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Mostrando postagens de Setembro, 2009

AS BAILARINAS >> Carla Dias >>

Sonhei com bailarinas — delicadamente despenteadas — a sapatear sobre poças. Seus olhares eram brilhantes como o sol que despontava de fundo, clareando um cenário de saltos e rodopios. Não havia música... Ouvia-se somente a respiração compassada das bailarinas, como fossem palavras arrancadas de seus segredos.

Eu estava sentada numa cadeira, defronte ao espetáculo, as pernas cruzadas e a paciência ao meu lado, apontando os melhores momentos das meninas que tanto diziam sem mexer seus lábios; que faziam seu show de dança ainda que na falta de música.

A paciência, que em meu sonho era uma senhora muito educada e sábia, sorria o tempo todo. Eu não... Os lábios contraídos, a feição remexida pela preocupação, os dedos tamborilando sobre os braços da cadeira.

Ela me explicava que aquelas bailarinas eram de uma coleção de porcelana de uma mulher que viveu há muito tempo e que, depois de deixar seu corpo físico, resolveu morar nas suas pequenas companheiras. Então, apesar de tantas bailarinas a …

VOCÊ SABE O QUE É ISSO?
>> Felipe Peixoto Braga Netto

Todos sabem que o Brasil é conhecido por ter três coisas excelentes: futebol, samba e parlamentares.

É, resto do mundo, pode ficar com inveja, eu deixo. Fazer o quê? Somos um povo privilegiado. Hoje não falo do futebol nem do samba. Quero falar apenas dos notáveis parlamentares que você pode ter a honra chamar de seus.

Não falo dos federais. Esses são sublimes, ninguém discute. Mas não menos brilhantes são os admiráveis membros de uma câmara municipal no interior do Rio Grande do Norte. Todo mundo sabe que lá não há problemas, imagina. Os serviços públicos funcionam muito bem, não há corrupção, não falta remédio nem nada. Igualzinho ao resto do país.

Pois bem, nesta Suécia tropical, faltando o que fazer, os nobres vereadores resolveram inovar. Querem instituir o teste da goma. O leitor não sabe o que é isso? Bem, vamos lá. Hoje em dia é preciso explicar tudo.

Disseram que um dos vereadores era gay. Este, acusado, levou o assunto ao plenário. Seus colegas de partido (partido político, …

HISTÓRIAS E MATUTICES >> Albir José da Silva

Veio para o Rio de Janeiro aos sete anos porque precisava estudar. Na roça não havia escolas e o pai queria que ele “tivesse leitura”. Não entendia por que tinha que ler. Gostava era de brincar na terra, comer frutas e doces e ouvir histórias. Praticamente todos os adultos contavam histórias. Com elas conseguiam qualquer coisa do matutinho. Para que fizesse ou deixasse de fazer era só contar ou prometer uma história. Eram histórias para que comesse, dormisse, não chorasse. Não precisava que fossem inéditas, porque ele descobriu que cada pessoa contava de maneira diferente.

Na escola, assustou-se com tanta criança. Na roça os vizinhos e parentes moravam longe e não falavam tanto, nem tão alto. Achavam graça dele na hora do recreio porque comia bananas. Todos comiam biscoitos embrulhados na fábrica. A professora era muito bonita e usava roupas que ele não via na mãe ou nas mulheres que conhecia. Às vezes ela sorria e passava a mão na cabeça dele. Outras vezes ficava séria, com a testa f…

LIVROS, FILMES E DISCOS
>> Eduardo Loureiro Jr.

Tem coisas que já nascem importantes, outras surgem sem pretensão.

Filhos, por exemplo, costumam nascer cercados de importância e preparativos. São um sucesso de público meses antes de estrear realmente. Árvores, pelo contrário, nascem sem alarde. O que não impede que haja filhos-surpresa, para os quais todos os envolvidos estão despreparados, ou árvores cujas sementes são plantadas com pompa e circunstância.

Na minha vida, quase tudo que tentei iniciar com festa e estardalhaço resultou em fracasso, no máximo tornou-se uma coisa comum. Os grandes projetos, os amores platônicos, os filhos planejados... ficaram engavetados ou não tiveram repercussão, não chegaram às vias de fato ou viraram desilusão, enfrentaram obstáculos demais e, mesmo se realizados, não havia o que comemorar: o cansaço era sempre maior que a alegria.

