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Mostrando postagens de Setembro, 2007

MEU TIPO DE MULHER >> Eduardo Loureiro Jr.

Dias desses, minha amiga Inês me perguntou qual o meu tipo de mulher. E minha memória me jogou num outro pátio, que originou esse patio.com.br. Eu estava sentado no banco de cimento defronte ao hexágono amarelo, conversando com um amigo tão super-herói que se chamava Zorro. Ele interrompeu o que eu estava dizendo e falou: "Olha, Eduardo, aquela mulher que vem ali é o seu tipo." Olhei na direção em que ele apontou e... não é que era mesmo! Aquela mulher, definitivamente, atraía o meu olhar. Zorro havia acertado. Ele sabia qual o meu tipo de mulher, coisa que eu, tenho que confessar, nunca soube. E dia desses, sem o Zorro por perto, eu não soube o que responder à minha amiga Inês.

Para mim, é estranho que eu tenha um tipo de mulher. Porque mulher é sempre tão cada uma, tão única, tão inconfundível, que me parece um exagero de classificação incluí-la em um tipo. Por outro lado, se o Zorro era capaz de antecipar o meu gosto por determinada mulher, é porque eu tinha — e talvez ain…

PRECONCEITO [Maria Rita Lemos]

Albert Einstein estava com 70 anos quando disse uma de suas frases mais famosas: “Triste época essa nossa, em que é mais fácil desintegrar o átomo que erradicar preconceitos”... Isso foi em 1949, e o grande físico era já um ancião, tendo falecido seis anos depois.

Ilustro essa frase do maior físico e cientista, a meu ver, que o mundo conheceu, com uma experiência feita na Universidade de Princeton, Nova Jersey, Estados Unidos. Um grupo de cientistas dessa Universidade colocou cinco macacos numa jaula, em cujo centro puseram uma escada e, sobre ela, um cacho de bananas. Quando um dos macacos, famintos, subia a escada para apanhar as frutas, os cientistas lançavam jatos de água fria sobre os que estavam no chão. Depois de certo tempo, quando um macaco ia subir a escada, os outros enchiam-no de pancadas. Passado mais tempo ainda, nenhum macaco subia a escada, por maior que fosse a tentação das bananas.

Num segundo momento, então, os cientistas substituíram um dos cinco macacos por outro,…

O PAI PRÓDIGO [Ana Coutinho]

Certamente você já ouviu falar a respeito. Ou na missa, ou num texto, ou a sua mãe dizia, ou alguém no ônibus, atrás de você, já mencionou a “parábola do filho pródigo”.

Ela é simples. Fala sobre um filho que saiu de casa, gastou todo o dinheiro que o pai havia dado pra ele e, quando estava na miséria, se arrependeu de tudo e voltou pra casa. O pai, ao contrário do esperado, o recebeu de braços abertos. Mandou matar um porco e fez uma festa de boas vindas, porque o filho estava perdido e voltou. No entanto, esse pai tinha outro filho. O outro filho sempre foi trabalhador e nunca saiu do lado do pai e, ao ver a festa que este fez para o irmão desmiolado, se aborreceu, se entristeceu. A essa reação, o pai respondeu: “Alegre-se meu filho. O seu irmão estavava perdido e voltou!”.

É basicamente isso, e é assim que a relação entre pais e filhos foi, por tanto tempo, concebida. Os filhos são uns desmiolados, e os pais possuem um enorme amor incondicional.

Por isso tudo devemos respeito aos n…

CARTA AO ALÉM PARA JACK KEROUAC << Leonardo Marona

Querido Jack,

Hoje, quando andava pela beira da praia e vi uma gaivota se afogar, quer dizer, vi a gaivota mergulhar na água com vigor, mas não vi a gaivota voltar, eu pensei: “essa gaivota é como Jack Kerouac”.

E agora sua voz se repete na minha cabeça, se repete dizendo que nada ou ninguém poderá dizer nada sobre os trapos da nossa velhice. Por que justo hoje eu teria pensado em ti, meu velho amigo, pão pobre amassado, minha impossibilidade?

Na verdade, somos todos em algum momento deuses, quero dizer, todos somos deuses plenos, mas vez em quando reparamos nisso, em lampejos, lá fora as pessoas nas ruas andando do mesmo jeito, os mesmos semblantes, com questões urgentes e assassinas, deslizando sobre a navalha de um planeta aos pigarros, todas pessoas particulares num saco de abandonos, Kerouac, porque na miséria reside a peculiaridade soberana.

