quarta-feira, 5 de setembro de 2007

MUROS >> Carla Dias >>

A impressão que tenho ao observar o silêncio, o espaço, os olhos do menino e o rodopio da menina, daqui do muro onde sou rainha... Da minha casca que figura, satisfeita, com esse quê de liberdade fugitiva. A impressão que tenho daqui é que não há mais volta. Que insistir na religiosidade dos erros, reconstruir mágoas, alfabetizar lamentos não trará de volta o que não foi vivenciado, que dirá o passado a limpo. Que é tempo de escolhas, das mais brandas àquelas que mudam o rumo de tudo. De todos.

Gostos não querem mais desgostar da novidade. Tentam até conhecer intimamente o desejo pelo o que chegou agorinha! E sabem dessas palavras que fincam suas esperas na alma da gente. Não basta mais entrar na loja e, algumas prestações depois e uma longa negociação sobre o décimo terceiro salário, sair vestida de outra pessoa. As máscaras já não nos servem tão bem quanto um dia serviram. As mentiras mancam, as omissões se apaixonam pelas revelações, e se entregam a elas: o delírio em uma mão e uma canção na outra.

E demos de desejar coisa outra que não panos para embrulhar segredos.

Não se assustem... Não estou aqui para distribuir culpas. Falo da incoerência do MEU muro. Há dias em que ele me afasta do chão, e outros em que ele me cerca e sombreia. E apesar de estar sempre buscando o equilíbrio para evitar o tombo, ah, vez ou outra eu navego os dedos nas prisões e não nas lonjuras. E desejo derrubar o que pode ser o único arrimo capaz de sustentar a diversidade de tempestades que guardo dentro de mim.

Desafio-me constantemente a provar da imensidão. Nem sempre lambo os beiços. Às vezes, perco-me.

Minha avó gostava de dar nomes aos bois... Eu prefiro nomear aconchegos, hoje mais do que ontem. E mesmo reivindicando justiça, com febre e destempero de companhia, não sei conjugar fatalidades. Há em mim esse algo que tem a ver com entusiasmo velado... Às vezes, despenteado mesmo.

Desculpem, mas hoje acordei contemplando muros e tecendo redes. Não só para ter onde cair que não seja o chão frio da obscena violência que transita pela realidade de todos nós. É rede para sustentar esperanças coradas de tão intensas que são. Das que assopram chuvas no coração desértico e lá cultivam bem-estar.


www.carladias.com


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Um comentário:

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Do alto do meu muro, eu ontem esperei sua crônica como quem reivindica uma alegria antecipada. Mas só hoje ela apareceu no horizonte da minha tela.

Ler você é entender a expressão "Deus escreve certo por linhas tortas". Você escreve com palavras tortas, e tudo é tão certo quando leio.

E - sincronicidade - sua crônica é prosa poética da minha próxima crônica, de domingo, que será só prosa. Será uma prosa desnecessária, inútil com é o dia domingo; mas, por isso mesmo, irei escrevê-la.