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Mostrando postagens de Setembro, 2013

COSPLAY >> André Ferrer

Vai à ONU e descarrega o “mimimi” escarlate nos desumanos ouvidos capitalistas enquanto lá fora, em Manhattan, o apartamento de 22 mil Reais a diária aguarda. Em Paris, comunistas brasileiros fazem compras e compõem sambas-protesto dedicados a um homem de bem, herói injustiçado que, nos Anos de Chumbo, derramou o próprio sangue na luta contra o imperialismo. Ó Notre-Dame dos Mensaleiros livrai-o! E também todo o resto de nós deste cinismo: Pedro Pedreiro exilado em plena farra turística às vistas do Sena. É claro, na margem esquerda.
No discurso dessa tropa vermelha, o Capital funciona mais ou menos como o demônio na boca dos televangelistas. Nenhuma coerência se sustenta fora do velho jogo do maniqueísmo. Daí a minha resistente desconfiança de que vivemos uma época infantil. No máximo, pré-adolescente.
Para crianças, a coerência não admite nuances. Ou você é bom ou está contra o herói. A criança inicia o reconhecimento das tonalidades cinzentas, entre o preto e o branco, na pré-adolesc…

DE VOLTA PRA CASA >> Sílvia Tibo

Já são três anos sem você. Mas é engraçado, parece que nos vimos ainda ontem. 
Talvez porque eu tenha sempre uma foto sua em algum ponto da casa. Talvez porque a senha do computador que eu acesse diariamente, assim que me levanto, seja uma palavra de que você gostava. Talvez, ainda, porque são raros os dias em que nada me leva a você. 
Há quem veja tudo isso como tristeza, melancolia e luto. E então, diga que preciso superar a perda pra continuar vivendo. A estes, respondo que sua partida não se trata exatamente de algo que precise e possa ser superado. E, muito menos, de algo que eu queira superar. Ao contrário, sua presença, nessa vida, é o que eu mais desejo preservar. 
Há, também, os que (bem intencionados, reconheço) dizem que o vazio certamente vai ser preenchido quando vierem os filhos. A estes, respondo que sua ausência física não é, propriamente, um buraco, apto a ser preenchido com o que quer que seja. Até porque se, por um lado, nossas mãos não podem agora se tocar, nossas…

ESCOLHA A FELICIDADE [Maria Rita Lemos]

Cada vez que ficamos infelizes, o fazemos por diversas razões, incluindo as que estão fora de nós e as intrínsecas, que estão bem enraizadas em nosso íntimo.

Dentre as causas que não dependem de nossa vontade, imaginemos que estamos presos dentro de uma caverna escura, infestada de morcegos, e sem encontrar a abertura de saída. Ou, então, que estejamos com fome e sem alimento disponível, ou, pelo contrário, sejamos obrigados a comer algo que nos desagrada. Em qualquer dessas situações, pessoas em estado saudável de consciência tentariam libertar-se o mais rapidamente possível daquilo que as está fazendo sofrer, encontrando uma saída.

O mecanismo para a felicidade versus sofrimento é muito semelhante. Segundo diversos autores, pessoas com bom equilíbrio emocional , em situações adversas, lutam para assumir o comando de suas vidas, sempre que isso seja possível. Só quem não está bem com suas emoções vai prolongar desnecessariamente o sofrimento, ou vai desistir de lutar, preferindo v…

ACERTO DE CONTAS >> Fernanda Pinho

Chegou a hora da prova dos nove. Dos trinta, no caso. Há exatos 871 dias publiquei neste mesmo site uma pretensiosa lista batizada de “30 Coisas Para Fazer Antes dos 30”. Pois então, senhores, esse dia que parecia tão distante de mim a ponto de fazer resoluções publicamente, certa de que cumpriria todas, chegou. Fiz 30 anos ontem. Eu poderia fazer a desmemoriada e fingir que essa lista nunca existiu. Mas ser mais honesta comigo e com os outros está entre as minhas resoluções de moça de 30, o que me leva ao balanço a seguir.
Das coisas que não realizei e desisti completamente:
1 - Ir numa cartomante: Não quero mais brincar dessas coisas. O futuro está guardado nas mãos de Deus. Aprendi a ser menos ansiosa e a ter mais confiança. 17 - Experimentar todos os lanches da McDonald's: Sério. Que tipo monstro habitava dentro de mim quando escrevi essa lista? Ultimamente não posso nem passar na porta de um McDonald's.
Das coisas que não realizei por ainda não ter certeza se quero realizar…

FINAIS E CHICLETES >> Carla Dias >>

Finais de séries e chicletes me incomodam. Quer dizer, não me incomoda alguém pensar diferente de mim sobre os finais de séries, tampouco se mascarem chicletes do sabor que seja. O que me incomoda é a urgência que vem com o final de uma série, e o chiclete, quando o mascam de boca aberta.
Vamos deixar os chicletes pra lá, então.

