setas me apertam
eu sou o parafuso solto do presente
Zeh Gustavo


Há dias em que não consigo evitar e, como se levitasse, deixasse a roupa-carne no armário, sobrevoasse reticências, dou de tentar descobrir o que as omissões trazem sob suas asas.

Freqüentemente, nada descubro. Nada sobre aquele tudo que, a princípio, incitou minha curiosidade. Mas durante o caminho sempre tropeço, tombo, caio. A cara no chão nos ensina tanto, principalmente a beleza que há em elevar o olhar.

Elevo o olhar...

Sobre minha cabeça, pairam bênçãos da infância, de quando ainda beijava as mãos das minhas avós, tias e de minha mãe. “A benção”... “Deus te abençoe”. Deus me abençoava, diariamente, através das vozes daquelas mulheres, num cântico que me abraçava a alma. Dava gosto ter nascido mulher, pensar que, adiante do tempo, também eu teceria cânticos e vestiria de desejos de boa sorte o dia das minhas meninas.

Adotei palavras e as tomei por cria.

Deus as abençoe.

Levanto-me sacudindo a poeira …

AQUELE QUE FAZ ANJO VOAR
>> Eduardo Loureiro Jr.

Eu gosto de pensar que se não tivesse trocado o curso de Engenharia Elétrica pelo de História, há 20 anos, eu não teria conhecido Fabiano e Manu, nós não teríamos formado Os internos do pátiO, o patio.com.br não teria sido criado, o Crônica do Dia não existiria e eu não estaria aqui escrevendo para vocês — o que seria uma pena.

É bom olhar para trás e perceber que tomamos a decisão correta. Embora isso nos deixe um pouco desconfiados em relação às decisões erradas: não teremos uma nova chance?

Sim, parece haver outras chances. E a prova é que Fábio, que é da minha idade, e que formou-se em Engenharia Elétrica, tornou-se um interno do pátio, trazido por seu irmão Roberto, o menino da psicologia que fisgamos enquanto tentávamos pescar as meninas da Psicologia. Se eu tivesse feito Engenharia, haveria a esperança de eu ter chegado ao pátio pelas mãos dele.

Eu poderia ter conhecido Fábio nos corredores da Engenharia, mas o conheci, alguns anos depois, no bosque da Pedagogia, onde, uma vez por…

TEMPO DE INCERTEZAS [Sandra Paes]

O sono já não me alimenta. O dia tampouco. Para sair ao sol há que cuidar-se um pouco mais - ficam aquelas mensagens subliminares sobre aquecimento global e o perigo que o sol se tornou. Passear livremente já não mais. A indústria do medo plantou o chip da contração em meu livre caminhar. Um olhar dividido entre a paisagem e o transeunte que se aproxima, não relaxa, dispara mais adrenalina anunciando o medo do assalto. Não é preciso haver o assalto, o medo dele já detona no sistema neurológico todos os condicionamentos um dia anunciados por Pavlov.

Ter passeado pelo Japonese Garden, no sábado, me revelou, pela paz ali revivenciada, que perdemos o pé na caminhada frugal do dia-a-dia. Voltar de jardins datados de séculos atrás mostrou que, mesmo como um espaço de mostra em forma de museu - lugar onde se conserva a memória de algo que já foi - essa “loucura” dos tempos atuais não me apraz.

E me pergunto: - “E isso é viver?”

Que corredor de Gaza imitamos todos os dias nas calçadas das praias…

ALIEN >> Leonardo Marona

Se não podemos abraçar, não há por que discutir, não há por que guerrilhar, enfim, não há por quê. Enquanto houver um motivo, um que seja, como cor rompendo o asfalto quente, enquanto houver um motivo que seja para ser, haverá guerra, haverá discussão e mortes e alojamentos fantasmas. Em compensação, se não houvesse mais como ser, em nenhuma hipótese ou partícula, seria o fim de toda guerra, de toda hipótese deliberadamente criminosa, de tudo aquilo que suga permanentemente e não devolve nada. Sem abraço, enfim, sem que as pessoas consigam de alguma forma atingir a imprescindível pieguice de dar as mãos, não haverá mais aquilo que faz o mundo ser, não haverá mais o motivo real pela disputa, não haverá mais a discórdia, porque estaremos longe e longe estaremos calmos, tão calmos como no fundo do mar. Os homens ainda guerrilham porque sabem que ainda é possível abraçar. A visão do abraço é a visão do equilíbrio. Como homens são pêndulos, o equilíbrio é sempre algo furtivo, que causa noj…