Mas essa carta não é para te incomodar com os meus lamentos, se nem bem somos tão amigos ainda, se ambos somos tímidos, porque falamos demais. …

A ESPERANÇA QUE DÓI [Anna Christina Saeta de Aguiar]

De todos, talvez o sentimento que mais me comova seja a esperança.

Não estou pensando na esperança contínua, obcecada, irreal dos fanáticos, que anseiam por algo que não se sabe sequer se existe de fato. Nem naquela esperança que é mais um tipo de modéstia, pois na verdade tudo já está encaminhado para o sucesso. Nestes casos, a esperança é apenas cautela. E não me comove a esperança abstrata do "tudo vai dar certo", que só surge quando não há mais nada a se falar.

A esperança que me abala de forma mais profunda é aquela esperança íntima que surge de repente, nas piores situações, de maneira involuntária, apenas um lampejo que ilumina por um segundo o breu da realidade e desaparece antes que se pisque o olho. É quase um sonho, essa esperança de que falo.

É a esperança dos filhos que, ao lado do leito do hospital, seguram a mão do pai ou da mãe - ou dos pais que aguardam à cabeceira do filho doente - e que, mesmo quando o pior já é certo e assimilado, sentem, em meio às lágrima…

SOBRE SEMÁFOROS >> Carla Dias >>

Tirei a manhã para respeitar completamente os semáforos. E onde eles estavam em falta, gastei um tempo preguiçoso esperando que não viessem carros nem de um lado, tampouco de outro. Sabe o que é isso aqui em São Paulo? É esperar movimento de feriado em dia útil.

Aproveitei para caminhar com tranqüilidade, passo avesso àquele que me conduz, diariamente, ao trabalho. Segui observando a correria das outras pessoas; os pontos de ônibus lotados, esperas que iam além da espera pela condução. Talvez houvesse também a espera pela condição... A de se respeitar todos os semáforos, de vez em quando; desrespeitando o ponteiro do relógio que nos induz cumprir a realidade que se nega a perceber mais do que pontos finais. Sabe como? Ponto final para o dia doído de tão corrido que foi; para as amarguras cultivadas no trabalho; para a irritação de ter errado a mão quando necessitava de todo o talento para executar tarefas; para a decepção de ser coroado, a cada erro, como alguém desprovido de acertos.

N…

sorriso e cidadania >> Claudia Letti

Fiquei espantada, dias desses, ao constatar que muita gente inteligente e articulada não sabe realmente o que quer dizer "cidadania". Até eu fiquei confusa com tamanha confusão alheia e fui atrás do Aurélio pra esclarecer já que pra reclamar ninguém parece precisar esclarecer coisa alguma, visto que é facil e geralmente custa nada.

cidadania [De cidadão + -ia1, seg. o padrão erudito.]
Substantivo feminino.
1.Qualidade ou estado de cidadão:

cidadão[De cidade + -ão2.]
Substantivo masculino.
1.Indivíduo no gozo dos direitos civis e políticos de um Estado, ou no desempenho de seus deveres para com este.
2.Habitante da cidade.
3.Pop. Indivíduo, homem, sujeito:
Esteve aí um cidadão procurando por você. [Fem.: cidadã e cidadoa; pl.: cidadãos.]

É enfadonho ler o que nos diz o dicionário, bem sei, até porque palavras bem colocadas, muitas vezes, não querem dizer muita coisa. Palavras se reduzem a ilustrações quando as atitudes é que falam.

Ser um cidadão é desempenhar seus deveres para o com o…

INVESTIR EM CULTURA >> Maurício Cintrão

Os políticos começam a despertar para as vantagens da cultura como instrumento de marketing. É uma descoberta que tem vantagens e desvantagens para todos os envolvidos. Do prefeito populista ao artesão de oportunidade, muitos podem ser os enganadores a movimentar recursos públicos e a boa fé da população. Mesmo assim, defendo o desenvolvimento de projetos e políticas que programem investimentos em cultura.

Apesar dos riscos, o interesse em injetar recursos em atividades culturais representa um mundo de oportunidades para quem não as tem. O universo cultural gera empregos, gera renda, gera auto-estima e gera novos horizontes para pessoas que estão à margem dos caminhos que constroem o futuro.

