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Mostrando postagens de Maio, 2017

CONFIDÊNCIAS AO DIÁRIO... >> Carla Dias >>

Descasquei uma laranja que tinha a casca tão verde quanto a blusa que eu vestia. Foi um frenesi que surpreendeu meu olhar acostumado a reconhecer combinações no improvável conduzido pelas asperezas.

O sabor não era o mesmo que minha alma vem ruminando. A laranja estava doce, deleitável.

Compartilhei da companhia do silêncio para apreciar tempo. Foram sete minutos de tentativa de meditação. Mas quem consegue meditar quando se tem uma mente dedicada aos pensamentos gritantes? Nem sempre corteses, tampouco lineares, raramente esclarecedores. Depois de sete minutos, senti-me contagiada por um cansaço e seus fiapos de ironia. Eu sabia que deveria evitar contato, declarar fuga e sair do recinto, onde se contorciam as tentativas vãs. Porém, se há alguém que se permite seduzir com facilidade por dores e horrores, esse alguém é eu.

Esparramei-me, então, por sete horas de abandono.

Minha biblioteca de tentativas vãs disputa espaço com a coleção de amores que não vingaram, de fantasmas de filho…

PRAZER, CLARA OU BRANCA OU ANA, VOCÊ ESCOLHE! >> Clara Braga

Confesso, já tive problemas em aceitar meu nome. Problemas em aceitar Clara? Você deve estar se perguntando como isso foi acontecer, afinal, Clara vem de claridade, de paz, de serenidade e tudo mais que você possa imaginar nesse sentido. Mas sim, a pré adolescência é um período maldoso e faz muitas pessoas não gostarem do seu próprio nome.
Tenho consciência de que o meu caso não é dos piores, mas ouvir as pessoas te perguntando onde está a gema ou respondendo “claro, Clara” toda vez que você pergunta algo não é muito legal. Pior do que isso era só ouvir as pessoas cantando “Clara como a luz do sol...” toda vez que eu chegava em algum lugar, cheguei ao ponto de proibir um DJ de tocar essa música em um aniversário meu, se não ela tocaria de 5 em 5 minutos.
Mas como eu disse, foi uma fase. Superei e, apesar de ainda ouvir algumas piadas, afinal, trabalho com crianças e adolescentes, aprendi a dar um sorriso amarelo e ignorar. O problema é que essa questão foi substituída por uma nova fa…

OS NAMORADOS - final >> Albir José Inácio da Silva

(Continuação de 15/05/17) Tive um pequeno susto quando se desviaram da rota, mas foi só para comprar balas e amendoins, que de fato custam uma fortuna no cinema. Ajuizado esse Pedro. Entraram para assistir uma comédia romântica e eu relaxei. Fui pra casa com a sensação de dever cumprido. A prosperar esse namoro, terei dias de paz.
MARIA EDUARDA
Aquela que vem ali meio escondida é minha mãe. Pensa que não sei que está ali e, só de maldade, já me virei de repente duas vezes. Ela foi obrigada a se abaixar ridiculamente atrás dos carros estacionados.
Tem sido assim por todos os meus quatorze anos, ela acha que controla até minha respiração e eu finjo que sim. Começou com uma bronquitezinha alérgica com que nasci e a deixava histérica por mais que os médicos tentassem acalmá-la. Como veem, sua preocupação é por vezes legítima mesmo exagerada.
Parte dessa neura é culpa do meu pai que exigiu dela, antes de morrer, uma vigilância de dobermann sobre mim. Logo ele, que a engravidou aos quinze…

METÁFORAS >> Paulo Meireles Barguil

 "Viver é afinar o instrumento De dentro para fora De fora para dentro"
(Walter Franco, Serra do luar)
A qualquer momento, pode acontecer o encontro com o divino.

Ou melhor, o lembrar-se de quem somos.

O compreender que não há dentro e fora.

Que não há ontem, hoje e amanhã.

Enquanto isso, brincamos de esconde-esconde.

Pena que, muitas vezes, procuramos no lugar errado.

