quarta-feira, 31 de maio de 2017

CONFIDÊNCIAS AO DIÁRIO... >> Carla Dias >>


Descasquei uma laranja que tinha a casca tão verde quanto a blusa que eu vestia. Foi um frenesi que surpreendeu meu olhar acostumado a reconhecer combinações no improvável conduzido pelas asperezas.

O sabor não era o mesmo que minha alma vem ruminando. A laranja estava doce, deleitável.

Compartilhei da companhia do silêncio para apreciar tempo. Foram sete minutos de tentativa de meditação. Mas quem consegue meditar quando se tem uma mente dedicada aos pensamentos gritantes? Nem sempre corteses, tampouco lineares, raramente esclarecedores. Depois de sete minutos, senti-me contagiada por um cansaço e seus fiapos de ironia. Eu sabia que deveria evitar contato, declarar fuga e sair do recinto, onde se contorciam as tentativas vãs. Porém, se há alguém que se permite seduzir com facilidade por dores e horrores, esse alguém é eu.

Esparramei-me, então, por sete horas de abandono.

Minha biblioteca de tentativas vãs disputa espaço com a coleção de amores que não vingaram, de fantasmas de filhos nunca gerados, de listas de projetos que nunca saíram do papel, do .docx, do anonimato. Esse cômodo localizado sabe-se lá em qual parte das minhas partes, porque há dias em que tudo dói em uníssono. Lugar de fácil acesso, quando perco o prumo.

Cortei o dedo com estilete, enquanto brincava de ter talento para o artesanato. O sangue jorrou vivo de lá, daquele corte miúdo, mas detentor do escândalo; daquele acostumado a prolongar tragédias. Ardeu, doeu, mas ainda assim, lá se foram alguns minutos gastos na observação.

O vermelho brotando me deixou assim, perplexa e hipnotizada.

Enquanto assistia a um filme antigo, desses feitos para amansar coração de mulheres agoniadas, pensava nas coisas que deixei de fazer e me levaram a me tornar coadjuvante na minha própria história. Não sei como aconteceu, mas dois barracos, uma e outra traição e três comerciais depois, o filme se mostrou incapaz de até mesmo prender minha atenção. Meu coração já estava em outras paragens, sofrendo de taquicardia provocada pela agonia que o filme não teve sucesso em amansar.

Passei três horas, vinte e sete minutos e quatro segundos em um evento social. Jantar com amigos que não são amigos são colegas e são porque há algo que posso oferecer a eles e outros algos que eles podem me oferecer. Uma troca de cortesia falseada, em nome do progresso profissional.

Caminhar é meu exercício preferido. Depois de observar paisagens, preferido. A noite estava morna, enquanto eu caminhava. Voltar para casa também é um exercício preferido. No meio do caminho, alguém esbarrou em mim e se desculpou. Eu gostei da voz e da gentileza. Acenei com a cabeça, virei-me e segui meu rumo, pensando que, apesar de ser uma dessas delícias que a nossa alma agradece experimentar, a gentileza não deveria ser encarada como exceção à bestial regra que rege as nossas buscas. Não deveríamos senti-la como se tivéssemos recebido uma bênção. Um melindre luxurioso que eriça nossa solidão a ponto de desejarmos não mais sair de perto de quem, por ocasião do acaso, dedicou-nos um naco de gentileza.

Gentileza, sua menina descabida.

Fiz um concerto de choro desatado, outra tentativa, mas dessa vez de me separar de saudade infindável. O que é infindável me assusta, amor ou ódio, seja da laia dos afetos ou das discórdias. O infindável me assusta com suas cortesias maculadas, suas armadilhas adocicadas.

Acreditem, crianças, quando suas mães dizem que o doce faz mal. Lembrem-se: faz mal e não somente aos dentes.

Imagem: O que com sola © Giorgio de Chirico

carladias.com



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terça-feira, 30 de maio de 2017

PRAZER, CLARA OU BRANCA OU ANA, VOCÊ ESCOLHE! >> Clara Braga

Confesso, já tive problemas em aceitar meu nome. Problemas em aceitar Clara? Você deve estar se perguntando como isso foi acontecer, afinal, Clara vem de claridade, de paz, de serenidade e tudo mais que você possa imaginar nesse sentido. Mas sim, a pré adolescência é um período maldoso e faz muitas pessoas não gostarem do seu próprio nome.

Tenho consciência de que o meu caso não é dos piores, mas ouvir as pessoas te perguntando onde está a gema ou respondendo “claro, Clara” toda vez que você pergunta algo não é muito legal. Pior do que isso era só ouvir as pessoas cantando “Clara como a luz do sol...” toda vez que eu chegava em algum lugar, cheguei ao ponto de proibir um DJ de tocar essa música em um aniversário meu, se não ela tocaria de 5 em 5 minutos.

Mas como eu disse, foi uma fase. Superei e, apesar de ainda ouvir algumas piadas, afinal, trabalho com crianças e adolescentes, aprendi a dar um sorriso amarelo e ignorar. O problema é que essa questão foi substituída por uma nova fase, que é a fase da vergonha de concertar as pessoas que falam meu nome errado. Poxa, Clara não é um nome complicado, não era para ser tão difícil decorar ou entender. A primeira vez eu até tento concertar:
-       Qual seu nome?
-       Clara!
-       Carla?
-       Não, Clara!
-       Tá certo Carla, vamos lá então, vou passar o seu treino.

Foi assim que virei Carla na academia.

Tiveram também dois casos recentes no meu novo emprego. O primeiro foi assim:
-       Oi, você é nova por aqui?
-       Sim, comecei agora.
-       Legal, qual o seu nome?
-       Clara!
-       Bonito nome, prazer!
No dia seguinte:
-       Bom dia, tudo bem?
-       Bom dia, tudo certo e você?
-    Tudo bem! Sabe que ontem fiquei pensando em um jeito de decorar seu nome e cheguei a conclusão de que é só olhar pra cor da sua pele, então não vou mais esquecer seu nome: Branca!

Foi assim que virei Branca na escola. O problema é que teve também o segundo caso:
-       Oi! Você está no lugar da Ana?
-       Isso!
-       Seja bem vinda, qual seu nome?
-       Clara!
-       Prazer Clara!
No dia seguinte:
-       Bom dia Ana, é Ana né?
-       Não, Ana era a professora anterior, meu nome é Clara!
-       Ah é verdade, confundi, desculpa!
Minutos depois:
-       Eai Ana, está gostando da escola?

Foi assim que virei as vezes Branca, as vezes Ana e poucas vezes Clara no meu novo trabalho!

Juro que pensei em concertar, mas algo dentro de mim é mais forte e não me permite fazer isso, não sei, sei que é besteira, mas não consigo... Mas espero que não inventem mais nenhum nome pra mim, já está difícil de lembrar que quando falam Clara, Branca ou Ana é comigo que estão falando. Daqui a pouco entro em crise de identidade.



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segunda-feira, 29 de maio de 2017

OS NAMORADOS - final >> Albir José Inácio da Silva

(Continuação de 15/05/17)
Tive um pequeno susto quando se desviaram da rota, mas foi só para comprar balas e amendoins, que de fato custam uma fortuna no cinema. Ajuizado esse Pedro. Entraram para assistir uma comédia romântica e eu relaxei. Fui pra casa com a sensação de dever cumprido. A prosperar esse namoro, terei dias de paz.

MARIA EDUARDA

Aquela que vem ali meio escondida é minha mãe. Pensa que não sei que está ali e, só de maldade, já me virei de repente duas vezes. Ela foi obrigada a se abaixar ridiculamente atrás dos carros estacionados.

Tem sido assim por todos os meus quatorze anos, ela acha que controla até minha respiração e eu finjo que sim. Começou com uma bronquitezinha alérgica com que nasci e a deixava histérica por mais que os médicos tentassem acalmá-la. Como veem, sua preocupação é por vezes legítima mesmo exagerada.

Parte dessa neura é culpa do meu pai que exigiu dela, antes de morrer, uma vigilância de dobermann sobre mim. Logo ele, que a engravidou aos quinze e distribuía seu salário entre pensões alimentícias e outras despesas extraconjugais menos nobres. Mas morreu e nos deixou esse peso, vigiar e ser vigiada. Íamos vivendo nem mais felizes nem menos infelizes que ninguém, até que o Zeca chegou na escola.

