domingo, 11 de janeiro de 2009

AQUELE QUE FAZ ANJO VOAR
>> Eduardo Loureiro Jr.


Eu gosto de pensar que se não tivesse trocado o curso de Engenharia Elétrica pelo de História, há 20 anos, eu não teria conhecido Fabiano e Manu, nós não teríamos formado Os internos do pátiO, o patio.com.br não teria sido criado, o Crônica do Dia não existiria e eu não estaria aqui escrevendo para vocês — o que seria uma pena.

É bom olhar para trás e perceber que tomamos a decisão correta. Embora isso nos deixe um pouco desconfiados em relação às decisões erradas: não teremos uma nova chance?

Sim, parece haver outras chances. E a prova é que Fábio, que é da minha idade, e que formou-se em Engenharia Elétrica, tornou-se um interno do pátio, trazido por seu irmão Roberto, o menino da psicologia que fisgamos enquanto tentávamos pescar as meninas da Psicologia. Se eu tivesse feito Engenharia, haveria a esperança de eu ter chegado ao pátio pelas mãos dele.

Eu poderia ter conhecido Fábio nos corredores da Engenharia, mas o conheci, alguns anos depois, no bosque da Pedagogia, onde, uma vez por semana, os internos se reuniam para ler poemas próprios e alheios à luz de uma lanterna. Fábio não me chamou a atenção naquela primeira noite. Ele é uma daquelas pessoas pelas quais levei anos para me apaixonar.

Fabiano reconheceu Fábio primeiro. Fez para o tímido baixista um poema vestido de canção:

Fábio toca baixo.
Fábio toca muito baixo.
Como quisesse fazer criança dormir.
Como quisesse fazer anjo voar.

Enquanto fazíamos canções, Fábio fazia linhas melódicas complementares no baixo ou no violão. As notas que Fábio arranjava para as nossas músicas eram meninas da Psicologia — lindas, lindas, lindas — que se rendiam surpreendentemente aos nossos poemas de queixo caído.

Mas Fábio sempre teve essa mania besta de ser um engenheiro dos mais trabalhadores. Quando traço meus planos do que vou fazer quando ganhar na mega-sena acumulada, sempre incluo um diálogo imaginário que é mais ou menos assim:

— Fábio, quanto você ganha por ano?
— $$$$,$$.
— Pois eu lhe pago cinco vezes isso para você passar pelo menos os próximos cinco anos dedicando-se exclusivamente à música.

(Vocês não conhecem o Fábio, então, para terem uma idéia, pensem que é o mesmo diálogo que eu teria com a Carla Dias — aqui do Crônica do Dia —, trocando apenas a música pela literatura.)

O sempre pontual e metódico Fábio, cheio de cuidados e flanelas com seus instrumentos musicais, revela sua genialidade nos improvisos. Fábio toca lindamente quando escuta uma música pela primeira vez. Não sei como ele consegue isso. É um milagre, um milagre que se repete sempre. Não acreditam? Escutem isso:


Sempre que venho a Fortaleza — estou aqui agora —, reúno os internos para um "pátio", o nome que damos aos nossos encontros, que não mais acontecem no pátio da universidade, mas na casa da Luiza, da Nininha ou do próprio Fábio. Luiza, nossa ex-professora, eterna mestra e amada amiga, de vez em quando reclama que a gente só fica tocando e não conversa. E minha desculpa é um verso de Manu, feito para a própria Luiza: "O nosso amor, Luiza, tem que ser vivido de forma musical". Se eu não precisasse de desculpas, diria apenas: "Eu quero ouvir os sons que o Fábio faz o máximo de tempo que eu puder."

Fábio finge que toca seu violão quando, na verdade, está tocando é as cordas de meu coração. E é um toque tão terno, e ao mesmo tempo tão firme, que eu de vez em quando me desconcentro e esqueço a letra e os acordes de minhas próprias composições. Feito nessa canção:


Hoje é aniversário do Fábio. Às 16h, os internos estarão em sua casa, onde ele nos receberá ao lado de sua esposa Jariza e de sua filha Clarice. Nós faremos um pátio de muita música — tudo bem, um tanto também de conversa — e viveremos nosso amor por algumas horas. Meu gravadorzinho estará registrando tudo e, por trás da voz de Clarice, brincando animada no meio da sala, um dia, no futuro, vocês poderão ouvir o som que faz o nosso interno coração quando ele sai pelo pátio da nossa boca.





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10 comentários:

Felipe disse...

Não conheço Fábio, mas dê a ele um abraço e meus parabéns. Não só pelo aniversário... o cara toca demais mesmo! Escutei a música umas três vezes seguidas. :)

Marisa Nascimento disse...

Ai, Eduardo! Hoje o que li aqui foi o texto de um talento falando sobre outro. Às vezes me sinto uma intrusa fazendo comentários tão simplistas diante de algo tão grandioso...

Tia Monca disse...

O aniversário é do Fabio e nós é que ganhamos o presente de ouví-los :)
Parabéns Fábio! Tudo de melhor para você e todos que você ama!
Tia Monca

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Felipe, Marisa e Tia Monca, espero que o Fábio venha aqui ler os parabéns de vocês. :) Acrescentei ao final da crônica uma canção do próprio Fábio sobre o pátio, que ele tocou e cantou ontem.

cArLa disse...

Lindas: música e crônica. Faça-me um favor e ganhe logo na megasena, tá?

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Tá certo, cArLa, farei a minha parte. :) Embora já tenha ganho várias mega-senas na minha vida, como as que estão descritas nas Casas de 2008. ;)

ana disse...

E no encontro do pátio, nunca tentaram um bolão pra mega-sena?
Tem muito talento aí, pra ser investido...
bjs

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Ah, Ana, nos encontros do pátio só se pensa em música e poesia, nunca em loterias. :)

Anônimo disse...

Tudo q vc escreve eu gosto Edo. Sou até suspeita para fazer comentários. Bjos Dil

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Grato, Dil! Bom tê-la de volta por aqui. :)