sábado, 22 de setembro de 2007

O FUTURO QUANDO CHEGA [Cris Ebecken]


De repente veio um medo. Justo comigo que não sou disso, injusto justamente justo justificativo, me invadiu o bolo trêmulo adentro, a garganta pulsando e se sentindo com cinco dedos. Dedos todos amigos, auxiliares do botar fora os fins já ditos. E então esse medo. Nada aterrorizador, apenas medo. Uma pressa sem pressa de acontecer... tudo já acontece.

De repente me vejo bem no meio da minha própria vida indo de início à vida que quis, simplesmente sendo o que sou, caminhando ao que a velha de mim, já posta fora, acreditara ser fantasia. Mas não há fantasia. Ilusão fora a que já deixei de ser, a que descortinei e desformatei. Pois sim, o avesso é o desavesso. O excesso de ordem é desordem. Só agora aconteço... simples. Aquela por insônias procurada no espelho, rascunhada em verso sobre verso, de repente aqui. Perigosos são os labirintos do passado perdido. Agora me repito: calma, calma, tudo está em calma, você aprendeu a se dizer sim.

Porque de repente o presente é o futuro quando chega, o alvo transporta e estende. Há de se saber abrir mão das mentiras antes vividas, deixar partir memórias póstumas, permitir sem paredes ser o que se é agora. Do próximo futuro nada prevejo. Tudo que sei é até mesmo pouco sobre as querências. Ocorre uma mudança de lugar dos quereres, um reencontro esperadamente inesperado, um bem-se-querer turbilhando coisas novas. Não nascemos para estarmos sempre encontrados, apenas para ir de encontro.

Talvez por isso o medo. Talvez sequer se chame medo, seja apenas uma pulsação descompassada, alegre, intensa e faminta de palpar-me. Um dia se descobre a força misteriosa de se fazer acontecer, e se passa a reconhecer tudo como acontecimento das coisas de dentro no fio escolhido do tempo. Bem vindo, tempo. Bem vindo, pertencimento. Bem vindo, futuro hoje acontecendo. No momento altamente permissiva ao abrir e receber como me chego, como me chegas, como me chegam. Chamego o presente, presenteio.

Extraídas Impressões Impressas

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Um comentário:

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Sabe quando a verdade se encontra com a beleza? É quando a gente quer nomear de "irresistível". Irresistível essa sua crônica, Cris! Vontade de chocolate, só que não é de chocolate, é de mais das suas palavras.