terça-feira, 15 de setembro de 2009

O ZORRO QUE BEBE CERVEJA
>> Felipe Peixoto Braga Netto

Perto de minha casa (isto é, do meu apartamento) há uma simpática loja de fantasias. Sempre nos cruzamos: eu, voltando do trabalho, olho para ela; ela olha para mim. Nos cumprimentamos com um discreto sorriso, e eu digo:

— Olá, lojinha simpática, como vão as coisas?

E ela responde, amável:

— Bem, obrigada.

É toda nossa relação.

Ou melhor: era. Essa semana, vejam só, precisei ser fantasiado. Não pensei que um dia fosse precisar da lojinha amiga, mas eis que me convidam, umas ex-alunas, para uma festinha, e me intimaram, sem desculpa, a ir fantasiado. Logo pensei: vou conhecer a lojinha amiga, minha quase vizinha.

E lá fui eu. Bem, antes devo dizer que existem, no meu bairro, outras lojinhas similares. Aliás, há de tudo, menos farmácias. Livrarias (puxa, quantas), bares (isso não é vantagem do meu bairro, pois em Belo Horizonte eles nascem até em árvore), restaurantes (onde o divino prazer profano se faz presente), umas padarias amigas onde consigo meu misto quente matinal, enfim, faço quase tudo a pé – a única coisa que não tem por perto é farmácia. Ainda bem. Prefiro a simpatia das fantasias à austeridade das farmácias.

Na lojinha tirei umas dúvidas que tinha. Perguntei assim: "Vem cá, loja simpática, as pessoas alugam fantasias sempre?" A lojinha me garantiu que sim, ainda disse que todos os dias. Não sei por que, mas fiquei feliz ao saber que, naquela segunda-feira morna, sem graça ou magia, há alguém vestido de toureiro ou imperador romano. Que aliás era como a Lourdes — a amável atendente — queria que eu fosse vestido. De imperador romano. Ponderei que não, "Lourdes, pense bem, eu não dirijo nem a minha vida, não vou dirigir um império. Não, nem por uma noite. Não tenho cara de imperador, logo veriam que eu não sou Nero, não ficaria convincente, não ficaria".

Ela então me veio com um homem das cavernas. Também assim é demais. Nem lá nem cá, né Lourdes! Tudo bem, não sou um embaixador inglês, mas tenho estirpe. Não vou sair por aí com um tacape na mão, derrubando a pauladas as mineiras que me atraem. Mesmo porque, se fosse assim, sobrariam poucas nas ruas.

Lourdes me trouxe o Zorro. Devo confessar que mal lembro do Zorro. Sei que tinha cavalo, máscara e chapéu. Lembro vagamente que ele fazia coisas boas. Não lembro quais. Me disseram depois que ele tinha um ajudante, algo assim. A minha fantasia veio sem ajudante, preciso confirmar isso para reclamar depois, se for o caso.

Devo dizer que fiquei bem de Zorro. Nem desconfiava, mas acho que nasci para isso. Quem me vê logo diz: eis o Zorro. Mesmo sem máscara, e até sem chapéu, está na cara que eu sou o Zorro. Foi o que Lourdes me disse, e eu logo concordei com ela, "Sim, Lourdes, você tem razão". Como vivi tanto tempo sem saber disso?

Lá fui eu com o Zorro embaixo do braço. Eu já quis sair de Zorro, mas fui convencido que era melhor deixar para depois. De qualquer forma, deixei a espada bem à mostra, para qualquer eventualidade.

Em casa precisei me segurar para não assumir minha verdadeira identidade. Já queria sair por aí fazendo justiça, o problema é que a festa só seria mais tarde. Não tem problema, pensei, a justiça já esperou tanto que pode esperar mais um pouco.

Dormi, que Zorro cansado não faz verão, e acordei pronto para inaugurar reinos de compreensão e bondade. Logo, porém, me deparei com um problema grave. Roupa de Zorro não tem bolso. Absurdo. Onde vou colocar o dinheiro que roubar? Nem o pouco dinheiro que me acompanha tem onde ir. Outro dilema logo se instalou, e disputou minha atenção com a falta de bolsos: não dava para usar óculos e a máscara do Zorro ao mesmo tempo. Não sei se o Zorro era míope, espero que não.