Quase tudo de bom que me aconteceu começou sem ostentação, sem barulho. Da maioria, não guardo sequer a data de início. Muitas vezes, não houve sequer qualquer tipo de …

SOMBRAS IMPROVISADAS >> Leonardo Marona

este relato usa nomes reais
mas não passa de uma ficção
sobre um momento histórico
para formar outro momento
não tão importante assim
nem tão histórico assim
mas meu.


No início das filmagens de Shadows, John Cassavetes telefonou para Charles Mingus, que na época vivia com seus óculos escuros de abelha, comendo tortas de merengue pelos becos do Village, criando suas epopéias, sempre – os cabelos como choque de alta tensão – da sua forma caótica e sangrenta. Combinaram de se encontrar para beber.

John precisava de uma trilha para seu filme. Um filme feito a partir de um estudo da improvisação, no qual Cassavetes atuava como um motor propulsor, incendiando seus alunos, que eram também seus atores. Miles Davis tinha refugado por causa do seu contrato de exclusividade com a Columbia. Mingus estudava cada vez em águas mais profundas, e era fácil encontrá-lo atrás de um rabo ou um trago ou uma dose nos arredores do Café Bohemia. Era o homem certo para o trabalho, se fosse possível encontrá-lo…

NOMES E SEUS DONOS >> Kika Coutinho

As pessoas não costumam acreditar nessa minha teoria, mas não tem jeito; a cada dia tenho mais certeza de que algo misterioso liga o jeito das pessoas aos seus nomes.

Todas as Sandras que conheço são fortes, ou parecem ser. Todas as Ritas que conheço são quietinhas e têm uma voz meio fina. Todas as Julianas que conheço são inteligentes, todas as Cláudias são falantes e bem articuladas, todas as Déboras são doces. Sempre que conheço alguém, ou que vão me apresentar a alguém, pergunto o nome e penso se vou me dar bem. Costumo me dar bem com as Lucianas e com as Andréias. Todas as Andréias são divertidas. Quando eu era criança, queria me chamar Luciana, mas, depois de grande, inventei que queria me chamar Luiza. Só que, se me chamasse Luiza, falaria baixo, só usaria sapatilhas e seria calma e sucinta como todas as Luizas são.

Se bem que as Luizas que conheço são crianças. Como as Júlias, se não têm 10 anos, parecem sempre que têm. São fofas, as meninas Júlias. Costumo ser muito amiga das…

CORAÇÃO PARTIDO >> Carla Dias >>

A nós que não evitamos os afetos,
mesmo quando dolentes.

Não há remédio para coração partido, mas houvesse e fosse possível comprá-lo nas drogarias, nas casas de ervas, nos supermercados, nas bancas de jornal, certamente seria um produto que enriqueceria seu criador.

Coração partido dói de um jeito que quase nada do que se sente cabe em palavras. Na verdade, tirando aquele que se propõe a ouvir as dolências confessas de um coração partido, há pouco que o outro diga que o faça se sentir inteiro.

Leva-se muito tempo para colar um coração partido, e sempre restam saliências, como as costuras de uma cirurgia que resultou em uma convalescença repleta de cuidados e limitações. Coração partido posa para fotografia todo choroso, como se uma flecha o atravessasse, impregnando esse pobre coitado de mais ausência e ansiedade.

E o coração se parte em muitos momentos, como quando percebemos que o que sonhamos ser um dia, com aquela determinação de quem foi criado para crer que tudo é possível, nada mai…

O GUAXINIM
>> Felipe Peixoto Braga Netto

Isso é triste, não devia poder. Acabei de ler que um guaxinim (puxa, que emoção, nunca tinha escrito guaxinim antes) andou quase trezentos quilômetros. Até aí tudo bem. Tudo bem em termos, não foi uma caminhadinha qualquer não. Nem para um guaxinim. Foi um recorde. Nenhum antes andou tanto.

E sabe para que tudo isso? Para encontrar uma fêmea. É, um guaxinim atleta, mas sobretudo romântico. "Machos são orientados pela reprodução e continuam caminhando, até achar uma fêmea apropriada", explica Frank-Uwe Michler, biólogo membro da GWN (uma tal de Sociedade para Ecologia Selvagem e Conservação da Natureza).

