quinta-feira, 17 de setembro de 2009

DESAPEGO >> Kika Coutinho

Estar grávida é desapegar-se. A gente começa se desapegando da cinturinha fina, das roupas da moda, do visual impecável. Aos poucos aceitamos calças jeans com o botão aberto e, se bobear, fazemos de conta que não notamos o próprio zíper aberto aparecendo, enquanto não cedemos aos velhos e bons moletons.

O desapego da beleza é o primeiro que aparece quando não podemos mais tingir o cabelo, fazer uma progressiva, nenhum bronze artificial. Nada pode ser muito artificial quando se está grávida, porque os artifícios nos são negados, um a um.

Desapegamos das aparências também quando vomitamos em público, fora tudo o que se torna incontrolável diante — pelo menos — do marido.

Nos desapegamos um pouco do emprego e dos horários que ele nos impõe, porque o sono torna-se a prioridade absoluta. Nos desapegamos de parecer inteligente numa reunião, porque a preguiça e o cansaço nos fazem ver que ser inteligente é a maior bobagem do século. Ser bonita, então, é uma idiotice completa. Bom mesmo é ficar quietinha vendo a barriga crescer, tal qual uma vaca ou uma égua. É, nos sentimos totalmente bichos nessa fase e desapegamos um pouco dessa condição estúpida de ser humano. Que ser humano que dá leite, gente? Qual?

Desapegamos das condições exigentes de higiene que nos impúnhamos antes. Você não vai a banheiro público? Espere até ficar grávida. Você tem nojo de banheiro de rua? Pois vai desapegar desses nojinhos e achar um banheiro de casinha, daqueles horríveis de festivais, como um oásis em meio ao deserto. Essa necessidade absurda de fazer xixi nos faz ficarmos desapegadas de bobagens. Eu, pelo menos, já sei a rota de todos os banheiros da minha região. Sou capaz de identificar, num raio de 50km, os banheiros mais próximos. Todos serão ótimos. Estou pensando, inclusive, em fazer um guia, tipo aquele da Vejinha: “Comer e beber, os melhores restaurantes de SP”. O meu vai se chamar: “Xixi e cocô, um guia dos melhores banheiros da capital”. Eu não faria isso antes. Nem falaria uma coisa dessas. Mas agora... Desapeguei.

Desapegamos do nosso próprio umbigo, desapegamos de ir a festas chatas, desapegamos de obrigações sociais que se tornam absolutamente sem sentido.

A gente desapega até da gente mesma, das próprias dúvidas e inquietações. No início toda grávida pira com qualquer dorzinha — “ai, senti uma pontada aqui” — e corremos para a internê para ver o que pode ser, perguntamos para as amigas e ligamos para o médico: “Dr, é urgente, senti uma pontada”. Depois vai passando o tempo e a gente desapega. Sente uma dor forte na costela e diz para si mesma, enquanto come mais um pedaço de bolo: “Não deve ser nada”. E não é. Desapegamos porque confiamos.

O desapego é sinal de que o que não importa está no lugar do que não importa e, aos poucos, todo esse desapego vai dando lugar a um novo apego. Um apego pelo que, de fato, importa: esse pequeno peixe que chuta sem parar dentro de nós. O resto? Todo o resto é bobagem...

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6 comentários:

Juliêta Barbosa disse...

Ah! Kika,como seria bom se pudéssemos - de fato - aplicar esse desapego em todas as áreas da nossa vida. Pena que vida real seja tão diferente dos sonhos...Haja cobranças!

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Ana, agora é oficial. O Verissimo não está mais sozinho em seu reinado de Melhor Cronista do Brasil. Você é a Rainha. Não vou esperar que você escreva mais algumas dezenas de crônicas maravilhosas para coroá-la. Seus textos, que já beiravam a perfeição, tornaram-se sublimes com sua gravidez. Seu jeito de escrever emociona, faz rir, pensar, dispensar, desapegar de tudo e se apegar só às suas palavras encarrilhadas. De seu humilde vassalo, e fã nº 1, Majestade.

albir disse...

A gravidez é mesmo um momento mágico: produz filhos e ensinamentos.
E lindas crônicas.

Debora Bottcher disse...

Que coisa boa, isso, não? Um aprendizado... Eu, que nunca tive filhos, aprendi de desapego de outra forma. Mas essa é uma lição e tanto... :)
Super beijo.

Monica disse...

Linda crônica Kika!
Que esse exercicio deixe você bem livre para apegar-se ao(à) seu bebe.
Feliz espera!
Monica

Anônimo disse...

Meu.... maravilhoso!
Estou entrando no mundo da crônica agora.... por causa dos meus alunos. Lí algumas por aí, mas apenas 2 suas já me surpreenderam.
Demais!!!!
Parabéns!

Sds!
Eliane

PS: Pena q pra 5ª série essa não teria o mesmo efeito q causou em mim.... vou usar a do "Nomes e seus donos" mesmo...rs. Obrigada!