Se há dinheiro, há atravessadores, eu sei. Mas não vamos matar a todas as iniciativas só porque os parasitas vivem de aproveitar do esforço alheio. Busquemos controlar a intermediação de empresas de marketing e profissionais liberais. Apesar de algumas sanguessugas ocuparem a área, há empresas e pes…

A DISTÂNCIA, AFINAL >> Eduardo Loureiro Jr.

"Eu sei e você sabe
que a distância não existe."
(Vinícius deMoraes)

"O amor não é amado."
(Francisco de Assis)

Veja você que situação a minha. Nesta crônica final sobre a distância, eu teria que dizer-lhe que a distância, afinal, não existe, que ela não passa de uma ilusão. Que as distâncias de que venho falando - física, mental, emocional, exterior e interior - são apenas miragens, sonhos sem realidade.

Mas, sendo a distância inexistente, que necessidade há que eu lhe diga isso? Pois se não há distância entre mim e você, o que eu penso é o que você pensa, o que eu sinto é o que você sente, e não haveria necessidade de comunicação.

Se eu insistir em lhe dizer da inexistência da distância, estarei, na prática, estabelecendo uma distância que estou negando na teoria: a distância será distanciada.

Mas posso lhe contar uma história, porque as histórias, mesmo sendo também ilusões, não têm a intenção de convencer, logo não perpetuam a ilusão, apenas deixam que a ilusão passe,…

GOL DE CRÔNICA >> Felipe Holder

Já joguei muitas peladas na vida, mas jamais pensei que fosse vibrar tanto com um gol. Muito menos com um gol feito contra o meu time. Mas aconteceu.

Domingo, 31 de agosto de 2003. Eu, minha irmã Renata e minhas duas sobrinhas — Roberta e Pollyana — fazemos aniversário nos primeiros dias de setembro, e naquele ano Renata teve a idéia de alugarmos uma chácara bem grande onde teríamos um final de semana inteiro só de festa.

Pois bem, jogávamos uma partidinha de futebol familiar e comemorativa. Na pelada (é assim que chamamos, em Recife, esse jogo entre amigos) estavam quase todos os presentes ao evento: pai, filho, filhas, netos, netas, irmãos, tios, sobrinhos e amigos. O jogo estava empatado, quando meu amigo-quase-irmão Ricardo recebeu a bola no meio de campo e iniciou um contra-ataque. Eu era o último jogador entre ele e o gol, e não tendo muito o que fazer, corri pra cima dele pra ver se ele se assustava ou, pelo menos, tocava a bola pro lado dando tempo dos outros voltarem pra me aju…

AMOR SECRETO [Carla Cintia Conteiro]

Tenho um amor secreto agora. É emocionante viver na clandestinidade, de olhares fortuitos, leves acenos, quase imperceptíveis, quando nos encontramos casualmente, ele com outra companhia, fora de nosso espaço reservado. Nosso acordo funciona bem assim.

Ser casada com um homem que entende a alma humana ajuda. Meu marido não tem ciúmes. Nutre, ele também, afeição por meu amor secreto. Tantas vezes juntou-se a nós quando estávamos brincando. Mas ambos sabem que têm lugares separados no meu bem-querer, estão conformados e satisfeitos. É um bom arranjo.

Não nutro culpa ou qualquer outro tipo de encucação. Não haveria motivo. Foi bom ter estudado psicologia. Assim, quando ele passa por mim, fingindo que não me vê, mal indicando que percebe minha existência, sei que não é para zombar do meu coração. É assim mesmo. Ele não pode expressar o amor que sente por mim publicamente. Não é rejeição ou algo parecido. É necessário manter este comportamento. E esse jogo é até divertido.

Sei que depois, a s…

O FUTURO QUANDO CHEGA [Cris Ebecken]

De repente veio um medo. Justo comigo que não sou disso, injusto justamente justo justificativo, me invadiu o bolo trêmulo adentro, a garganta pulsando e se sentindo com cinco dedos. Dedos todos amigos, auxiliares do botar fora os fins já ditos. E então esse medo. Nada aterrorizador, apenas medo. Uma pressa sem pressa de acontecer... tudo já acontece.