Eu tentei fazer a coisa certa, inventei trabalho de escola e, depois de um tempo, pedi pra namorar. Alguém ainda pede permissão pra namorar? Eu pedi.

Mas não teve jeito. Ela cismou com o garoto como se ele tivesse o diabo no couro. Ficava espionando a gente e, um dia, expulsou Zeca debaixo de cabo de vassoura.

Lá estava eu trancada, vigiada e solitária, quando apareceu o Pedro.

Pedro era o contrário do Zeca. Voz pausada, sorriso tranquilo, observador, não economizava elogios, falava da mãe e das festas de família. Acho que minha mãe gostou mais dele do que eu. Eram intermináveis as conversas dos dois. Mas, ainda assim, Dona Zéti não descuidava.  Vigilância para ela era sinônimo de maternidade.

Vejo agora pelo espelho que ela está conferindo o cartaz do filme. Parece satisfeita com a doce Meg Ryan e já pode voltar pra casa. Eu e Pedro sentamos na parte de trás do cinema. Meu coração aos pulos, apesar do filme xarope.

                                                                            PEDRO

Louca essa Dona Zéti, mas divertida. Quem ainda segue filha pelas ruas? Quem ainda acha que pode tomar conta de alguém? Ela.

Mas Duda vale o sacrifício. Um amor de garota. Por Duda tenho aguentado conversas intermináveis e vigilância de cão de guarda. E olha que a mãe gostou de mim. Imagina se não gostasse.

Sentamos na última fileira e eu levei um susto quando Duda pegou minha mão e colocou no peito.

- Sinta - disse baixinho.

- Eu também estou ansioso - respondi.

Finalmente eles entraram. Um de cada lado.

                                                                              ZECA

Aquela jararaca seguiu Duda até a porta do cinema. Há mais de um mês que só vejo a mina de longe.

Meus olhos custaram a se habituar à escuridão, mas lá estão eles.

Sigo pela esquerda e Carlão pelo corredor do meio. Carlão já estava nesta história, mas vocês não sabiam.


Beijo Duda, e Pedro beija Carlão.


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sexta-feira, 26 de maio de 2017

METÁFORAS >> Paulo Meireles Barguil


"Viver é afinar o instrumento
De dentro para fora
De fora para dentro"
(Walter Franco, Serra do luar)

A qualquer momento, pode acontecer o encontro com o divino.

Ou melhor, o lembrar-se de quem somos.

O compreender que não há dentro e fora.

Que não há ontem, hoje e amanhã.

Enquanto isso, brincamos de esconde-esconde.

Pena que, muitas vezes, procuramos no lugar errado.

E sem saber o que queremos encontrar.

Ciente disso, a natureza, repleta de compaixão, espalhou várias metáforas...


[Amonite, Museu de História Natural, Veneza — Itália]
 
[Foto de minha autoria. 08 de março de 2013]


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quarta-feira, 24 de maio de 2017

NÃO HÁ LUGAR PARA MISÉRIA >> Carla Dias >>


Está frio? Está frio.

Descobre o corpo daquele e daquele e daquele outro, que eles não têm direito de ser neste lugar. Para ser, aqui, é preciso mais do que essa balela de não ter como ser quem seja. É preciso abrilhantar e não mostrar a indecência dessa miséria. E nem adianta dar desculpa, porque se vive onde bandido vive, é bandido também. Tudo da mesma laia.

Espalhe-os, que assim fica mais fácil de esconder a existência deles. Vamos acertar o tom dessa vitrine. Tem de ficar digno de passarela.

Sim, está frio. Inverno nem chegou, mas a conversa fiada se antecipa. Direitos de quem mesmo? Humanos? Esse pandemônio criado para dificultar o trabalho de quem busca o justo, assim como manter tudo lindo, maravilhoso. Vai até ali, enxota aquele outro, que ele está atrapalhando a melhor vista da rua. Esses obstáculos nos fazem gastar tempo, mas vai valer a pena, porque a vitrine vai ficar um luxo só.

Não entendo esse melindre todo. Não era limpeza que eles queriam? Não era polícia prendendo bandido? Nem tente me convencer de que entre eles há inocentes, porque todo mundo tem chance nessa vida. A meritocracia está aí para provar isso. Faça com ela o que bem entender e aceite as consequências. Essas figuras aqui escolheram seu destino.

Tire aquela criança catarrenta dali, porque pode ofender os novos transeuntes. Criança catarrenta não combina com nossa campanha publicitária. Criança catarrenta e pretinha, então, é escolher jogar dinheiro fora. Tem a ver com racismo, não, viu? Nem tente botar culpa. É uma questão de público-alvo. É preocupação legítima.

Pede para a senhora ali conter o grito? Será que ela não vê que estamos trabalhando para tornar este um lugar digno? Lugar precisa de chance de se tornar digno, minha senhora. Portanto, deixe-nos trabalhar e trazer requinte para esse espaço, antes ocupado por desocupados e bandidos. O lugar merece tal cuidado.

Requinte é item da cesta básica social, não vê? Pense bem... As cidades mais lindas desse mundo são requintadas. Traremos para cá o melhor do melhor, o manjar. Só que, antes do trabalho árduo de deixar este lugar uma beleza, digno de recepcionar políticos, líderes religiosos e celebridades, precisamos que a senhora cale seu grito, porque ele é muito injusto. É claro que pensamos nas pessoas como a senhora. Óbvio que trabalhamos para pessoas como a senhora. Mas o problema é da senhora, quando se trata de não ter para onde ir. Veja bem, o espaço é público, só que não para a miséria. A miséria que a senhora carrega é letal para a evolução que planejamos para esse lugar. E os hotéis? Ah, serão cinco estrelas.

Está frio, a senhora está certa. Vou para casa me esquentar com um chocolate quente.

Como? Ah, não... Tenho nada a ver com o fato de a senhora não ter chocolate quente em casa. Oi? Ah, também não tenho nada a ver com a senhora não ter casa ou para onde ir. O que sei é que essa vitrine tem de ficar deslumbrante. Então, retire-se, minha senhora, que a sua miséria, eu já disse, não cabe mais neste lugar.

Imagem: Las Parcas © Francisco de Goya



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terça-feira, 23 de maio de 2017

COMO PODE UMA HISTÓRIA NUNCA MORRER? >> Clara Braga

Outro dia estava ouvindo a nova música da Celine Dion para o live action do filme A Bela e a Fera e reparei que, na letra, ela faz a seguinte pergunta: como pode uma história nunca morrer?

Essa questão me lembrou de algo que ouvi de uma amiga recentemente. Aparentemente foi um conselho que ela ouviu de um amigo e me pareceu um desses conselhos que mesmo não sendo pra você, você escuta e guarda: um dia, tudo que nós estamos vivendo hoje vai virar história, cabe a nós decidirmos como queremos que essas histórias sejam contadas.

Isso não poderia ser mais verdade. No futuro, hoje será história, o que gostaríamos que falassem de nós? Nossa história será contada como algo positivo ou como um exemplo a nunca ser seguido? Nos orgulhamos de quem somos? Ou melhor, estamos felizes? Afinal, nada pior do que ser lembrado como alguém que conquistou um monte de coisas mas nunca conseguiu o básico, que é ser feliz.

Então aí está, a receita para a história nunca morrer é ter uma mensagem interessante para ser passada, se for significativa de alguma forma, então ela emocionará e será imortal.

Bom, isso me fez pensar que talvez a gente esteja sendo um pouco injusto com os clássicos da Disney ultimamente. Se gostamos tanto de reviver esses filmes que fizeram parte da nossa infância, se eles estão sendo refilmados e novamente lotando salas de cinema, eles devem ter uma mensagem significativa para passar.

Não, eu não estou dizendo que devemos ensinar às crianças que elas devem esperar o príncipe do cavalo branco. Concordo que as novas mulheres poderosas da Disney têm uma mensagem extremamente importante para as crianças de hoje, mas também não tinha a Bela? Ela gostava de ler, sabia que existia um mundo muito maior para ser explorado do que aquele no qual ela vivia, salvou seu pai sozinha, enfrentou toda sua vila para salvar a Fera e se apaixonou sem se preocupar com aparências.