E sem saber o que queremos encontrar.

Ciente disso, a natureza, repleta de compaixão, espalhou várias metáforas...


[Amonite, Museu de História Natural, Veneza — Itália]
[Foto de minha autoria. 08 de março de 2013]

NÃO HÁ LUGAR PARA MISÉRIA >> Carla Dias >>

Está frio? Está frio.

Descobre o corpo daquele e daquele e daquele outro, que eles não têm direito de ser neste lugar. Para ser, aqui, é preciso mais do que essa balela de não ter como ser quem seja. É preciso abrilhantar e não mostrar a indecência dessa miséria. E nem adianta dar desculpa, porque se vive onde bandido vive, é bandido também. Tudo da mesma laia.

Espalhe-os, que assim fica mais fácil de esconder a existência deles. Vamos acertar o tom dessa vitrine. Tem de ficar digno de passarela.

Sim, está frio. Inverno nem chegou, mas a conversa fiada se antecipa. Direitos de quem mesmo? Humanos? Esse pandemônio criado para dificultar o trabalho de quem busca o justo, assim como manter tudo lindo, maravilhoso. Vai até ali, enxota aquele outro, que ele está atrapalhando a melhor vista da rua. Esses obstáculos nos fazem gastar tempo, mas vai valer a pena, porque a vitrine vai ficar um luxo só.

Não entendo esse melindre todo. Não era limpeza que eles queriam? Não era polícia prendendo …

COMO PODE UMA HISTÓRIA NUNCA MORRER? >> Clara Braga

Outro dia estava ouvindo a nova música da Celine Dion para o live action do filme A Bela e a Fera e reparei que, na letra, ela faz a seguinte pergunta: como pode uma história nunca morrer?
Essa questão me lembrou de algo que ouvi de uma amiga recentemente. Aparentemente foi um conselho que ela ouviu de um amigo e me pareceu um desses conselhos que mesmo não sendo pra você, você escuta e guarda: um dia, tudo que nós estamos vivendo hoje vai virar história, cabe a nós decidirmos como queremos que essas histórias sejam contadas.
Isso não poderia ser mais verdade. No futuro, hoje será história, o que gostaríamos que falassem de nós? Nossa história será contada como algo positivo ou como um exemplo a nunca ser seguido? Nos orgulhamos de quem somos? Ou melhor, estamos felizes? Afinal, nada pior do que ser lembrado como alguém que conquistou um monte de coisas mas nunca conseguiu o básico, que é ser feliz.
Então aí está, a receita para a história nunca morrer é ter uma mensagem interessante…

MEU SANTO >> Eduardo Loureiro Jr.

Meu santo não tem poder nem partido. Não atende orações desesperadas ou de bom juízo. Não movimenta as forças da natureza, não arquiteta coincidências, não faz milagres nem constrói pontes sobre precipícios. Meu santo não usa trajes e artefatos celestiais para combater seres malignos. Não tem nome, não tem jaculatória, não tem dia — para ele não se imprimem santinhos. Meu santo mal fala comigo. Tampouco intercede junto a mais elevados espíritos. Não tem um plano, uma missão, um desígnio. Não faz estudos bíblicos. Não sabe o caminho até o paraíso.

Meu santo fica comigo, dorme comigo, faz silêncio comigo. Ri quando eu choro e chora de alegria quando eu rio. Deixa que eu enfie um cotonete após outro em meus ouvidos. Meu santo ouve música comigo, faz música comigo. Observa os meus dentes guardados dentro da gengiva e meus caninos incisivos. Deixa que eu cavuque fundo a sujeira em meu umbigo. Meu santo é palpavelmente invisível e visivelmente sumido. Tem outros compromissos. Guarda segred…