O último episódio de Dexter foi ao ar no domingo, nos Estados Unidos. Sim, sentirei falta da série, que apesar de seus altibaixos, conta com momentos e personagens catárticos. Como não pensar no final da quarta temporada? Aquele último episódio seria um belíssimo final de temporada. Mas ainda havia muito sobre Dexter (Michael C. Hall) a ser dito. O serial killer queridinho dos apreciadores das séries estava deixando o 100% psicopata para trás. Por isso mesmo, as mudanças couberam onde deviam. Para mim, o saldo foi positivo, e Dexter fará muita falta.
Outra série muito interessante, que não temeu assumir mudanças drásticas no comportamento dos seus personagens…

A ASSINATURA >> Whisner Fraga

Trabalhando no oitavo andar do Edifício Ituiutaba, eu utilizava muito o elevador. Verdade que algumas vezes eu preferia a escada, mas só nos dias em que o calor dava uma trégua. Perto do botão que usávamos para chamar o veículo-caixote, várias assinaturas asseguravam que, algum dia, seus donos passaram por ali. Era uma tentação para o egocentrismo de um adolescente.

Sempre tive esse desejo de me sobressair, essa arrogância de um idiota que queria seu lugar à sombra, de modo que, naquela tarde, levei a minha caneta vermelha. Os outros nomes vinham em tinta azul ou preta, o que dava uma monotonia desconcertante ao cenário todo. Eu desejava dar um pouco de cor à placa de alumínio que envolvia o botão branco. Caprichei no meu nome, todo em letras maiúsculas: WHISNER. O cuidado fora tal que parecia uma obra de arte em meio a garranchos.

Desci feliz rumo ao banco: precisava pagar alguns boletos para o patrão. Imagino que tenha sido o Sô Bete que descobrira a minha assinatura naquele mesmo di…

A MESMA ÁRVORE [Ana Claudia Vargas]

Todos nós estivemos no mesmo lugar, à mesma hora, no mesmo dia e sequer havíamos marcado encontro. Foi simples e natural nossa ida àquele lugar sem que houvéssemos combinado. No domingo das lojas fechadas, algumas poucas abertas; a praça estava cheia de idosos que dançavam músicas antigas dos tempos grandiosos; de crianças levadas pelas mãos de seus pais atentos ou displicentes; e havia ainda o córrego quase transbordante das chuvas da noite anterior e suas águas barrentas e opacas e mais as nuvens carregadas da outra chuva que haveria de cair dali a pouco (como de fato caiu). Era final de verão.

E, no meio de tudo, nós que sequer havíamos marcado encontro, como já dito, nós todos – a família, esse núcleo de criaturas humanas que se assemelham somente porque dividem a mesma origem biológica – nos espalhamos pelas alamedas da praça, nos juntamos quando a chuva se fez mais forte sob o mesmo teto e eu me lembro das lojas cheias de turistas apressados e ávidos por comprar e comprar - …

PODE CHEGAR, CALOR >> Mariana Scherma

A primavera não chegou oficialmente, mas o calorão já. Acho o máximo morar num país que faz mais de 30 graus ainda no inverno, mesmo que seja na reta final dele. Adeus casacos, cachecóis e meias grossas. Sejam muito bem-vindos shorts, saias, chinelos e biquínis. O que mais me encanta na primavera-verão é que tudo fica mais simples. A gente não precisa sair de casa com quinze blusas e quatro meias, nossas refeições ficam mais leves e as saladas se tornam ainda mais saborosas. Tomar banho volta a ser gostoso, a água gelada caindo do chuveiro é divina. Mas...
Como tudo o que é bom tem um mas, o do calor são as pessoas que vivem reclamando dele. Eu acho a coisa mais confusa brasileiro reclamando do calor e dizendo preferir inverno. Toda vez que ouço algo do tipo fico com uma certa raiva da cultura do Hemisfério Norte que a gente vive engolindo sem mastigar. Sim, na minha opinião é por causa dos filmes com bonecos de neve e mulheres chiques, cheias de casacos, que boa parte dos brasileiros …

PRA LÁ DE BOAS >> Carla Dias >>

Eu tive uma noite pra lá de boa, ontem. E nem pensem que não celebro e agradeço por isso. Aliás, agradecimentos fazem parte da minha existência. Não os renego, tampouco os invento. Tenho o maior apreço pelos agradecimentos do qual sou autora, já que por detrás deles há sempre uma história que vale a pena. Para mim, agradecimentos são sagrados.