E se pensarmos na Pocachontas? Uma índia que não se casou com quem seu pai queria, curiosa, exploradora, independente a ponto de incomodar os homens da aldeia e que, no final, não abandonou sua família por causa de seu amor.

Jasmine também escolheu seu amor deixando de lado o status que seu pai desejava, a Ariel não se contentava com o fundo do mar e questionava seu pai, enfim, acho que cada uma foi uma mulher poderosa dentro de seu contexto.

Claro, têm coisas um pouco antiquadas nas histórias? Tem, assim como talvez no futuro a gente ache coisas antiquadas nas histórias de hoje! Mas no final, quando tudo virou apenas história, o que ficou para ser contado?


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domingo, 21 de maio de 2017

MEU SANTO >> Eduardo Loureiro Jr.

Albrecht Dürer, "Melancolia I"
Albrecht Dürer, "Melancolia I"
Meu santo não tem poder nem partido. Não atende orações desesperadas ou de bom juízo. Não movimenta as forças da natureza, não arquiteta coincidências, não faz milagres nem constrói pontes sobre precipícios. Meu santo não usa trajes e artefatos celestiais para combater seres malignos. Não tem nome, não tem jaculatória, não tem dia — para ele não se imprimem santinhos. Meu santo mal fala comigo. Tampouco intercede junto a mais elevados espíritos. Não tem um plano, uma missão, um desígnio. Não faz estudos bíblicos. Não sabe o caminho até o paraíso.

Meu santo fica comigo, dorme comigo, faz silêncio comigo. Ri quando eu choro e chora de alegria quando eu rio. Deixa que eu enfie um cotonete após outro em meus ouvidos. Meu santo ouve música comigo, faz música comigo. Observa os meus dentes guardados dentro da gengiva e meus caninos incisivos. Deixa que eu cavuque fundo a sujeira em meu umbigo. Meu santo é palpavelmente invisível e visivelmente sumido. Tem outros compromissos. Guarda segredos, coleciona sigilos. Tem seus amigos e inimigos. Meu santo é preguiçoso junto comigo, ou obsessivo. Jejua por diversão e come escondido. Às vezes troca de lugar comigo. Vai onde não quero ir, desde que lhe pareça propício. Meu santo fala besteiras a que dou ouvidos e resmunga conselhos que eu não sigo. Lembra de cada detalhe de tudo que tenho vivido, e tem preferências explícitas por este ou aquele período. Meu santo tem a unha esfolada, o joelho ralado, o braço quebrado, o  cabelo assanhado, o traje puído... Meu santo é caído e recaído. É impreciso. Nem pensa naquilo. Não quer litígios. Deixa por isso.

Meu santo não é culpado nem cupido.

Meu santo sou eu: encarnado e esculpido, escarrado e cuspido, inspirado e escrito.

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sábado, 20 de maio de 2017

ABRINDO O CADERNO AZUL >> Sergio Geia

 

Tem muita bobagem que não serve pra nada. Corrijo. Serve sim, pois me serviu em algum momento da vida. Talvez não sirva pra você, ou talvez você ache mesmo tudo uma grande bobagem. Ou, talvez, como a mim me serviu um dia e me ajudou a ser o que sou, também possa servir pra você; hoje. Ou, quem sabe, um dia.
Olhai os Lírios do Campo é um dos mais bonitos títulos da literatura brasileira. Tenho uma coleção do Veríssimo. Clarissa, O Tempo e o Vento, O Senhor Embaixador, Música ao Longe, mas foi em Olhai os Lírios do Campo que garimpei coisas como “Tinha uma cara inexpressiva, dois olhos apagados e um ar de resignação quase bovino” (quantos você não conhece assim?), ou “Antes de Mussolini e de Stalin, já existiam as estrelas e depois que eles tiverem passado elas ainda continuarão a brilhar”, ou “A morte pode ser um sono sem sonhos ou então a vida é o sonho da morte” (uma das minhas preferidas).
Em Helena, obra machadiana de 76, registrei: “Há amores que crescem na ausência e diminuem na presença” (que verdade!), ou “A prece é a escada misteriosa de Jacó: por ela sobem os pensamentos ao céu; por ela descem as divinas consolações”.  Duas ideias realmente verdadeiras se a gente pensar um pouco na força da oração, e no “amor” de muitos.
Quando tenho problemas na vida, sempre me vem à cabeça Lya Luft, em Perdas e Danos: “É tragédia ou é apenas chateação?”. Quase sempre é chateação, e tudo fica mais fácil de resolver. Quando fico pensando na vida, no passar do tempo, lembro que “Viver deveria ser transformar-se”, e que “Amadurecer deveria ser requintar-se na busca da simplicidade”. A simplicidade, depois de Lya, se tornou o meu norte. A simplicidade é o requinte do espírito. Não gosto de “A feira começa cheia de flores e frutas perfumadas e termina com lama de restos de peixe a feder. Assim é o amor”, de Fernanda Young, em Vergonha dos Pés, embora, em muitos casos, a coisa seja exatamente assim. Eu ainda sinto o cheiro das frutas perfumadas. Gosto da poesia de “Flocos de seda branca corriam pelo azul-turquesa do céu de verão”, de Oscar Wilde, em O retrato de Dorian Gray, um livro que é um monumento.
Em Quincas Borba tem uma frase deliciosa que sempre uso em momentos específicos, um deles, por exemplo, outro dia, quando o Palmeiras perdeu pro Corinthians: “Às vezes o que parece desgraça é felicidade”.  Pois digo que o contrário também é verdadeiro: “Às vezes o que parece felicidade é desgraça.” Dois exemplos. A Isabelle Drummond queria ser a Narizinho, mas decorou o texto errado e acabou virando a Emília. Graças à boneca sua vida profissional seguiu um rumo que, talvez, tivesse sido diferente caso virasse a Narizinho. Ela mesma tem essa impressão. Quantos casos a imprensa já noticiou de tragédias na vida de ganhadores da Mega-Sena?
Agora, somente Clarice é capaz de dizer certas coisas, como esta em Perto do Coração Selvagem: “Perco a consciência, mas não importa, encontro a maior serenidade na alucinação. É curioso como não sei dizer quem sou. Quer dizer, sei-o bem, mas não posso dizer. Sobretudo tenho medo de dizer, porque no momento que tento falar não só não exprimo o que sinto como o que sinto se transforma lentamente no que eu digo. Ou pelo menos o que me faz agir não é o que eu sinto mas o que eu digo”.
E estas, ditas numa entrevista para o programa Panorama, da TV Cultura, em 77: “Eu não sou uma profissional, eu só escrevo quando eu quero. Eu sou uma amadora e faço questão de continuar sendo amadora. Profissional é aquele que tem uma obrigação consigo mesmo de escrever ou com relação ao outro; eu faço questão de não ser uma profissional para manter minha liberdade”, “Tenho períodos de produção intensa e hiatos em que a vida se torna intolerável”, “O adulto é triste e solitário”, “Quando não escrevo eu estou morta”.
Maravilhoso, não?


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sexta-feira, 19 de maio de 2017

MARIALMA, MEU AMOR >> Zoraya Cesar

Querida Filha, razão do meu viver, luz da minha alma, se você está lendo essa carta é porque, por fim, consegui libertá-la. 

Você sempre foi o Amor da minha vida, e agora será, também, o da minha morte. Eu não poderia ser mais afortunado em tê-la trazido ao mundo, e em tê-lo deixado por você. 

Chore por mim, mas não sofra muito. Estava desenganado, só me restariam alguns meses de vida, ao final dos quais ficaria preso a uma cama. Aí, pensei, a ficar acamado e inútil, não seria melhor morrer de uma vez? Já plantei árvore, já escrevi um livro, já tive uma Filha, você, um Anjo que Deus, por descuido, deixou vir à Terra. O que mais posso querer? Decidi que não me agarraria a um fiapo de existência, como um Ebenezer Scrooge ao dinheiro. 