ABRINDO O CADERNO AZUL >> Sergio Geia

Tem muita bobagem que não serve pra nada. Corrijo. Serve sim, pois me serviu em algum momento da vida. Talvez não sirva pra você, ou talvez você ache mesmo tudo uma grande bobagem. Ou, talvez, como a mim me serviu um dia e me ajudou a ser o que sou, também possa servir pra você; hoje. Ou, quem sabe, um dia. Olhai os Lírios do Campo é um dos mais bonitos títulos da literatura brasileira. Tenho uma coleção do Veríssimo. Clarissa, O Tempo e o Vento, O Senhor Embaixador, Música ao Longe, mas foi em Olhai os Lírios do Campo que garimpei coisas como “Tinha uma cara inexpressiva, dois olhos apagados e um ar de resignação quase bovino” (quantos você não conhece assim?), ou “Antes de Mussolini e de Stalin, já existiam as estrelas e depois que eles tiverem passado elas ainda continuarão a brilhar”, ou “A morte pode ser um sono sem sonhos ou então a vida é o sonho da morte” (uma das minhas preferidas). Em Helena, obra machadiana de 76, registrei: “Há amores que crescem na ausência e diminuem na p…

MARIALMA, MEU AMOR >> Zoraya Cesar

Querida Filha, razão do meu viver, luz da minha alma, se você está lendo essa carta é porque, por fim, consegui libertá-la. 
Você sempre foi o Amor da minha vida, e agora será, também, o da minha morte. Eu não poderia ser mais afortunado em tê-la trazido ao mundo, e em tê-lo deixado por você. 
Chore por mim, mas não sofra muito. Estava desenganado, só me restariam alguns meses de vida, ao final dos quais ficaria preso a uma cama. Aí, pensei, a ficar acamado e inútil, não seria melhor morrer de uma vez? Já plantei árvore, já escrevi um livro, já tive uma Filha, você, um Anjo que Deus, por descuido, deixou vir à Terra. O que mais posso querer? Decidi que não me agarraria a um fiapo de existência, como um Ebenezer Scrooge ao dinheiro. 
Peço perdão, minha Filha, pela monstruosa mãe que eu te dei. Fui seduzido pela personalidade forte e envolvente daquela sereia maldita. Ela engravidou e, com isso, vi-me obrigado a casar. Em pouco tempo, percebi que havia caído numa armadilha preparada pelo p…

MÚSICA SERTANEJA>>Analu Faria

Só lamento que você não tenha um cobertor de orelha, um alguém para te esquentar. Nas noites frias, eu tenho. Por você, eu só lamento.  Que pena você não ter um chamego, meu bem, que pena...neste friozinho! Que bom seria, não? Eu tenho. E quem está com você?  Você precisa de alguém para chamar de seu, todo mundo precisa. Eu já tenho o meu. Que pena, meu bem, para você, que dó que eu tenho.  ---------- Acho que é isso. Não consigo ir mais longe. Eu queria sim, ah como eu queria, ser compositora de música sertaneja, encarnar de vez o poeta fingidor, escrever umas letras com uns preconceitos enraizados, uns clichês que só funcionam tão bem porque são clichês. 
Como eu queria não problematizar! Não destrinchar discursos, (ó, Deus, eu acabo de começar a estudar "análise do discurso" e pior... em uma pós-graduação! O que estou fazendo da minha vida?), não desvendar ideologias, ah, como eu queria não ter lido o Manifesto Comunista! Como eu queria não saber o que é materialismo dia…

O #1 DE IGOR WILLCOX >> Carla Dias >>

Essa crônica é uma crônica sobre afeto. E sobre nascimento. Sobre a transgressão de realizar em tempos em que fazê-lo anda difícil. Sobre a primeira impressão, quando eu, que confio mais na segunda do que na primeira, fui impressionada assim, na estreia.

Afeto é tendencioso? Completamente. Mas se há algo que sempre me acompanhou é a certeza de que nenhum afeto meu merece confetes gratuitos, um vale-amizade. Os amigos sabem que amizade não nubla meu olhar.

Que fique claro que não é crônica de crítico, porque não vou desfiar um rosário técnico a respeito do que seja. É mergulhada em afeto, daquele que reconhece valor e se emociona por esse valor nascer de alguém por quem se tem amizade.

