sexta-feira, 4 de setembro de 2009

Elegia ao idiota humano ou samsara >> Leonardo Marona


Para viver, é imprescindível ser um idiota, sem conhecimentos. Com conhecimentos acabamos deprimidos e, por causa deles, sabemos como, por exemplo, estabelecer as marcas para um enforcamento viável. E, a um sábio, qualquer coisa pode levar ao suicídio. Um idiota não sabe com o que está lidando. Se for inteligente sentirá uma vontade repentina de se enforcar, digamos, num domingo de sol e temperatura amena, ouvindo Van Morrison e lendo sobre o enforcamento de David Foster Wallace. Primeiramente, um idiota jamais escreveria um romance com mais de mil páginas, infestado de diálogos interiores. Um idiota pensa grande, está sempre inclinado a conclusões memoráveis, prêmios literários, corridas de Fórmula 1. É tudo que pode manter um homem vivo: a velocidade alucinante que não permite o raciocínio.

Chego à conclusão do privilégio de ser imbecil, mas alguém teria uma corda? Sinto-me no meio do caminho: nem tão idiota, nem tão conhecedor. Sendo um idiota, quero que me digam o que fazer para, assim sendo, tentar o melhor possível, desenvolver uma carreira. Enquanto isso os gênios procuram objetos cortantes no chão das ruas, tramam passos violentos na direção infinita. Os idiotas, pelo contrário, são incapazes de tomar uma decisão. Isso porque eles não sabem o que querem. Óbvio. Eles não sabem o que querem porque eles não sabem quem são. E eles não sabem quem são porque sabem o que podem ser. E, pouco importa. Eles podem ser o que quer que sejam e será lindo, inofensivo.

Os gênios se afligem porque sabem que podem, mas não sabem como conhecer a essência de cada um. Já os idiotas, eles tem sorrisos para resolver qualquer essência, e sempre um cigarro à mão para os casos mais graves, um conhaque.

Às margens da beladona vivem os múltiplos constantes. Por convenção foram obrigados a perder a doçura. Por convenção lhes arrancaram os olhos, lhes ensinaram a sorrir, agradecer, levantar taças, riscar a boca num riso amargo, atirar com balas de marfim. Mas apenas os idiotas sabem que, na realidade, tudo não passa de átomos e vácuo.

O sorriso é um torpe subterfúgio. Percebam. Nada mais primata do que mostrar os dentes. Quando alguém mostra os dentes, ou seja, quando alguém mostra os dentes a um idiota, é comum relacionar tal imagem a uma condescendência símia, ancestral, pois os macacos fazem isso o tempo todo, mas só quando estão irritados. E não há nada mais idiota do que a irritação ou a felicidade. Portanto, mostrar os dentes em sinal de aproximação é a atitude mais idiota entre os idiotas humanos.

Os idiotas são simpáticos, escrevem sobre si próprios. Há estranhas conjunturas que dividem o que eles pensam que sentem e o que eles sentem, que é algo quase mudo, de canto de boca, baba sólida de uma profecia eterna. Lêem muito, quase não pensam por si próprios: como disse, escapam à corda no pescoço, não sabem como dar o nó fulminante.

Idiotas criam governos para o bem das vaidades e, dentro deles, colocam gênios sem a menor vontade de respeitar ordens estabelecidas. Assim são os países modernos, e a própria modernidade é uma invenção imbecil – veja quantos líderes natos nas mãos de idiotas plenos, apenas para criarem barbas, jornais do dia, punhos no ar, aforismos.

São seis da manhã e, lá fora, ouve-se o primeiro som dos pássaros. É o despertar da primavera, dizem, mas isso não faz sentido, a frase não soa bem. Acendo um cigarro, portanto, para quebrar o clima – minha maior especialidade – e então estou no meu mundo. É um mundo terrível, de amores incompletos, sorrisos injustos, fragmentos de sentido. De nenhuma forma é meu, não parece que eu possa controlá-lo. E reparar nisso estabelece um cancerígeno paradoxo: mesmo na dor, não somos nós mesmos.

Meus dedos das mãos estão gelados. Visto o capuz, sigo. Não sou mesmo eu que sigo. Seguem por mim que queria parar. Não ter direito a minha própria dor, pior, saber que minha própria dor não é de fato minha e que sou um cadáver batendo teclas a esmo me causa um qualquer desespero de romper a pele, mas sem nenhuma comoção. Bater as teclas é apenas adiar um pouco mais. Os parágrafos se enchem de ausência, mas preciso continuar, não pensar, não sentir, continuar batendo.

Construo mentalmente a ridícula metáfora dos dedos gelados nas teclas relacionados ao coração que, perto de parar, ainda pulsa. Graças a deus já passam os ônibus, o que de todo modo não justifica a minha tristeza. Será que sofro por muitos além de mim? Não, seria hipocondria. Tudo seria algo se não fosse nada, e isso já começa a parecer uma filosofia de botequim. Tento parar completamente. Inevitável, penso em quantos, neste exato momento, não tentam a mesma coisa, sem sucesso. É a luz mais bonita do dia, penso, e sinto um princípio de desmaio. Do outro lado da luz está a África. Penso em Rimbaud, Cendras, homens sem membros que fizeram a longa jornada. Tenho membros, mas não há jornada para mim. A não ser ficar aqui, juntar os restos, esquecer as cordas e os longos precipícios. Acender um cigarro no outro enquanto o dia começa. Quase um mantra.


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2 comentários:

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Léo, seus textos muitas vezes me fazem lembrar das tempestades de Teresina: fortes, caóticas, amedrontadoras e bonitas. :)

leonardo marona disse...

adorei a comparação, edu, teresina... não vou esquecer.

um abração!

marona.