Peço perdão, minha Filha, pela monstruosa mãe que eu te dei. Fui seduzido pela personalidade forte e envolvente daquela sereia maldita. Ela engravidou e, com isso, vi-me obrigado a casar. Em pouco tempo, percebi que havia caído numa armadilha preparada pelo próprio Asmodeu. Sua mãe - como você bem sabe por dolorosa experiência própria – tinha por missão na Terra infernizar, maltratar, humilhar a existência de todos os que estavam sob seu poder. E aquela enviada do demo disfarçava tão bem que o resto do mundo acreditava que ela era a essência dos anjos em forma de gente. Essência dos anjos caídos, isso sim. Nós que o digamos, né minha Filha?

Querida Marialma, carrego a culpa de não ter evitado que aquela nauseabunda tratasse a própria filha feito um pano de chão, com todo o descaso e perversidade de que era capaz. E como era capaz! Sei o quanto você sofria, mas eu, fraco, sempre trabalhando muito, pouco pude fazer. Me perdoe. 

Até pensei em me separar, mas temi perder sua guarda. A pestilenta conseguiria convencer até um frade de pedra que ela era uma mãe maravilhosa, que você era perturbada e mentirosa, e, eu, um crápula, desamoroso e desleixado, que mal parava em casa por conta do trabalho. Ademais, ela ameaçou mudar de país, sumir com você... Acredite, ela faria isso. Como suportar ver o sangue do meu sangue, a pessoa mais importante da minha vida, completamente à falta de mercê daquela emissária do Hades? Jamais! 

O mundo pensa que somos uma família normal e feliz. E, seguindo nossa farsa, estamos aqui, nas Cataratas do Niágara, por exigência da lazarenta - nunca tive forças para enfrentá-la, infelizmente. Esperava que você completasse 16 anos para poder me separar e levar você comigo. Mas a gravidade da minha doença me surpreendeu antes.

Sei que, depois de morto, a situação vai piorar. Ela vai te infernizar ainda mais a existência, com seu bafo pútrido de enxofre que a tudo empesteia. Vai ficar com todos os meus bens e gastar tua herança, te deixar na pobreza. Aquela jararaca é capaz de tudo. 

Por isso, minha Doce Filha, vou aproveitar o passeio que faremos às Cataratas para matar a nós dois, a mim e àquela desnaturada (que nunca, jamais, soube o significado da maternidade, zarapelha dos infernos). Diluí na garrafa de água que ela sempre leva nos passeios o sonífero que toma para dormir. Quando chegarmos às Cataratas ela já estará grogue. Será fácil jogá-la lá de cima, tanto mais que estaremos agarrados - como se eu a estivesse segurando, tudo parecerá um terrível acidente. Não se preocupe, minha Filha, a doença não me deixa sentir dor e, sendo paraquedista, altura é algo que não me mete medo. 

Eu ia morrer, mas não ia deixar minha Filha nas mãos
daquela megera desalmada.
Eu ia morrer. Mas minha mulher ia comigo.
Não se preocupe com nada, Filha de minha Alma. Arranjei tudo. Você vai ficar com sua Tia Hope, que te ama demais e sempre me criticou por não tomar uma atitude de macho.  

Minha Princesa, esse seu velho pai nunca te pediu nada, mas imploro que, se você, como sua Tia, virar espírita, por favor, nunca peça para eu baixar em algum terreiro. Quero descansar em paz. Se quisesse trato com os vivos não teria morrido. De onde quer que eu esteja, estarei velando por você. E cuidando que aquela vaca nunca mais te perturbe.

Seja feliz, minha Filha, Marialma, meu Amor, agora livre daquela cramulhona que nunca foi mãe na vida.

Com Amor, seu Pai.



Foto:sheldonleonard in Pixabay




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quinta-feira, 18 de maio de 2017

MÚSICA SERTANEJA>>Analu Faria

Só lamento que você não tenha um cobertor de orelha, um alguém para te esquentar. Nas noites frias, eu tenho. Por você, eu só lamento. 
Que pena você não ter um chamego, meu bem, que pena...neste friozinho! Que bom seria, não? Eu tenho. E quem está com você? 
Você precisa de alguém para chamar de seu, todo mundo precisa. Eu já tenho o meu. Que pena, meu bem, para você, que dó que eu tenho. 
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Acho que é isso. Não consigo ir mais longe. Eu queria sim, ah como eu queria, ser compositora de música sertaneja, encarnar de vez o poeta fingidor, escrever umas letras com uns preconceitos enraizados, uns clichês que só funcionam tão bem porque são clichês. 

Como eu queria não problematizar! Não destrinchar discursos, (ó, Deus, eu acabo de começar a estudar "análise do discurso" e pior... em uma pós-graduação! O que estou fazendo da minha vida?), não desvendar ideologias, ah, como eu queria não ter lido o Manifesto Comunista! Como eu queria não saber o que é materialismo dialético, como eu queria não saber o que é gaslighting!

Seria tão bom se eu não fosse eu ou se os outros não fossem os outros ou se o lugar fosse diferente onde eu sou eu e os outros, eles mesmos! Como eu queria ser alguém que paga (feliz) um precinho astronômico para ir ao show do Wesley Safadão! "Ignorance is a bliss", eles dizem. Eu acho que sim, gente, sim!  Ó, Deus, que sofrência a minha!..

Para fechar esta crônica que nem sei se me satisfaz, vou ali comprar um Murakami de 50 reais. 




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quarta-feira, 17 de maio de 2017

O #1 DE IGOR WILLCOX >> Carla Dias >>


Essa crônica é uma crônica sobre afeto. E sobre nascimento. Sobre a transgressão de realizar em tempos em que fazê-lo anda difícil. Sobre a primeira impressão, quando eu, que confio mais na segunda do que na primeira, fui impressionada assim, na estreia.

Afeto é tendencioso? Completamente. Mas se há algo que sempre me acompanhou é a certeza de que nenhum afeto meu merece confetes gratuitos, um vale-amizade. Os amigos sabem que amizade não nubla meu olhar.

Que fique claro que não é crônica de crítico, porque não vou desfiar um rosário técnico a respeito do que seja. É mergulhada em afeto, daquele que reconhece valor e se emociona por esse valor nascer de alguém por quem se tem amizade.

Tenho amigos que admiro também como artistas. Eles andam por aí, colocando obras no mundo, contradizendo aquela ideia - surrada, resultado da mais pura repetição - de que não há nada de bom sendo criado na música, nas artes plásticas, na literatura, na dramaturgia. Há sim, mas é preciso generosidade no olhar; ir além das listas das mais-mais do momento.

Ontem, passei o dia abismada com a leitura de um livro de um amigo. Ainda não finalizado, ainda me falta ler algumas páginas do que já está pronto, a obra desalinhou o meu dentro. Passei o dia mergulhada na melancolia da leitura, na sua urgência, na sua verdade.

Então, mais tarde, recebi um disco que comprei há alguns dias, pelo qual esperava ansiosamente. Disco de um baterista muito querido e talentoso, Igor Willcox. Disco número um, de muitos que virão, para a sorte dos apreciadores da música.

Coloquei o disco para tocar, enquanto conversava com ele sobre o feito, pelo computador. Quem nunca teve de se reinventar, em nome de sua criação, desconhece a importância do aprendizado. Eu acompanho a carreira dele, sei que é um ótimo baterista. Então, foi com alegria que descobri o compositor.

Igor me contou que sempre teve a ideia de compor. Há algum tempo, ele vem trabalhando com produção musical e, de dois anos para cá, dedicou-se seriamente ao piano. Então, começou a compor suas próprias obras. Dedicação é ingrediente poderoso na vida de quem já conhece seu objetivo e se apaixona por ele diariamente. O resultado é que, das nove faixas do disco #1, seis são de autoria de Igor Willcox: Brotherhood, The Scare, Julie’s Blues, Room 73, Waltz for My Love e Lifetime. As outras faixas: Old Friends e Thankful (Erik Escobar) e Brad Vibe (Vini Morales).

Igor Willcox não foi somente compositor e intérprete em seu disco. Ele também foi responsável pela produção, mixagem e masterização de #1. Além de ótimas músicas, o disco conta com a participação de talentosos músicos:  Clayton Sousa (sax), Erik Escobar (teclados), Jj Franco (baixo), Vini Morales (teclados/piano), Rubem Farias (baixo), Carlos Tomati (guitarra), Bocato (trombone), Glessio Nascimento (baixo), Marcus Cesar (percussão), Fernando Rosa (baixo), Bruno Alves (teclados) e Glecio Nascimento (baixo).