Mas o mundo não é justo. A épica jornada do bravo guaxinim em busca do par perfeito acabou na armadilha de uma caçadora, perto da cidade de Bremerhaven, longe, muito longe do Parque Nacional de Müritz, seu ponto de partida. O nosso herói morreu assim, sem homenagens nem amor.

Puxa, Waschbär, que coisa! E nem sua alma gêmea você achou. Pelo menos se morressem vocês dois juntos…

PROFISSÃO PRA QUANDO EU CRESCER
>> Eduardo Loureiro Jr.

"Eu quero ter um milhão de amigos
e bem mais forte poder cantar."
(Roberto e Erasmo)

Sei que já passei da idade em que me perguntavam "o que é que você vai ser quando crescer?". Agora já sou crescido — quem me acreditaria se eu dissesse que não? —, e sou apenas eu a perguntar-me o que vou ser quando crescer.

Sim, ainda me seduz a resposta da infância: Pipoqueiro. Eu queria ser pipoqueiro. Vejam que maravilha. Não, não se tratava de um sonho. Me parecia economicamente viável. Um pacote comprado no mercantil (coisa de cearense) era tão baratinho, e os sacos vendidos pelos pipoqueiros eram tão caros (e olhe que nem era eu que pagava), que a margem de lucro obtida deveria ser altíssima. Eu pensava em fazer fortuna como pipoqueiro. Investiria o lucro no próprio negócio e veria o dinheiro se expandindo, saltando feito pipoca. O negócio não foi pra frente porque eu comia MUITA pipoca. O lucro acabou se acumulando na minha barriga, em vez de em meu bolso, e me transformou num …

O OUTRO [Sandra Paes]

Essa semana meus ouvidos ficaram vibrando em excesso o pronome Ele. Ele isso, ele aquilo, etc e tal.

Não sei quantas vezes devo ter ficado apenas no meu tradicional hum-hum, ouvindo e me perguntando um coisa básica: “Quem é o outro?”

Parece que virou um sintoma ou, quem sabe, um mistério, quiçá um abismo irresistível. Vi nos filmes os olhares adolescentes como que a descobrir esse ser, um dia encantador, outro desapontador. Vi no olhar da esposa um vazio tentando encontrar um fio que fosse de uma meada qualquer para desnovelar o nó que se punha diante de sua mente ao constatar alguma coisa que não ressoava bem.

Ah! As ressonâncias... Que gongos são esses que tocam em nossos ouvidos e nos fazem ter aquele arrepio de algo desafinado como se nossa alma fosse um diapasão que sabe exatamente o tom da melodia das danças de uma relação harmoniosa?

Quanto mais o tempo passa, mais confirmo a hipótese que o outro é mesmo um infindável mistério. A maioria de nós se perde no labirinto quase que infin…

HOSPITAIS >> Leonardo Marona

Hospitais sempre foram para mim um estímulo sexual indescritível e vergonhoso, quase de perversão. Depois de pensar sobre por que é assim, cheguei à conclusão provisória de que, como o sexo é a negação da morte e o hospital é o ambiente de morte por excelência, então o estímulo sexual que ele me provoca – através de portas entreabertas, jalecos brancos com assinaturas dos nomes das enfermeiras em letras de formato clássico, a brancura devassa dos pesadelos molhados de meias-calças até o início das coxas, e até mesmo as macas vazias num canto do corredor – talvez venha de uma tentativa desequilibrada de tentar inconscientemente equilibrar os pólos: contudo um instinto profundamente moralista.

No hospital, até mesmo os elevadores apresentam clitóris secretos. Tudo parece lascivo, como se não se pudesse escorregar por paredes geladas de éter, como se não poder pensar no assunto fosse mais erótico do que o próprio assunto pensado em pequenos atos. Um lugar simbolizado por cruzes, onde é p…

DESAPEGO >> Kika Coutinho

Estar grávida é desapegar-se. A gente começa se desapegando da cinturinha fina, das roupas da moda, do visual impecável. Aos poucos aceitamos calças jeans com o botão aberto e, se bobear, fazemos de conta que não notamos o próprio zíper aberto aparecendo, enquanto não cedemos aos velhos e bons moletons.

O desapego da beleza é o primeiro que aparece quando não podemos mais tingir o cabelo, fazer uma progressiva, nenhum bronze artificial. Nada pode ser muito artificial quando se está grávida, porque os artifícios nos são negados, um a um.

Desapegamos das aparências também quando vomitamos em público, fora tudo o que se torna incontrolável diante — pelo menos — do marido.