De repente me vejo bem no meio da minha própria vida indo de início à vida que quis, simplesmente sendo o que sou, caminhando ao que a velha de mim, já posta fora, acreditara ser fantasia. Mas não há fantasia. Ilusão fora a que já deixei de ser, a que descortinei e desformatei. Pois sim, o avesso é o desavesso. O excesso de ordem é desordem. Só agora aconteço... simples. Aquela por insônias procurada no espelho, rascunhada em verso sobre verso, de repente aqui. Perigosos são os labirintos do passado perdido. Agora me repito: calma, calma, tudo está em calma, você aprendeu a se dizer sim.

Porque de repente o presente é o futuro quando cheg…

O CARRO VERMELHO >> Leonardo Marona

Todos pensavam se aquilo poderia ser apenas passageiro. Ninguém andava ou se mexia. Esperávamos alheios, cada um com seu tipo de loucura. As luzes dos carros iluminavam os mendigos, que se retorciam em caretas indesejáveis. Ela esperava o ônibus enrolando os cabelos crespos muito claros. Muito clara ela também, do queixo proeminente.

Vaga ascendência africana, em pecado era polonesa. Nos cabelos dava em nó um coque, os cabelos soltavam-se gentilmente. Melhor: soltavam-se doucement, como se diz em francês. Neste caso é mais apropriado o francês. Então ela repetia o processo.

Eu tomava um suco e pensava sobre o meu futuro imediato escorado no balcão de uma lanchonete barata onde homens obesos discutiam futebol.
Ela esperava o ônibus, olhava para trás, um coque nos cabelos, olhava para os lados, o coque se desmanchava.

De repente se levantou, tênis all-star e calça roxa colada, parou no meio da rua, estabanada, olhou para trás – para mim? – olhou para os lados. Estaria perdida? Seria o desti…

A DOR E A DELÍCIA DE COMPLETAR 100 ANOS >> Cristina Carneiro

Dona Canô no meio do furdunço




Domingo, 16 de setembro, dona Canô chamou a Bahia para comemorar seu centenário em Santo Amaro da Purificação. Por tabela, eu fui; afinal, um chamado de dona Canô não se pode negar.
Entrando na malcuidada Santo Amaro, que me lembrou Camocim sem mar, fiquei pensando como é que daquele confim saíram Caetano e Bethânia para o mundo. Lembrei que dona Canô teve uma educação exímia: aprendeu inglês, francês, tocou piano e cantou muita música popular para seus meninos, introduzindo-os na arte para sempre. Foi a primeira dor funda do dia: lembrei que hoje quase não existe mais isso. Os pais enfiam seus filhos em colégios, pagam tufos de dinheiros, lavam as mãos e sequer ouvem 'Leãozinho' junto a suas crianças.
Na sacristia, ao esperar o início da missa em ação de graças a dona Canô, fiquei observando o vaivém das gentes todas que chegavam para o aniversário. A imagem de Nossa Senhora Aparecida também veio de Aparecida, em São Paulo, para os cem anos. Devot…

MEU CARO AMIGO [Anna Christina Saeta de Aguiar]

Meu caro amigo, andei de novo descumprindo promessas. Descumpri uma que fiz aqui mesmo, nestas páginas, de que estaria de letras presentes todas as quintas-feiras. Mas não foi por querer, ou melhor, não foi por não querer. Aliás, quase nunca é por não querer que não faço. Sempre tenho ótimas justificativas, nem sempre convincentes para os outros, mas sempre muito verdadeiras.

Primeiro deixa te dizer que achei muito legal você ter deixado aquele comentário, que me encheu o coração de alegria. Uma das coisas de que mais gostei na nova página, por falar nisso, foi essa possibilidade de receber e postar comentários, dessa aproximação maior entre todos nós.

Depois, achei engraçado e meio telepático que você tenha usado a palavra "vomitório", porque, creia-me, vomitório foi o que não me faltou na quinta-feira da semana passada - oh, céus, perdoem por usar a palavra vomitório para me referir não às palavras, o que é bastante limpinho, mas sim à, ahn, perdoem, vômito mesmo.

Você sabe, …

MINHA AMIGA ANNY >> Carla Dias >>

Eu ainda morava em Santo André, portanto foi antes de 1995, quando eu dava aulas de bateria em um conservatório aqui em São Paulo. Eu já trabalhava no Instituto de Bateria, mas somente até meio-dia (hoje trabalho até às 20h!). Então, aproveitava as tardes para fazer a vez de professora de bateria.

