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TEMPO DE INCERTEZAS [Sandra Paes]

O sono já não me alimenta. O dia tampouco. Para sair ao sol há que cuidar-se um pouco mais - ficam aquelas mensagens subliminares sobre aquecimento global e o perigo que o sol se tornou.

Passear livremente já não mais. A indústria do medo plantou o chip da contração em meu livre caminhar. Um olhar dividido entre a paisagem e o transeunte que se aproxima, não relaxa, dispara mais adrenalina anunciando o medo do assalto. Não é preciso haver o assalto, o medo dele já detona no sistema neurológico todos os condicionamentos um dia anunciados por Pavlov.

Ter passeado pelo Japonese Garden, no sábado, me revelou, pela paz ali revivenciada, que perdemos o pé na caminhada frugal do dia-a-dia. Voltar de jardins datados de séculos atrás mostrou que, mesmo como um espaço de mostra em forma de museu - lugar onde se conserva a memória de algo que já foi - essa “loucura” dos tempos atuais não me apraz.

E me pergunto: - “E isso é viver?”

Que corredor de Gaza imitamos todos os dias nas calçadas das praias, nas cidades de menos habitantes, nas filas à espera de um atendimento pra alguma queixa, um serviço não feito, uma conta a pagar, uma explicação a mais a ser dada pelo telefone, onde se espera e espera em torno de... não sei o que fazer.

Viver em tempos de contínuas incertezas mina a nossa base de segurança. Resta o refúgio na alma que nos surpreende volátil, querendo voar, e isso só se torna possível durante o sono profundo e sonhos mirabolantes, quando não atingidos por pesadelos – esses moldados pelos gritos de desespero em outras partes do planeta, ou mesmo vindo dos seriados de TV ou de todas as novelas que giram em torno d0 poder dos psicopatas e seus comparsas.

Oh, céus! Quando vou ter simplesmente o direito de ser pacífica, romântica, crédula, esperançosa de fato, sem vísceras que ardem, músculos que pesam, de tanto sustentar um peso invisível? Esse, de estar no mundo simplesmente.

Me pego num cansaço grego, daqueles tão antigos quanto os tempos em que Sócrates caminhava pelas montanhas ao redor do Mediterrâneo e tentava mostrar que viver poderia ser diferente.

Vejo a vitória de César ainda hoje. A força do estado e seu poder vampiresco de sacar impostos, em nome de prometer e jamais cumprir com segurança, saúde, abundância e ética.

Sinto uma saudade mais do que nostálgica, como se soubesse bem lá no íntimo que houve sim um tempo de pomos dourados, uma vida de risos fartos e faces coradas, de longas horas de amor e almoços seguidos de preguiça - o bom hábito de cultivar o hedonismo e a arte como forma de gratidão genuína.

Estou cansada dessa corrida desvairada em nome de “fazer dinheiro” para pagar contas que nunca se pagam, de um status falso em nome do título de proprietária disso ou daquilo.

A sensação profunda de estar em um corredor sem saída me revela na carne o drama dos palestinos, os peregrinos dos desertos, os atingidos em cheio pelas cheias tsunâmicas dos últimos meses. Isso sem falar na tal “crise” do câncer capitalista.

Ainda de quebra tenho que reaprender a escrever minha própria lingua, com mais um decreto sobre ortografia que dita novas normas para grafar o que penso, quando penso e decido expor tais pensamentos.

Fica o desânimo. Com o significado real da palavra: sem alma. Sinto meu espírito se evadindo cada vez mais, esquivando sua presença na manifestacão da corporeidade, e eu ganhando peso como forma de persistência em ficar na materialidade.

Já nem sei mais o que é isso visto que tudo se evade e quase evapora. E ainda assim, esse torpor, esse calor privado a mostrar que tem um sol que arde em mim e queima meus desejos outrora chamados sonhos, à procura de um espaço pra se concretizar. Quem me dera ser do tipo que devaneia. E, vivendo disso apenas, não se retêm ocupações nem preocupações com toda e qualquer contabilidade. Não se contam as horas, as datas, essas fatias de tempo que, de tão incerto, se tornou paralisante até dos relógios. Os meus deram pra parar de madrugada, justo na hora em que meu coração dispara e a pressão se altera querendo que eu salte da cama, do corpo, disso que chamam a luta diária, e eu juro, jamais constou da minha lista de preferências. Se é que ainda posso dizer que isso é real.