Nos desapegamos um pouco do emprego e dos horários que ele nos impõe, porque o sono torna-se a prioridade absoluta. Nos desapegamos de parecer inteligente numa reunião, porque a preguiça e o cansaço nos fazem ver que ser inteligente é a maior bobagem do século. Ser bonita, então, é uma idiotice completa. Bom mesmo é ficar …

É MAIS ALÉM >> Carla Dias >>

"eu enxergo no escuro a luz que a noite revela
o feio que é força bela
e ela que nem sabe a beleza da fera..."
Beatriz Azevedo

Ao amigo que enxerga além tão fácil,
de um jeito bonito que só de se ver.

A casa parece deserta, mas não está. Desde que nela habita, as paredes vem colecionando seus segredos. É certo que, vez ou outra, ele tenta despistar a atenção dessas sinuosas invasoras de privacidade. Mas não demora e ele desiste e se entrega ao gosto de contar a elas seus recentes devaneios, a voz embargada, o soluço, a gargalhada. Uma delinquência emocional.
Tem horror ao liquidificador. Não é apenas o barulho que o endoidece, mas principalmente a ideia de se triturar tudo para nunca mais se ter o inteiro. Ele sabe o que é ser despedaçado, da dolência de ter de catar os cacos de si e depois passar muito tempo a montar esse quebra-cabeça. E nem sempre se sente inteiro.
Ele adora o silêncio sendo invadido pelas canções, principalmente as que fazem de conta que dizem isso, mas dizem…

O ZORRO QUE BEBE CERVEJA
>> Felipe Peixoto Braga Netto

Perto de minha casa (isto é, do meu apartamento) há uma simpática loja de fantasias. Sempre nos cruzamos: eu, voltando do trabalho, olho para ela; ela olha para mim. Nos cumprimentamos com um discreto sorriso, e eu digo:

— Olá, lojinha simpática, como vão as coisas?

E ela responde, amável:

— Bem, obrigada.

É toda nossa relação.

Ou melhor: era. Essa semana, vejam só, precisei ser fantasiado. Não pensei que um dia fosse precisar da lojinha amiga, mas eis que me convidam, umas ex-alunas, para uma festinha, e me intimaram, sem desculpa, a ir fantasiado. Logo pensei: vou conhecer a lojinha amiga, minha quase vizinha.

E lá fui eu. Bem, antes devo dizer que existem, no meu bairro, outras lojinhas similares. Aliás, há de tudo, menos farmácias. Livrarias (puxa, quantas), bares (isso não é vantagem do meu bairro, pois em Belo Horizonte eles nascem até em árvore), restaurantes (onde o divino prazer profano se faz presente), umas padarias amigas onde consigo meu misto quente matinal, enfim,…

DRUMMOND PARA DISTRAÍDOS >> Albir José da Silva

Da primeira vez xinguei os palavrões de praxe e segui pensando na droga da vida. Praguejava ainda pela dor mas já nem lembrava do motivo. Tanta coisa incomodava: o chefe, a financeira, a glicose, o colesterol e o time despencando para outras divisões.

Quando aconteceu de novo me senti injustiçado. Ainda sentia a primeira dor. Por que eu? Afastei idéias de destino e fatalismo, mas o que estava acontecendo? Difícil não pensar em pragas, maldições e castigo divino. A dor subia em ondas pela perna, baço, fígado, costelas e coração. Coração acelerado sacolejava uma espuma vermelha com adrenalina, bile e outras substâncias de desamparo. Por que um ser humano tem de passar por isso quando só estava andando na rua – um direito constitucional que não encontra proibição em nenhuma religião? Nem mesmo tinha pensamentos pecaminosos naquele momento. E duas vezes no espaço de dois minutos! Ninguém se compadece. Cheguei mesmo a identificar sorrisos a minha volta. Egoísmo e crueldade – disso é feita a…

É DIA DE SEGUNDA >> Claudia Letti

Teve um tempo, quase nos primórdios, em que eu detestava domingos — virei fã dos Titãs — era dia de descanso e nem precisava tanto. Também desconfio que eu possuía endorfina e serotonina pra exportar e um dia inteiro dedicado ao ócio cheirava a desperdício. Felizmente amadureci (ou me mudei para o Rio, não sei ao certo) e aprendi a pegar praia. Na pior das hipóteses, quando chove, sempre dá pra aprimorar alguma receita de bolinho de chuva. Foi então que a segunda-feira passou a ser o ó do borogodó do meu calendário.