Claro que isso não quer dizer que eu ande por aí dizendo somente “amém” a tudo. Pelo contrário... Sou geniosa em alguns aspectos, meu ser escorpiano se eriça quando me aviltam, desrespeitam. Mas se há algo que sei fazer é reconhecer momentos que me acontecem como presentes da vida.  Aí entra o agradecimento.

Pensando bem, já são duas noites pra lá de boas, em menos de uma semana. Além de ontem, a noite de sábado foi muito bacana. Agradecimentos registrados.


No sábado, eu fui ao show do amigo, compositor e poeta, Kleber Albuquerque, e em nossa terra natal, Santo André. Além de ter assistido a um show lindo que só – o que dizer sobre um show chama…

COISAS DA VIDA >> Sílvia Tibo

Até bem pouco tempo atrás, tinha em casa, colado atrás de uma das portas do guarda-roupa, um pedaço de papel com um punhado de metas e atividades a serem executadas ao longo dos meses e anos seguintes. Além disso, andava sempre com um bloquinho de notas a tiracolo, onde tentava agendar, com rigor, todo e qualquer compromisso assumido. 
Obviamente, volta e meia acontecia uma surpresinha que abalava o esquema, o que me obrigava a traçar novas datas para o cumprimento de uma ou outra tarefa. E, por mais que isso não me trouxesse qualquer tipo de prejuízo real, era suficiente pra deixar malucos (e à flor da pele) cada um dos meus mais calmos nervos.
Com roteiro à mão, seguia vivendo, na ilusão boba e egoísta de que as forças do universo estavam (ou deveriam estar), todas elas, à minha inteira disposição, conspirando o tempo todo pra que o meu script fosse executado dentro do prazo estimado e nos termos estabelecidos. 
Ao longo do tempo, sem que eu me desse conta, os papeizinhos colados no ar…

PAQUERA DE MOTORISTA [Ana González]

Ela chegou esbaforida e sentou-se do meu lado no primeiro banco logo atrás do motorista. Tive que me encolher porque ela era alta, cheia de corpo e ainda tinha uma criança no colo. Olhei de lado e senti vontade de ajudar, porque ela carregava também uma bolsa e uma garrafinha de água. Mas, a mãezinha tinha habilidade e experiência. Não precisou de mim.

Ela agradeceu o motorista que acabara de se ajeitar do banco e avisou que desceria no ponto da Praça 14 Bis, ao que ele respondeu que ela o esperasse parar o ônibus antes de se levantar do assento. Cuidado com a criança?

Depois que ela se tranquilizou, comentei que ele era um motorista educado e atencioso. Ela abriu um sorriso largo e completou: “Raro mesmo, diferente, dá gosto. Tomara todos fossem assim.” No que ele, ouvindo, respondeu: “ Pois então chegue até o ponto final.” Ela então disse prontamente que iria mesmo se não tivesse que parar, pois o prédio em que morava era logo ali, aquele verde e apontou. E se a filha não estives…

QUE ME PERDOEM A FALTA DE PROSA COM A POESIA >> Carla Dias >>

Quando não consigo me inspirar para escrever uma crônica, acabo sempre enfiando o pé na poesia... E as jacas que se danem. Hoje não será diferente, porque acordei mais para a poesia do que para a prosa. Em dias como este, eu me internaria em casa, um bom disco para ficar tocando o dia inteiro, uma boa janela para observar horizonte. E então, depois de horas de contemplação, daria vida a alguns poemas lançados ao mundo feito irmãos coniventes com o assalto dos sentimentos à flor da pele que decidiram me fazer companhia.

Só que a verdade é que estou no trabalho, no meu horário de almoço. A música não é de disco, mas uma coletânea de algumas das minhas preferidas sendo lançadas ao recinto pelo computador. Ella Fitzgerald está cantando Blue Skies neste momento: Blue skies / Smiling at me / Nothing but blue skies / Do I see. E me chamam no Skype para dizer que um determinado documento não foi entregue, como prometido. Prometi para até às 15h... Vai chegar.

Eu não compreendo o motivo de ta…

A TERÇA QUE NÃO É SÓ UMA TERÇA >> Clara Braga

Desde que comecei a escrever pro Crônica do Dia passei por muitas terças que não eram apenas terça, mas também eram dias importantes por diversos outros motivos, mas com certeza essa é minha primeira terça-feira do dia do meu próprio aniversário!
Confesso que escrever no aniversário dos outros é um tanto mais fácil, afinal, sempre temos coisas boa para dizer para aqueles que são especiais para a gente. Mas escrever no próprio aniversário é complicado, eu não vou fazer uma homenagem para mim né, isso seria um tanto esquisito. Então, decidi transformar essa crônica na crônica do agradecimento.
Isso mesmo, hoje vou aproveitar para agradecer a todos que fazem sempre com que os meus dias, seja meu aniversário ou não, sejam especiais. Seja me fazendo sorrir, seja me dando um ombro para chorar, seja apenas estando por perto, muito obrigada!
Hoje, mais um ano da minha vida se inicia, e esse dia é especial por causa de todas essas pessoas que fazem com seja especial! Espero que todos continue…

