sábado, 12 de setembro de 2009

DOS JILÓS [Monica Bonfim]

Sabe o que é? Um dos primeiros livros que minha mãe comprou para mim se chamava “Por quê?”. Deve ter sido porque eu estava naquela fase de criança que tudo quer saber o porquê e aí, para simplificar o trabalho, ela me deu o livro. Poderia dizer aqui que minha mãe era uma brilhante educadora e visionária que já me preparava para, num futuro, sempre que quisesse saber alguma coisa, pesquisar, desde a infância me ensinando a trabalhar com um índice e tal. Em que pese que aqueles que a conheceram bem me dizem sempre que ela era muuuuuuuuito inteligente — morreu quando eu tinha 9 anos — não creio que houvesse essa preocupação de futuro; ela tinha 33 anos à época e eu devia ser chata mesmo. Então, já que eu gostava de ler, era mais fácil responder com um livro.

Vou te dizer que essa coisa de procurar o porquê das coisas já me deu muito problema; cheguei à conclusão que algumas coisas são como são e procurar suas causas é uma perda de tempo, além do fato — eu sei que você vai dizer que é óbvio — de que não vai mudar a coisa em si, vai apenas deixá-la, se possível, mais palatável. Mas acontece que eu realmente não gosto de jiló, e compreender a razão do jiló ter o gosto que tem não muda o fato de que eu não consigo engolir. Portanto, vou vivendo minha vida e me afastando dos jilós.

Ah! Entender as causas das atitudes das pessoas é sempre muito bom: mantém os nossos pés no chão e evita que se gaste em paraquedas — a quantidade de vezes que a gente “cai das nuvens” é bem menor.

Mas fico pensando que a realidade de, ou para, muita gente que conheço deve ser bem ruim: o que ando conhecendo de gente que projeta suas fantasias e fala delas como se realidades fossem, é impressionante. E por mais que possa compreender suas razões — eu continuo querendo saber o porquê de algumas coisas — digo a vocês que isso me cansa mesmo.

Esse cansaço me perturba: acho uma total falta de compaixão, da minha parte, não conseguir ultrapassar essa realidade projetada. Muito embora eu consiga ver os méritos intrínsecos das pessoas, ficar ouvindo ilusões é muito chato. Fico até zangada comigo mesma, pelo perpétuo questionamento e a vontade de chegar para a criatura e desmascará-la aos próprios olhos para que ela, a partir do enfrentamento da situação, consiga ultrapassar suas dificuldades.

Não se dê, caro leitor, ao trabalho de pensar “mas quem ela pensa que é?”...risos... porque eu já fiz isso: "Menos, Mônica, menos, você não tem nada a ver com isso, vai cuidar da sua vida, vai se preocupar com suas dificuldades, vai atrás de se tornar, você, uma pessoa melhor e deixa os outros com os problemas deles."

Mas entendam que eu já estive ali: já aumentei as pequenas coisas que tinha de boas, já lapidei um passado tanto que ele virou um diamante, já agreguei valor imaginário ao que não tinha, já distorci uma história realçando os pontos que me favoreciam, já alardeei valores ao meu caráter que não consegui seguir. E eu sei que um dia a casa cai, que um dia a gente olha para o espelho e vê o ridículo daquilo, vê o desperdício de energia e pode até ser que aconteça o pior: que a gente se acostume ao pouco e vá completando esse pouco com a nossa imaginação e um dia acorde de mãos vazias, porque é só imaginação, é só ilusão.

Então meu coração se confrange, sabem? E a única saída que acho para meu dilema é me afastar dessas pessoas. Porque não consigo deixar de me irritar com as ilusões projetadas — eu detesto mentiras — apesar de compreender as razões por baixo delas, apesar de enxergar a infelicidade latente, apesar de compreender a necessidade das pessoas.

Talvez um dia eu me torne uma pessoa melhor que consiga ver e, apesar disso, realmente aceitar e, a partir disso, conviver harmoniosamente: cada um tem seu próprio tempo de encontro consigo mesmo.

Enquanto isso, vou fazendo como eu faço com os jilós... Só chego perto quando vou no supermercado.

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3 comentários:

Amor amor disse...

Mônica, achei seu texto maravilhoso! Compartilho as mesmas idéias. Engraçado que ontem eu assisti ao filme "o melhor amigo da noiva, aliás, uma gracinha de filme, e numa certa horas, a personagem Hannan diz: "Quando alguém está comentendo um erro, e não cabe a vc se intrometer, basta dizer: fico feliz que vc esteja feliz." Concordei, concordei, sim. Mas, como vc disse, qdo a gente passa pelo mesmo erro, passa a não achar mais necessário que o outro erre igual, mas que aprenda da experiência do outro. Eu sei: há vários pensamentos que seguem outra linha, do tipo "ah, mas eu tenho que aprender com meus próprios erros", mas eu entendo o que vc diz, ah, como entendo. Também temos direito de tentar influenciar alguém a não tomar veneno para saber se morre.

Beijinhos doces cristalizados!!! ;o)

sandra disse...

Monica,

fiquei pensando nos por ques da menininha e o "definitivo"não gosto de jiló. Confesso que fiquei procurando um certo por que que nao apareceu:- por que será que ela nao gosta de jiló?

Ainda estou com a pergunta rolando aqui e é claro, a curiosidade tambem.
Será que vc responderia?

Kinha disse...

A ambas...agradeço a visita e os comentários...

Eu não gosto do gosto do jiló mesmo...risos

Mõnica