SAI DA FRENTE QUE ATRÁS VEM GENTE >> Ana Coutinho >>

Eu estava fazendo compras de Natal quando percebi. Enquanto a vendedora ia me trazendo os modelos de biquínis, senti uma estranheza nela, mas não sabia ainda o que era. A menina tinha uma pele muito lisa, grandes olhos azuis e algumas sardas na bochecha bronzeada. A voz dela era muito particular, uma voz fina, bastante infantilizada e foi aí que dei conta: eu estava diante de uma criança. Tomei um susto inicialmente, mas disfarcei. Não era à toa que ela me trazia os modelos maiores, com as laterais mais larguinhas e comportadas, claro, eu era uma velha, seria uma ousadia pedir um biquíni de lacinho, nem sei por que não pedi um maiô preto de uma vez por todas. Resolvi experimentar as peças e entrei no provador, me refazendo discretamente do choque. Quantos anos aquela menina tinha? 18? 19? Meu Deus, são adultos esses que recém-nasceram pouco antes do novo milênio que acabou de começar? Lembrei-me, na hora, de uma brincadeira da minha infância – do século passado – em que as crianças qu…

A CAIXINHA DE LÁPIS DE COR >> Carla Dias >>

Terei de lidar com cores, ainda hoje. Na verdade, elas andam sondando a minha vida há algum tempo. É pedido de mãe, tias, amigas para que eu aposente o preto e faça colorir meu vestuário, e se puder, o incremente com estampas alegrinhas.

Certo dia, o pedreiro que cuidada da obra do imóvel onde trabalho pediu licença para me fazer uma pergunta pessoal. Eu dei de ombros, afinal, quão pessoal poderia ser uma pergunta de alguém tão distante da minha realidade? E então, ele me perguntou “você está sempre de luto?”

Verdade... Eu já o conhecia de outras obras, de outros trabalhos. Em fato, agora, acho até que menosprezei a capacidade de ele já ter reparado em mim com aquele estranhamento à monotonia do outro, que sempre se repete. E apesar das gargalhadas que dividimos, da minha eterna defesa “eu AMO usar preto... é gosto, não luto”, ficou uma outra pergunta no ar:

O que tenho de enterrar de vez pra seguir adiante?

Também já me perguntei se me acham infeliz por me faltar estampas. Mas ando-as ac…

SÍNDROME DO BOM MENINO
>> É do ar do pátio interno

Uma amiga disse que eu tivesse juízo no sábado à noite.

Bom, é sábado à noite, eu já falei com a família ao telefone e assisti a um filme da década de 40, coisas que julgo relativamente ajuizadas. Neste momento, escrevo; antecipando o texto que só deveria escrever no domingo pela manhã. E eu realmente espero que, neste ajuizado sábado à noite, pelo menos esta crônica não tenha juízo nenhum. Porque ter juízo às vezes cansa. E hoje eu estou cansado.

Eu não lembro o que me aconteceu quando eu tinha 7 ou 8 anos, mas deve ter sido algo grande, amedrontador. Porque até essa idade eu era uma criança decididamente sem juízo, que tinha em seu respeitável histórico a deserção da escola — ainda no maternal —, a habilidade de pular para cima dos pára-choques (dane-se o novo acordo ortográfico!) dos carros em movimento e — pasmem! — o hábito de desejar sinceramente a morte de alguém que me contrariasse. Permitam-me — aliás permitam-me coisa nenhuma, fica bem melhor em inglês e eu não preciso pedir …

A PREPARAÇÃO >> Leonardo Marona

Apenas vinhos baratos, por uma ressaca fraterna. Muito deve estar relacionado à forma com que um se acomoda de frente para a fera sedenta. Sim, é fundamental ajustar o espírito para receber a luz forte. Abrir as janelas, ouvir o som de lá fora, tentar capturar as nuances que se acumulam e se atropelam. Dar uma ou duas voltas pelo ambiente, tocar objetos de vidro e de metal, sentir o frio se comportar diante da pele ainda confusa, administrar a ansiedade em desenvolver pirâmides.

Que se pode fazer senão preparar o corpo, não sentar agora, tomar um copo de seja o que for, entrar em conexão com o movimento torrencial, alimentar com qualquer substância levemente venenosa o corpo, adaptá-lo ao leve, muito leve cinismo criador?

Recuar tantas vezes quantas necessárias também pode engrandecer a sujeição às idéias ainda soltas num pequeno espaço sem luz, mas cheio de calor. As janelas ainda abertas. Um calor insuportável e as plantas paradas. O som dos carros que passam pela avenida comporta uma…