O cenário da música instrumental conta com artistas inspiradores. Músicos e compositores que trazem ao mundo obras significativas. Para aqueles que vivem a discursar sobre a pobreza da nossa música, uma pesquisa mais cuidadosa e vocês encontrarão trabalhos extraordinários. E incluam o #1 de Igor Willcox na lista de discos a conferir. Ele merece, sem dúvida, um bom lugar na sua playlist.

Sim, é uma crônica sobre afeto. Conheci Igor Willcox há muitos anos, quando ele participou do Batuka! Brasil e foi um dos vencedores do Concurso Nacional de Bateristas. De lá para cá, acompanho sua carreira. Para mim, #1 é uma lindeza só, porque é um ótimo disco, e também porque é a realização do projeto de um amigo.

Quer coisa mais legal do que alguém realizar algo e essa realização fazer bem também aos outros?

Foto © Zé Cintra


Igor Willcox
Compre o disco: igorwillcox.com/shop

carladias.com



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terça-feira, 16 de maio de 2017

SOBRE O TEMPO >> Clara Braga

Não, não gosto de mudanças. Quer dizer, também não é nada assim tão drástico, uma mudança aqui outra ali ou então mudanças que acontecem comigo e com um grupo de pessoas próximas ao mesmo tempo, pra eu ter em quem me apoiar, eu até gosto. Não é um gostar porque faz eu me sentir bem, é um gostar por saber que sair da zona de conforto de vez em quando é importante, mas se fosse bom mesmo as pessoas não chamavam de sair da zona de conforto.

Parece confuso, mas no fundo não é tão confuso assim, eu entendo a importância da mudança, mas tenho dificuldade de lidar com ela, pronto, é basicamente isso. Minha questão principal com mudança sempre foi a questão do tempo. Sempre tive medo de lidar com mudanças que tomassem tanto do meu tempo que eu fosse impedida de fazer as coisas que eu gosto, que me sinto bem fazendo. Eis que esse dia chegou.

Consegui um emprego muito melhor que o anterior em todos os sentidos, melhor plano de carreira, melhor salário, melhores oportunidades para desenvolver pós-graduações, mestrados e etc, enfim, só pontos positivos, porém, ao invés de trabalhar meio período como antes teria que trabalhar o período inteiro. Isso significa menos tempo para música, fotografia, amigos, família, exercício físico, crônicas e tudo mais.

Confesso que sofri no início, cheguei a ficar com a sensação de que estava de uma certa forma “perdendo o meu tempo”. Foi então que percebi que as vezes é exatamente esse sentimento que falta para que a gente faça as coisas acontecerem. Antes, quando trabalhava menos, sabia que tinha bastante tempo livre, logo não me sentia mal por deixar as coisas para depois, afinal, se não fizesse agora podia sempre fazer no dia seguinte. 

Agora é diferente, quando sobra tempo é apenas aquele tempo que eu tenho, então não tem outra opção, eu corro e faço o que tenho pra fazer. Já recomecei curso online que paguei tem tempo e não fazia, faço esboço de crônica tentando não deixar para última hora, preparo aulas em uma velocidade que nunca consegui antes, montei uma banda, enfim, parece que consegui dobrar meu tempo, mesmo tendo muito menos tempo que antes.

Parece que aquela conversa de que quem quer arruma um jeito de fazer não é tão conversa assim. É bem verdade que eu vivo um tanto cansada, mas no final isso é só um detalhe, o importante é nunca deixar a necessidade de fazer algo ser maior do que a vontade de fazer o que te faz bem.



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segunda-feira, 15 de maio de 2017

OS NAMORADOS >> Albir José Inácio da Silva


DONA ZÉTI

- Mãe, este é Zeca. A gente vai fazer trabalho junto. Tem pesquisa difícil de biologia.

- Prazer, Dona Zéti!

Eu não tive prazer nenhum não. Ele tinha um topete espetado, brilhante e era cheiroso de perfume. Isso lá é preciso pra fazer trabalho algum? E que roupa era aquela? Cumprimentei com a cabeça, só avaliando a figura.

Já espantei meia dúzia de moleques que se achegavam pro lado de Maria Eduarda. As vizinhas diziam “não adianta, comadre, essa idade é assim mesmo”. Mas comigo não tinha disso não. Bastava eu, que tinha engravidado aos quinze, Maria Eduarda tinha quem cuidasse.

Não saí da sala, fingindo que costurava, enquanto eles ficavam ali falando coisas esquisitas, até que se cansaram.

- Boa noite! – disse o cheiroso, forçando simpatia.

- Boa noite – respondi, econômica.

Mãe não desconfia à toa. Passados alguns dias e outras pesquisas, que eu nunca vi tanto trabalho de escola de repente, Duda falou:

- Mãe, eu e Zeca, a gente tá namorando.

Aquele garoto era tudo que eu não queria. Meu santo não bateu com o dele. Quem é a mãe? Quem é o pai? O que fazem? Onde moram? Nenhuma resposta agradava, sem falar do ar meio debochado e o nariz em pé que me incomodaram desde a primeira vez.

Pois naquele mesmo dia à noite aparece no portão o sujeitinho sem caderno na mão e com jeito de sonso. Topete brilhante e espetado e mais cheiro do que um homem precisa. Eu engoli em seco, prometendo que aquilo não ia durar.

E não durou mesmo, porque no dia seguinte dei a volta na casa e cheguei de surpresa na varanda. Era tanta mão e tanto beijo fora do lugar que botei o moleque pra fora aos gritos e cabo de vassoura. Sorte dele que a enxada estava trancada.

Duda chorou e esperneou como toda inocente que perde a cabeça por algum transviado, mas mãe tem que ser firme. Eu levava e buscava Duda na escola, que não ia dar chance praquele moleque. Mas ela melhorou rápido, o que pra mim foi uma prova de que aquilo era só faniquito de menina boba.

Dias depois me apareceu em casa pra fazer trabalho um outro garoto. Taí, esse era diferente até no nome: Pedro. Não tinha aquele cabelo ridículo e usava roupa de gente. Era discreto, falava baixo. Falou da viagem com os pais à Aparecida e mostrou no peito a medalhinha da santa. Elogiou a cor do meu cabelo e disse que a mãe dele gostava de brincos grandes assim como os meus.

A história toda se repetiu, com uma diferença: quando cheguei de surpresa na varanda, lá estavam eles falando do futuro, do que fariam no ensino médio e outras coisas de adolescente normal. Respirei aliviada e fui pros meus afazeres certa de que tinha feito o que devia.

Duda, que andava rebelde e respondona, se transformou. Meiga e obediente, ajudava na casa, arrumava o quarto e fazia os deveres de bom-humor. O que uma peste pode estragar a vida de uma pessoa, um rapaz decente pode salvar.

No sábado foram ao cinema. Despediram-se de mim com beijinhos na “mãe”- como ele agora também me chamava. Mas eu ainda não confiava cem por cento - filho a gente confia desconfiando. Esperei uns segundos, peguei a bolsa e saí.

Tive um pequeno susto quando se desviaram da rota, mas foi só para comprar balas e amendoins, que de fato custam uma fortuna no cinema. Ajuizado esse Pedro. Entraram para assistir uma comédia romântica e eu relaxei. Fui pra casa com a sensação de dever cumprido. A prosperar esse namoro, terei dias de paz.


(Continua em 15 dias)


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sábado, 13 de maio de 2017

Quando ele vai sair? >> Cristiana Moura



—Ele já saiu?
— Ainda não, Dudu.
— E quando é que ele sai?
— Daqui há um pouco.

Luís Eduardo espera ansiosamente  a chegada do primo. Mais um para brincar! Carrego comigo a impressão de que ficará frustrado com o pequenino ser que come, dorme e tem as fraldas trocadas de quando em quando. Apenas.

O primo de Luís Eduardo é meu neto e a proximidade de ser avó aos 45 anos o que parecia-me cedo, por vezes acelera-me o coração e rouba-me um tanto de ar.