IN MEMORIAM >> Whisner Fraga

Para uma criança, presenciar aquele senhor oferecendo a sua mansão em troca de uma casa de classe média, recém-construída, está claro, mas ainda de classe média-baixa, era coisa séria. Moleque leva tudo a sério demais. Fato é que, quando ele me pediu a opinião, fui taxativo: não. Eu gostava de meu quarto, que dividia com dois irmãos e que devia ter uns três metros quadrados de área útil, descontados os espaços ocupados pelas camas e pelo guarda-roupa.

Mais tarde, na adolescência, me aproximei mais deste senhor: cheguei a trabalhar para seu filho, em uma vídeolocadora. Aos sábados, o estabelecimento funcionava o dia todo, até o final da tarde. Não eram raras as aparições do pai de meu patrão, que me pedia que colocasse um filme para a gente assistir. Como o movimento era fraco depois das quatro, era sempre possível.

Certa vez, estávamos a ver "Trocando as bolas", com Eddie Murphy, um blockbuster bem previsível dos anos oitenta, hoje quase um clássico, quando começaram a desfila…

A TERCEIRA RAZÃO [Maria Rita Lemos]

Acordei, hoje, com muita vontade de escrever sobre o desapego.

As razões para isso são três: a primeira veio de uma notícia no jornal que li recentemente, dando conta do êxodo de lavradores chineses que, devido a grande seca na região, tiveram que deixar suas terras às pressas para procurar, na cidade, melhores condições de vida. Sem saída, tiveram que desapegar-se do que era seu.

Segunda razão: encontrei-me casualmente, no último final de semana, com uma amiga querida. Feliz, ela me contou que seu filho, que mora em outro estado, havia vindo visitá-la, por poucos dias, e ela estava fazendo compras no mercado para as comidinhas favoritas dele. Seus olhos se encheram de lágrimas, enquanto ela me contava que sempre que ele vem é assim: como um cometa luminoso, chega e parte, deixando saudade. Ela é muito apegada a ele, e sofre com sua ausência, ainda sabendo que ele está feliz, fazendo o que quer e onde quer.

Lembrei-me, ouvindo a amiga, de uma lenda. Conta a história de um mest…

SOBRE FILAS, BEATAS E RESPEITO >> Mariana Scherma

Às vezes é inevitável encarar uma fila e tudo bem, faz parte. Quando é preciso, eu já me programo e saio mais cedo de casa pra não fazer a dança dos pezinhos irritados. Porque uma coisa é certa: pior do que a fila em si é a galera ao redor bufando e batendo o pé, como se estivesse descalça num asfalto a 100oC. O problema é que nem sempre a vida da gente se encaixa nessa ordem quase utópica de ter tempo pra tudo e aí...
Eu só precisava trocar dinheiro pra pagar uma pessoa no trabalho e decidi dar uma passada rápida no supermercado, que ficava no caminho. Tinha 20 minutos cronometrados. Peguei duas humildes bananas e entrei na fila. O problema é que o supermercado não colaborou comigo. Tinha apenas um (ãham, um!) caixa funcionando e todo mundo estava na fila: eu, você, o fulano, o cicrano e, se bobear, até o padre dos balões apareceu na fila. Eu era a última até que apareceram também duas senhoras mais velhinhas (mas não era caixa preferencial, então não cedi meu lugar).
O problema é que …

COLECIONANDO >> Carla Dias >>

No universo dos colecionadores se encontra de um tudo. Mas há colecionadores que não estocam produtos na sala de estar, não preenchem espaços físicos. Que passam pela vida como se colecionar não fosse parte de suas vidas. Esses são os colecionadores mais intrigantes.

Quem nunca conheceu um colecionador de status, ainda o conhecerá. Aquele sujeito que adora títulos, que por eles faz e acontece, sem se importar com as consequências, contanto que alcance o seu posto no pódio.

Colecionar títulos é bem diferente de conquistá-los. Na conquista, há um prazer muito mais atencioso com aqueles que caminham ao nosso lado, já que, para alcançar qualquer objetivo, precisamos que outras pessoas também cumpram os seus papéis. Além do mais, a conquista lida com as emoções, enquanto um colecionador se dedica a controlá-las como um meio para se atingir um fim.

Já me deparei com muitos colecionadores de lamentações, aquelas pessoas que não sabem fazer outra coisa que não seja se lamentar. Quando aconte…