Tenho amigos que admiro também como artistas. Eles andam por aí, colocando obras no mundo, contradizendo aquela ideia - surrada, resultado da mais pura repetição - de que não há nada de bom sendo criado na música, nas artes plásticas, na literatura, na dramaturgia. Há sim, mas é preciso generosidade no …

SOBRE O TEMPO >> Clara Braga

Não, não gosto de mudanças. Quer dizer, também não é nada assim tão drástico, uma mudança aqui outra ali ou então mudanças que acontecem comigo e com um grupo de pessoas próximas ao mesmo tempo, pra eu ter em quem me apoiar, eu até gosto. Não é um gostar porque faz eu me sentir bem, é um gostar por saber que sair da zona de conforto de vez em quando é importante, mas se fosse bom mesmo as pessoas não chamavam de sair da zona de conforto.
Parece confuso, mas no fundo não é tão confuso assim, eu entendo a importância da mudança, mas tenho dificuldade de lidar com ela, pronto, é basicamente isso. Minha questão principal com mudança sempre foi a questão do tempo. Sempre tive medo de lidar com mudanças que tomassem tanto do meu tempo que eu fosse impedida de fazer as coisas que eu gosto, que me sinto bem fazendo. Eis que esse dia chegou.
Consegui um emprego muito melhor que o anterior em todos os sentidos, melhor plano de carreira, melhor salário, melhores oportunidades para desenvolver p…

OS NAMORADOS >> Albir José Inácio da Silva

DONA ZÉTI
- Mãe, este é Zeca. A gente vai fazer trabalho junto. Tem pesquisa difícil de biologia.
- Prazer, Dona Zéti!
Eu não tive prazer nenhum não. Ele tinha um topete espetado, brilhante e era cheiroso de perfume. Isso lá é preciso pra fazer trabalho algum? E que roupa era aquela? Cumprimentei com a cabeça, só avaliando a figura.
Já espantei meia dúzia de moleques que se achegavam pro lado de Maria Eduarda. As vizinhas diziam “não adianta, comadre, essa idade é assim mesmo”. Mas comigo não tinha disso não. Bastava eu, que tinha engravidado aos quinze, Maria Eduarda tinha quem cuidasse.
Não saí da sala, fingindo que costurava, enquanto eles ficavam ali falando coisas esquisitas, até que se cansaram.
- Boa noite! – disse o cheiroso, forçando simpatia.
- Boa noite – respondi, econômica.
Mãe não desconfia à toa. Passados alguns dias e outras pesquisas, que eu nunca vi tanto trabalho de escola de repente, Duda falou:
- Mãe, eu e Zeca, a gente tá namorando.
Aquele garoto era tudo que eu…

Quando ele vai sair? >> Cristiana Moura

—Ele já saiu?
— Ainda não, Dudu.
— E quando é que ele sai?
— Daqui há um pouco.

Luís Eduardo espera ansiosamente  a chegada do primo. Mais um para brincar! Carrego comigo a impressão de que ficará frustrado com o pequenino ser que come, dorme e tem as fraldas trocadas de quando em quando. Apenas.

O primo de Luís Eduardo é meu neto e a proximidade de ser avó aos 45 anos o que parecia-me cedo, por vezes acelera-me o coração e rouba-me um tanto de ar.

Avó — avó — avó. Preciso repetir muitas vezes, Tenho a equivocada impressão de ser uns 10 anos mais nova e uma certa prisão nestes estereótipos de idade que já não nos cabem mais. Ai, ai... (suspiro). Por certo espero o pequenino Miguel Caetano com mais ansiedade que o nosso Dudu.

Também intrigo-me com sentimentos invasores. Algum de vocês me explique por favor. Como é possível já amar tanto um projeto de gente que mora na barriga de outra mulher? É amor leve como carícia em brisa, é denso como amor em dobro.

— Dudu, Miguel sai em breve.

J…

INVERNO >> Paulo Meireles Barguil

 As folhas e os beijos, há muito, se foram...

Só restam tronco e galhos, lá e aqui.

A névoa é intensa, fora e dentro.

Os bancos, outrora disputados, estão cheios de vazio.

