quarta-feira, 23 de setembro de 2009

CORAÇÃO PARTIDO >> Carla Dias >>

A nós que não evitamos os afetos,
mesmo quando dolentes.


Não há remédio para coração partido, mas houvesse e fosse possível comprá-lo nas drogarias, nas casas de ervas, nos supermercados, nas bancas de jornal, certamente seria um produto que enriqueceria seu criador.

Coração partido dói de um jeito que quase nada do que se sente cabe em palavras. Na verdade, tirando aquele que se propõe a ouvir as dolências confessas de um coração partido, há pouco que o outro diga que o faça se sentir inteiro.

Leva-se muito tempo para colar um coração partido, e sempre restam saliências, como as costuras de uma cirurgia que resultou em uma convalescença repleta de cuidados e limitações. Coração partido posa para fotografia todo choroso, como se uma flecha o atravessasse, impregnando esse pobre coitado de mais ausência e ansiedade.

E o coração se parte em muitos momentos, como quando percebemos que o que sonhamos ser um dia, com aquela determinação de quem foi criado para crer que tudo é possível, nada mais era do que uma venda que nos impedia de compreender que nem tudo é possível, por mais força de vontade que possamos empregar em tal desejo. Obviamente, há neste caso doses honestas de desejo pungente de que sejamos felizes, quase sempre oferecidas pelos que nos cuidam. Às vezes, até mesmo as boas intenções partem nossos corações.

Um coração partido perde o rumo com tanta frequência que acaba se tornando adepto da solidão como escape. E pela casa ficam espalhados os livros que desejava ler, como fossem toques sutis de um desapego imposto; as cartas fechadas, os armários escancarados, a comida no prato, a bebida no gole, telefone fora do gancho, o desespero nas lágrimas.

O coração partido é personagem principal de muitas das nossas decepções, mas também das descobertas, como quando alguém aponta uma violência sem tamanho e nos pegamos assim: de coração partido ao percebermos que ela existe.

O coração que se parte por amor é dos mais chorosos. Dá sempre de nos colocar nos cantos das casas em festa, no lugar do personagem traído do filme, na poesia mais profunda e melancólica impossível. Há momentos em que se sente tão animado que acredita que o pior já passou. Mas basta cruzar com quem lhe partiu o coração para que se compreenda: leva tempo para se acomodar um coração partido no peito. Tempo demais para permitir que nossa alma o receba de volta. Mas é um tempo que acontece.

Pensando bem, o criador de um remédio para coração partido poderia apenas flertar com a possibilidade de sucesso, mas não o alcançaria com tal invenção. Um coração partido remete a uma experiência que, antes de se tornar a ausência do outro, era sua presença. E por nele viver, também a ele ofereceu o aprendizado ao trançar sua história na dele.

Coração partido é sinal de que vivemos. E por mais que pareça o contrário, haverá o dia em que não será dolorido passar os dedos sobre as cicatrizes. Em que elas serão apenas o mapa de uma vida sendo vivida sem o medo de se entregar ao sentimento.




Partilhar

5 comentários:

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Que lindeza, Carla! Você pegou uma expressão que já se tornou um clichê e a rejuvenesceu. E me fez perceber que meu coração continua partido. Grato pelo acesso a esse sentimento.

albir disse...

A dor dói menos quando a Carla escreve sobre ela.

Carla Dias disse...

Eduardo... Que os bons ventos sempre acompanhem os de coração partido.
Albir... Escreverei sempre, então : )

Anônimo disse...

texto tão bonito, Carla.
<3

Carla Dias disse...

Anônimo... Muito obrigada!