Detesto.

Como confiar num dia que tem segunda no nome mas, na verdade (invejoso!) quer ser o primeiro? O primeiro (que se diz) útil, o primeiro de muitos de trabalho. Dia de Lua, sem a primazia dos prazeres, das requentadas sobras do domingo, não é hora nem dia da primeira feira, é xêpa. É o Dia Mundial da Dieta — e só por isso já não teria graça nenhuma.

Já trabalhei numa empresa onde se dizia, à boca pequena, que os donos não pagavam o salário às segundas porque acr…

PASSOS DE FORMIGA SEM VONTADE
>>Eduardo Loureiro Jr.

Não entendo. Juro que não entendo. Tem dias que não me entendo. Não sei o rumo. Quero saber o sentido das coisas e não atino. Onde é que essa estrada vai dar? Não tenho ideia.



Admiro as pessoas que olham para a frente com convicção, que sabem onde vão chegar. Aquele tipo de gente que, quando criança, já sabe a profissão que vai seguir, para quem o futuro é tão claro quanto o passado. Mesmo as pessoas que não sabem para onde vão, mas que seguem agarradas a algo como um filho, um casamento, uma religião, um emprego, mesmo essas — que eu não admiro — talvez eu inveje por simplesmente seguir o curso dos dias sem se questionar tanto.

Às vezes — mais vezes do que eu gostaria — olho para frente e não vejo quase nada. Da mesma forma, olho para trás e vejo pouco. O que fiz da vida? O que vou fazer? Agora mesmo, o que faço? Falta-me vontade real das coisas como às vezes tenho vontade real de comer um balde cheio de pipocas. Não tenho esses desejos, quereres, gostares. E tampouco antipatias, mal…

DOS JILÓS [Monica Bonfim]

Sabe o que é? Um dos primeiros livros que minha mãe comprou para mim se chamava “Por quê?”. Deve ter sido porque eu estava naquela fase de criança que tudo quer saber o porquê e aí, para simplificar o trabalho, ela me deu o livro. Poderia dizer aqui que minha mãe era uma brilhante educadora e visionária que já me preparava para, num futuro, sempre que quisesse saber alguma coisa, pesquisar, desde a infância me ensinando a trabalhar com um índice e tal. Em que pese que aqueles que a conheceram bem me dizem sempre que ela era muuuuuuuuito inteligente — morreu quando eu tinha 9 anos — não creio que houvesse essa preocupação de futuro; ela tinha 33 anos à época e eu devia ser chata mesmo. Então, já que eu gostava de ler, era mais fácil responder com um livro.

Vou te dizer que essa coisa de procurar o porquê das coisas já me deu muito problema; cheguei à conclusão que algumas coisas são como são e procurar suas causas é uma perda de tempo, além do fato — eu sei que você vai dizer que é óbv…

DOIS POEMAS PARA O FIM DE UM AMOR >> Leonardo Marona

"metáfora"

somos eu, a arena, o touro.
arena mínima, touro enorme.
eu danço na frente do touro,
tento apaixoná-lo por mim.
há doçura no olhar do touro,
doçura, loucura, catástrofe.
somos parecidos de certa forma.
mas eu sei disso, ele não sabe.
meu bailado parece irritá-lo,
faz o touro andar em círculos.
paro na frente dele, mas não
há como rezar, não há tempo
para se fechar os olhos, sou
levado a correr em círculos.
fora da arena os olhares frios,
sei que deixam o touro tenso
tanto quanto a mim, que tenho
menos pernas e a pouca sorte
de saber que, com frieza, eles
riem por dentro, se divertem.
além disso, o touro não sabe
como estou sozinho, na arena
que, maior que a arena, tem
o tamanho do mundo inteiro.
o touro não sabe o tamanho
do mundo inteiro, eu também
não sei, mas, por azar, posso
imaginar: vantagem do touro.
o touro não sabe da solidão,
mas, melhor que eu, ele sente
a brasa na pele todos os dias.
compreende melhor a saliva
que lhe escorre pelo focinho.
começa a corrida, somos dois
desesperados, atrá…

TRAUMAS >> Kika Coutinho

As mães sempre sonham com aquilo que deixarão para os seus filhos. Sonhamos com o que ensinaremos a eles. Se saberemos mostrar-lhes o caminho da justiça, da generosidade, do caráter firme e da lealdade aos seus. Se conseguiremos deixar para os nossos pequenos bons hábitos, boas atitudes para com os outros, para com o planeta e — principalmente — para consigo próprio. É normal pensarmos se acertaremos mais ou se erraremos mais, no entanto, as lições a serem ensinadas estão todas aí. Caminho de valores, de alegria e de bem é o que desejamos — quase sempre — que nossos filhos herdem de nós.