Avó — avó — avó. Preciso repetir muitas vezes, Tenho a equivocada impressão de ser uns 10 anos mais nova e uma certa prisão nestes estereótipos de idade que já não nos cabem mais. Ai, ai... (suspiro). Por certo espero o pequenino Miguel Caetano com mais ansiedade que o nosso Dudu.

Também intrigo-me com sentimentos invasores. Algum de vocês me explique por favor. Como é possível já amar tanto um projeto de gente que mora na barriga de outra mulher? É amor leve como carícia em brisa, é denso como amor em dobro.

— Dudu, Miguel sai em breve.

Já começaram as primeiras e leves contrações que são o corpo de Raissa anunciando que sua chegada está próxima. Venha tranquilo Miguel, que para você, aqui, é só amor. Chega mais Miguel, que Gabriel, seu pai, já está tocando e cantando para você. Venha com serenidade Miguel Caetano, sabendo que em meio a este mundo de divergências, "apenas sei de diversas harmonias bonitas possíveis sem o juízo final".*

— Luís, ele sai já já, e vem dançar essa vida com a gente.


* trecho da música Fora da Ordem - Caetano Veloso



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sexta-feira, 12 de maio de 2017

INVERNO >> Paulo Meireles Barguil


As folhas e os beijos, há muito, se foram...

Só restam tronco e galhos, lá e aqui.

A névoa é intensa, fora e dentro.

Os bancos, outrora disputados, estão cheios de vazio.

O andarilho, acordado, sonha que será um dançarino na primavera.

Ignora que as flores estão esperando por ele...


[Cernobbio — Itália]
 
[Foto de minha autoria. 07 de março de 2013]


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terça-feira, 9 de maio de 2017

UM POUCO DE RECONHECIMENTO >> Clara Braga

Ele entrou na minha sala sem obrigação alguma, não precisava me dar nenhum recado nem passar qualquer informação a pedido de ninguém. Ele estava passando e viu pela porta aberta uma pessoa desconhecida, imaginou ser uma novata e decidiu algo raro nos dias de hoje: ser gentil e desejar boas vindas. Entrou com um sorriso no rosto e foi logo perguntando:

- Você é professora nova aqui na escola?

- Sim!

- Poxa, seja muito bem vinda.

Eu agradeci e, um pouco sem graça devido à minha pouca habilidade social, perguntei se ele também trabalhava na escola. Era óbvio que ele trabalhava, mas sabe como é, fiz uma pergunta assim sem jeito só para não ser antipática. Mas, foi nesse momento que me surpreendi com o relato dele.

O simpático senhor é funcionário da escola tem uns anos e seus dois filhos são alunos, mas sua história com a escola é antiga, começou muito antes disso. Ele foi aluno lá, se formou não tem muito tempo em uma turma específica para adultos. Como vem de família humilde não teve oportunidade de estudar quando jovem, mas não se intimidou, embora tenha sido muito sacaneado pelos amigos por estar sempre cercado de pessoas muito mais novas, ele se matriculou quando pode e fez a escola normal até aparecerem essas turmas específicas para adultos.

É claro que imaginar um adulto em meio a várias crianças soa estranho, mas ele disse nunca ter tido dúvidas de que estava fazendo a melhor escolha, estudar era de fato a melhor oportunidade que ele tinha.

Só essas histórias de superação e de conquista já me emocionam, sou sensível mesmo. Mas ele estava apenas começando. Após contar toda essa história, ele completou dizendo que a profissão que ele mais admira na vida é a de professor, pois ele sabe que se ele conseguiu se formar, casar, criar dois filhos, arrumar um emprego e comprar uma casa para a família, foi porque ele teve professores. Nesse momento ele já estava com os olhos cheios de lágrimas e me pedindo desculpas por ser tão emotivo, mas lembrar dos professores dele sempre o deixava emocionado.

Eu fiquei igualmente emocionada, também pela história mas principalmente pelo valor que ele dá à minha profissão. Todos temos nossos momentos ruins, momentos de dúvida no qual nos perguntamos se fizemos a escolha certa, e são esses pequenos momentos de valorização que nos mostram que alguma coisa deve estar certa e tudo fica mais leve.

Parece besteira, mas fiquei tão surpresa e achei tudo tão inesperado que acabei não perguntando o nome do senhor e nunca mais encontrei com ele na escola. Comecei até a desconfiar que essa situação toda foi uma visão ou talvez meu subconsciente agindo para que eu não me auto sabotasse. Bom, não sei, só sei que foi assim: singelo e verdadeiro.


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segunda-feira, 8 de maio de 2017

AS MUSAS E O RELOJOEIRO >> André Ferrer

Tanta festa para as musas: seus caprichos e seu trabalho de obsedar o escritor! Se não bastassem os rótulos de todo o sempre: o escritor é solitário, “gauche”, espião dos deuses... Uma bobagem despropositada! A não ser, claro, que o amadorismo baste.

Escrita é um trabalho tão lógico quanto compor músicas. Redigir textos e partituras depende de planejamento e trabalho. Nenhuma entidade virá de outra dimensão a fim de salvar o artista bloqueado. Então, não há mágica? Para o autor, jamais. A mágica só deve existir para quem lê o romance ou para quem escuta a sinfonia.

"Apolo e as musas", autor desconhecido
Todo artista verdadeiro é um ilusionista consciente da ilusão que cria. Fazer arte é fingir uma facilidade. Esconder do público todas as horas de trabalho árduo. Cada cálculo e cada gota de suor devem ficar do outro lado de um véu de naturalidade e habilidade performática. Então, um artista competente deve simular misticismos e nunca ser um místico. Deve ser um vórtice que não se deixa levar pelo próprio empuxo. Do contrário, estará acabado.

Muitos escritores relatam o bloqueio criativo. Fazem a dança das musas ao redor de uma fogueira em que ardem as queixas e os lamentos. Tudo porque não passam de uns crédulos. Envergam diuturnamente uma roupa que deveria ser exibida nos salões e despida em casa. Um adereço tão removível quanto um casaco, um cachecol, uma bota. Eles, contudo, nunca tiram as suas túnicas extravagantes. Adequadas para o cumprimento das obrigações sociais diante de um oráculo fictício, mas incômodas para o labor verdadeiro.

A mistificação não atrapalha desde que fique lá fora. Um pouco de “mise en scène” até pode ajudar no local e no momento adequado. Perigoso é quando um escritor, um músico, enfim, um artista, de tão crédulo, torna-se escravo do mito da inspiração. Na escrivaninha (que não é altar, mas bancada de oficina), ou o escritor se torna um relojoeiro metódico e persistente ou continua a amargar bloqueios criativos.


