segunda-feira, 30 de setembro de 2013

COSPLAY >> André Ferrer

Vai à ONU e descarrega o “mimimi” escarlate nos desumanos ouvidos capitalistas enquanto lá fora, em Manhattan, o apartamento de 22 mil Reais a diária aguarda. Em Paris, comunistas brasileiros fazem compras e compõem sambas-protesto dedicados a um homem de bem, herói injustiçado que, nos Anos de Chumbo, derramou o próprio sangue na luta contra o imperialismo. Ó Notre-Dame dos Mensaleiros livrai-o! E também todo o resto de nós deste cinismo: Pedro Pedreiro exilado em plena farra turística às vistas do Sena. É claro, na margem esquerda.

No discurso dessa tropa vermelha, o Capital funciona mais ou menos como o demônio na boca dos televangelistas. Nenhuma coerência se sustenta fora do velho jogo do maniqueísmo. Daí a minha resistente desconfiança de que vivemos uma época infantil. No máximo, pré-adolescente.

Para crianças, a coerência não admite nuances. Ou você é bom ou está contra o herói. A criança inicia o reconhecimento das tonalidades cinzentas, entre o preto e o branco, na pré-adolescência. O caminho até a maturidade, onde, afinal, a paleta de cores revelar-se-á complexa e implacável, é árduo e cheio de crises. Há uma forte tendência à recusa. O mundinho simples e maniqueísta, perfeitamente dividido entre Deus e o Diabo, Tio San e Guevara, é muito melhor. E não tenho dúvidas de que a maioria das pessoas prefere a facilidade ainda que esta signifique o confinamento do espírito.

Por outro lado, é muito fácil dominar e lucrar mediante estas duas características: (1) ter o conhecimento de que as pessoas adoram o branco e abominam o preto, sempre incapazes de enxergar os infinitos tons de cinza, e (2) não ter caráter algum. Ora, qualquer cidadão que inventar um produto esotérico-marxista e aplicar uma estratégia de marketing voltada para os crédulo-dependentes do Bolsa Família ficará poderoso e rico neste país. Aliás, o cenário em toda a América Latina é favorável aos políticos inescrupulosos e aos falsos profetas. Reproduz, em preto e branco, aquela imagem satírica do Mao Tsé Tung na Disney, agora, no entanto, em proporções continentais. Engana-se quem ainda só pensa na Venezuela.  Tem “mané” fazendo cosplay de bolchevique do Panamá à Terra do Fogo.

Nada contra os cosplayers. Trata-se de um fenômeno natural. Marca de uma época na qual a protelação da seriedade avança tanto na vida das pessoas, que deixa espaço livre para a infância e a adolescência intermináveis.


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Um comentário:

Zoraya disse...

Excelente, André! Que maneira interessante e diferente de ver nossa constante recusa em tomar atitudes e ver a infinitude de nuances e interesses que há por trás das aparências.