Mas não só de virtude é feito o legado de um pai para o seu filho.

Eu perguntei recentemente ao meu marido que traumas será que deixaremos à nossa filha. Ele não gostou da pergunta. Sentiu-se agredido, e achou-me por demais pessimista. Mas a conta é muito simples. Se os nossos acertos deixam o bem, e sabemos que nem só de escolhas acertadas vivemos, nossos erros deixarão algo não tão bacana. Pedi que …

A WOMAN LEFT LONELY >> Carla Dias >>

Foi logo quando comecei a estudar bateria, em 1986. Uma amiga das minhas tias, ao saber do meu ingresso no universo musical, perguntou se eu conhecia a Janis Joplin e, mediante uma negativa, me emprestou um LP.
Janis Joplin Forever, uma das antologias lançadas com hits da cantora, foi direto para o toca-discos. Na época, meu conhecimento musical se limitava ao que ouvira nas rádios que minha avó costumava escutar, quando eu ainda era menina e passava muito tempo com ela. Eram sambas e músicas caipiras e, de Cartola a Sérgio Reis, meu vocabulário musical foi composto durante muito tempo. Adolescente, comecei a acompanhar a carreira de alguns artistas através dos programas de auditório.
Fiquei em pé, de frente ao toca-discos, esperando para ouvir a cantora que a amiga das minhas tias dizia fazer com que a música ganhasse um encanto a mais. Porém, consegui ouvir somente alguns segundos depois que Janis Joplin começou a cantar. A voz da moça me soou tão estranha, mas de uma estranheza tão …

EU CONFIO EM VOCÊ
>> Felipe Peixoto Braga Netto

Devemos acreditar nas pessoas? Até que ponto? Aqui, como em tudo mais, nossa capacidade de acreditar varia em função das experiências passadas. Quem tem um currículo de decepções e frustrações será, provavelmente, mais descrente. Mas claro, sempre nos resta um espaço: mesmo com os baques da vida, temos a opção de continuar acreditando.

Por que digo isso? Lembrei de algo curioso. Faz tempo que não lembrava, mas lembrei. O caso é simples: estava com dois amigos, à noite, de conversa fiada. Perto do mar que um dia morei, aquela coisa de não fazer nada, restos de um viver tão diferente do atual.

Chega um garoto. Quase adolescente. História triste, cores comoventes. Que aquela noite, apesar do seu esforço, não vendeu nada. E mostrou seu instrumento de trabalho - uma humilde bacia com várias pamonhas. Iam estragar, e ele não tinha dinheiro sequer para voltar para casa. O que diria em casa?

Os três, na verdade, se comoveram. Silêncio constrangido. Eu tomei a dianteira. Falei, vem cá, tudo be…

VIAGEM DO NÃO AO SIM
>> Eduardo Loureiro Jr.

A cada negação se segue uma afirmação. E frequentemente se afirma justamente aquilo que acabou de ser negado.

Repare quando se pergunta a alguém: "Você queria falar alguma coisa?". A pessoa responde: "Não...". Mas, ao invés de ficar calada, continua. Ou seja, ela realmente queria falar alguma coisa embora tenha negado isso.

"Quem desdenha quer comprar", diz o ditado. A inveja costuma se fantasiar de negação para em seguida imitar a coisa negada. Tantas vezes fazemos justo aquilo que não admitimos que daí nasceu o conselho: "Nunca diga 'dessa água não beberei'". E o jeito mais certo de saber se alguém fará alguma coisa é avaliar a intensidade com que ele a nega. Nega pouco, fará pouco. Nega muito? Sai de baixo!

Comigo aconteceu de negar um simples comentário de uma amiga, coisinha à toa, dita de passagem: "Viajei com 23 pessoas", disse ela. E eu respondi: "Não sei se conseguiria viajar com tanta gente".

De noite, um sonho.…