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sábado, 6 de maio de 2017

UM CADERNO AZUL >> Sergio Geia




Em Foe (Foe, J.M. Coetzee, 1ª ed., São Paulo, Companhia das Letras, 2016), Susan Barton, náufraga, vivendo numa ilha deserta, na companhia de Cruso e Sexta-feira, num certo momento de sua monótona e triste vida, aconselha Cruso a fazer algum tipo de registro daqueles anos de naufrágio na ilha:
“O senhor não lamentaria não poder levar consigo algum registro dos seus anos de naufrágio, de forma que o que passou não desapareça da memória? E se nunca formos salvos, mas perecermos um a um, como pode acontecer, não gostaria de deixar um registro, de forma que outros viajantes que porventura venham dar aqui, sejam quem forem, possam ler e saber de nós e talvez derramar uma lágrima?”
Cruso não era de registrar nada, mas a passagem me fez lembrar que há muitos anos eu tinha o costume de registrar num caderno tudo o que lia, e, principalmente, alguma coisa que me chamava a atenção. Normalmente, anotava o título do livro, a data em que terminei a leitura, um resumo da história (quando não tinha preguiça), as expressões que eu não conhecia, frases que me alegravam ou me diziam algo. O problema era descobrir onde estaria guardado (se é que estaria guardado em algum lugar; se é que ainda existia) o tal do caderno.
Só sei que fui à luta; achei que encontrá-lo depois de tanto tempo me faria bem. Ocorre que depois de uma separação conjugal e de mudança de casa, a tarefa seria no mínimo inglória e fadada ao mais absoluto fracasso. Mas sabe que não? Depois de uma tarde cavoucando as entranhas dos meus armários, caixas e estantes, encontrei o empoeirado caderno azul dentro de uma caixa com alguns pertences que até hoje não decidi que destino dar.
De cara, me surpreendi com o escrito da primeira página. Nem lembrava mais que um dia tinha dado vida àquelas coisas. É de 27 de fevereiro de 2004:
“A quem possa interessar. Comprei para anotações. Aprende-se muito com a boa leitura. Começo com Memorial de Ayres do formidável Machado de Assis. Não que seja meu primeiro livro. Já li outros, mas só agora resolvi anotar os vocábulos, anedotas, fatos pitorescos, adjetivos, substantivos e outras coisas que me deram prazer aos olhos. Resolvi também anotar um breve resumo das obras. Com o tempo e a fraqueza da memória, a gente até se esquece que leu esse ou aquele livro. Espero que meus filhos gostem de ler e se extasiem com a boa trama. A leitura enriquece, ensina, emociona. Um bom livro tem o poder de nos revelar mundos desconhecidos e nos faz pensar”.
Esse “a quem possa interessar” me pareceu bastante curioso. Ora, quem se interessaria por um caderno velho, empoeirado, cheio de anotações à mão, velhas, sobre livros velhos? Quem perderia seu precioso tempo lendo todas essas coisas sem graça, de um sujeito que talvez não tivesse o que fazer?
Depois de uma releitura, de buscar na memória coisas do passado, concluí que a ideia era realmente que um de meus filhos se interessasse pelas anotações, que sonhasse o que sonhei, que vivesse o que vivi, que deixasse a literatura transportá-lo para vidas que não poderá viver. Ou talvez tudo isso fosse simples balela, uma espécie de estratagema. A real intenção talvez fosse de que um velho autor de cabelos brancos, um dia resgatasse coisas interessantes de páginas já amareladas pelo tempo e transformasse tudo em algumas crônicas.
Nesse viver a vida dos livros, lembrei de uma frase do Rodrigo Lacerda, que, por sinal, não está presente no caderninho, mas que não me impediu de agora lembrar, desafiando a tal “fraqueza de memória” que esse jovem incipiente de 2004 parecia profetizar:
“A principal utilidade da literatura é aplacar a sensação de que a vida é muito estreita. A literatura me transporta pra vidas que eu sei que não poderei viver”.
Talvez fosse essa descoberta a essência de toda a ideia num plano geral.
As anotações (e agora quem fala é um quarentão um pouco mais experiente e vivido) são ricas e valiosas (talvez um quarentão confiante?), e merecem ser compartilhadas (confiante demais?).


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sexta-feira, 5 de maio de 2017

A LÂMPADA NUM DIA DE CHUVA >> Zoraya Cesar

chuva caía pesada e fina, cortante como navalhas, machucando o rosto do rapaz. Ele andava distraído, cabeça baixa, as mãos enfiadas nos bolsos, o casaco mais cinza e gasto que o tempo; seu ânimo, tão desconsolado como o do cachorro magro e abandonado, que olhava assustado as pernas que passavam, espremido debaixo da marquise estreita.

Um carro não o atropelou por muito pouco e jogou lama em suas calças.
Ele nem reparou na lama que
espirrou em suas calças,
nem no carro que
quase o atropelou. 
Ele continuou andando, indiferente, tanto se lhe dava ter um carro passando por cima de seu corpo, a lama na roupa. Atravessou a rua, esbarrando nas pessoas, e, de repente, parou, um pouco aturdido, onde estava mesmo? Olhou em volta, sem ver coisa alguma realmente, o cérebro já embotado de apatia e chuva. 

Uma claridade quente e suave chamou sua atenção. Estava em frente a uma loja. Não se lembrava de já tê-la visto alguma vez. A porta, estreita, era de madeira pintada de azul. Uma grande janela encimava um canteiro de urzes viçosas, que dividiam harmoniosamente o espaço com gerânios
vermelhos. A visão do interior estava um pouco distorcida pelas gotas de chuva que escorriam ao longo dos vidros, mas ele pôde ver, nitidamente, em cima de uma mesa abarrotada de objetos, de todos, o mais curioso: uma ‘lâmpada de Aladim’.

Levado pelo impulso de olhar a lâmpada de perto, ele resolveu entrar. Até porque estava com frio, molhado e faminto. E não tinha mesmo para onde ir. 

A porta fechou-se atrás dele, isolando-o da gelada chuva cortante, do barulho e da fumaça dos carros, da azáfama insana. Do medo. Da solidão. Do desespero. 

Ele não soube explicar por que, mas teve a estranha impressão de que a loja e os objetos estavam... esperando por ele. Deve ser o cansaço, pensou, a angústia de quem precisa de um pouso.
A lâmpada era bonita, e parecia realmente
muito antiga. Ele teve um irrefreável
impulso de tocá-la e fazer um pedido. 
Tirou o casaco molhado e pendurou-o no cabideiro de pau-rosa ao lado da porta. Ao fundo, uma lareira antiga, enfeitada por mosaicos multicoloridos e alegres, aquecia o ambiente. Ele ficou a admirar, por alguns instantes, os detalhes dos desenhos, cogitando qual artista produzira tão belo trabalho. Voltou-se, então, para a lâmpada.  

Ali estava ela, de metal polido, cheia de arabescos finos e delicados, sobre uma pequena mesa de mármore negro e pés de ferro, na qual estavam dispostos, também, uma xícara e um prato de porcelana chinesa, talheres de prata. Sobre o prato, uma fatia de bolo que, à sua fome, pareceu-lhe deveras apetitoso. Uma fumaça cor de âmbar, cheirando a incenso e rosas, saía do fino bico da lâmpada, espalhando-se pelo lugar. Ele passou, levemente, os dedos sobre ela, pedindo um milagre, pequeno que fosse, que mudasse o rumo de sua vida, que o tirasse da beira do abismo.

Ele via, maravilhado, o chá mudar de cor
enquanto o bebia.
Um chá que sabia a tardes de outono.
A fumaça ficou mais forte; a lâmpada, mais pesada. Algo borbulhou dentro dela. Assustado, ele a colocou de volta na mesa, mas pegou-a de volta quando a ouviu, claramente, bufando, como que contrariada. Virou-a na xícara e viu, maravilhado, sair um líquido de cores cambiantes e límpido. Experimentou cautelosamente. Era um chá. Tinha gosto de tarde de outono. Bebeu devagar. Seu corpo e sua alma se aquietaram; ele já não se sentia mais como o pobre cachorro debaixo da marquise.

Tomado o chá,  reparou em volta. 

Parecia um antiquário, mas também poderia ser uma casa aconchegante, mobiliada com objetos antigos. Relógios, livros, móveis de diversos tamanhos, baús, louças, utensílios, abajures, espelhos. Todos bem cuidados, bonitos, o ambiente limpo, como se o morador esperasse visitas. Apesar do aparente caos, o rapaz sentiu que saberia encontrar cada objeto. Bobagem, pensou. Está na hora de partir, ou podem pensar que vou roubar ou comprar alguma coisa. Prefiro morrer a roubar. E não tenho dinheiro nem para o pão. Começou a chorar, o coração doendo. A fumaça e o cheiro que saíam da lâmpada ficaram mais suaves, e, novamente, ele serenou.  

Levantou os olhos e viu um pequeno console de ferro trabalhado, onde havia um livro de couro marrom-castanho e uma folha de papel amarelada e encarquilhada, como uma velhinha chinesa que tivesse sido esquecida ao sol por muitos anos. Ele se aproximou, e leu, escrita com caligrafia grossa e legível:  

Se você ainda está aqui, é hora de saber que essa loja está viva. 

Todos os seres que aqui estão foram entregues em confiança para serem guardados e somente vendidos a quem lhes der o devido valor. Seus preços e características – incluindo como devem ser tratados e em que tipo de lar desejam voltar a habitar – estão nesse livro ao lado.

Quando chegar a sua hora de ir embora, você saberá o que fazer. Não se preocupe com coisa alguma. Enquanto você tratá-la com respeito e amor, essa é a sua casa, e ela lhe dará tudo o que precisar.