Foi nesse conservatório que me dei conta de como estudar saxofone pode atormentar os vizinhos. Não que eu estudasse este instrumento, mas a minha sala ficava pertinho da de sax e quando aluno da professora faltava e ela decidia estudar era um Deus nos acuda! Ficava difícil até mesmo conversar com o meu aluno. Mas isso não é reclamação (cada instrumentista com a sua cruz), e sim meu jeito de dizer que a bateria não é o único instrumento que, naturalmente, fala bem alto... Vocês já ouviram uma gaita-de-fole na hora do aquecimento do gaiteiro? Pois é...

Foi neste conservatório que conheci a Anny Jacopetti. Ela era muito novinha na época (tenho dificuldade em lembrar a idade das pessoas), uma alun…

(AINDA) SÓ PRA VOCÊ -- Paula Pimenta

Eu já escrevi pra você. Só pra você. Mais de um ano atrás. Na época, eu nem sabia que você ia ler. Mas você leu. E deu no que deu. Agora, mais de um ano depois, eu quero escrever de novo. Só pra você saber que eu continuo tão sua, tão de mente e alma sua, quanto naquele primeiro dia.

Eu sei que você sabe que desde aquela primeira vez em que te vi, você nunca mais saiu do meu pensamento. E continua por aqui, por mais que de vez em quando eu tenha vontade de te expulsar, por algum motivo qualquer que tenha me deixado triste... Mas você permanece marcando presença, em cada hora do meu dia, em cada minuto, aliás, acho que não tem um segundo em que eu não me lembre de você.

Eu sei que você imagina o quanto eu te acho inteligente. Que eu adoro conversar com você sobre qualquer assunto, que eu só não reclamo por não conversarmos mais ainda porque quando não estamos falando, estamos ocupando o tempo que temos juntos fazendo alguma coisa melhor...

Eu sei que você desconfia que na hora em que eu …

VOLTEI ÀS CORES >> Maurício Cintrão

Sou um pintor cíclico. Gosto de brincar com tintas e pincéis de tempos em tempos. Não há um “gatilho” detonador desse processo. Se existe, ainda não o identifiquei. Percebo que é a hora de voltar às telas e volto. Se fosse um pouco mais estável, talvez desenvolvesse o talento. Mas não faz parte da minha característica seguir linhas retas.

Esse é o motivo de variar entre a pintura, a joalheria artesanal e as coisinhas de biscuit, agora com passagens pela decoração de caixinhas de madeira reprocessada. Faço essas traquinagens nas horas de folga. E, quando dá, tento vendê-las para diminuir um pouco o déficit familiar.

Não, meus amigos, eu não sou um esbanjador juramentado. Não tenho despesas exorbitantes com sexo, drogas ou rock’n roll. Meus vícios foram abandonados. Não fumo mais e quase não compro sorvetes e chocolates. Nem carro moderninho eu tenho. Aliás, o velho e bom Escort 95 da Viviane, único veículo da Casa, é um dos motivos dos desembolsos acima do possível. É preciso investir o…

UÁ UÁ! >> Felipe Holder

Há quatro meses eu não durmo direito. Desde então tenho sido acordado no meio da noite pra escutar gritos e queixas numa altura de fazer doer o tímpano. E a cada interrupção, nunca menos meia hora para voltar a dormir.

Há quatro meses não posso mais dedicar meu tempinho do final da noite às coisas de que tanto gosto, como ler meus e-mails, visitar meus blogs preferidos, vasculhar as últimas do mundo do software livre e, às vezes, navegar sem rumo até chegar o sono. O sono sempre chega antes. E com a certeza de que vai ser interrompido logo, logo.

Há quatro meses minha vida mudou radicalmente. Nada de sair mais à noite, nada de tomar uma coca-cola com os amigos depois do trabalho, nada de pegar um cineminha com a esposa pelo menos uma vez por semana. Não sou mais dono da minha vida.

Há quatro meses, porém, eu sou o homem mais feliz do mundo. Desde então passei a ver todo dia o sorriso mais lindo que já vi na vida: em abril nasceu o meu filho Eduardo. Finalmente entendi o que meus amigos q…

A SEDUÇÃO DAS DISTÂNCIAS >> Eduardo Loureiro Jr.

(Continuação de AS DISTÂNCIAS.)

