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CONFIDÊNCIAS AO DIÁRIO... >> Carla Dias >>


Descasquei uma laranja que tinha a casca tão verde quanto a blusa que eu vestia. Foi um frenesi que surpreendeu meu olhar acostumado a reconhecer combinações no improvável conduzido pelas asperezas.

O sabor não era o mesmo que minha alma vem ruminando. A laranja estava doce, deleitável.

Compartilhei da companhia do silêncio para apreciar tempo. Foram sete minutos de tentativa de meditação. Mas quem consegue meditar quando se tem uma mente dedicada aos pensamentos gritantes? Nem sempre corteses, tampouco lineares, raramente esclarecedores. Depois de sete minutos, senti-me contagiada por um cansaço e seus fiapos de ironia. Eu sabia que deveria evitar contato, declarar fuga e sair do recinto, onde se contorciam as tentativas vãs. Porém, se há alguém que se permite seduzir com facilidade por dores e horrores, esse alguém é eu.

Esparramei-me, então, por sete horas de abandono.

Minha biblioteca de tentativas vãs disputa espaço com a coleção de amores que não vingaram, de fantasmas de filhos nunca gerados, de listas de projetos que nunca saíram do papel, do .docx, do anonimato. Esse cômodo localizado sabe-se lá em qual parte das minhas partes, porque há dias em que tudo dói em uníssono. Lugar de fácil acesso, quando perco o prumo.

Cortei o dedo com estilete, enquanto brincava de ter talento para o artesanato. O sangue jorrou vivo de lá, daquele corte miúdo, mas detentor do escândalo; daquele acostumado a prolongar tragédias. Ardeu, doeu, mas ainda assim, lá se foram alguns minutos gastos na observação.

O vermelho brotando me deixou assim, perplexa e hipnotizada.

Enquanto assistia a um filme antigo, desses feitos para amansar coração de mulheres agoniadas, pensava nas coisas que deixei de fazer e me levaram a me tornar coadjuvante na minha própria história. Não sei como aconteceu, mas dois barracos, uma e outra traição e três comerciais depois, o filme se mostrou incapaz de até mesmo prender minha atenção. Meu coração já estava em outras paragens, sofrendo de taquicardia provocada pela agonia que o filme não teve sucesso em amansar.

Passei três horas, vinte e sete minutos e quatro segundos em um evento social. Jantar com amigos que não são amigos são colegas e são porque há algo que posso oferecer a eles e outros algos que eles podem me oferecer. Uma troca de cortesia falseada, em nome do progresso profissional.

Caminhar é meu exercício preferido. Depois de observar paisagens, preferido. A noite estava morna, enquanto eu caminhava. Voltar para casa também é um exercício preferido. No meio do caminho, alguém esbarrou em mim e se desculpou. Eu gostei da voz e da gentileza. Acenei com a cabeça, virei-me e segui meu rumo, pensando que, apesar de ser uma dessas delícias que a nossa alma agradece experimentar, a gentileza não deveria ser encarada como exceção à bestial regra que rege as nossas buscas. Não deveríamos senti-la como se tivéssemos recebido uma bênção. Um melindre luxurioso que eriça nossa solidão a ponto de desejarmos não mais sair de perto de quem, por ocasião do acaso, dedicou-nos um naco de gentileza.

Gentileza, sua menina descabida.

Fiz um concerto de choro desatado, outra tentativa, mas dessa vez de me separar de saudade infindável. O que é infindável me assusta, amor ou ódio, seja da laia dos afetos ou das discórdias. O infindável me assusta com suas cortesias maculadas, suas armadilhas adocicadas.

Acreditem, crianças, quando suas mães dizem que o doce faz mal. Lembrem-se: faz mal e não somente aos dentes.

Imagem: O que com sola © Giorgio de Chirico

carladias.com

Comentários

Anônimo disse…
Uma das caracteriscas que faz arrepiar minha pele nos textos de carla dias é essa sua força a nos arrastar para o sentimentalismo, mostrando que somos todos iguais, a carregar o fardo da existência e para suportar este peso e fugir da solidão saimos a procura de companhias.

Enio.
Carla Dias disse…
Poxa, Enio, obrigada por tudo... A leitura e o carinho com meus escritos. Abraço.
Zoraya disse…
Carla, esse é um de seus mais lindos lindos lindos textos. E isso não é pouca coisa, levando em consideração que você sempre escreve algo lindo lindo lindo.
Muito obrigada por mais essa doçura.
Carla Dias disse…
Zoraya, eu que lhe agradeço. Obrigada, de coração, por ler meus textos. E fico feliz que tenha gostado deste... É especial mesmo. Beijo.

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