sábado, 7 de setembro de 2013

A TERCEIRA RAZÃO [Maria Rita Lemos]

Acordei, hoje, com muita vontade de escrever sobre o desapego.

As razões para isso são três: a primeira veio de uma notícia no jornal que li recentemente, dando conta do êxodo de lavradores chineses que, devido a grande seca na região, tiveram que deixar suas terras às pressas para procurar, na cidade, melhores condições de vida. Sem saída, tiveram que desapegar-se do que era seu.

Segunda razão: encontrei-me casualmente, no último final de semana, com uma amiga querida. Feliz, ela me contou que seu filho, que mora em outro estado, havia vindo visitá-la, por poucos dias, e ela estava fazendo compras no mercado para as comidinhas favoritas dele. Seus olhos se encheram de lágrimas, enquanto ela me contava que sempre que ele vem é assim: como um cometa luminoso, chega e parte, deixando saudade. Ela é muito apegada a ele, e sofre com sua ausência, ainda sabendo que ele está feliz, fazendo o que quer e onde quer.

Lembrei-me, ouvindo a amiga, de uma lenda. Conta a história de um mestre e seu discípulo, que estavam a caminho de uma aldeia vizinha, quando viram, na margem de um rio, uma bela moça tentando atravessar. O mestre ofereceu ajuda e levou-a, no colo, até a outra margem. Logo após, cada qual seguiu seu caminho. O discípulo ficou preocupado, porque aprendera que um monge não deveria jamais tocar numa mulher. Assim, voltando ao templo, ele perguntou ao mestre por que fizera aquilo com aquela moça, ao que ele respondeu: "Eu apenas deixei a moça do outro lado do rio, você é que ainda a está carregando..."

O desapego, das coisas e pessoas, tem que começar bem miudinho, quando nos desfazemos de coisas pessoais no nosso guarda roupa, por exemplo. Não apenas naquilo que não nos serve mais, mas no que queremos dar só para treinar esse traço importante de caráter. Quando mais sábios, podemos treinar com os sentimentos, que também estacionam no verbo "ter": pensamos que "temos" as pessoas. Meu amor, minha esposa, meu marido, meus filhos, meus pais, meu, meu, meu... aí chega a vida e tira algum ou vários deles, brincando conosco, nos ensinando, ou ambos. Perdemos o chão, ficamos sem referencial. Talvez aí seja a hora dolorosa de treinar o desapego, se não fizemos isso antes.

Vivemos num tempo em que vale mais quem mais tem, e a mídia o tempo todo apela para que compremos bens materiais, como se isso fosse o segredo da felicidade. Talvez esteja exatamente aí a nossa grande fonte de angústia.

No momento em que superarmos a vontade de ter, no mágico instante em que visualizarmos um carro magnífico pensando que não o temos, mas somos felizes ainda assim, já teremos avançado muito em direção à verdadeira qualidade de vida. Mais difícil, porém, que desapegar-se de coisas exteriores, é o desapego em relação às pessoas. Ninguém pode ser trancado, guardado, escondido num armário, à nossa disposição, sejam eles filhos, parentes, amados ou amigos.

É difícil lidar com esse conceito, mas é absolutamente correto: as pessoas ao nosso redor, por mais que as amemos, nos foram emprestadas, e podem partir a qualquer momento, para onde querem ou para o lugar de onde vieram. Todas as coisas e pessoas, nessa vida, vão e vêm. Roupas e sapatos se desgastam, carros novos rapidamente ficam obsoletos. Pessoas, ainda que queridas, separam-se de nós, viajam, morrem. Por algum tempo ou para sempre, é a dinâmica da vida, que não se detém nem nos dá tempo para recuperarmo-nos.

Desapego não é desamor, mas entregar-se por inteiro ao momento, sabendo que tudo e todos passam. Sofre muito mais quem se apega, seja ao dinheiro, ao status, à profissão ou aos que ama. Importante é "deixar ir", tanto as coisas como as pessoas. Se a chuva cai, vamos desfrutar do cheiro da terra molhada, bem como do brilho do sol, porque ambos são temporários. Rubem Alves diz que "amar é ter um pássaro pousado no dedo: nós o amamos enquanto o deixamos partir e voltar, à sua vontade".

Desapegar-se é entender que solidão não é estar sozinho, é ter coragem de partir ou deixar partir sem olhar para trás, sem se lastimar, sem sentir que perdeu. Lá em cima eu disse que havia três razões para essa reflexão de hoje - comentei a respeito de duas delas. A terceira razão para que eu escreva sobre desapego quero guardar bem dentro do meu coração. Tomara que esse texto, inspirado num simples encontro, também me ajude em minha terceira razão.

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2 comentários:

Fernando Psidium disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Carla Dias disse...

Belo texto, Maria Rita. Espero que sua terceira razão para o desapego seja gentil com você. Um abraço!