O andarilho, acordado, sonha que será um dançarino na primavera.

Ignora que as flores estão esperando por ele...


[Cernobbio — Itália]
[Foto de minha autoria. 07 de março de 2013]

UM POUCO DE RECONHECIMENTO >> Clara Braga

Ele entrou na minha sala sem obrigação alguma, não precisava me dar nenhum recado nem passar qualquer informação a pedido de ninguém. Ele estava passando e viu pela porta aberta uma pessoa desconhecida, imaginou ser uma novata e decidiu algo raro nos dias de hoje: ser gentil e desejar boas vindas. Entrou com um sorriso no rosto e foi logo perguntando:
- Você é professora nova aqui na escola?
- Sim!
- Poxa, seja muito bem vinda.
Eu agradeci e, um pouco sem graça devido à minha pouca habilidade social, perguntei se ele também trabalhava na escola. Era óbvio que ele trabalhava, mas sabe como é, fiz uma pergunta assim sem jeito só para não ser antipática. Mas, foi nesse momento que me surpreendi com o relato dele.
O simpático senhor é funcionário da escola tem uns anos e seus dois filhos são alunos, mas sua história com a escola é antiga, começou muito antes disso. Ele foi aluno lá, se formou não tem muito tempo em uma turma específica para adultos. Como vem de família humilde não teve o…

AS MUSAS E O RELOJOEIRO >> André Ferrer

Tanta festa para as musas: seus caprichos e seu trabalho de obsedar o escritor! Se não bastassem os rótulos de todo o sempre: o escritor é solitário, “gauche”, espião dos deuses... Uma bobagem despropositada! A não ser, claro, que o amadorismo baste.
Escrita é um trabalho tão lógico quanto compor músicas. Redigir textos e partituras depende de planejamento e trabalho. Nenhuma entidade virá de outra dimensão a fim de salvar o artista bloqueado. Então, não há mágica? Para o autor, jamais. A mágica só deve existir para quem lê o romance ou para quem escuta a sinfonia.
Todo artista verdadeiro é um ilusionista consciente da ilusão que cria. Fazer arte é fingir uma facilidade. Esconder do público todas as horas de trabalho árduo. Cada cálculo e cada gota de suor devem ficar do outro lado de um véu de naturalidade e habilidade performática. Então, um artista competente deve simular misticismos e nunca ser um místico. Deve ser um vórtice que não se deixa levar pelo próprio empuxo. Do contrário…

UM CADERNO AZUL >> Sergio Geia

Em Foe (Foe, J.M. Coetzee, 1ª ed., São Paulo, Companhia das Letras, 2016), Susan Barton, náufraga, vivendo numa ilha deserta, na companhia de Cruso e Sexta-feira, num certo momento de sua monótona e triste vida, aconselha Cruso a fazer algum tipo de registro daqueles anos de naufrágio na ilha: “O senhor não lamentaria não poder levar consigo algum registro dos seus anos de naufrágio, de forma que o que passou não desapareça da memória? E se nunca formos salvos, mas perecermos um a um, como pode acontecer, não gostaria de deixar um registro, de forma que outros viajantes que porventura venham dar aqui, sejam quem forem, possam ler e saber de nós e talvez derramar uma lágrima?” Cruso não era de registrar nada, mas a passagem me fez lembrar que há muitos anos eu tinha o costume de registrar num caderno tudo o que lia, e, principalmente, alguma coisa que me chamava a atenção. Normalmente, anotava o título do livro, a data em que terminei a leitura, um resumo da história (quando não tinha pr…

