Pular para o conteúdo principal

MEU SANTO >> Eduardo Loureiro Jr.

Albrecht Dürer, "Melancolia I"
Albrecht Dürer, "Melancolia I"
Meu santo não tem poder nem partido. Não atende orações desesperadas ou de bom juízo. Não movimenta as forças da natureza, não arquiteta coincidências, não faz milagres nem constrói pontes sobre precipícios. Meu santo não usa trajes e artefatos celestiais para combater seres malignos. Não tem nome, não tem jaculatória, não tem dia — para ele não se imprimem santinhos. Meu santo mal fala comigo. Tampouco intercede junto a mais elevados espíritos. Não tem um plano, uma missão, um desígnio. Não faz estudos bíblicos. Não sabe o caminho até o paraíso.

Meu santo fica comigo, dorme comigo, faz silêncio comigo. Ri quando eu choro e chora de alegria quando eu rio. Deixa que eu enfie um cotonete após outro em meus ouvidos. Meu santo ouve música comigo, faz música comigo. Observa os meus dentes guardados dentro da gengiva e meus caninos incisivos. Deixa que eu cavuque fundo a sujeira em meu umbigo. Meu santo é palpavelmente invisível e visivelmente sumido. Tem outros compromissos. Guarda segredos, coleciona sigilos. Tem seus amigos e inimigos. Meu santo é preguiçoso junto comigo, ou obsessivo. Jejua por diversão e come escondido. Às vezes troca de lugar comigo. Vai onde não quero ir, desde que lhe pareça propício. Meu santo fala besteiras a que dou ouvidos e resmunga conselhos que eu não sigo. Lembra de cada detalhe de tudo que tenho vivido, e tem preferências explícitas por este ou aquele período. Meu santo tem a unha esfolada, o joelho ralado, o braço quebrado, o  cabelo assanhado, o traje puído... Meu santo é caído e recaído. É impreciso. Nem pensa naquilo. Não quer litígios. Deixa por isso.

Meu santo não é culpado nem cupido.

Meu santo sou eu: encarnado e esculpido, escarrado e cuspido, inspirado e escrito.

Comentários

Lilu disse…
Pra esse eu rezo todo dia
não para pedir benção ou proteção
mas para que siga contigo, te acompanhe e guarde.
Rezo para que nunca te falte
música, palavra, cotonete.
Pra que seja meu santo,
junto,
con los de escudo e asas.
Para esse
meu discreto aprendizado em devoção
albir silva disse…
Tenha paciência com o seu santo, Edu. Ele faz o que pode e o que sabe.
É verdade, Albir. :)
Grato.

Postagens mais visitadas deste blog

MÃE – A MINHA, A SUA, TODAS
[Debora Bottcher]

Pessoalmente, não gosto de escrever sobre ‘datas especiais’ porque sempre me pergunto quem foi que inventou esses ‘dias de’ e baseado em que. É que apesar de eventuais evidências, eu me recuso a crer que essa ‘mágica’ idéia resiste ao tempo, à modernidade, às novas gerações, fincada apenas no foco de atiçar as vendas do quase-sempre-em-crise mercado comercial – digo ‘quase’ porque todas as vezes que vou ao shopping, em qualquer dia da semana, assombro-me com o movimento constante. Daí não tenho certeza de entender bem a base dos números e imagino sempre que é porque as estimativas são ousadas e otimistas demais, muito acima do poder aquisitivo da população média.
Seja como for, se me proponho a abordar o tema do momento – o ‘Dia das Mães’ - prefiro direcioná-lo à figura materna diretamente, para quem, certamente, tal dia é apenas uma vírgula no traçado de sua (árdua) trajetória. Não sou Mãe – que fique claro; portanto, para dedilhar (vagamente) sobre elas, vou me basear na minha, nas m…

EU ESTOU BEM >> Sergio Geia

Digamos que foi um susto. No último dia 11, eu voltava de Jacareí sentido Taubaté, seguia o fluxo normalmente quando no km 156 da Via Dutra, bem em frente ao posto de guarda, em São José dos Campos, os carros à minha frente — como em Blecaute, de Marcelo Rubens Paiva —, simplesmente congelaram. De 80 km, naquele trecho, para zero, em fração de segundo. Não tive tempo de rezar (ah, como eu queria!), nem sequer olhar pelo retrovisor, descobrir se havia ou não uma carreta atrás de mim. Quando a ficha caiu, pisei fundo no freio, consegui não atingir o veículo à minha frente, mas, também, só por outra fração de segundo. De repente, uma sensação esquisita: eu senti a estocada, os objetos que estavam em cima do banco do carona voaram, logo meu veículo era arrastado até atingir o da frente.

Desci. Os motoristas dos outros quatro carros desceram, todos confusos, querendo entender. Os três primeiros carros, incluindo o meu, pequenos danos materiais, levíssimos diante do susto. O penúltimo e o …

À DISTÂNCIA (Paula Pimenta)

E se quiser recordar daquele nosso namoro
Quando eu ia viajar você caía no choro Eu chorando pela estrada Mas o que eu posso fazer Trabalhar é minha sina Eu gosto mesmo é d'ocê...
(Vital Farias)

Quem nunca namorou de longe, não vai conseguir entender metade do que eu vou escrever nessa crônica, porque só quem já passou por essa experiência sabe o quanto ela é difícil. Mesmo assim vou tentar explicar, para todas as vezes que vocês se depararem com alguém reclamando da ausência do namorado, não começarem com as manjadas frases que não fazem nada pela pessoa solitária: “Ah, mas pelo menos quando vocês se encontram tudo é festa, nem tem tempo pra brigar.” Ou: “O tempo está passando rapidinho, logo o próximo feriado chega.” Ou ainda: “É bom que no período que ele está longe você pode curtir com os amigos.”

Só quem namora à distância sabe o quanto essas frases são mentirosas. O tempo não está passando rapidinho, pode até passar pra quem está com o namorado do lado, podendo ir com ele ao cinema …