E sou intimada a confessar que ainda não faço escolhas. Mesmo que digam que vivo num país livre. Eu não sou um país, não sou uma bandeira, nem uma nacionalidade. Não sou um gênero privilegiado e não acredito em cidadanias. Não comungo com os ideais ilusórios de todas as políticas vigentes e ainda sinto que as regras poderiam ser simples e reduzidas a 10. Dez pra tudo. Até pra fechar uma reunião de trabalho. Sim, por que não? Nossos pensamentos são rápidos como a luz, por que não se poderia ter a boa vontade de determinar todo e qualquer assunto em pauta pra ser fechado em 10 minutos? Pra que ficar tanto tempo em torno das mentiras sinceras ou falsas demais? Pra que ainda investir tanto em vaidades, em alcances tão forjados? Pra que investir tanto em tantas guerras? Eu não compreendo e ainda me recuso a concordar com tais princípios ocultos em cada acordo ou discurso.

Em nome da ganância e dos lucros a qualquer preço, ainda se pratica todo e qualquer tipo de crime contra a vida, contra a paz, contra a harmonia e, definitivamente, isso só gera mais incerteza, mais dores, mais angústias e desesperos.

Não dá mesmo pra parar? Tô querendo saltar do mundo e vai ter que ser com ele girando mesmo.

Comentários

Sandra, não salta do mundo, não! Mesmo te conhecendo apenas pelas crônicas, dá para sentir que você faz parte da equipe que tem que ficar para transformar este nosso mundo. :)
Simone disse…
San, concordo com a Marisa. Pula não viu? Vc arrasou mais uma vez e estou rodando aqui que nem piorra. Ah, cá entre nós, já ando com medo de escrever. Nunca fui muito boa nisso, agora então...que perigo!!!Bjs. minha querida. Simone
Anônimo disse…
Sandra, teu texto me deixou meio sem fala. Nao "fala" assim de modo tao certeiro sobre o mundo em que estamos vivendo!
Concordo com tuas reflexoes, mas concordo tbem com as amigas acima:
nao eh pra vce saltar. Fica por aqui e nao largue a esperanca de ver um lugar melhor. Momentos melhores.
Bjos, Haydee
Francisco disse…
Saltar não é a solução.... sei não... nem sei se sou capaz de saber a solução. Mas quem sabe parar o trem e dar marcha-a-ré?
Um dia chove, aqui em NY neva, outro dia faz sol... é assim mesmo e você sabe como é. E ainda existem os amigos que pensam e sentem exatamente tudo isto que você escreveu... para que servem os amigos afinal?
beijo,
chicomoura
Anônimo disse…
Comentar, comentar a Cronica? Dificil.
Como comentar o que entre virgulas, exclamacoes, ponto, e no portugues mais do que perfeito, a mais verdadeira atualidade, e de uma maneira poetica que leva a gente a se deliciar com o inicio de cada paragrafo e esquecer esse Tempo de Incertezas.
bjsss
Cristina Alegre
sandra disse…
Marisa,

bom constatar que vc me conhece por cronicas..e como conhece!
Meu salto do mundo é uma metáfora concreta- e acabo de criar isso nesse momento- pra passar como deu que quando nao se pode parar o mundo a gente pode saltar dele. E ao fazer isso o transformamos por que passamos a ve-lo de outra forma, nao compondo com ele como está.

Eu nao acredito em suicidio por que sei que a gente nao morre, muda de corporeidade e fica sempre na mesma frequencia vibracional.
Mas acredito que mudanças podem ocorrer em nos, profundamente, quando decidimos deixar o mundo e suas contradiçoes e ilusoes materialistas.

Sandra
sandra disse…
Cristina, amiga querida,

enquanto houver em cada um de nós a capacidade de ver poesia em meio ao caos ou as contradiçoes de um mundo em mutaçoes, semeamos esperança e Alegria- nao esqueça disso- o que vc ja tem no proprio nome.

Sandra

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