Sem bolsos e sem óculos, mas com alma pronta, me preparei para enfrentar os inimigos. O primeiro era o elevador do meu prédio. Se eu encontrasse algum conhecido, será que ele me reconheceria atrás da máscara e do chapéu? Outra dúvida: se fosse um vizinho rico, ficaria bem roubá-lo ali mesmo, para dar aos pobres, talvez ao pobre Zorro? Eram dúvidas sérias, que me perturbavam, mas que foram embora quando o elevador chegou. Notei, irritado, que os presentes não respeitaram muito o Zorro. Riram e zombaram. Na certa não perceberam a espada que eu trazia sob as vestes. Se vissem, respeitariam.

Preciso confessar uma fraqueza. Fui à festa de carro, não fui a cavalo. Já não se fazem mais zorros como antigamente. Acho que Zorro não combina muito com carro. A capa e o chapéu atrapalharam um pouco minha já atrapalhada destreza automobilística.

Para um carro, no sinal, ao meu lado, e é evidente o espanto de quem nunca viu o Zorro de perto. Talvez temam pela própria sorte, nunca se sabe quando Zorro atacará. Mas eu não estava com vontade de atacar ninguém. Quando o sinal abriu, e meu carro preto arrancou poderoso (meu carro é preto, claro, carro do Zorro é preto), pude ver o ar de alívio emocionado de quem agradece aos céus a graça de sair incólume de tão grave situação. Não é sempre que se sai com vida de um encontro com Zorro.

Chego na festa e percebo, abismado, que há outros Zorros. Quis começar o duelo desmascarando os falsários. Acho muito errado isso de outros Zorros além do verdadeiro. Depois pensei melhor, e concluí que Zorro tem alma generosa, perdoa os tolos de fraco espírito. Não matei ninguém, mas quando cruzava com um falsário deixava claro, pelo olhar, que não estava gostando da imitação.

Também não marquei ninguém com um Z na cara. É uma pena, só depois lembrei da minha marca registrada, que é deixar um Z maiúsculo na face dos malvados. Também não vi nenhum malvado na festa, vi só umas malvadas, que se estivessem com mais roupa talvez não perturbassem tanto meu confuso coração.

Estou meio sem jeito, mas preciso confessar outra fraqueza: bebi cerveja. O mais honesto seria colocar a frase no plural, mas eu vou deixar assim mesmo. Não sei se fiz certo. Acho que Zorro não bebe cerveja. A espada não gostaria disso. Felizmente não precisei tirá-la da bainha, quer dizer não sei se felizmente, mas o certo é que não tirei.

Também dancei, para o meu espanto, e para o espanto de Zorro, que talvez não aprovasse os passinhos ensaiados, que insistiam, bondosamente, em me ensinar. O Zorro sem cerveja tinha mais compostura, seguramente. E olha essa máscara, Zorro, é para cobrir os olhos, não a orelha. Não, esse chapéu não é o seu. Esse chapéu é de mestre-cuca, acho que o seu anda na cabeça de alguma cozinheira. Da próxima vez, vou ouvir Lourdes e vir de Nero. Combina mais com fim de festa.

Fui embora. Ainda tentei fazer justiça pelo caminho, mas devia estar tarde, pois nem uma injustiçazinha encontrei acordada. Encontrei foi uma blitz mal humorada que — suprema audácia — parou Zorro pedindo documentos. "Senhores, senhores, o que fazem? Não veem quem lhes fala? Minha capa não basta? Ela não fala por mim?"

Minha capa não falou. Se falou, eles não ouviram. Acho que Zorro já foi mais respeitado. Nem os heróis acatam, onde vai parar esse mundo? Fui dormir sem cavalo nem carro, que os policiais acharam melhor ficar guardado. Eu não concordei, mas achei exagerado matar homens da lei. Minha espada eles não levaram, expliquei que a fúria de Zorro é brutal e que paciência tem limite. Eles, assustados, concordaram, e Zorro foi dormir com fome.

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4 comentários:

Letti disse...

* gargalhadas!!*
Muito bom!
Mas, conte uma coisa para a pergunta que não quer calar: por onde estaria o Sargento Garcia?
beijão

Juliêta Barbosa disse...

Felipe,

Sua crônica foi tão convincente, que eu sofri ao seu lado todas as agruras que passou... Sem falar nas boas risadas que me proporcionou.Bjs

Anônimo disse...

kkkk...adorei esse ZORRO!
Me mata uma curiosidade, onde ele mora em BH?

klaudya

Kika disse...

Ai Zorro, que preju!
Era elhor ter dados seu carro aos pobres, do que eprdê-lo - ainda que temporariamente - para os policiais.
Ótima crônica!
Kika