Se a quiser como seu lar, faça o que tem de fazer. Do contrário, basta sair que a porta se fechará sozinha e você nunca mais encontrará a loja. Será como se ela nunca tivesse existido e tudo não passará de um sonho num dia de chuva.

Um último aviso: tolo é aquele que rejeita o milagre que lhe é concedido.

Ele guardou a carta na gaveta da mesinha de cabeceira que aparecera debaixo do console e olhou para fora. A chuva havia parado, e dava para ver os transeuntes chapinhando na lama que se formara em poças sujas espalhadas pela rua. O cachorro sumira.

Ele encontrara o que mais precisava.
Começou a ler o livro que o ensinaria a
viver em seu novo lar.
Sobre a lareira ele encontrou uma plaquinha de cerâmica com a palavra “Aberto”. Pendurou-a do lado de fora da porta. 

Sentou-se, tomou mais uma xícara de chá e comeu um pedaço do bolo. Não havia pressa, ele sabia.

Estava em casa e os clientes não tardariam a chegar. Começou a ler o livro.



imagens: Pinterest





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quinta-feira, 4 de maio de 2017

INSENSÍVEL, VOCÊ DIZ>>Analu Faria

No meio da briga, Maria reza em vez de sair de se afastar. Me dá uma gastura!...

_ Nossa, como você é insensível!

João acredita que a função do pensamento positivo é blindá-lo de todo o mal. João muda o discurso para "o importante é ter fé" quando algum mal o acomete. Me dá um nó nas ideias!..

 _ Nossa, como você é insensível!

José vai à missa cinco vezes por semana e pede a Deus por uma vaga em concurso público. Fosse à igreja uma vez apenas, teria mais umas oito horas livres para estudar. Me dá nos nervos!...

_ Nossa, como você é insensível!

Às vésperas de fazer o Caminho de Santiago de Compostela, a colega me dá um terço para "proteção". Não recuso, por educação, mas digo que não dá para levar. "Não é uma viagem religiosa, mas eu te agradeço muito. Fico com ele para depois." Quase ouço um "Nossa, como você é insensível". Para evitar mais uma dessas, tento um remendo: "Sabe, o peso da mochila é contado..." A expressão da colega muda:

_Ah, tá, entendi. Não pode ser muito pesada, né. 

Sorrio e concordo, desistindo de seguir com aquilo. Me dá gastura, me dá nó nas ideias, me dá nos nervos.

Tudo pode dar errado. Sempre. Tudo pode dar certo. Sempre. A minha tão esperada e tão longamente planejada viagem, por exemplo, pode ser maravilhosa ou horrenda. Com amuleto ou não. Com terço ou não. Do alto da minha inexperiência, aqui do canto da minha pretensão, acho que o desafio desta vida é abrir lugar para o divino em todos os lugares, inclusive no inferno. Dizem que Winston Churchill* disse a frase-slogan daquele uísque famoso: "If you're going through hell, keep walking"**. Tão perto de caminhar - voluntariamente - por mais de 600 km, não tenho ideia do que farei se, em algum ponto do Caminho, eu não conseguir mais andar. Uma coisa é certa: permanecer no mesmo lugar não é uma opção.

Até hoje não sei por que ninguém apontou o "keep walking" como o paroxismo do pensamento positivo, não sei por que não ouço ninguém chamando isso de fé. A maioria dos que se dizem ao lado do "bom pensar" quase mágico (e quase nunca prático), consideram Jesus como um grande mestre. Já viram o que ele disse sobre os sucessos nas praticidades da vida?: "Dai a César o que é de César." Se houver briga, corra; para conseguir passar em uma prova, estude; pense positivo e espere o que a vida lhe der, sabendo que isso também é obra divina. Entendeu a beleza da coisa? Não? Poxa, talvez você seja um pouquinho insensível...




* Primeiro-Ministro da Inglaterra que capitaneou a reviravolta na II Guerra Mundial no front oeste. Muita gente acredita que não foi Churchill quem disse isso, mas a frase "pegou".
**Se você está passando pelo inferno, continue andando.


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quarta-feira, 3 de maio de 2017

ESCRAVISMO CONTEMPORÂNEO >> Carla Dias >>


Não se preocupe, eu lhe darei moradia e alimento, pois quem tem isso, o que mais pode querer? Não é para isso que as pessoas existem? Morar e comer?

Não vai lhe faltar aquele ensopado de sobras dos que jamais se alimentariam de sobras, tampouco aquela cama num canto qualquer, no qual descansar seu corpo, depois daquelas horas todas trabalhando para comer o que outros não comeriam. Dormir onde muitos nem sequer se encostariam.

Não é o que você almeja?

Veja bem, já ouvi muitos dizerem que presidiário é mais bem servido que vocês. Isso eu posso resolver, e sem o horror de colocá-lo atrás das grades.

Eu lhe darei moradia e alimento, vou cuidar de você. Em contrapartida, você será meu empregado, nas condições que eu oferecer, que não estou nesse mundo para dar moradia e alimento a vagabundo, que sou justo, e isso nem se discute. Que isso fique bem claro.

Então, nada de fazer corpo mole, exigir o que não está no contrato, mencionar siglas de instituições que você nem mesmo conhece, que algum rebelde qualquer cochichou em seus ouvidos. A grande questão aqui é que eu vou fazer o favor de permitir que você trabalhe por moradia e alimento.

Trabalhe duro, seja dedicado e respeitoso que, de quebra, em alguns anos eu lhe darei um bônus, porque sou patrão que olha por seus funcionários.

Um dia de rei... O que acha? Seu bônus será um dia de rei. Eu lhe darei duas folgas emendadas, assim você poderá preguiçar bastante e ir ao cinema. Ah, sim, o ingresso do cinema será um extra. Será bom para você conhecer o mundo pelo olhar de outra pessoa.

O que acha? Tudo de acordo com a lei, que não criminoso, não!

Depois de aceitar minha proposta irrecusável e assinar o contrato, passe ali na recepção e faça sua avaliação sobre como sou um patrão nota dez. Não se esqueça, tá? Nota dez.

Imagem: Poverty © Käthe Kollwitz



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segunda-feira, 1 de maio de 2017

BICHOS >> Albir José Inácio da Silva

Alguns tinham nomes como Barrosa e Veluda - vacas sagradas e paparicadas por todos. Até vizinhos deixavam seus afazeres para tangê-las de volta ou pelo menos dizer onde estavam.

Cavalos também tinham nomes e eram tratados como filhos, quase avatares de seus donos. Mais que filhos – dizia meu pai, referindo-se a alguns vizinhos e querendo enfatizar que para ele só os filhos importavam. De qualquer modo, nosso potro Russinho tinha sua ração diária de afagos, banhos e toalete.

Cabritos não tinham nomes, mas eram ajudados nos partos e nas doenças. Cães a um tempo protegiam e reprimiam essa espécie, como policiais.

Os cães tinham nomes, mas não mereciam atenção maior que serem chamados por esses nomes, o que já era distinção num mundo de anônimos. Alguns se destacavam pela bravura, recebiam elogios e até um carinho displicente.

Gatos eram batizados pelas crianças, mas os adultos continuavam a chamá-los de gatos. A eles era permitido estar ali como se não estivessem.

Diferentemente de outros bichos, cães e gatos se reproduziam espontaneamente, sem interferências ou ajudas, com a sorte que a natureza lhes reservasse.

Galinhas e patos não mereciam nomes, mas mereciam ser contados, separados e alimentados.

Havia outros, como coelhos e codornas, que existiam um tempo depois desapareciam para dar lugar a outra novidade animal.

Eu olhava os bichos e não entendia a divisão de classes e a distinção de tratamento, perdido ainda no comunismo infantil.

Não compreendia as leis da economia. Inocente e incrédulo, não respeitava nem reconhecia a divindade do Mercado.

Anarquista e contestador mirim, eu desconsiderava a ordem, a hierarquia, o mérito, a cotação e a utilidade.

Ante a minha perplexidade com as diferenças, uma tia perguntou:

- E tu come cachorro?

Continuei confuso. Eu amava pessoas, bichos e coisas que jamais comeria.


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