"Amar é mover o dom
do fundo de uma paixão,
seduzir as pedras, catedrais...
coração."
(Djavan)

Sedução é uma daquelas palavras que, invertendo o ditado, vale por mil imagens: a serpente lustrando a maçã para Eva; Dalila dedilhando os cabelos de Sansão; dançarinas do ventre com olhos de estrela acima do véu; Don Juan incendiando e derretendo a carne de suas pretendentes...

Seduzir tem a ver com afastar do caminho, desencaminhar, desviar. A sedução convida a sinuosidades, cria veredas, faz percorrer distâncias. Fisicamente, provoca deslocamentos: seduzir é levar a lugares nunca antes visitados. Mentalmente, sugere devaneios: seduzir é fantasiar coisas inimagináveis. Emocionalmente, desperta instabilidades: seduzir é fazer sentir todo o bem e todo o mal quase simultaneamente.

E, no entanto, as distâncias que a sedução parece inventar já estavam todas lá, internas, guardadas dentro do seduzido como o mar se guarda dentro da concha.

A distância interna é a…

NEO-CRIATIVIDADE: NOVAS FORMAS DE CRIAR [Heloísa Reis]

Acompanhando Neo, no filme Matrix podemos ter a pesada sensação de que o advento da cibernética pode estar nos engolindo. Como se estivéssemos na goela desse dragão, sentimos enorme impotência diante de um mundo cheio de novas engrenagens, novos códigos e senhas, únicas chaves para abrir caminhos.

Como encontrar essas chaves?

Em Matrix, os amigos Trinity e Morpheus vão à procura do Oráculo enquanto Neo negocia com as máquinas para enfrentar os replicantes agentes Smith – representantes do mal.

Sua jornada em busca de senhas e códigos não é fácil. Precisa pensar rápido, agir bravamente para sair das inúmeras armadilhas e situações perigosas em que se coloca. E toda a humanidade está em perigo, dependendo de sua ação e sucesso.

Qualquer semelhança com o homem atual em sua jornada pela vida não é mera coincidência.

O homem nasce no caos. Ou no vazio da mente. A absorção das idéias acontece no decorrer do processo do amadurecimento e da contaminação com o ambiente à volta. Manter-se pu…

MATEUS 27:46 >> Leonardo Marona >>

Poderiam ser fogos e festins das festas do fim de ano. Poderia ser mais uma cerveja e poderiam ser muitas opiniões bocejadas por almas aflitas de pernas cruzadas superestimando a fumaça dos cigarros como extensão de almas piratas, opiniões nas quais se baseavam apenas para a conformação do fato de que poderiam até saber das coisas, mas simplesmente não era sempre possível acreditar nelas. Mas havia sim um estalo, algo que poderia se quebrar, uma linha tênue de serragem contra o sol como num filme de caubói. Era noite, era o som de algo se partindo por dentro, era um estalo de agonia. Eram peles sobre carnes sobre bactérias sobre ossos, mas era também um não reconhecimento e talvez três bons amigos complacentes, quando este som, quando este constrangimento sonoro fez um deles pigarrear, como quando um se sente mal por ter sido interrompido bruscamente ao discorrer sobre o imperativo categórico da extinta civilização alemã.

- Socorro, socorro! Levei um tiro no coração!

Entra um homem de n…

PESSOAS >> Carla Dias >>

Desde criança, e que fique registrado que minhas lembranças dessa época são seletivas, uma das coisas que mais me dava prazer era saber sobre as pessoas. Lembro-me de como era observá-las lá na escola, época do primário. Apesar de me sentir extremamente longe delas, aquém de seus universos, ao prestar atenção no que diziam e faziam, percebia as sutilezas que reverberavam seus prazeres e dores, e isso se tornou uma fascinante jornada.

As pessoas mudam, conforme o tempo passa e também elas passam por nós. São poucos os amigos que trago daquela época. Na verdade, até hoje não compreendi como consegui a amizade deles e as amizades que vieram depois, já que observar as pessoas e percebê-las dessa forma tão repleta de lonjuras, também é viver do lado de fora da realidade delas.

Na verdade, com o tempo eu também fui me moldando. O tempo não desperta somente sabedoria, mas também necessidade. E quem não necessita de pessoas a sua volta; quem passa as vinte e quatro horas do dia imerso na solidã…