A LÂMPADA NUM DIA DE CHUVA >> Zoraya Cesar

A chuva caía pesada e fina, cortante como navalhas, machucando o rosto do rapaz. Ele andava distraído, cabeça baixa, as mãos enfiadas nos bolsos, o casaco mais cinza e gasto que o tempo; seu ânimo, tão desconsolado como o do cachorro magro e abandonado, que olhava assustado as pernas que passavam, espremido debaixo da marquise estreita.
Um carro não o atropelou por muito pouco e jogou lama em suas calças.
Ele continuou andando, indiferente, tanto se lhe dava ter um carro passando por cima de seu corpo, a lama na roupa. Atravessou a rua, esbarrando nas pessoas, e, de repente, parou, um pouco aturdido, onde estava mesmo? Olhou em volta, sem ver coisa alguma realmente, o cérebro já embotado de apatia e chuva. 
Uma claridade quente e suave chamou sua atenção. Estava em frente a uma loja. Não se lembrava de já tê-la visto alguma vez. A porta, estreita, era de madeira pintada de azul. Uma grande janela encimava um canteiro de urzes viçosas, que dividiam harmoniosamente o espaço com gerânios …

INSENSÍVEL, VOCÊ DIZ>>Analu Faria

No meio da briga, Maria reza em vez de sair de se afastar. Me dá uma gastura!...
_ Nossa, como você é insensível!
João acredita que a função do pensamento positivo é blindá-lo de todo o mal. João muda o discurso para "o importante é ter fé" quando algum mal o acomete. Me dá um nó nas ideias!..

 _ Nossa, como você é insensível!
José vai à missa cinco vezes por semana e pede a Deus por uma vaga em concurso público. Fosse à igreja uma vez apenas, teria mais umas oito horas livres para estudar. Me dá nos nervos!...
_ Nossa, como você é insensível!
Às vésperas de fazer o Caminho de Santiago de Compostela, a colega me dá um terço para "proteção". Não recuso, por educação, mas digo que não dá para levar. "Não é uma viagem religiosa, mas eu te agradeço muito. Fico com ele para depois." Quase ouço um "Nossa, como você é insensível". Para evitar mais uma dessas, tento um remendo: "Sabe, o peso da mochila é contado..." A expressão da colega muda…

ESCRAVISMO CONTEMPORÂNEO >> Carla Dias >>

Não se preocupe, eu lhe darei moradia e alimento, pois quem tem isso, o que mais pode querer? Não é para isso que as pessoas existem? Morar e comer?

Não vai lhe faltar aquele ensopado de sobras dos que jamais se alimentariam de sobras, tampouco aquela cama num canto qualquer, no qual descansar seu corpo, depois daquelas horas todas trabalhando para comer o que outros não comeriam. Dormir onde muitos nem sequer se encostariam.

Não é o que você almeja?

Veja bem, já ouvi muitos dizerem que presidiário é mais bem servido que vocês. Isso eu posso resolver, e sem o horror de colocá-lo atrás das grades.

Eu lhe darei moradia e alimento, vou cuidar de você. Em contrapartida, você será meu empregado, nas condições que eu oferecer, que não estou nesse mundo para dar moradia e alimento a vagabundo, que sou justo, e isso nem se discute. Que isso fique bem claro.

Então, nada de fazer corpo mole, exigir o que não está no contrato, mencionar siglas de instituições que você nem mesmo conhece, que alg…

BICHOS >> Albir José Inácio da Silva

Alguns tinham nomes como Barrosa e Veluda - vacas sagradas e paparicadas por todos. Até vizinhos deixavam seus afazeres para tangê-las de volta ou pelo menos dizer onde estavam.
Cavalos também tinham nomes e eram tratados como filhos, quase avatares de seus donos. Mais que filhos – dizia meu pai, referindo-se a alguns vizinhos e querendo enfatizar que para ele só os filhos importavam. De qualquer modo, nosso potro Russinho tinha sua ração diária de afagos, banhos e toalete.
Cabritos não tinham nomes, mas eram ajudados nos partos e nas doenças. Cães a um tempo protegiam e reprimiam essa espécie, como policiais.
Os cães tinham nomes, mas não mereciam atenção maior que serem chamados por esses nomes, o que já era distinção num mundo de anônimos. Alguns se destacavam pela bravura, recebiam elogios e até um carinho displicente.
Gatos eram batizados pelas crianças, mas os adultos continuavam a chamá-los de gatos. A eles era permitido estar ali como se não estivessem.
Diferentemente de outr…