sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

ALIEN >> Leonardo Marona

Se não podemos abraçar, não há por que discutir, não há por que guerrilhar, enfim, não há por quê. Enquanto houver um motivo, um que seja, como cor rompendo o asfalto quente, enquanto houver um motivo que seja para ser, haverá guerra, haverá discussão e mortes e alojamentos fantasmas. Em compensação, se não houvesse mais como ser, em nenhuma hipótese ou partícula, seria o fim de toda guerra, de toda hipótese deliberadamente criminosa, de tudo aquilo que suga permanentemente e não devolve nada. Sem abraço, enfim, sem que as pessoas consigam de alguma forma atingir a imprescindível pieguice de dar as mãos, não haverá mais aquilo que faz o mundo ser, não haverá mais o motivo real pela disputa, não haverá mais a discórdia, porque estaremos longe e longe estaremos calmos, tão calmos como no fundo do mar. Os homens ainda guerrilham porque sabem que ainda é possível abraçar. A visão do abraço é a visão do equilíbrio. Como homens são pêndulos, o equilíbrio é sempre algo furtivo, que causa nojo. Sentimos nojo. Sentimos nojo, ponto. Afirmando isso podemos saber que a bondade poderia ser uma perfeita análoga ao equilíbrio. O equilíbrio, como todos sabemos, causa nojo. O que restaria então à bondade? Mas temos o cérebro, esse ilustre vilão desconhecido. Nosso algoz não é capaz de nos deixar ser os animais ainda semi-selvagens que viemos para ser. Então nos induz a tornar de novo ao equilíbrio ensaboado. Passamos horas dos nossos dias vendendo equilíbrio, mostrando aos outros na rua “olha só, estou bem equilibrado agora, veja que beleza, que maravilha de harmonização”. Mas a noite é a falta de luz e onde há falta não há equilíbrio. Talvez por isso os mísseis fossem lançados sempre à noite. Talvez por isso as pernas só fossem amputadas pela manhã. E de repente não conseguimos mais nos conter, estamos a caminho de casa mas nada parece muito cômodo, nada parece se aproximar de algo familiar. Mesmo aqueles a quem acenamos, mandamos beijos do outro lado da rua. Seres estranhos, todos. Bom mesmo teria sido aceitar o mais difícil: ser deixado no meio da rua sem dinheiro, ir andando a pé, gastar as solas em causa própria. Mas ficas. Persistes no equívoco e orgulhas-te. Essa frase ficou realmente terrível! Olho para mim mesmo e não tenho a menor idéia. Impossível adivinhar o que há por trás da pele. Isso começou como discussão tácita e já periga desandar. Sinto que estou copiando clamorosamente o estilo de Graciliano Ramos. Por que tanta secura, meu deus? Dizem que abraçamos por causa de deus. Dizem também que matamos por causa dele. Eu vejo de outra forma. Deus é uma ferramenta, uma palavra em alto-relevo que se pode quase pegar. Mas não passa disso. Deus é uma semi-ocultação de uma solicitação tendenciosa. Queremos ser salvos, mas não todos, não sempre. Afinal, o que acontece depois da salvação? Permanece a antiga dúvida. Olho pela janela e vejo que, depois de muito tempo, faz sol, os carros voltaram a passar embriagados de raiva, o diálogo entre as buzinas muito mais real que o diálogo entre os humanos, e me sinto aterrorizado. Não vivi ainda quase nada: algumas mortes mal recebidas e alguma vida que transborda sobre o fogo único. Mesmo assim sinto medo como se conhecesse o mundo. Quem conhece o mundo sabe que há sempre pouca chance. Eu não conheço e sinto como se soubesse. Tenho pouca chance e não sou mais tão novo para dizer que isso não me apavora. O sol brilha forte como um velho sem compaixão. Se soubesse alguma coisa poderia dizer “veja bem, isso aqui e mais isso aqui, eu poderia dizer que sei razoavelmente bem”, então ao menos não estaria tão deslocado, estaria inserido, automatizado, poderia assim perfeitamente atingir a reflexão positiva e “apenas viver”. Mas saber alguma coisa leva a uma sentença mais lenta ou mais rápida, mas não menos destrutiva. Gostaria de falar mal de muitas pessoas. Descontar tudo em cima delas. Mas de que serviria descontar em quem sabe tanto quanto eu? Disfarçamos bem. Damos a mão às senhoras cegas, tomamos café com o dedo mínimo voltado para cima, esperamos diariamente pelo milagre, nossa fatia de misticismo chulo. Podemos decorar tabelas ou mesmo desempenhar a criatividade repentina. Além do mais existem os gramados, as montanhas e os antidepressivos. Em suma, está tudo à mão. O problema é, como dizia o filósofo que morreu na curva, que tudo está à mão, mas nada pode ser explicado. E acontece que somos feitos de uma natureza que, expandida, tende normalmente às questões do saber. E como isso é uma ladainha demorada preferimos encher os bares, enriquecer obesas famílias portuguesas e repressoras, lotar os estádios dos aplausos enlouquecidos, comprar armamentos e subir fronteiras imaginárias. E quando nos damos conta somos o poder que se torna retorno à infância não aproveitada. E estamos mais uma vez explodindo postos de gasolina, pulando de penhascos, assassinando indiscriminadamente formigas como se fossem leões africanos, ou mesmo os filhos desnutridos de uma tribo violada. Falar em guerra? Como é interessante participar desse teatro, onde todos se olham e se acusam e esquecem tudo pelo que o ser humano já passou para chegar até aqui, que é lugar algum, que é lugar onde não sabemos por que exatamente continuar, mas um zunido dentro da nossa cabeça nos diz que é preciso persistir, que um dia a sorte virá, que a justiça virá, que não haverá mais separação entre riqueza e pobreza, seremos um embrulho para presente dos infernos, e não mais precisaremos temer o fim do mundo, ele estará aconchegado como um feto nas nossas barrigas.


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2 comentários:

Marisa Nascimento disse...

Léo, adorei isso: "Mas saber alguma coisa leva a uma sentença mais lenta ou mais rápida, mas não menos destrutiva." Mais uma vez você coloca a realidade dolorosa, sem véus, porém, de uma forma fascinante ao leitor.

Anônimo disse...

Muito bom o texto, cru. Parabéns